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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Fotonovelas

Pesquisando ociosamente imagens de fotonovelas, por vaga sugestão do post anterior, fui tomado pela ideia de que, considerando o grafismo e a estética, assim como o visual e os penteados dos protagonistas, as fotonovelas estavam ainda mais próximas das revistas pornográficas do que o erotismo está do sexo. Ou isso ou o facto de me ter tornado pubescente no final dos anos setenta contaminou toda a imagem mental que tenho da época.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

À luz de um candeeiro (2)

Quis regressar ao lugar onde foi feliz. Muniu-se do livro, orientou os passos pela Lua, antecipou o prazer da leitura à luz do candeeiro, preferencialmente sem adormecer, e entregou-se ao murmúrio do rio.
Mas desta vez havia gente nos bancos, um casalinho, jovens, contentes por estarem juntos e vivos. Tão cheios de contentamento, na verdade, que ela, amazona, não parava de dar pulinhos de alegria no colo do rapaz, cabelos esvoaçantes como morcegos num festim entomófilo.
Ele desviou o percurso oportuna e silenciosamente. Parecia-lhe algo impudico perturbar com a sua presença soturna aquela inesperada alegria alheia.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Crescei e multiplicai-vos

Na frontaria de um colégio, um painel de azulejos informa-nos que «A Virgem Maria Senhora Nossa Foi Concebida Sem Pecado Original». Parece uma daquelas mensagens de boas-vindas que indicam subtilmente o caminho da salvação.
Seriam contudo contraditórios entre si a mensagem e o local. Um estabelecimento que vive das propinas pagas pelos pais das crianças estaria condenado se os paroquianos resistissem à tentação da carne e do pecado original. Restar-lhe-ia, talvez, ampliar a fé e depositar também esperanças na lenda da cegonha.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Catalogue des prix d’amour

[O senhor flagrado não é Paul Nougé, apesar do ar satisfeito]

Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Não me parece que o nome do café derive deste dístico utilitário, mas podia: o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle Lapompe”1 é um belo documento histórico em papel dourado pelo tempo. E a flor… vocês sabem.
A informação disponível no café refere que Magritte e os surrealistas belgas passavam ali os dias, e acredito que eles tenham reparado, como eu, que chez Marcelle Lapompe2 havia descontos se o cliente não precisasse de luz (já a vela custava 15 cêntimos). Talvez, pensando bem, o tarifário tenha sido esquecido ali por um dos surrealistas, depois de o ter consultado disfarçadamente no meio de um exemplar que fingia ler de L’Amour Fou, do condiscípulo francês. Ou, quem sabe, o papelito comprometedor caiu do bolso de um Paul Nougé vindo de se ter feito “glouglouter le poireau”3, depois de “faire sucer une pastille de menthe a l’opératrice”. Tudo é possível (refiro-me à cronologia): o tarifário diz que “anula todos os precedentes”, mas pode ter vigorado nas décadas seguintes (é consultar a inflação da época).
A tabela de Mademoiselle Lapompe — que eu mesmo que tivesse tomado notas na verdade não citaria, por pudor — é simultaneamente um documento de grande objectividade e um catálogo de metáforas e eufemismos de 1915 para essa outra metáfora e esse eufemismo intemporal que é o “amor”.

Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.

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1 Ok, fui pesquisar na Internet, comprovando de passagem a minha teoria de que hoje não é preciso levar máquina fotográfica para as viagens, alguém já tirou as fotografias de que precisamos.
2 Na Rue du Chant-Noir, número, adivinharam, 69.
3 Pardon my french.