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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Morreu Javier Marías, que tristeza.
(O cânone hodierno já deve estar a esfregar as mãos para o substituir por alguém que escreva frases curtas, despojadas, como gostam os tempos.)

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Michel Houellebecq, o gentil

Há uma impressão de alívio na forma como está a ser apresentado ao mundo o último romance de Michel Houellebecq, Aniquilação. O «enfant terrible», o «mais polémico escritor francês» escreveu um livro «que permite entrever um raio de luz e esperança no futuro». Aniquilação, apesar do título, é «uma ode ao que é bom e belo neste mundo, ao que ainda pode ser salvo na humanidade». A aproximar-se dos setenta anos, Houellebecq encontrou «se não uma esperança pelo menos novos valores». O futuro ancião agora «propõe-nos uma moral que torna possível habitar o mundo e suportar a vida».

Ainda vou a meio do livro, mas posso testemunhar que o autor parece, pelo menos por enquanto, genuinamente curioso, não com a possibilidade de uma ilha milénios no futuro, mas com a possibilidade de reconciliação e redenção no presente. Compreende-se o alívio geral.

A foto na badana ainda é a do anacoreta, do belzebu, com aquela cabeleira rala e encrespada à la Gollum, mas o iconoclasta, o misantropo, o «profeta depressivo», parece hoje suavizado, optimista, empático. Uma das suas antigas personagens talvez especulasse que finalmente Houellebecq conseguiu foder sem ter de ir à Tailândia ou às putas (pardon my french). Outra poderia concluir, incrédula ou horrorizada, que se calhar Michel está apaixonado e tornou-se romântico.

Todavia, um crítico mais pragmático poderia propor que não foi Houellebecq que se moveu, mas o mundo. Com tanta gente a querer ser (e a ser) politicamente incorrecta, à esquerda e à direita, o marginal, o irreverente é talvez hoje aquele que, sem perder de vista a realidade dura e bruta do mundo, se atreve à bonomia, ousa uma certa gentillesse. Estou longe dos setenta, mas eu próprio tenho personagens que se perguntam: «que mal há numa educação para a gentileza? Não a gentileza protocolar, cavalheiresca, mas a verdadeira, a que transforma o dia do outro.»

Ou talvez Houellebecq continue igual a si mesmo e tenha escrito este livro apenas para se rebolar a rir com a forma como o mundo se agarra candidamente ao engodo como a uma inútil tábua de salvação.

Há ainda a hipótese verosímil de Aniquilação lhe ter escapado ao controlo, de o próprio escritor ter sido surpreendido com o mundo no processo de investigação e escrita do romance. Leia-se a forma como encerra os agradecimentos, na última página: «Por casualidade, acabo de chegar a uma conclusão positiva. O melhor é ficarmos por aqui.»

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

De Luis Landero a Manuel Vilas e Javier Marías

Leio Chuva Miúda de Luis Landero com uma insatisfação, ia dizer «indefinida», mas julgo que é concreta. A história, as personagens, o enredo são interessantes, mas a narrativa parece demasiado ligeira ou superficial para aquilo que o autor tem em mãos. É uma sensação que evoca a que tive ao ler Reviver o Passado em Brideshead, quando imaginei estar a folhear um digest. Este Chuva Miúda, que tem uma estrutura de diálogos curiosa, parece-me um esboço; enuncia os factos sem lhes explorar verdadeiramente a densidade, mas também não encontra a sua força literária no poder da sugestão.

Curiosamente, o livro e o autor são vivamente recomendados, com citação na capa, por Manuel Vilas, o autor dos maravilhosos Em Tudo Havia Beleza e E, de Repente, a Alegria, o que poderia fazer imaginar alguma afinidade estilística ou estética entre Landero e Vilas. Mas quando fecho um capítulo de Chuva Miúda não fica em mim nada de parecido com o que me deixou a prosa concisa e poética, a voz narrativa de Manuel Vilas, nada de tão comovente, lancinante ou arrebatador.

Há em Chuva Miúda, de todo o modo, acontecimentos e personagens capazes de fascínio e inquietação, mas para minerar isso neles parece-me que seria preciso alguém predisposto a enveredar longamente pelas curvas da vida e as circunvoluções da mente, alguém como Elena Ferrante ou Javier Marías. Landero parece ficar num meio-termo entre Manuel Vilas e aqueles dois corredores de fundo: uma narrativa abreviada mas sem o poder impressivo de Vilas; a amostra de um enredo e de caracteres que Ferrante ou Marías transformariam em ouro puro.

Em todo o caso, prosseguirei com leitura do livro, a ver se o autor logra afinal um efeito seu. E se isso acontecer será abusivo o que vou dizer agora, que este Chuva Miúda me fez pensar numa hesitação representativa de um tempo, ou antes, de um statu quo literário: uma hesitação que parece em simultâneo condescendência e confissão involuntária de falta de fôlego. Características de certos escritores, editores e leitores — de si para si e de uns para com os outros.

P.S.: Juntar Manuel Vilas e Javier Marías num post na altura em que sai o novo livro deste último — descrito (e bem) numa recensão como «explicativo, maximalista, detalhado» — poderia ser apenas uma coincidência, mas não é, é uma piscadela.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A careta de Evelyn Waugh

Kingsley Amis não desiludiu: A Sorte de Jim é a sátira hilariante que esperava. As últimas 20 ou 30 páginas são magistrais. Senti-me particularmente redimido quando o protagonista — que adopta ao longo do livro, de acordo com as situações, uma vasta colecção de esgares e expressões burlescas — ensaia «a sua careta de Evelyn Waugh». Kingsley Amis a usar Evelyn Waugh como careta é simplesmente perfeito. A mera evocação até me faz suportar a musiqueta que, vinda em ondas de algum bailarico de finados, me tenta agredir os ouvidos através da janela, como os pássaros de Hitchcock.

domingo, 31 de outubro de 2021

«Por onde andará a jovem literatura portuguesa?»

Rentes de Carvalho perguntava há dias no seu blogue (sim, ainda o espreito de tempos a tempos, como certos católicos vão à igreja, já não porque acreditem em milagres ou apreciem o consolo da tradição, mas porque ainda sentem o dever da penitência), Rentes de Carvalho, dizia, perguntava há dias no seu blogue «por onde andará a jovem literatura portuguesa? Porque não há por aí explosões de talento literário?». A pergunta é retórica, claro, doutrinária, idiossincrática, e por isso se apressa a responder a si mesma. Se fosse genuína, poderia responder-se-lhe, por exemplo, com um livro de Frederico Pedreira e outro de Manuel Bivar. Com A Lição do Sonâmbulo poderia tentar referir-se o maravilhamento da toada, sugerir como o ritmo, o timbre, a estrutura, a harmonia, a forma da linguagem ao serviço da evocação da memória podem ainda, cem anos depois de Proust (milhares depois de Homero), e com materiais comuns, combinar-se e produzir novas melodias que nos fascinam como a sonata de Vinteuil fascinava Swann. Com A Charca, por outro lado, poderíamos falar verdadeiramente de explosões, não apenas de talento literário mas também de percepção, da inquietante lucidez de um olhar a partir do mundo rural (mas profundamente contemporâneo e urbano) que, aliás, até se encontra em vários pontos com a visão desassombrada e desromantizada de Trás-os-Montes do próprio Rentes de Carvalho, mas que questiona mais agudamente o mundo do que as pregações de cartilha do Tempo Contado.



domingo, 10 de outubro de 2021

O tempo perdido com Brideshead

Parti para a leitura de Reviver o Passado em Brideshead munido de sólidos e auto-indulgentes preconceitos, como o mais banal dos estúpidos. Tinha de Evelyn Waugh e da sua literatura uma ideia vaga mas satisfeita, desengonçadamente construída de alusões respigadas em ocasionais artigos de jornal, recensões, resumos biográficos ou entrevistas a terceiros, e o único livro que tinha lido do autor (Corpos Vis) confirmara essa ideia, ou pelo menos contentara a sua fraca ambição, como quem julga saciar a fome por ter comido uma vez.

Mas na minha imagem de Brideshead reunia eu outros preconceitos: os referentes ao próprio livro, que imaginava — cumulativamente com ser um texto waughiano — uma Recherche com sotaque inglês.

Assim enchumaçado de ideias feitas, quando terminei de ler a obra, senti-me defraudado, defraudado em todos os meus preconceitos.

Se Reviver o Passado em Brideshead pretendia ser um Em Busca do Tempo Perdido com humor e fleuma, ou lhe faltavam volumes ou eu acabara de ler um resumo para totós, um sumário para leitores sem tempo (esses oximoros viventes), uma versão condensada numa edição da Selecções do Reader’s Digest

Por outro lado, era um resumo que interpretava de forma singular a sua missão selectiva, porque o que eu acabara de ler, além de ser uma coisa abreviada no geral, tinha pouca fleuma e carecia de humor em particular. Ou alguém «cancelara» no digest o estilo do autor ou Brideshead não era, afinal, um livro de Waugh.

Num primeiro retiro espiritual, reconhecendo a cada vergastada auto-infligida que vivia de ideias feitas, achei que a culpa era minha, que estava a reclamar como aquelas pessoas furibundas que não lêem os Termos & Condições e não sabem portanto que o produto de que se queixam é aquilo mesmo e não a ideia que tinham daquilo.
Depois saí do retiro, como quem sai de uma lagarada, a coçar os gémeos arroxeados, e praguejei, damn!, tem de haver mais alguma coisa. Lembrei-me então de um artigo sobre Evelyn Waugh que trazia aberto num separador do Chrome no telemóvel há meses, aguardando uma sala de espera onde o ler. Não esperei por uma sala e li-o ali mesmo de pé no subpalco onde fortuitamente estava (não escolhemos o local onde o destino nos apanha, venha ele sob a forma de farsa ou tragédia, mas no caso até parece).
O artigo era de Rogério Casanova e, sabendo-se que Casanova leu quase tudo o que a humanidade escreveu, a probabilidade de ele ter lido a obra toda de Evelyn e o que sobre ela se disse era grande. Haveria decerto no artigo uma pista sobre aquilo que me angustiava.

Encontrei várias:
«Muita da arte de Waugh é uma arte de lacunas (…)»
«Foi só quando estas lacunas começaram a ser preenchidas [leia-se, com Brideshead Revisited] que surgiram problemas.»
«Onde antes a calamidade era desfeita com frívolos eufemismos, é a frivolidade que agora desperta cadências épicas.»
«Alguém escreveu um dia que Pierre, de Herman Melville, era o pior romance jamais escrito por um autor de génio. Reviver o Passado em Brideshead será, pelo menos, um fortíssimo candidato a disputar a posição.»

O problema de Brideshead não é, claro, ficar aquém da torrente e minúcia proustianas; é, pelo contrário, ir além da forma lacunar de Waugh, perdendo no processo o que tornava a sua prosa especial, aquela «arte da crueldade» que está no título do artigo de Rogério Casanova.

Não tiro conforto de ver as minhas impressões legitimadas pela erudição de Casanova: preferia ter lido o artigo em tempo útil: ou seja, antes de ter pegado na obra mais injustamente famosa de Evelyn Waugh. E só não fico para aqui a lamentar o tempo perdido com o livro errado porque afinal ele fez-me ir ler finalmente o artigo de Casanova, e esse vale sem remorsos a pena.

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Encontram-no aqui: 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Salvar a Europa. E o Mundo.

Com o blogue praticamente parado desde Abril, sinto o peso da responsabilidade na hora de tentar escrever um novo post — e por isso adio sempre esse momento. É um pouco como a humanidade reage a cada novo relatório sobre as alterações climáticas: compreende a responsabilidade que tem em mãos — e adia a década de fazer alguma coisa quanto ao assunto.

O parágrafo anterior forneceu-me em todo o caso o ânimo para arrancar finalmente com um post — e o enquadramento para falar do que na verdade queria falar no post que venho adiando. Que é sobre um livro que à sua maneira (sendo um romance) faz alertas como os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas circunscrevendo-se à Europa e aos malefícios, não das inalações de tabaco, mas do turismo.

Grand Hotel Europa, do holandês residente em Itália Ilja Leonard Pfeijffer, é, como o próprio autor discretamente o apresenta num vídeo para os portugueses, um «grande romance sobre identidade europeia, nostalgia e turismo». Nas suas páginas lemos o que já sabíamos: que os europeus estão a esvaziar de habitantes e a destruir as suas cidades históricas, transformando-as em parques temáticos para turista, sobretudo chinês, ver. Contudo, ao contrário do que acontece com os relatórios do IPCC, não saímos deprimidos das páginas de Grand Hotel Europa, mas satisfeitos, divertidos — e, temo bem, cheios de vontade de nos juntarmos às hordas de vândalos que, visitando-o, destroem o velho e charmoso império europeu. Não houve um dia, nestes meses em que me tentei reconciliar com a vida recordando com prazer o livro, que não me dirigisse com nostalgia e bravura ao armário onde guardo os trolleys e as mochilas — infelizmente sem consequências, saindo dele a apertar de novo frouxamente o robe como uma personagem de Thomas Bernhard, sem que dessa visita ao centro doméstico de logística de viagem resultasse, enfim, um leve aumento da minha pegada ecológica e uns milímetros a mais no ritmo de submersão de Veneza.

No tempo que passou entretanto também queria falar de Grand Hotel Europa porque o narrador desse romance falhado como prevenção do turismo tem muita coisa em comum com o Lúcio do meu romance Os Idiotas: é sarcástico, cheio de si, auto-sabotador e romanticamente tonto como ele. Um é a decadência em pessoa, o outro esmera-se com extravagância no vestir (com alfinete na gravata que lhe circum-navega a barriga e tudo), mas há passagens inteiras de Grand Hotel Europa que poderiam ter sido escritas pelo mesmo tipo que escreveu Os Idiotas. E vice-versa. Com diferenças substanciais nos resultados financeiros, todavia.

Se ganhei uma grande simpatia pelo romance de Ilja Leonard Pfeijffer, ao ponto de vir aqui sugerir a sua leitura, não foi porque achasse que ele escreveu A Montanha Mágica do século XXI, mas porque senti, ainda assim, a alegria dupla de uma literatura contemporânea estimulante e divertida. E porque na altura em que o li também eu andava a escrever um romance com personagens tão conscientes do seu tempo (este) que queriam salvar coisas. No caso, o mundo. Salvar o Mundo. Nada mau como ambição, heim? Já tenho o título, só me falta publicar nos classificados o tradicional anúncio: «Cavalheiro bem-intencionado e sem preconceitos ou posses procura editor/a para relação temporária mas apaixonada de trabalho.»

domingo, 25 de abril de 2021

Dilemas morais que capturam uma mente contemporânea na hora de arrumar livros na estante

Lido com prazer e proveito o primeiro dos dois livros de Linda Boström Knausgård que encomendei* fui arrumá-lo na estante e as habituais hesitações arquivológicas foram agravadas por um dilema, digamos, ético.
O primeiro impulso foi juntar o livro aos volumes de Karl Ove Knausgård, com base em afinidades geográficas e de apelido. Achei desadequado, não tanto porque os Knausgård estão divorciados mas porque aquela arrumação poderia sugerir uma subordinação de uma a outro.
Com isto em mente, lembrei-me de o juntar aos de Siri Hustvedt, uma escritora que não usa o apelido do marido mas que foi durante muito tempo apresentada como «esposa de Paul Auster». Também não me agradou a ideia, porque seria reagir gregariamente, continuando a subordinar a individualidade e o mérito próprio da autora a questões exteriores à obra.
Tudo isto na verdade se passou numa fracção de segundo e foi insuficiente para vencer a inércia do gesto, que ia já a caminho de pousar o livro sobre o sexto volume de A Minha Luta e não se deteve.
Bem sei que ninguém das hostes siamesas do politicamente correcto e do politicamente incorrecto virá fiscalizar-me as estantes, mas não deixei de sentir algum alívio quando me apercebi que entre os Knausgård ficara afinal um outro nórdico, Knut Hamsun, cujo Fome tinha acabado de ler dias antes.

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* Bienvenidos a America, edição espanhola de Välkommen till Amerika

quarta-feira, 31 de março de 2021

Linda Boström Knausgård

Acabei há duas semanas de ler O Fim (sexto e último volume de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård) e de lá para cá andei mais ou menos obcecado em conseguir comprar alguns livros de Linda Boström Knausgård, a ex-mulher do autor e personagem central na obra (a seguir ao próprio Karl Ove).

Terminada a saga do escritor norueguês, senti uma certa desolação, como quando se acaba a tablete de chocolate. O meu sentimento geral em relação à obra não difere daquele que relatei brevemente em Abril de 2019 (link no rodapé), depois de ter lido o quinto volume, mas a verdade é que o desconforto de voyeur que ali refiro se retrai perante a escrita torrencial, magnética, de Knausgård e, suspeito, a identificação que provoca num leitor da mesma geração do autor, como eu.

Neste sexto volume, a relação de Knausgård com Linda, então ainda sua mulher, é a certa altura dominante e é esse tópico que encerra a obra. Parte do ali descrito foi também abordada em Verão, se não estou em erro, um dos quatro livros que o autor escreveu depois de A Minha Luta (e que estranhamente foram publicados em Portugal antes da tradução do volume 6).

Linda, enquanto personagem e enquanto mulher real, causa fascínio, ainda mais quando nos lembramos (e O Fim também ajuda nisso, diga-se) que ela mesma é escritora de mérito reconhecido. Com esta ideia na mente, fui procurar informação sobre os seus livros e acabei a ler entrevistas. Os dois escritores estão há uns anos divorciados (aconteceu já depois de O Fim) e há uma tentação grande por parte dos jornalistas de confrontar Linda com o que Karl Ove escreveu sobre ela e sobre a relação entre eles. Do mesmo modo, os livros de Linda — declarados como romances de inspiração autobiográfica — são inspeccionados à procura de passagens que desmintam Karl Ove. A autora insiste que os seus livros são romances e que não está interessada em mudar a história escrita pelo ex-marido. De resto, e isto é interessante, afirma que A Minha Luta também é ficção. Sabe, diz ela, que «está cheia de descrições cruéis e desnecessárias de pessoas reais», mas considera que «os livros são bons e influenciaram muita gente».

Perante isto, a minha obsessão por encontrar os livros de Linda Boström Knausgård em línguas para mim legíveis parece ânsia de fã de novelas. Em minha defesa, devo dizer que também eu senti, não que as descrições cruéis feitas por Karl Ove eram desnecessárias, mas que teria preferido que houvesse na forma como os volumes foram publicados uma margem de dúvida razoável quanto ao que é biográfico e ao que é ficção, para dispensar o leitor de se sentir cúmplice ou espectador mórbido de passagens por vezes inevitavelmente desconfortáveis (ainda que não maliciosas) para os retratados.

Contudo, não é este o meu ponto na procura dos livros de Linda. Mesmo que não acreditem (e já tenho idade para me estar nas tintas), o meu interesse em outras perspectivas eventuais sobre o universo Knausgård é literário, não melodramático, muito menos bisbilhoteiro. É como se fosse possível dar sequência a uma narrativa que nos fascinou através de outros autores que escrevem sobre o mesmo tema. E como se, além disso, pudéssemos continuar a acompanhar uma personagem que é ressuscitada noutras obras. Depois, há na biografia de Linda aspectos humanos e sociológicos, que inspiraram de facto os seus romances — não necessariamente (ou sobretudo não apenas) relacionados com a intriga e a tensão que foram desenvolvidos nos livros de Karl Ove —, que são de um eminente interesse literário, por um lado, e, por outro, de interesse psicológico, neurológico, científico e social (Linda sofre de transtorno bipolar, como o pai, e submeteu-se a perturbantes tratamentos por electrochoques).

Associando-se a estes motivos de interesse as boas críticas às obras da autora, talvez se possa perceber que tenha optado por encomendar do Brasil o livro A Pequena Outubrista (October Child, em tradução inglesa a publicar em Junho) e de Espanha o anterior Bienvenidos a América. Ignoro se há planos de alguma editora portuguesa para os publicar (a Relógio d’Água, que edita Karl Ove, diz que não os tem e eu digo que é preciso saber perder oportunidades...), mas agora também já não importa, as encomendas estão feitas. É só aguardar. Com impaciência.

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O que escrevi em 2019 sobre A Minha Luta: https://canhoes.blogspot.com/2019/04/eppur-si-muove-alguns-polipticos.html

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O Infinito Num Junco

Uma das muitas coisas de que estou a gostar em O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, é a forma como a narrativa e a estrutura do livro estão por vezes organizadas, não por ordem cronológica ou geográfica, como acontece geralmente com os livros de história ou de divulgação, mas por associação de ideias, por sugestão dos campos semântico ou lexical das palavras.

Agrada-me igualmente a atenção «feminista» que é dada ao tema, procurando e valorizando, sem empolamento, informação que noutros autores ou noutra época passaria despercebida, como por hábito patriarcal as mulheres passavam, mesmo quando o mérito era delas.

Depois de um bom romance de uma mulher (Siri Hustvedt) — e um livro feminista, na verdade —, é agradável ler um ensaio sobre livros na Antiguidade onde as «antepassadas» da escritora americana têm justa presença.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Lamber sabão

Havia quem afirmasse conseguir vender presidentes como quem vende sabonetes. Actualmente, a Bertrand vende, sem ironia, uma «colecção exclusiva» de «sabonetes literários». Pelo seu lado, a Gradiva mostra-se hoje ufana com o «Prémio Cinco Estrelas» atribuído a um seu autor por uma entidade dedicada a «testes e estudos de mercado» e que distingue marcas, personalidades e media.

O autor, adivinharam, é José Rodrigues dos Santos, cujos livros foram submetidos a, perdoem-me a longa citação, «um sistema de avaliação que mede o grau de satisfação que os produtos, serviços e as marcas conferem aos seus utilizadores, tendo como critérios de avaliação as cinco principais variáveis que influenciam a decisão de compra dos consumidores: Satisfação pela Experimentação, Relação Preço-qualidade, Intenção de Compra ou Recomendação, Confiança na Marca e Inovação.»

Com toda a legitimidade, perante uma avaliação assim criteriosa, os fãs do autor já se começaram a manifestar afirmando que, se dúvidas houvesse, ali a está prova definitiva da qualidade literária de JRS.

Eis algumas das primeiras reacções (verdadeiras):
— Parabéns! Caro amigo, nada melhor para calar os invejosos que a realidade deste prémio, e o facto de se venderem milhões dos seus livros. A arrogância dos que se julgam "divinos" cega-os.
— Um prémio bem merecido para calar os que só mostram como são pequeninos face ao êxito dos outros. Somos um povo invejoso.
— Merecido um escritor fantástico.
— Bem merecido. Cala a boca a muita gente.

Como se compreende, seria fútil mandar a tropa acima ir lamber sabão, porque, no que diz respeito ao saponáceo ingrediente, estamos já perante assíduos consumidores e verdadeiros gourmets. Presentes, de resto, como se vê, em toda a linha de produção e comercialização do dito.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Se isto é um Omo: o branqueador de Auschwitz

Há duas teorias sobre a suavização do nazismo que o pivot arvorado em escritor José Rodrigues do Santos operou através de uma entrevista e de dois livros. A primeira diz só isso, que o tipo suavizou o nazismo. A segunda diz que ele fez o que faz sempre que tem livros novos: criar uma polémica forte para vender mais livros.
No primeiro caso, JRS é um revisionista histórico, com um programa promovido sabe-se lá se pelo ego (a vaidade de alegadamente ter descoberto coisas que uma geração ou duas de historiadores não descobriram), se por razões ideológicas.
No segundo caso, trata-se apenas de alguém sem escrúpulos, capaz de tudo para vender mais uns livros.
(Há na verdade uma outra hipótese, que é JRS ser apenas tonto e o mundo mediático que o leva nas palmas não ser mais assisado.)
O meu diagnóstico sobre a criatura em estudo, olhando daqui, é que provavelmente se trata de um compósito, um híbrido que além disso tem um olho-que-pisca, o que não deixa de ser um feito da natureza, se não for um upgrade de tamagotchi.
Isto conduz-nos aos seus leitores. Eles deviam saber que, além de mal entretidos (há muita obra capaz de entreter melhor do que as posturas galináceas de JRS), ao comprar-lhe os livros estão a ser vítimas e cúmplices de rodriguinhos, digamos, pouco santos.
Não faço aqui um apelo à censura dos livros de JRS, mas não tenho nada contra o boicote. O pivot deve ter o direito de escrever as baboseiras que quiser (dentro de certos limites constitucionais), mas os leitores devem ter o direito e a decência de o mandar à merda.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O caso do Wallace desaparecido

Li ontem com gosto Um crime da Solidão — Sobre o Suicídio, de Andrew Solomon, mas cheguei ao fim com uma vaga sensação de ter sido enganado, sem ter logo percebido porquê. Ao revisitar a contracapa antes de pousar o livro tive a resposta.

Já tinha lido vários elogios ao autor mas nunca tinha lido nada dele. Há dias encontrei esta obra por acaso na livraria e pensei «é agora». Reforçou o impulso a informação de que o volume reúne «uma série de textos sobre o suicídio, analisado sempre a partir de uma história pessoal ou de um caso concreto: quer do círculo mais íntimo do autor (...); quer de figuras públicas (…), ou até os de celebridades literárias, como David Foster Wallace ou Sylvia Plath.

Ora, a referência ao caso de Wallace (cujas obras aprecio e por cuja biografia tenho curiosidade) é de facto apenas isso, uma referência. Na página 107, lá está, sem dúvida: «A imagem do suicida literário, do escritor cuja servidão ao ofício pode ser consequência ou causa de mais terrível depressão é recorrente; David Foster Wallace é o último elo dessa triste corrente.» E pronto, termina aqui a participação do autor de A Piada Infinita. Mero figurante.

A obra é pequena, não se estaria à espera de ensaios profundos sobre cada um dos casos referidos, mas, bolas, por que trazer o nome deste escritor para a sinopse se o caso dele nem sequer é analisado? Vício de name-dropping? Para compor o ramalhete? Piscadela de olho a leitores como eu?

De resto, o livro é interessante por si, dispensa o alardear forçado de casos famosos. Contudo, e isto já não será culpa da editora, eu apresentá-lo-ia não como um livro «sobre o suicídio» mas como um livro «sobre o suicídio na sua relação com a depressão». Que é o tema em que Solomon é especialista e a que se dedica sobretudo o último texto desta recolha, o maior.



segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Os Contos Esquivos

Lamentar não ter mais páginas o volume de Os Contos Esquivos (sessenta) poderia parecer uma observação espirituosa de alguém que pretende elogiar o livro, mas é na verdade uma petulância, porque a escrita superior de Ivone Mendes da Silva é muito generosa no que oferece — e perante literatura assim o leitor não tem mais do que ficar grato e humilde.



Mudança de velocidade

Depois de largar o Proust, que acompanhei em viagem de sete meses, um por volume, passei para a escrita estonteante, de velocidade e assombro, d’Os Dias do Abandono (Elena Ferrante). Foi como baixar da sege com vagares de dandy e continuar viagem colado ao assento em comboio de altíssima velocidade. Isto não é um juízo sobre literatura ou a manifestação de uma preferência, mas o relato de acontecimentos factuais. Aliás, o meu espírito consegue dobrar-se em vénia perante catedrais como a de Marcel e tratados de anatomia como os de Ferrante. São muitas as formas da comoção estética.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Elena Ferrante

Se alguma vez Elena Ferrante foi unânime, deixou de o ser. Já há quem se permita trejeitos faciais e tom enfastiado ao ouvir-lhe o nome, quem anuncie só ter lido o quarto volume d’A Amiga Genial porque lhe encostaram uma pistola à cabeça, quem declare, em suma, não perceber tanto barulho por nada. Algumas destas reacções são impulsionadas pela mesma energia que faz mover os fãs de best-sellers, só que engatando em marcha-atrás, como o diabo perante a cruz. O falatório que atrai o voyeurismo inconsequente de uns convoca a snobeira de outros. E tudo isto é previsível e kitsch e um abuso escusado de combustíveis fósseis.

domingo, 1 de novembro de 2020

Marcel

Uma das coisas que me intrigam na obra Em Busca do Tempo Perdido é a importância que o narrador, enquanto personagem, tem para as outras personagens, mesmo quando não se vislumbram particulares razões para isso. Se bem recordo, Marcel (auto-designado deste modo, como que arbitrariamente, uma única vez até perto do final) não pertence à aristocracia, mas a sua família é ainda assim tida em boa conta na «sociedade», que rejeita mais facilmente do que acolhe. Pessoa afável, inteligente, culta, escritor em potência, Marcel é crescentemente convidado para todos os chás e saraus, para quase todos os eventos sociais relevantes, para integrar grupos selectos, mas as atenções que desperta, a marca indelével que deixa nos outros é mais forte do que a que deixaria alguém apenas sociável ou medianamente popular. Como se Marcel tivesse um carisma nunca referido, mas visível nos outros como num espelho.

A meio do último volume, quando o narrador reencontra um Barão de Charlus muito envelhecido e debilitado após ter sofrido um ataque, o Barão aponta uma coluna de publicidade com um cartaz semelhante àquele junto ao qual Charlus estava da primeira vez que ele e Marcel se encontraram. É certo que o «invertido» Barão, que se pusera ali para o engate, chegou a sentir-se atraído por Marcel, mas ele sentiu-se (e sente-se) atraído por todos os rapazinhos com bom ar, e não é credível que se lembrasse, décadas depois, de tais pormenores sobre as circunstâncias em que encontrou cada um deles, ou sequer aqueles com quem conviveu mais tempo.

A cena, que não é a de dois antigos apaixonados a evocarem o primeiro beijo ou o primeiro olhar, é relatada para evidenciar como está intacta, além da inteligência, a memória do Barão, mas parece escrita para fazer notar também como era super-humana a sua atenção aos detalhes. Parece uma inverosimilhança.

Li algures que Proust divide a vida e o carácter do narrador por várias personagens do romance, como Charles Swann e o Barão de Charlus. Isso explicaria que do primeiro encontro entre Charlus e Marcel — o adulto snob e indiferente aos que o rodeiam e o adolescente curioso, com ambição literária e com uma faceta idólatra — não fosse apenas este a recordar-se do cartaz na coluna de publicidade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O tempo baralhado

Acontece-me em certas passagens de Em Busca do Tempo Perdido, em certas frases ou pensamentos que o narrador atribui a título hipotético ou demonstrativo a alguma personagem ou a pensamentos seus, em diálogos que faz consigo mesmo, acontece-me, dizia, aperceber em Proust ecos de Javier Marías. Naturalmente só Marías pode ser eco de Proust e não o contrário, mas, como os li na ordem inversa, é de Marías que me parecem ser tributárias algumas soluções narrativas de Proust.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Cadernos de Bernfried Järvi

Rui Manuel Amaral escreveu um livro precioso. Não só porque é uma maravilha literária mas porque se revela de uma utilidade prática, digamos, se gostamos de assentar em cafés com alguma coisa para ler. Menos (mas também) porque tem uma estrutura narrativa propícia a frequentes levantares de olhos para observação da fauna do que porque nos dá toda a atmosfera dos melhores cafés (ou piores tascas) sem que precisemos de levantar os olhos das páginas.

Postas as coisas assim, poderia parecer um livro para preguiçosos, um substituto de experiências e de ficções pessoais a partir de uma ida ao café. Mas vejam a coisa de outro modo: quantos de nós poderíamos fazer alguma coisa de útil com os cafés que nos calham? Os Cadernos de Bernfried Järvi no limite até nos poupam uma saída de casa, porque ao lê-los somos felizes estando ou não no café. Ao lê-los, somos como o gato de Schrödinger da vida nocturna: eventualmente de pantufas, mas sempre vivos, pardos e vadiando.




terça-feira, 22 de setembro de 2020

Revisitando o passado, com ou sem aliens

Como parte do meu sólido compromisso com a procrastinação e a frivolidade, estive esta noite a ver a comédia The World’s End. O gatilho e cerne da história é simples: Gary King, um alcoólico de 40 anos que não saiu da adolescência, retoma o contacto com os seus quatro antigos amigos e desafia-os para, décadas depois, completarem a «Golden Mile», uma espécie de «rally das tascas» que faz um percurso por 12 pubs da sua cidade natal e pretende terminar, adequadamente, com uma última cerveja no The World’s End.

O que parecia para o meu incorrigível optimismo uma história de reencontros e revisitação do passado sofre a determinada altura um twist e transforma-se numa comédia de aliens, sem contudo perder a energia central: a obsessão de Gary por completar a Golden Mile. Quando poderíamos achar que as dificuldades do percurso seriam as objecções ou a menor resistência ao álcool dos amigos agora «crescidos» de Gary, eis que toda uma comunidade local já por natureza crítica de tal demanda estroina se revela possuída por seres extraterrestres com a pretensão de civilizar e higienizar a vida na Terra.

No final do filme, como tantas vezes me acontece, pus-me a pensar, não no tempo que perdi a ver aquilo, mas nas oportunidades que o filme perdeu. E talvez não tenha perdido nenhumas, mas eu teria optado, para atenuar o sentimento de culpa de o ter visto e quiçá errando clamorosamente, por um novo twist no final que devolvesse o filme à Terra, mostrando que o pandemónio alienígena tinha sido apenas a forma como a mente ébria de Gary interpretara as dificuldades e os obstáculos com que o seu projecto se tinha deparado. (Quem nunca se embriagou ao ponto de sonhar com extraterrestres puritanos não sabe do que falo. Bem, eu próprio não tenho essa experiência, mas imagino-a facilmente verosímil num epílogo cinematográfico.)
No fundo, para defender perante mim mesmo uma reputação de espectador que nunca tive, desejei que o filme tivesse tomado ares de uma comédia «séria», algo entre Os Amigos de Alex e Os Velhos Diabos. O primeiro título é para muitos o arquétipo em cinema desta ideia literária do confronto com o passado (outros preferirão, naturalmente, o não menos etílico Brideshead Revisited). O segundo título é um livro de Kingsley Amis, pai de Martin Amis.

De repente, todas estas referências e mais algumas explodiram-me na cabeça, numa teia de ligações mais emaranhada do que renda do Minho.

Quando há dez anos escrevi o meu segundo romance (Aranda, assente, precisamente, na ideia assaz original de revisitação do passado a partir do convite que um tipo embriagado faz a um grupo de amigos e amigas da adolescência), alguém me lembrou, justamente, Os Amigos de Alex, que eu, sem ter visto, confundia sobretudo com o programa da Renascença FM. Ora, acontece que tinha escrito o livro aproveitando um estado mental que me fora fornecido por A Viúva Grávida, obra passada em 1970 e vagamente autobiográfica de Martin Amis, anos antes de ler Os Velhos Diabos, onde o pai de Martin, ele mesmo o bebedor que se sabe, encena a sua própria tragicomédia de adultos a revisitarem entre copos a juventude perdida (com mais êxito do que eu: ganhou o Booker).

Talvez para aliviar definitivamente a minha consciência e acrescentar ligações maradas a tudo isto, fiquei a saber, depois de consultar a Wikipedia, que o filme Os Amigos de Alex foi escrito por Lawrence Kasdan, que, surpresa, foi também, não sei se alcoólico, mas co-autor de vários dos episódios antigos e recentes da saga Star Wars. Não há, afinal, nada de estranho ou menos válido no facto de The World’s End ter resolvido ser também um filme de aliens: aparentemente os dois géneros podem conviver com sucesso na cabeça de um mesmo autor.

Neste estado de espírito, fui revisitar o meu (e)ternamente inédito Aranda e perguntei-me se conseguiria alguma vantagem editorial (ou, quem sabe, perante a indústria cinematográfica) enfiando-lhe no elenco um par de aliens. O que acham?