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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

«Regresso»

«Alguns de nós estão sempre a querer regressar a algum lugar, como se houvesse uma cartografia da felicidade. Ou da sobrevivência. Dispomos de um conhecimento intuitivo da forma como o cérebro funciona. Não existe o mundo, existe a sua permanente construção nas nossas sinapses, a partir de sinais e estímulos, e isso nós sabemos. O regresso é uma invocação. Não queremos propriamente o que está ali onde quer que seja que regressemos. Queremos repetir as emoções que experimentámos num dado momento. Queremos regressar a um instante, não a um lugar. Pagaríamos por uma acupunctura cujas agulhas penetrassem profunda e certeiramente as partes exactas do cérebro responsáveis por reconstituir a paisagem perdida. Somos amantes de paisagens mentais, de estados de espírito. Ficamos presos a eles. Dependentes. Cobaias perfeitas e voluntárias para uma neurociência do eterno retorno.»

 Leu isto e escarneceu de si própria. Deus!, como se permitia perder tempo. O que lhe importava o que um dia tinha escrito sobre a felicidade? E a sobrevivência. O que tinha a felicidade a ver com a sobrevivência? A última vez que se debruçara sobre o assunto, ainda havia pessoas tristes a viver. Biliões delas, se lhe perguntassem. Uma imensa maioria, talvez. Anciãos, muitas. Teriam alguma vez sido felizes os centenários que a televisão exibia regularmente, com o seu ar de quem não encontra uma boa razão para estar por cá? Não, a vida não tinha uma relação directa com a felicidade, ainda que algumas vezes as duas coisas coincidissem. Vivia-se, era tudo.

Minutos depois reconciliou-se com a leitura. Estava um pouco exaltada, claro. Mas ela própria devia reconhecer que era uma viciada em regressar. Talvez não se lembrasse de ter sido particularmente feliz num cabeço como este, de onde espreitava o pôr-do-sol, mas não podia negar que o seu movimento natural era o do retorno a locais semelhantes. Não havia um sítio específico que desejasse, mas podia identificar meia dúzia de elementos topográficos reincidentes. Uma conjugação inscrita nos genes, provavelmente.

Abandonou-se um pouco a esta ideia de predestinação, de obediência a um código ancestral. Depois abanou a cabeça: os genes tratavam das questões da espécie, não do sítio aonde cada um regressava. Os homens e as mulheres não se alcandoravam em massa aos pináculos, como aves migratórias no seu percurso sazonal. Os humanos eram como dizia o livro que escrevera: reconstrutores de paisagens individuais. Escolhiam um momento da sua história pessoal e aproveitavam cada oportunidade para o invocar. O mundo apenas fornecia os elementos soltos do puzzle que eles estavam sempre a querer reconstituir. Uma fachada e uma rua, somadas a uma árvore e a uma colina em fundo, não significavam um local, mas talvez um som, um gesto, um toque ou um rosto. Indubitavelmente, uma emoção.

Sobre a sua cabeça havia um tecto de nuvens escuras, sólidas. Cobriam todo o céu visível, para trás e para os lados, excepto uma pequena faixa logo acima das serras recortadas no horizonte, à sua frente. O sol, no ocaso, aproveitava os derradeiros minutos para fazer passar por ali uns feixes dispersos que vinham incendiar pequenos círculos nas encostas de pinheiros, lá mais em baixo, ou alguns telhados das pequeníssimas aldeias em redor. Era como se ela se encontrasse numa tenda cor de cinza e desconhecidos levantassem um pouco a cobertura da entrada, com lanternas apontadas para o chão no interior. Ou como quando em pequena se escondia no fundo da cama, debaixo dos cobertores, à espera de ver surgir na cabeceira o rosto sorridente da mãe, contra a luz do dia que inundava o quarto lá fora.

Talvez devesse deixar de pendurar atributos naquela luz. Era uma epifania suficiente ver uma parte escassa do mundo pintalgada de dourados febris quando tudo o mais se esbatia no chumbo da tarde. As memórias eram agora acrescentos literários, apêndices desvirtuadores. Ela deveria concentrar-se apenas em viver o instante como ele se lhe oferecia. Nada mais.

O regresso a um local como evocação de um momento era, afinal, uma forma de esquecimento. Invocava-se um instante para esquecer o que o antecedera ou sucedera, uma fracção para esquecer o todo.


[Publicado originalmente na revista Fluir n.º 10, Janeiro de 2023]

segunda-feira, 22 de maio de 2023

«Envelhecer»

The Times They Are a-Changin'
Bob Dylan

— As pessoas? As pessoas não recusam meter uma cunha quando vêem nela a oportunidade de compensarem as suas fracas aptidões e ultrapassarem os outros. As pessoas exigem prioridade e serviços públicos de excelência, mas só não fogem aos impostos se não puderem. As pessoas pagam e recebem luvas com a naturalidade de quem regateia roupas de contrafacção numa feira. As pessoas inscrevem-se em concursos de talentos e não se importam de os vencer apenas com os votos de familiares e amigos, pedindo-lhes até que telefonem para o número indicado ou cliquem na opção certa as vezes que forem necessárias, viciando os resultados… Que ética ou honestidade têm as pessoas? Que amor-próprio? Que carácter? Como poderiam as pessoas escolher dirigentes (em quem de resto votam tribalmente) que se distinguissem pela exigência, o rigor, a honra, os escrúpulos ou a dignidade?

De três em três semanas, fingindo não se sentir obrigada a nenhuma cadência, Lurdes ia buscar o pai ao lar e os dois almoçavam juntos num dos restaurantes da pequena cidade onde antes moravam em família. Aqueles almoços eram apenas mais um absurdo a somar a todos os outros que partilhavam. O pai mal falava, perdido no labirinto das memórias e estudando formas eficazes de abordar a comida no prato com talheres trémulos. Em geral ela também não falava, não mais do que o essencial para que a farsa funcionasse. Ajudava-o a escolher os pratos, repetindo em voz alta a lista que o empregado, dos que ainda tinham sido treinados para tratar cada mesa como um universo fechado, debitava num tom imperceptível para a dureza de ouvido do pai. Não se importava que os outros comensais a ouvissem falar demasiado alto, conhecia as prerrogativas de quem lidava com velhos e gostava de agir com este tipo de pragmatismo, que a fazia parecer decidida. Cortava-lhe a carne se notava que ele ia fracassar e fingir que não tinha fome e acrescentava-lhe legumes no prato e água no copo, não por afecto ou gentileza mas para que a refeição cumprisse pelo menos o propósito de o alimentar. Agia como cuidadora, não como filha. Só quando se deixava irritar por um comentário dele é que agia como filha, como a filha contestatária que fora na adolescência. Mas agora as suas réplicas eram frequentemente um eco das antigas declarações rudes do pai, e dar-se conta disso era um segundo motivo de irritação.

Naquele almoço, o pai, espreitando de viés as notícias no ecrã que ocupava grande parte da parede do outro lado da sala, balbuciara um qualquer lugar-comum sobre as pessoas não merecerem os dirigentes corruptos e oportunistas que tinham e ela pusera-se a falar de virtudes antiquadas, como o teria feito patriarcalmente o velho trinta anos antes, quando para ela eram os vícios e não as virtudes o que interessava. No rodapé passava o apelo ao televoto em mais um dos muitos concursos da actualidade.

— As pessoas não suportam quem se destaque delas por qualidades próprias. Temem tanto que o brilho de outros revele o desbotado delas como que o seu mundo se modifique devido a ideias sofisticadas. Votam apenas em quem demonstre ser banal e oportunista como elas mesmas…

Pareceu-lhe que a seguir ia culpar a democracia e por isso deteve-se. Já chegava de emulação do velho reaccionário que fora o seu pai quando tinha cinquenta anos e ela vinte. A sua própria voz, que por fisiologia era de tom grave, soava-lhe à do pai. Isso tinha-lhe sido útil na criação de uma identidade, quando precisou de o fazer, no final da adolescência. Não era uma mulher fraca fisicamente, mas era mulher, em todo o caso, e essa condição ter-lhe-ia pesado ainda mais se falasse com voz feminina e se se ouvisse esganiçada ou histérica quando tivesse de pôr os rapazes e os homens no seu lugar. Contra as expectativas, achou uma bênção aquela voz grossa, um pouco inesperada, que lhe viria a moldar — achava ela, quando se dava a esse tipo de introspecção autobiográfica — o tipo de sarcasmo em que se especializara.

Havia outras raparigas capazes de deter os avanços inoportunos e indesejados do sexo oposto, mas essas eram geralmente marias-rapaz, com músculos e instintos masculinos, briguentas e grosseiras, de cigarro no canto da boca e mangas arregaçadas à operário. O tipo de raparigas que os rapazes procuravam menos pelas formas do que pela suspeita, não raro acertada, de que toda aquela assertividade era espelho de uma emancipação precoce e se traduzia por isso num maior relaxamento moral e em permissividade.

Ela tomou cedo um rumo inverso no que se referia ao aspecto e às maneiras, exacerbando a sua feminilidade com poses e figurinos inspirados em filmes e revistas de alta-roda; ainda estereótipos, reconhecia, mas de um tipo que as mulheres comuns não se atreviam a experimentar. O quotidiano de uma mulher jovem com fracas posses numa cidade pequena não era, contudo, equivalente a uma passerelle em Cannes — com ombros nus, decotes atrevidos e caudas de cores fortes a varrer o tapete vermelho —, pelo que teve de personalizar um pouco a sua sofisticação, inspirando-se, de Inverno, nos russos que por aquela altura andava a ler e, de Verão, numa ideia de Lolita recatada — uma contradição nos termos, como ela sabia.

Armada de originalidade e literatura, Lurdes encarnou assim perante os olhares dos seus conterrâneos personagens estranhas ao meio e à época, numa atitude de sobranceria punk que era também um contraponto à sua natural timidez. Aqueles que, estupefactos, a viram regressar para o Natal do seu primeiro ano na universidade viram em simultâneo, na mesma pessoa, a primeira condessa russa a desembarcar pelo seu pé no cais da rodoviária, a primeira condessa russa tout court: de carne, osso e pêlo — pêlo no gorro, na gola ampla e nos debruados das luvas e do longo sobretudo vermelho que comprara numa feira de roupa vintage. Os mesmos tê-la-ão visto depois chegar para umas férias de Verão em que usava vestidos estampados, leves e coloridos, mas não curtos, em vez dos jeans que então constituíam o uniforme da juventude, e punha na cabeça lenços à anos 50, em diálogo com óculos da mesma época, ou chapéus em crochet de algodão ou em palha entrelaçada com abas de grande diâmetro. Nos lábios usava sempre um batom vermelho vivo, como um manifesto.

Um visual assim atraía as atenções, exactamente aquilo que um tímido dispensa, mas nela debatiam-se duas forças de igual valor: a noção da sua singularidade, que a fazia desejar uma vida à parte, e a necessidade de afirmar essa mesma singularidade. As roupas eram a um tempo bandeira e escudo, davam nas vistas e desencorajavam aproximações. Mas os excêntricos não evitam ser importunados se não tiverem outras armas de defesa e Lurdes tinha a sua voz, que aprendeu a usar de forma persuasiva, com vocabulário sofisticado e uma expressividade frontal acompanhada de um olhar directo — um conjunto de atributos e mecanismos capaz de surpreender e confundir os interlocutores. Quando falava, parecia uma pessoa mais velha e distante nas suas origens e vivências, fora do alcance da gente comum, dos homens dados ao piropo impertinente ou boçal. Tinha — ou construíra, talvez — algo de uma antiga majestade, que exigia tributo ou estimulava instintos também antigos de um temor serviçal. Não era que as roupas lhe escondessem as formas ou tirassem sensualidade, mas não havia muitos homens à vontade com aquele tipo de mulher: uma mulher estranha e, suspeitavam, duma exigência para a maioria inatingível. Pelo seu lado, os tarados e os violadores comuns preferiam geralmente vítimas com idiossincrasias mais convencionais.

Nos primeiros anos da juventude, as suas escolhas tornaram-na uma pessoa solitária, sem namorados. Na universidade fizera amigos (como sabem todos os seres originais, a fauna é mais diversificada nas cidades grandes e aumentam ali as possibilidades de almas aparentadas se encontrarem), mas na sua própria cidade não se interessava por ninguém e as pessoas em geral pagavam-lhe com o mesmo desinteresse. Na verdade, era um sentimento diferente do desinteresse: as pessoas tinham-lhe ressentimento, o desejo de vingança ou castigo que guardavam para os que desdenhavam a tribo, os auto-suficientes, os que lhes eram superiores.

Quando foi trabalhar e entrou nos quadros de uma empresa internacional de traduções, os colegas irritavam-se com a sua iniciativa e a sua competência e tentavam, com maior ou menor dissimulação, com maior ou menor sucesso, dificultar-lhe o trabalho, denegri-la. Invejavam-na, ainda que não lhe invejassem a dedicação e o esforço e não tencionassem aplicar a mesma energia e gastar o mesmo tempo a melhorar as traduções e a compreender melhor as necessidades dos clientes. Alguns odiavam-na, porque o desempenho dela, que não transparecia dificuldade ou aborrecimento, realçava a incompetência ou o desleixo deles. No dia em que, vencida, deixou voluntariamente o mundo da tradução, deixou também uma multidão de ex-colegas aliviada e um bom punhado de clientes reconhecidos e amigos para a vida. Não desejou melhor tributo.

*

Lurdes levava livros ao pai e costumava dizer, com mordacidade, que ele era actualmente a única pessoa que lia, no conjunto dos seus amigos e conhecidos. De repente, toda a gente começara a agir como se os livros fossem dispensáveis, excepto uns raros velhos que tinham tempo de sobra no dia-a-dia e precisavam de o preencher. Triste epitáfio para a grande criação da humanidade: os livros, outrora considerados instrumentos essenciais para a formação de um carácter e ilustração da sociedade, acabarem como passatempo de pessoas que já nem sequer podiam fazer projectos a partir deles. Os livros como coisa de anciãos, objectos nostálgicos e inúteis, ferramentas já sem uso prático fora das mãos de reformados saudosistas de profissões extintas, adereços de casas musealizadas em vida dos donos. A opção das pessoas neste tempo patético resumia-se, para ela, a ter um cérebro e tentar por todas as formas não o usar, não para mais do que publicar e ver “histórias” fúteis e patéticas no Instagram.

Ela e o pai nunca tinham sido próximos e levar-lhe livros podia ser, de certa maneira, uma forma de aumentar a distância. O velho voltara a ler quando deu por si naquele lar, mas não o tipo de livros que ela lhe passou a fornecer depois de ganhar coragem para a primeira visita, seis meses após o internamento. Ele gostava de livros de História da Segunda Guerra Mundial, biografias, romances rurais com morgados e fidalgos, um ou outro policial, e, ao pretender fazê-lo seguir um plano de leituras diferente, ela não evitara a condescendência. Não o fizera com uma intenção consciente, mas como uma vaga mostra de respeito pela dignidade do pai e com inevitável vício didáctico. Deixava de fora obras de entretenimento e levava-lhe livros respeitáveis do ponto de vista intelectual e alguns ensaios e romances que argumentavam contra as ideias dele. Os livros, deu-se conta mais tarde, eram o território onde ela se imaginara a travar uma guerra por procuração com o velho. Ele tinha-se manifestado feliz com a reeleição de Trump nos Estados Unidos e o «Sim» no segundo referendo sobre o Brexit, e Lurdes, já que tinha agora de conviver regularmente com o pai por ter um sentido do dever castrense (irónica herança genética), achou que podia experimentar mudar-lhe algumas ideias. Que maior demonstração de respeito e interesse poderia ele esperar dela?

No dia em que pela primeira vez entrou no quarto que o pai partilhava com um cavalheiro mais senil viu os seus livros primorosamente empilhados sobre a mesa-de-cabeceira e, no lado mais próximo da cama, uma revista de desafios de sudoku com o lápis pousado sobre um quadro incompleto. Queria aquilo dizer que os livros dela não lhe interessavam e o velho preferia jogos com números? Ou, pelo contrário, ele mantinha aquela pilha tão ordenada e livre de outras obras como se se tratasse de um monumento de consideração à filha?

Aberto sobre a cama, um tablóide congratulava-se em caixa alta com a reeleição de Boris Johnson no Reino Unido.

[Publicado na Grotta n.º 4 (2020)]

sábado, 20 de maio de 2023

Hang the DJ

«Ele apareceu minutos depois de eu vomitar e eu beijei-o mesmo assim, meu Deus. Quando acordei no dia seguinte só queria fazer as malas rapidamente e ir-me embora de vez. Era horrível, de manhã ainda sentia na boca o sabor do vómito. Como pude sujeitar-nos àquilo? Hoje admito que até podia ser uma história divertida, mas na altura não a vivi assim.»

Rita falava com a secretária, que era também sua amiga. Raramente contava estas coisas a alguém, não as mencionava ao ex-marido, no tempo em que estiveram juntos. Era uma espécie de pudor mas não era um exclusivo seu. Estava habituada a ler sobre gente semelhante, pessoas que mais depressa se confessavam a um estranho do que à família ou àquele ou àquela com quem partilhavam a cama. Acontecia-lhe com alguma frequência abrir-se com um desconhecido numa festa, ou com o passageiro do lado numa viagem de comboio. Não sentia remorsos por isso, ou culpa. Ou talvez sentisse um pouco disso tudo, mas não ao ponto de pensar em fazer as coisas de forma diferente. Havia aspectos da sua vida interior que não considerava suficientemente ajustados ao património comum de uma relação afectiva. Eram os estranhos ou um psicanalista, mas a isso ela não queria sucumbir. De resto, não havia nada de tão importante que precisasse de ajuda profissional. Eram apenas memórias, acontecimentos, coisas que vivera numa vida distante, noutras vidas, e se às vezes precisava de falar sobre isso era precisamente para o sepultar de novo, o fazer descer à camada certa da sua geologia íntima. Havia por exemplo assuntos de que só falava com a mãe. E outros que discutia apenas com o marido — quando discutir ainda não equivalia àquela espécie de pugilato verbal em que se viriam a viciar.

A secretária não era uma estranha. Mas não havia nenhum estranho à mão quando Rita recebeu o e-mail. Não estava à espera daquilo e sentiu-se empolgada, talvez em excesso — certamente em excesso —, porque no minuto seguinte, ainda mal calculara as implicações daquela mensagem, já estava cheia de vontade de falar das coisas que ela despertava em si. Entre todas as evocações, havia aquela, que se tornava de novo presente e urgente.

«Tínhamos dezoito anos, talvez dezanove, se calhar vinte, e demorávamos metade das férias a chegar à fala», revelou Rita à secretária. «O ritual era o mesmo em cada Verão. Avistávamo-nos à distância e o coração acelerava. Duas semanas depois trocávamos umas palavras, quando nos cruzávamos, e mais tarde umas carícias fugazes, tímidas mas disfarçadas de ousadia. Na véspera de eu me ir embora, lançávamo-nos finalmente nos braços um do outro por escassas horas. A partida era um melodrama.

»Se calhar, devia ter falado a um psiquiatra quando pude. Talvez ainda vá a tempo. Creio que todas as minhas relações com homens foram em certa medida afectadas por aquela. Quase nem houve uma relação, mas não há momento em que eu não pense naquilo. Ponho-me a matutar: o que sei eu sobre o tipo? Alguma vez soube alguma coisa? Amei-o? Senti por ele algo mais do que por todos os rapazes e homens com quem flirtei? Caramba, não me consigo imaginar a ter sido casada com ele, a estar casada com ele. Eu não sei quem ele é, nunca soube. E no entanto ele teve uma enorme influência na minha vida. Frequentemente me perguntei onde estaria ele quando eu estava a fazer qualquer coisa que mo recordava. O que pensaria ele de mim quando aconteciam alterações na minha vida. Concordaria com as minhas opções? Orgulhar-se-ia dos meus progressos? Teria ciúmes dos meus namorados? Levantar-se-ia na igreja quando, no meu casamento, o padre perguntasse se alguém tinha alguma coisa contra? É incrível, mas pensei mesmo isso em frente ao altar. O padre a fazer a pergunta (nem suspeitava de que fosse verdade que eles perguntavam aquilo) e eu a rir-me para dentro e a imaginar o que aconteceria se ele se levantasse lá trás com o dedo erguido e aquele seu ar de Elvis-Presley-de-cigarro-pendurado-no-lábio e dissesse eu tenho coisas contra este casamento. E logo a seguir tive medo de que isso acontecesse, arrependi-me de o pensar, porque não sei o que faria. Não amava pouco o meu noivo, não era isso, mas um gesto daqueles, uma ousadia daquelas, uma cena das que até nos filmes são inverosímeis, se me acontecesse, alterava tudo, não responderia por mim. Quer dizer, se tivesse um minuto para pensar, claro que continuava com o casamento, era o que eu desejava, mas o problema estava na reacção instintiva. Talvez as mulheres não resistam mesmo a cavalos brancos e homens arrebatadores de brilhantina no cabelo, daqueles que aparecem in extremis para as salvar, mesmo quando elas não querem ser salvas nem têm nada de que precisem de ser salvas.

»Sim, também tive fantasias com ele. Toda a minha vida. Tirando o pescoço, as orelhas, ele nunca tocou uma zona erógena do meu corpo, a não ser por engano, de passagem, na confusão dos membros entrelaçados nas raras vezes que nos beijámos. Se lhe forem perguntar, caso ele viva, caso ele tenha existido de facto, não saberá sequer dizer como são as minhas mamas. O meu rabo. Ou como eram. Não houve nenhuma aproximação sexual entre nós. E no entanto à nossa volta fodia-se com relativa liberdade e frequência. Acho que estávamos demasiado ocupados a pensar em outras coisas para nos lembrarmos do sexo, de que ele era uma possibilidade. Claro que o sexo estava na nossa cabeça, como não haveria de estar? Eram os anos oitenta, tínhamos estado em Ibiza (eu tinha estado) e a sida por cá ainda não assustava muito ninguém. Mas já tínhamos trabalho que chegasse com a corte que nos fazíamos, com planear o passo seguinte, antecipá-lo, com entender as reacções do outro. Era uma espécie de xadrez em que, ainda que o ignorássemos, a vitória de um era a vitória do outro, mas ninguém queria arriscar um xeque.

»Não, também não sei com conhecimento de causa como era ele por baixo das roupas. Havia muita gente na piscina do Palácio naqueles anos, ele certamente conseguiria aceder a ela, se o desejasse, mas nunca esteve lá, nunca o vi. Também nunca tentei despi-lo, ou sequer meter as mãos por debaixo das suas roupas. Creio que estávamos, em suma, demasiado absorvidos a imaginarmo-nos perdidamente apaixonados, a ver as coisas exclusivamente pelo lado do amor, um amor idealizado. Platónico deve ser a definição certa.

»De maneira que as minhas fantasias têm pouca matéria com que trabalhar. E se calhar é essa a razão. É o seu carácter de personagem diáfana que lhe dá força: sei o nome dele, tenho memórias vagas daquele tempo — mais nada.

»Eu não bebia muito, não demasiado, mas naquele ano bebi mais do que devia. Tinha passado quase todo o Verão e não o vira uma única vez. Achei que me devia deixar de parvoíces e divertir-me como todos os outros, não se era jovem para sempre. Ou talvez tivesse bebido pela tristeza de não o ver. Sim, claro que foi esta a razão, quem quero enganar? Passavam os dias e ele não dava sinais de vida. Talvez tivesse emigrado, talvez tivesse morrido, quem sabia? Eu não tinha coragem de perguntar.

»Havia uma música dos Smiths onde se repetia “hang the DJ, hang the DJ” e era a minha última noite e eu entrei na pista da discoteca possuída pelas fúrias a berrar aquele curto refrão. Gostava da música, pelo que, de certo modo, era uma injustiça fazer coro de um slogan assim, mas suponho que retoricamente não me importava que se matasse alguém, fosse quem fosse. Não estava era preparada para descobrir que ele era o DJ naquela noite. Eu para ali aos berros a reclamar a morte do DJ, simultaneamente eufórica pela bebida e pela música e infeliz de amores, e o DJ era ele. Os nossos olhares cruzaram-se quando eu rodopiava, e o que vi a seguir a tomar consciência de que era ele foi o meu reflexo num dos espelhos da discoteca. Eu de boca aberta, desgrenhada, braços no ar, escanzelada, sem jeito para aquilo, apenas histérica e demasiado bebida — a pedir que se enforcasse o DJ.

»Corri para o sítio onde tinha o casaco, esvaziei pelo caminho um dos copos de vodka pousados na mesa, e parti, desabrida. Era uma humilhação mostrar-me tão frágil e descontrolada, expor-me assim. Sentia-me como se a minha mãe (não: o meu pai!) me tivesse descoberto a masturbar e a gemer debaixo dos lençóis, ou como se alguém tivesse de repente aberto a porta da casa de banho e uma multidão do lado de fora me visse diligentemente sentada na sanita, cuecas nos tornozelos. Talvez ele nem tivesse reparado em mim — tentei eu apaziguar-me —, mas isso era também triste, porque eu queria que ele me visse, era o que mais queria.

»O ar fresco da noite, que me dava na cara enquanto corria para o Palácio, não teve efeito sobre a embriaguez, a vodka começava a agir sobre tudo o que bebera antes. Cheguei ao portão indisposta, o mundo a girar para um lado e as minhas entranhas para o outro. Precisava de vomitar, mas não tinha coragem de enfiar os dedos na garganta. Sentei-me num dos bancos de pedra que ali havia e creio que adormeci, porque quando voltei a abrir os olhos era muito mais tarde do que imaginava e a Tita e o Mário estavam à minha volta. Vieram descobrir-me ali, depois de terem dado a noite por concluída, não disfarçando o ar divertido enquanto discutiam como haviam de lidar comigo.

»De imediato soube o que tinha de fazer: recompor-me. Mas não me empenhar tanto nisso que evidenciasse a impossibilidade intrínseca do esforço, caindo no ridículo dos bêbados quando tentam passar por gente sóbria. Acima de tudo, mostrar-me divertida com o meu próprio estado. Bebíamos para nos divertirmos, não era? Havia mesmo alguma competição à volta do acto, em certas noites, como se o sucesso das férias se medisse pelo número de vezes que tínhamos ficado embriagados. Todos os outros faziam esta contabilidade, ano após ano.

»A golfada veio quando já me convencera de que apaziguara o estômago. Um jacto só, que no último instante consegui direccionar para as sombras junto ao muro. Encostei-me ali, com a cabeça e a auto-estima para baixo, a escorrer os últimos fiozinhos, e a Tita veio pôr-me um braço pelas costas. Tinha a pele quente, estava ainda afogueada do calor na discoteca e do tanto que deve ter dançado e saltado — em contraste comigo, que estava fria e pálida.

»Os últimos do grupo chegaram nessa altura — e, para minha maior humilhação e susto, vinha entre eles o DJ que eu quisera ver enforcado. Era uma grande alegria e um pânico tremendo, tudo em simultâneo. Ele estava ali, e isso era bom, aquecia-me por dentro. Mas talvez me tivesse visto vomitar, depois de ter visto como eu era má a divertir-me. Oh, meu Deus, quão terrível era ser-se nova e incapaz de relações normais, com rapazes normais.

»Ter esvaziado o estômago deixou-me, de qualquer maneira, mais calma e confiante, e como a embriaguez não desaparecera consegui rir-me alto de tudo aquilo, vivendo a persona como ela devia ser vivida. Mais ou menos. Já vira todos os outros muitas vezes naquele papel, tinha suficiente conhecimento teórico.

»Devo ter parecido sem dúvida recobrada, porque eles começaram a debandar, a caminho do Palácio e dos seus quartos, com tossezinhas e risinhos abafados. Todos suspeitavam de mim e do DJ, e saírem de cena era a forma de se mostrarem cúmplices. A Tita perguntou-me discretamente se eu estava bem, se queria mesmo ficar ali em baixo. Eu pensei: claro que não — mas claro que sim.

»Ficámos sós. Ele não estava muito confortável (não o censuro), mas parecia empenhado naquilo. Um rapaz e uma rapariga num banco de pedra junto ao muro do Palácio, numa meia-luz de candeeiros que se apagavam à vez, quando as lâmpadas aqueciam demais. Havia morcegos em voos baixos e rasantes a desviarem-se de nós no último momento, quando o sonar lhes dizia que éramos maiores do que as suas goelas. Também uma lua cheia, a de Agosto, a última do Verão (Setembro era já no outro lado do país). Certamente grilos e pássaros, o estrídulo circular dos insectos como fundo musical e o gorjeio barroco do rouxinol em primeiro plano — a Natureza impelida a acasalar como num filme de Holywood. Uma noite romântica dessas.

»Na primeira oportunidade, beijei-o. Um beijo como deve ser, com a língua, e as mãos no pescoço. Depois fiquei a pensar na minha ousadia e no estúpida que tinha sido ao fazer aquilo. Era a última noite, eu partia no dia seguinte, e ele, como recordação daquele ano, ia ficar com o sabor do meu jantar regurgitado. Foi um cavalheiro, acariciou-me o rosto no fim do beijo, afastou-me os cabelos dos olhos e teve um olhar apaixonado — enquanto por dentro as suas tripas de certeza se contraíam e ele tentava fechar a válvula do esófago, ou lá onde ela está, sem que cá fora o mundo notasse, eu o notasse.

»Falou muito nessa noite. Talvez me tenha contado quem era, o que pensava, a que aspirava. Talvez me tenha dito coisas bonitas, elogiado o meu corte de cabelo, a cor da minha pele, dos meus olhos, o meu feitio romântico. Talvez isto ou nada disto, não sei dizer. Eu estava obcecada com a ideia horrenda de, em vez de uma troca clássica de fluidos, ter dado a provar os meus sucos gástricos a um homem que não odiava — e ter de viver depois disso. A embriaguez encarregou-se de me fazer esquecer tudo o que ele disse, mas deixou-me viva a memória do que eu tinha feito. Quando acordei no dia seguinte tinha um travo na boca e não era uma figura de estilo nem o sabor dos lábios dele, era a porcaria que tinha bebido e vomitado.

»Quando penso por que me acompanhou aquele homem ou rapaz toda a vida, tão presente como a minha sombra, pergunto-me se esta é uma sina que partilho com certos assassinos (não nos abandona o fantasma daqueles a quem fazemos mal, diz-se). A resposta é não. Pese o final triste (ou cómico, se quiseres), a memória dele é um prazer secreto de que não preciso de abdicar nunca. Que não me desilude. Por isso às vezes penso que quero ser enterrada ali. Quero que ele apareça, como sempre, na minha última noite. Na longa noite.»

segunda-feira, 23 de maio de 2022

É para oferecer?

A menina, nova na casa mas a querer mostrar simpatia e aptidão (ou simplesmente entediada por não haver muita gente), oferece saltitante ajuda enquanto o cliente espreita as estantes dos livros. Ele agradece, mas dispensa.
Minutos mais tarde o cliente vai à caixa pagar e ela atrás do vidro pergunta com diligência, quase ternura e um automatismo já adquirido:
— É para oferecer?
— Não — responde o cliente com a deixa de sempre, um mantra que recitou já a uma legião de salários mínimos antes dela —, é mesmo para ler.
Ela ri-se, divertida, quase agradecida pelo entretenimento.
— Podia querer oferecer a alguém — insiste depois, sorrindo afável, cúmplice, mostrando pessoalmente como a sua pergunta é naturalíssima, não apenas uma das chaves da etiqueta equívoca que lhe transmitiram na formação.
O cliente deixa-se contagiar com o espírito sociável e tendente à boa disposição da menina da caixa e, contra o seu hábito, prolonga a conversa, num tom que se finge sério mas trai na dinâmica dos músculos faciais uma certa jocosidade, e com isso sobretudo esconde a descrença, a falta de ilusões, a derrota:
— E por que não parte antes do princípio de que os clientes compram os livros para si mesmos, para ler? Afinal isto é uma livraria e não uma loja de lembranças.
Ela quase se desmancha a rir, contida apenas pelo instinto recente mas já activo de que está num emprego.
— Uma loja de lembranças — repete, ainda mais divertida, mas não com auto-ironia ou com uma ironia dirigida à loja que a emprega. Achou o cliente excêntrico e engraçado, é só isso. — Uma loja de lembranças — continua, com o dia já ganho quanto a fenómenos, enquanto a impressora imprime o talão —, essa foi mesmo boa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Dia de pesca

«Sujidade. Não havia outra palavra. Sujidade material e mental. Mas, em simultâneo, inocência, a inocência dos estultos.

Há trinta anos, ainda as mulheres eram apalpadas à luz do dia e se dividiam entre as que davam risadinhas e as que davam estalos (as outras não tinham existência reconhecida), o Buldogue ressonava de consciência imaculada sob ou sobre uma pilha de roupa. Na escuridão do quarto, apenas dava para distinguir em cima da cama o que parecia uma grande elevação de trapos escuros que contrastava com os lençóis mais claros — ninguém arriscaria dizer brancos, mesmo que originalmente o tivessem sido. Não era possível perceber se ele se tinha enfiado debaixo das roupas, temendo que a ressaca o deixasse susceptível à fresca da aurora — o que teria implicado uma capacidade de planeamento própria de uma noite que não tinha corrido assim tão bem —, ou se simplesmente mergulhara no enxoval inextricável de roupa lavada e suja que jazia sempre na cama baixa. Podia pôr-se ainda a hipótese de tudo aquilo, aquele volume que lembrava um morro de escória nos arrabaldes de uma mina desactivada, ser apenas ele, o Buldogue. Os contornos eram bastante semelhantes aos que ele exibiria se alguém por insanidade momentânea se dispusesse a imaginá-lo deitado, e com a luz apagada não havia uma noção exacta de escala. Sobre a cama podia bem estar, portanto, apenas o Buldogue depois de ter atirado com tudo ao chão sem que lhe sobrasse energia para se despir. O que o Gafas e ele temiam era que houvesse ali alguma ilusão de óptica e o Buldogue se tivesse mesmo despido antes de aterrar, e por isso nenhum deles se atrevia a tocar-lhe para o acordar. Havia limites para o nojo que estavam dispostos a aguentar, mesmo naquela época.

Meia hora antes, Daniel tinha arrancado o Gafas da discoteca para o obrigar a cumprirem a promessa de se juntarem ao Buldogue numa pescaria. Não se interessava nada pela pesca e a «promessa» fora apenas uma piada, mas a noite na discoteca estava terminada, o DJ já pusera a tocar o remix de encerramento e Daniel agarrar-se-ia a qualquer esperança de continuar nos copos depois de saírem dali. De modo que atravessaram às escuras a propriedade dos pais do Buldogue, fazendo slalom entre alfaias e detritos, até chegarem à casa, uma antiga pensão que depois do último hóspede, décadas antes, nunca mais vira uma demão de tinta e, em certos aposentos, nunca mais vira uma vassoura. A porta da rua estava apenas encostada, como era frequente na época, e logo depois virava-se à direita para um corredor com muitas portas, por trás das quais dormia um rebanho de irmãos e irmãs e os velhotes do Buldogue. Daniel e o Gafas, caminhando às apalpadelas, tinham uma vaga ideia de qual era o quarto, mas não podiam estar cem por cento seguros. O risco de entrarem nos aposentos do casal ou, pior, no quarto de uma das irmãs, era grande, ainda que as consequências estivessem longe de ser graves da maneira como hoje seriam. O pior que lhes poderia acontecer era levarem um tiro, mas se sobrevivessem dificilmente teriam a vida social ou a reputação arruinada.

A dupla podia ter-se limitado a esperar na rua, toda a gente sabia que os pescadores madrugavam, e o Buldogue, se tivesse mesmo decidido ir pescar no dia seguinte, levantar-se-ia, estremunhado e com os cabelos em pé, como se lhe tivessem aplicado a descarga eléctrica de um desfibrilador, mas cedo, com as galinhas. (Até literalmente: as aves de capoeira ali ignoravam o significado da designação porque eram socialmente conhecidas e passeavam-se na casa com natural liberdade, pondo ovos nos recantos e merda por todo o lado, facilitando a vida à dona da casa, que não tinha de andar muito para degolar um galináceo quando decidia que o almoço era frango. Por isso, e não por razões inquietantes, havia também manchas de sangue no chão do corredor.) No entanto, Daniel não queria correr o risco de deixar o Buldogue desistir do plano e insistira para que o acordassem. O fim de noite deles coincidia com o início de dia de um pescador, mas era preciso que o Buldogue não se esquecesse durante o sono que era um pescador.

O Gafas, de resto, aderira logo à ideia, mal continha o riso, tudo o que desejava era ver a cara de espanto do outro quando desse por eles no quarto. E quando isso aconteceu, houve um sobressalto no monte de escombros na cama, como a réplica forte de um sismo. Ou como se tivessem detonado uma carga de explosivos numa das galerias da mina, afinal ainda em actividade. Houve uns instantes de barafustação de um lado e risota abafada do outro. Houve uns sopapos moles quem nem o ar feriam. No fim, saíram dali em fila, nenhum perto de estar sóbrio, o Buldogue a praguejar, alguém a peidar-se num dos quartos. Enfiaram-se na carrinha de três lugares, Daniel resignando-se a ir no meio — no lugar da puta, dizia-se então —, uma cedência que não o incomodava, fazia-a sempre sem ganhar nada com isso e desta vez esperava-o um dia de farra. O céu clareava a oriente.

Habitualmente, Daniel pouco mais recordava do episódio do que isto. Havia ainda uma imagem vaga e ao mesmo tempo inverosímil do Buldogue, com as roupas de cangalheiro que usava em todas as circunstâncias, a olhar com paciência a bóia à espera que o peixe mordesse. Ele que nem na missa conseguia estar quieto e por isso nunca chegava realmente a entrar na igreja. Outra imagem, do Gafas dobrado a meio em gargalhadas — típica dele, aliás —, com os óculos na ponta do nariz, fazendo lembrar o Mortadela da dupla Mortadela & Salamão. E havia a memória de Daniel já entediado a teimar para irem mas era nadar um bocado e os outros, com vergonha de se despirem, a desviarem a conversa com uma fanfarronice qualquer. Ao final da tarde desse dia estavam de volta, e, quando Daniel recuperou a consciência, deu por si sentado na banheira a levar com a água quente do chuveiro na cabeça. Era a imagem simbólica de um born again, um cristão renascido a ser baptizado depois de se arrepender do pecado do alcoolismo. Só que ele não se arrependia de nada, muito menos daquilo de que não se lembrava. Também não se arrependia do pouco de que se lembrava. Estava apenas zonzo e um pouco indisposto, a tentar recompor-se para a noite.

O ponto forte da história, quando sentia vontade de a contar a amigos, era a lembrança de terem parado num snack-bar ao chegar às imediações da albufeira, um daqueles que abriam cedo para os pescadores, e de o Buldogue ter pedido, com jovialidade e alarido, chispe. Chispe de pequeno-almoço acompanhado de vinho tinto: era esta para Daniel a piada de toda a história, o insólito, a loucura resoluta do Buldogue, que divertia Daniel — e com que ele tinha contado para poder continuar a beber.

Mas agora Daniel tinha acordado com um peixe no tapete do quarto e uma memória fresca do que acontecera naquele snack-bar há trinta anos. Como se tivesse acontecido na madrugada do dia de hoje. Lembrava-se como não teria conseguido lembrar-se meros dez minutos depois da madrugada daquele dia.»

[Início de nada. Amarfanhar e encestar teatralmente no caixote dos papéis.] 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Barco Negro

[O trecho abaixo faz parte de um work in progress ainda à procura de rumo. Não quebro decerto nenhuma cláusula contratual ao publicá-lo.]


«Numa das digressões pelo Youtube fui parar à canção “Barco Negro”, na versão de Amália Rodrigues. Ao terceiro verso já chorava. A interpretação de Amália era perfeita, comovente, de uma beleza que tocava os sentimentos de quem a ouvia, mas o que actuava em mim, na minha sensibilidade, não eram só as suas qualidades artísticas, a estética sublime da sua voz: era a incrível semelhança com a voz da minha mãe. A forma como as notas subiam e pareciam precipitar-se para aquele brado de alma na palavra “olhos” era a da minha mãe. Nesse verso, na totalidade dele, nesse pedaço de transcendente oferecido aos mortais, que os deuses tinham encarregado algumas pitonisas de passear pelo mundo, estava um pouco da própria face de Deus, um centímetro cúbico (não sei como se exprimem as medidas de lugares com quatro ou mais dimensões) do paraíso infinito. Não eram as palavras que importavam — por mais que devêssemos admirar o poema de David Mourão-Ferreira ou o de Antônio Amábile que no Brasil o antecedeu —, o que importava não eram os sentimentos ou as emoções que as palavras transmitiam embaladas pela música, não era o lamento verbal, a catarse pela tragédia que as histórias propunham: era a própria música, os sons, as notas, a sequência delas, a percepção da fórmula divina que eles próprias representavam, cuja estrutura cósmica elas quase tocavam, por instantes adivinhavam.

«Matheus Nunes (Caco Velho, o compositor) teve essa visão, é dele o mérito, ou foi a ele que Deus confiou uma linha breve do seu próprio código genético. Mas só quando o brasileiro transmitiu a Amália a “ideia”, para evocar Platão, é que ela ganhou a sua expressão verdadeira, se revelou. Talvez o justo fosse que Amália interpretasse a letra original, lamentasse o sofrimento da Mãe Preta em vez de o da viúva do pescador, mas, que a mesma estrutura melódica, a mesma insinuação metafísica possa abraçar várias formas de dor é admirável e provavelmente significativo.

«É portanto para a minha mãe que a canção, a voz de Amália remetem, talvez porque a minha mãe é agora parte da deidade, incorporou-se a ela há uns anos. Quando Amália a gravou parecia apenas mais um momento na sua carreira, um dos brilhantes, mas era na verdade um passo num guião que alguém escrevera preventivamente para ela com outra finalidade. Prevendo-se que a minha mãe não seria gravada, que a sua voz, exprimindo-se num local e num tempo onde nem a mitologia, pagã ou católica, fazia descer deuses à Terra que se apaixonassem pela pastora que era a minha mãe e lhe dessem um sopro de celebridade, prevendo-se por isso que não integraria as listas da rádio, não andaria em digressão e não se registaria em discos ou cassetes, haveria o Universo de a imortalizar por outra via e essa via foi Amália.

«Foi para que eu chorasse ao terceiro verso e pudesse assim sentir da minha mãe mais do que a memória dela, para que pudesse ter a minha epifania além da retórica literária, que Amália recebeu de Matheus a canção e entrou num estúdio para a gravar. Sim, foi com Amália que a minha mãe aprendeu a canção, era a Amália que as pessoas a comparavam quando ela cantava no dia-a-dia anónimo da sua existência, mas isso é apenas porque houve uma dobra no espaço-tempo, uma singularidade, um ouroboros; Deus perverteu a sequência cronológica dos anos em homenagem à minha mãe, é ela a Mãe Preta que chora todas as injustiças do mundo e eu sou a mulher do pescador que diz, que sente
Eu sei meu amor
Que nem chegaste a partir
Pois tudo em meu redor
Me diz que estás sempre comigo.»

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Personagens com baixa auto-estima

[Escrevi este trecho para uma qualquer das personagens dos meus livros, mas creio que nunca o usei — devo ter encontrado outra forma de a fazer sentir miserável.]

«A praça em frente à estação estava cheia de punks e eu apenas consegui pensar que não poderia ter melhor recepção. Uma banda perfilada seria o que de mais impróprio o momento sugeria. Era adequado que eu desembarcasse do comboio e à minha espera estivesse aquela anarquia lânguida, um bando esfarrapado cheio de rebites, com repas inteiriçadas e coloridas e correntes de condenados, uma pequena multidão de rebeldes ociosos estendidos no lajeado sujo como focas gordas ou tartarugas despejadas pela maré numa praia vulcânica. Bebiam e derramavam cerveja enquanto insultavam ritualmente e sem ânimo os passageiros que como eu ziguezagueavam por entre eles na direcção da paragem de táxis. A diferença era que os outros viajantes faziam caretas de nojo e raiva impotente e levavam passo acelerado; eu sentia-me Darwin a descer do Beagle. Não pelo quadro alegórico que uma fotografia tirada do outro lado da rua poderia fixar, mas porque, como ele, eu olhava em volta e não podia concluir senão pelo parentesco evidente entre vermes e humanos. E repare-se que este pensamento não era uma crítica aos inúteis anarquistas, já que eu os olhava como se me visse num espelho e não conseguia deixar de pensar que o meu lugar era entre eles, bebendo cerveja até ao vómito e fazendo depois alguns assaltos sem importância para conseguir arranjar mais bebida.»

domingo, 8 de março de 2020

Padecimento

Passo por ele a correr, mas a música que vai a ouvir está bem alta e percebem-se distintamente a voz e os requebros de Elvis Presley. Não tem idade para ter sido fã in illo tempore, mas parece suficientemente nostálgico para que o Rei tenha sido companhia marcante na sua juventude.
Quando regresso, encontro-o noutro sector da minha pista de jogging. Está agora sentado a uma mesa de piqueniques. Elvis canta uma daquelas que fazem chorar as pedras da calçada. Ele, de cotovelos no tampo, cabisbaixo, esfrega os olhos lacrimejantes; ouço-o fungar. Talvez a música o lembre de amores antigos. Ou então é apenas o Covid 19.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Narciso

Estava há poucos dias no seu novo emprego de recepcionista de uma clínica dentária quando reparou no rapaz que todas as tardes passava em frente à porta envidraçada da rua e espreitava para o interior. De início foi só a curiosidade de ver quotidianamente um gajo bonito, fazer apostas consigo mesma sobre se viria hoje, sem atraso, se olharia. Depois, convenceu-se de que aquela passagem já não era uma coincidência, que havia um motivo, e que o motivo era ela. O rapaz descobrira por acaso a nova recepcionista atrás do balcão, encantara-se e, porque era tímido, não ousava entrar, limitava-se a fazer olhares, expressões subtis e gestos mais ou menos discretos no tempo que demorava a percorrer os três metros de envidraçado. Algumas semanas mais tarde, por iniciativa e manobras dela, que o foi descobrir nos locais onde ele parava à noite, ficaram de certa forma namorados. Na última vez em que estiveram juntos, ela fez um escândalo porque ele não parava de olhar por cima do ombro dela para uma rapariga noutra mesa, com aquelas expressões que conhecia bem.
Tivesse ela sido capaz de se pôr no lugar dele, quer dizer, tivesse ela experimentado a perspectiva dele naquela mesa (sentando-se no lugar do rapaz, de frente para o espelho da parede ao fundo) e quando passava em frente à clínica (optando um dia por entrar pela porta dos clientes, espelhada pela luz da rua, em vez de pela porta de serviço, como sempre fazia) e teria descoberto que os olhares do rapaz eram uma coisa dele consigo mesmo. Não teria encetado o namoro, é certo, mas teria também poupado uma cena de ciúmes sem causa

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O rio da minha aldeia não transbordou

O rio da minha aldeia não transbordou. A junta fez um muro novo e parece que isso é bom. Quando eu vivia lá e a minha aldeia não era vila, o rio transbordava sempre. Todos os Invernos. Na última década raramente transbordou, acho, e não sei se isso corrobora ou desmente o aquecimento global, culpado contraditório que é de secas e tormentas. Eu gostava quando o rio da minha aldeia transbordava. Havia nesses dias, apesar da recorrência anual, um ar de novidade, de excepção, de acontecimento insólito que (como a neve) permitia acreditar que na vida não havia apenas rotina, clima moderado. Depois de uma noite de chuva intensa como a destes dias, vínhamos à única janela da nossa casa que dava para a rua (a única janela da nossa casa que não dava para partes da própria casa) e tentávamos ver, por entre as árvores de Dezembro já despidas, até onde tinha chegado a água que sobrava do caudal violento. Se amainava e a mãe andava ocupada, como andava sempre, escapávamos rua abaixo e lá íamos verificar in loco quão largo estava agora o Avelames, ali antes da ponte e a seguir à curva.

A visão de um rio largo e no seu eixo violento (as margens agora amplas eram de águas calmas e misteriosas) era a um tempo assustadora e deslumbrante. Sentíamo-nos crescer em importância e angústia com o engrossar do rio. Importância, porque tínhamos com o rio, mais do que os pacientes pescadores, uma ligação íntima, de quem nele se fundia por longas horas no Verão; sentíamos o rio como propriedade como sentimos que somos donos de cada um dos nossos braços ou pernas, nossos prolongamentos. Angústia, porque de repente já não conhecíamos o rio, estranhávamo-lo na sua largueza, e a vasta lagoa que se formava na margem esquerda, submergindo partes de amieiros e carvalhos e sei lá que outras árvores menos ribeirinhas encosta acima, tinha todo o ar ameaçador de um pântano de onde sairiam facilmente crocodilos, longas e grossas serpentes aquáticas e, quem podia negar?, piranhas ou bicho pior.

Na verdade não eram os bichos o que eu mais temia, mas, sem conhecimentos bíblicos, as consequências de um dilúvio. Temia, e com isso sonhei décadas a fio, até há pouco tempo, que a água continuasse a subir e chegasse à taberna, quase à porta da nossa casa, e que ficássemos isolados, as estradas intransitáveis para sul. (Não concebia que se pudesse evacuar a aldeia pelo norte, para mim tudo o que significava saída dali estava a sul, a sul estavam as cidades grandes e a América e as estradas de acesso à Europa, mesmo que a Europa ficasse a norte; no norte da minha infantil geografia local apenas havia versões mais isoladas da minha aldeia.)

Nos meus sonhos de então e depois, via a bacia do rio a chegar cá cima, mas a água não subia nivelada, a sua superfície acompanhava a inclinação da encosta, e na outra margem havia apenas o resultado das cheias habituais, lameiros inundados, um só metro de água acima do normal.

E o que eu temia mais era afinal que o recuo das águas, quando dias depois elas recuavam, fosse apenas aparente, que debaixo dos paralelos da estrada permanecesse um rio subterrâneo e que ao pisá-los eles cedessem e de repente a estrada era como um puzzle a que faltavam peças, grupos de paralelos isolados uns dos outros, mantidos à superfície sabe-se lá por que fenómeno alheio à física. E de novo a aldeia, a nossa parte da aldeia, inacessível, todos receosos de pisar e afundar mais paralelos e já nem uma memória de estrada pavimentada e transitável nos sobrava.

Mas só nos sonhos as cheias tinham este lado assustador, esta ameaça quântica, alheia à física tradicional. Na vigília, quando o rio transbordava, o meu espírito transbordava com ele de felicidade com as coisas raras. O único lado mau do Avelames engrossado era a gente, fascinada, querer chegar-se-lhe a fímbria e enterrarem-se-nos subitamente as pernas na terra agora lamacenta que nos separava dele. Esse era o acontecimento inesperado que não desejávamos e contra o qual as nossas mães nos preveniam — ou ameaçavam, cansadas de nos lavar a roupa.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Breve história de uma carreira pop

Começou por cantar na missa levado pela mãe, uma senhora mística e sofridamente adúltera que lhe transmitiu o gosto pelo êxtase à la Teresa D’Ávila. Era famosa a sua (dele, todo rosado) boquinha de anjo. Na adolescência, nauseado por tanto apregoar sem resultados a virtude e a humildade, entrou à noite e às escondidas, de cerveja choca na mão, para uma banda de rock’n’roll. Quando começou a dominar a técnica, que, além da guitarra, implicava o lábio superior, a sobrancelha direita e um certo jogo de joelhos, chegou o punk e viu-se então obrigado a fingir que não sabia mais do que dois acordes e que desafinava por origem social. Para facilitar, fez-se baterista, posição em que lhe custava menos parecer genuinamente incapaz e onde o seu entusiasmo musical, a martelar com energia tambores e pratos, poderia facilmente confundir-se com um tique resultante de labor proletário, as contracções espasmódicas de um operário chaplinesco já fora do alcance da medicina no trabalho. Mas não chegou a aquecer o tamborete, porque logo logo se impôs o new romantic, um punk limpo e amaricado cujas cabeleiras barrocas e caras empoadas lhe lembravam, dos tempos de acólito, as gravuras que o obrigavam a ver sempre que lhe ensinavam um novo requiem ou quaisquer outras obras litúrgicas. Passou aí a ser o frontman porque, apesar de tudo, o encavalitar dos dentes após a velha e precipitada recusa revolucionária do aparelho e os inesperados e incipientes pêlos de uma barba dylanesca, bobdylanesca, não lhe perturbaram a natureza essencialmente angélica e aristocrata, o perfil quase helénico e petrificado de figura de proa de um veleiro. Ficou então famoso o seu apetite por microfones, que mordia criando uma imagem de marca (e deixando um registo odontológico) muito dirigida a teenagers leitoras da Bravo mas pouco apreciada pelos promotores de concertos e nada pelos vocalistas que, enojados, lhe sucediam no alinhamento dos festivais. Da new age à soul foi um passo natural, porque, naqueles anos, a quem não tinha atitude ou carisma suficiente não restava mais do que permanecer verdadeira e frustradamente cantor, tendo talento. Ninguém ignorava que ele teria preferido optar por uma carreira mais sexual e menos musical, mas não havia nada a fazer, só a voz lhe valia. Despediu então toda a banda, uma malta que entretanto se tinha tornado assaz competente, para contratar afro-descendentes. A soul pedia, achava ele, um balanço específico e mais fôlego, coros poderosos, predicados que o seu velho combo de não cantores movido a Super Bock e Macieira não tinha como providenciar. Foi-se ao bairro dos retornados e veio de lá com uma secção rítmica capaz e um coro de moças roliças que teria maravilhado a sua mãe, não fora o tom da pele delas não combinar com os reposteiros da família. Da velha banda que o acompanhara pela história da música sobrou, por polivalência e consequente direito próprio, o teclista, um Ray Manzarek que não raras vezes saía da madrugada do backstage, limpando os óculos de tartaruga, para a nave da sé, onde tinha a seu cargo o matutino órgão de tubos. E então a soul deu-lhe cabo da carreira. Quando se imaginava um George Michael nacional, como ele reinventado e introduzido numa respeitabilidade vocal e interpretativa a que a imprensa se haveria de render (embora no seu íntimo continuasse a lamentar-se por a voz ser o seu único predicado), começaram a acometê-lo pesadelos, terríveis pesadelos. Via-se no palco como no convés de uma nau quinhentista, uma nau negreira. O pálido Manzarek era o seu imediato e a banda mais o coro, todos negros ou mestiços, eram os escravos. Noite após noite durante a sua última digressão, baralhando épocas e tragédias históricas, não conseguia deixar de ver o baterista como o sonderkommando que marcava o ritmo nas galés e as coristas, nas suas coreografias de braços ondulantes, como os condenados remadores. Esgotado e dominado por um remorso de classe que uma carreira musical plebeia não conseguira desvanecer — ainda que aquela mesma carreira tivesse feito morrer de desgosto a mãe, já de si deprimida por haver na verdade pouco proveito prático no adultério sénior — resolveu à boa maneira maoista fazer um mea culpa público e abriu na baixa um centro de terapia com sinos tibetanos.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Quando eu morava ali

«Quando eu morava ali não sentia grande curiosidade por aves (e suponho que seriam então mais abundantes), mas não julgo que recebêssemos com frequência visitas de garças-reais, se as recebíamos de todo. Aquele mundo era mais campestre do que o que o veio substituir, mas era paradoxalmente mais habitado, com bulício humano junto ao lago, mesmo num crepúsculo cinzento e chuvoso de Dezembro como o que acolheu o meu regresso. Eu era agora outra mulher, capaz de me deter a olhar uma paisagem e de reparar no que nela havia de raro ou peculiar, e uma garça-real de pé junto à água, iluminada por um candeeiro muito mais antigo na terra do que a sua espécie, parecia-me algo de inusitado em qualquer sítio que a visse — ali adquiria foros de aparição. Ela deu pela minha presença quando cheguei a uns trinta metros de distância da margem e pôs-se de lado, a espreitar-me os movimentos pelo canto do olho, com o pescoço desenhando aquela silhueta característica em ponto de interrogação. Pareceu-me adequada a sua postura: assinalava graficamente as suas dúvidas quanto às minhas intenções e, num sentido mais lato, as minhas próprias dúvidas quanto aos meus objectivos. Não fugiu quando, num gesto de mecânica contemporaneidade, tirei o telemóvel da bolsa para a fotografar. O flash iluminou impotentemente a noite que se instalara e eu percebi que era inútil, estava demasiado longe e não havia luz suficiente para a câmara, apenas os arbustos perto de mim sairiam visíveis na foto. Tudo o que colheria daquele primeiro momento era uma impressão que não poderia provar, a somar-se às outras que transportava comigo em igual condição havia três décadas.
Depois de alguns minutos a olharmo-nos, senti-me autorizada a avançar, confiante em que a garça teria decifrado as minhas intenções pacíficas. Estava enganada. A bicha abriu lentamente as asas, segura no seu cálculo das distâncias (não a alcançaria nem que corresse), deu um passo gracioso em frente e elevou-se nos ares com uma pequena rabanada de vento.
Ocupei o seu lugar na beira da água, tentando ver o lago e as redondezas pelos olhos de um frequentador recente, mas faltava ao meu olhar virgindade: tudo ali, o que havia e o que já não estava, tinha impressionado a minha retina há muito, como a luz que fixamos demasiado tempo e continuamos a ver mesmo depois de fecharmos os olhos. Os candeeiros públicos poderiam desligar-se — como tantas vezes acontecia nos Invernos da adolescência — que eu continuaria a poder ver através da escuridão, nem que fossem os espectros a cujo apelo acorrera.
Passaram mais alguns minutos e a garça regressou, sobrevoando com um gazear irritado a pequena enseada. O seu jantar ficara decerto a meio e queria por isso que eu fosse embora, lhe devolvesse o território de caça. Não lhe disputei o direito a estar ali, já não era uma prerrogativa minha. Afastei-me a deambular, voltando-me de vez em quando com um desejo melancólico de beleza selvagem e inconsciente, talvez tentando aprender com ela como reocupar um terreno de onde fomos desalojados.»

[Início de uma novela ou romance em gestação lenta, lentíssima]

sábado, 16 de junho de 2018

[Work in progress]

«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pianista

Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:


«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais; agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na plataforma junto ao lago, estendido na chaise longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite, que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas. 
Digo que a sua indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras. Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado, permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas, e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da terra.
Num dos verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas. Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei, influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio. O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago como o protagonista de A Morte em Veneza, ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era suficiente, e exacto, para o definir.»

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Caderneta de cromos


[de um trabalho em curso]

«Suponho que toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que, assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar. Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção oculta, a big picture, o verdadeiro retrato ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los, colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês, seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o bouquet.
Acresce que também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes, escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto. Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta, um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra Talhada.»

sábado, 24 de março de 2018

a violenta e cruel natureza da sobrevivência


[de um trabalho em curso]

«Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas, não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos, uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria fisicalidade.
E contudo esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela. Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da sobrevivência.»

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Ave-Rara

Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.

[work in progress]

sexta-feira, 10 de julho de 2015

«A vida militar»

[Primeiros parágrafos de uma prosa justamente descontinuada]

«Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Nas primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera já de si empestada da caserna.
O pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica, como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros, quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço, ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»

* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem sofística do Exército.

P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Coisas que não anoto no moleskine (2): em Mainz

Recordo assim de repente Mainz como cidade irmã de outras imaginadas onde o adro fronteiro à gare se reveste de uma anarquia lânguida, vagamente ameaçadora ou repulsiva. Bandos esfarrapados de punks, com as suas repas coloridas e hirtas, chocalhavam quando ali desembarcámos correntes de forçados e constituíam uma pequena multidão de rebeldes ociosos, espalhados no lajeado cinzento e sujo como focas gordas ou tartarugas trazidas pela maré com o lixo a uma praia vulcânica. Sentados ou recostados como romanos em orgia, bebiam e derramavam as suas cervejas enquanto lançavam por rotina insultos aos passageiros que, como nós, ziguezaguevam por entre eles na direcção da paragem de táxis ou dos meandros do centro urbano. Não é um bom cartão-de-visita de uma cidade, mas suponho que ninguém se dá ao trabalho de ir até à Alemanha para acabar a apear-se do comboio em Mainz. O acampamento punk não se monta quotidianamente ali para assediar turistas, creio, mas para chocar os concidadãos burgueses e devotos do trabalho que usam o comboio nas suas idas e vindas diárias para Frankfurt ou para localidades próximas. De resto, a cidade, que até tem os seus encantos, não precisa da estética punk para enjoar os visitantes: tem a cozinha, com salsichas sensaboronas e puré de bata avinagrado, que se serve com um apfelwein menos entusiasmante do que um Fruto Real que tivesse sobrevivido aos anos 80 e decidíssemos por estultícia arriscar beber hoje.

Se contudo o viajante se dá, como nós, ao trabalho de ir até Alemanha para acabar a apear-se no comboio em Mainz, não adianta ir fazer perguntas ao estabelecimento tuga a dois passos da estação: ali deixam de falar português quando descobrem que os entendemos. A alternativa é acreditar no casal simpático que nos aborda mais tarde, vestido para ir ao teatro num fim de dia de Agosto, e que garante ter um quarto vago, se no fim da peça ainda andarmos pelas ruas de mapa na mão e falhos de abrigo. Em Mainz fica-se então a olhar para estoutro cartão-de-visita, um pequeno rectângulo de papel que assegura serem os elementos do casal cientistas numa universidade próxima, e, enquanto se continua a busca por hotel barato, entreolham-se os viajantes perguntando-se se há alemães calorosos ou se um currículo universitário distinto é atributo que os teutões julgam necessitar para seduzir swingers meridionais. Como entretanto escurece de vez naquela parte da cidade com arquitectura vagamente pré-Segunda Guerra Mundial, e como se levanta uma brisa de inquietação e preconceito, os viajantes deixam de se sentir lisonjeados com a ideia de assédio intelectualizado e passam a interrogar-se academicamente o quão sedutor poderia ser Norman Bates para copycats germânicos. A imagem hitchcockiana de uma faca no duche diverte os viajantes — e leva-os a optar por subir um bocadinho a quantia que estão dispostos a despender por um quarto em Mainz. Alojam-se naquele hotel que era antes bom de mais para portugueses temporariamente sem bússola mas permanentemente sem dinheiro, trocando uma aventura literária por um pequeno luxo capaz de aliviar o corpo e a alma. No moleskine anotei o preço do hotel.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Coisas que não anoto no moleskine

Dificilmente poderia viver com a humidade tropical, mas com a chuva e a monção sim. No Vietname usei o tempo todo uma echarpe feminina enrolada e empapada no pescoço e arrastava-me pelo território como um alucinado no deserto, seguro de que se parasse desfalecia ali mesmo. O meu caminhar era como o de alpinistas a 8 mil metros de altitude sem forças, oxigénio e discernimento, mas com aquela motivação ou obsessão prévias que lhes concedem um caminhar de autómato, pondo lenta e lunarmente um pé após o outro, mais como estertores em slow motion de morto do que passadas voluntárias de vivo. Era assim eu naquela latitude, a deslocar-me em linhas rectas entre duas sombras em vez de vaguear turisticamente pela paisagem; a olhar as coisas pitorescas pelo canto do olho enquanto elas iam desfilando a meu lado como noutra dimensão, sem nunca me deter para apreciar pormenores ou comentar particularidades; anunciando com desespero homicida na voz que se parasse para fazer fotos ou me desviasse do caminho da sombra fosse por que razão turístico-imperiosa fosse seria um português suado morto, e não um ocidental vivo enriquecido pela viagem. Descobri que nos trópicos tenho espírito de mula atrelada à nora: caminho porque tenho de caminhar, remoendo pensamentos asininos, obstinados, sem nexo nem finalidade, incapaz de parar depois de me pôr em marcha e impedido pelo jugo tropical de gestos de revolta, de qualquer gesto, aliás, que não seja descolar um pouco a t-shirt do corpo. Mudava de trajectória de vez em quando, é verdade que mudava, se a companhia me reorientava os passos segurando-me pelos ombros como se faz a um bebé ou ao tal autómato com pilhas Duracell e uma versão muito beta de GPS. Por vezes também chocava com postes e paredes, e conseguia inflectir ou contornar o obstáculo com a mesma destreza convulsiva das sondas robóticas em Marte. As primeiras e mais primitivas, que se atolavam à terceira tentativa — não sem o alívio que devem sentir os moribundos finalmente autorizados a fenecer.
Mas é da chuva que queria falar, não de como viro zombie em atmosferas de 30 ou mais graus e 100% de humidade.
Já fui feliz à chuva no Inverno, fazendo jogging ensopado como um náufrago escocês emerso do Loch Ness (e portanto com razões para correr), fazendo trekking com botas encharcadas que emitem barulhinhos ora constrangedores ora estupidamente cómicos como dobragens de filmes porno (mas não suficientemente sugestivos para um escroto alojado em boxers impregnados de chuva e frio), e, se recuar um pouco mais na biografia, também já fui feliz no Inverno chegando como um pito a casa vindo da escola com os pés enfiados em sacos plásticos dentro dos sapatos e pronto para café com leite, torradas, luz de velas e livros de Júlio Verne.
Gosto de apanhar molhas, como se vê, mas como não sou um masoquista indefectível, as minhas melhores molhas são as de Verão. Chuva quente é a minha ideia de Paraíso. Debaixo de borrascas estivais tenho reminiscências do Éden, como se cada cromossoma do meu ADN estremecesse de um prazer herdado de quando a humanidade tinha guelras e dava as primeiras braçadas no aquaworld primordial. Debaixo da chuva de Verão, de virilhas ensopadas, sinto-me feliz, purificado e nu como Adão e Eva. (Não duvidemos que estas figuras bíblicas existiram, só que, ao contrário do que pensa a religião, eram batráquios ou girinos sem nada pudendo a esconder.)
Mas se invoquei o tema chuva foi porque hoje me lembrei, não sei bem porquê, que uma das vezes em que fui feliz estava encharcado até aos ossos na Alemanha. Não encharcado e tremelicante como trabalhador meridional na suja neve teutónica, mas encharcado e esfusiante como vagamundo munido de moleskine e optimismo. Tínhamos descido do castelo de Stahleck, transformado em pousada da juventude e sobranceiro à pitoresca aldeia de Bacharach, por sua vez ancorada à margem do Reno. O Reno é ali o Douro da Alemanha, com os seus curiosos vinhedos de bardos perpendiculares às curvas de nível, mas inebria um pouco mais. Não porque os seus famosos brancos tenham mais teor de álcool, mas porque as suas paisagens urbanas têm menor teor de mau gosto. Fosse como fosse, talvez viéssemos um pouco tocados de Stahleck — tínhamos bebido um copo ou dois enquanto assistíamos a um ensaio da banda da juventude ali hospedada e não nos pareceu loucura caminhar os três ou quatro quilómetros para montante (até ao ancoradouro de onde partia o barco que fazia a travessia para a estação na margem oposta a tempo de apanharmos o nosso comboio para Coblença), mesmo que a chuva começasse a cair com intensidade e os nossos impermeáveis tivessem sido comprados na loja dos chineses que ficava no rés-do-chão do meu prédio em Portugal. Subimos o Reno encharcados e eu feliz, de calções e a chinelar como se a Alemanha ficasse abaixo do Trópico de Câncer, indiferente à distância e à chuva. Recordo-me que fiquei ligeiramente aborrecido quando parou de chover e o barco partiu a horas e vi que o nosso plano se iria cumprir, o que era bom, mas já não, o que era mau, sob uma chuva que aspergia como se os deuses, de luvas e galochas no seu jardim, se entretivessem a irrigar a felicidade dos homens.
Depois disso, fui então feliz à chuva nos arredores de Hué, viajando na traseira de uma motoreta e agarrado ao meu oriental como Leonardo DiCaprio a Kate Winslet (só que ele, o meu oriental, felizmente não largava as mãos do guiador para abrir os braços à proa e era eu quem tirava os chinelos dos apoios e levantava as pernas como se estivesse a vogar cinematicamente num Titanic meridional). Nessa tarde tínhamos ido ver templos funerários e no caminho de regresso havia ao longo da estrada telas de artistas plásticos, uma exposição de arte contemporânea a céu aberto que se afogava por uma hora ou duas e depois secava num instantinho, como tudo ali secava num instantinho excepto o meu suor.
Mais tarde fui ainda feliz à chuva em Roma, a correr para o metro acima da Piazza di Spagna e a ter tempo de achar afinal pequena e banal a Via dei Condotti que o guia dizia ser «a busy and fashionable street».
Em Paris não choveu, e eu que levava um kispo novo à espera de o estrear com o mesmo ânimo pueril e inconfessável de quando, adolescente, vesti em Agosto um kispo em segunda mão — herdado de um primo afastado e a cheirar a essências que não eram o sabão rosa lá de casa —, pela primeira (e última) vez impaciente pelo Inverno, só porque tinha caído uma chuvita de Verão antes da missa.

Levava também, em Paris, o moleskine que me foi oferecido como ferramenta de escritor mas que uso apenas para anotar despesas e coisas práticas.