quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O remorso de Valter Hugo Mãe

Abel Barros Baptista escreve na Ler uma crónica sobre o caso Valter Hugo Mãe e as minúsculas. Parece que alguns daqueles que antes lhe grafavam o nome como o próprio, em minúsculas, passaram a usar as maiúsculas desde que o autor se converteu à normalidade (talvez vencido pelos remorsos). Há quem dance conforme a música. É divertido. E seria ainda mais se no próximo livro Valter resolvesse baralhar de novo, por exemplo escrevendo apenas minúsculas no início das palavras. vALTER hUGO mÃE. Segui-lo-iam?

Referida assim, a questão até parece do domínio do capricho. E é. Que mais se pode chamar às opções de Valter Hugo? O uso exclusivo das minúsculas só era uma questão de estilo no sentido que a moda emprestou à palavra: oco, fútil, efémero (como aliás parece agora provado). Na literatura, o estilo não tem exactamente que ver com a forma como o escritor utiliza a tipografia. (Se assim fosse, o autor que usasse sempre a fonte Avant Garde seria talvez de imediato um vanguardista.) O estilo de Saramago, por exemplo, não se define pela escassa utilização de pontos finais e sua substituição por vírgulas, embora isso seja fulcral na obra. A pontuação usada como ele a usava estava ao serviço do ritmo, da sonoridade, da forma de pensar e narrar. Com Valter Hugo Mãe e as minúsculas não era isso que acontecia.

Creio ter lido algures uma entrevista onde o autor referiu que não usava maiúsculas porque queria que a leitura fosse mais torrencial, sem se deter muito, sem tropeçar nas maiúsculas, portanto. Ora, o que determina o ritmo da leitura é a narrativa, o enredo, a construção das frases e a pontuação, não a forma como se utilizam as maiúsculas. Tanto quanto posso julgar pelo único livro de Valter Hugo que li, a sua prosa (que tinha personalidade, mas por outras razões) não se distinguia por uma pontuação particular. Pelo contrário, lembro-me de que em certas passagens havia uma boa quantidade de vírgulas a ceifar, ali postas à maneira clássica. Se o objectivo era acelerar, o escritor rejeitara oportunidades de aliviar os travões. E a ausência de maiúsculas, sendo inesperada e contrária aos automatismos da prática da leitura, até atrasava.

Embora descobrisse no processo que não era o meu género de literatura, passei uma tarde agradável com O Remorso de Baltazar Serapião, mas cheguei ao fim a achar que o próprio escritor devia sentir remorsos por se envaidecer de tão obstinada e fútil originalidade.

Como em Saramago (ou em Lobo Antunes), o leitor despreconceituoso, ao fim de algumas páginas de leitura persistente, entra naquele universo e vai progressivamente dançando ao som da música do autor (neste contexto a dança é legítima). Mas a questão é se vale a pena o esforço. Talvez se descubra que sim, que vale a pena, mas não é certamente pelas minúsculas — inúteis, contraproducentes, caprichosas e alheias à literatura como os piercings de José Luís Peixoto.

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