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domingo, 24 de julho de 2022

Hotel do Norte revisitado

Rui Almeida, na sua página de Facebook, sobre o Hotel do Norte:

«Estará, neste final de Julho, a completar 46 anos uma das personagens deste romance, 'Hotel do Norte' (Companhia das Ilhas, 2017), de RUI ÂNGELO ARAÚJO, que acabei de ler ontem à noite. Seria fácil nomear o edifício que dá nome ao livro como a personagem principal, pois é a presença permanente em todo o enredo, nos vários tempos distintos em que se desenrola. Mas não: há uma sobreposição das personagens ao espaço, não são apenas figuras a movimentarem-se num cenário – antes pelo contrário, cada uma delas (as seis ou sete que mais importam à história, mas também outras) são pessoas a quem podemos vislumbrar o mais fundo do perfil psicológico, as motivações, as dúvidas, as angústias, os sonhos.
O núcleo temporal da história é 1975 (continuando para o ano seguinte), com a presença no Hotel do Norte de cerca de centena e meia de homens e mulheres vindos das antigas colónias portuguesas, agora independentes – os chamados "retornados". Mas a narrativa desloca-se alternadamente para 2008 e para 1941 (e, apenas uma vez, para 1970), num exercício de apelo à perspicácia do leitor para ir percebendo os pontos de ligação entre eles. Há uma história que é contada, há pessoas, cada uma delas com a sua complexidade, há um cenário que as congrega. Há depois momentos que nos trazem luz a situações que poderiam ser de outro qualquer contexto e passam despercebidas: o racismo quase inconsciente a aflorar de raivas sufocadas; o desequilíbrio nas relações entre homem e mulher, com suas pequenas e grandes violências; a hipocrisia banalizada.
É um belíssimo livro, que se lê com muito gosto, mas que exige disponibilidade para pensar.»

sexta-feira, 24 de julho de 2020

À venda na OLX

Descubro um dos meus livros à venda na OLX (não é a primeira vez). Hesito entre sentir regozijo ou frustração. Opto pelo primeiro sentimento quando vejo que a mesma pessoa está a vender, além de outras coisas, A Fogueira das Vaidades (Tom Wolfe), Com os Holandeses (Rentes de Carvalho) e uma máquina de costura Singer. Depois deprimo, ao notar que na longa lista de artigos só há duas coisas mais baratas do que o meu livro: uma máquina de barbear que «não trabalha» (5€) e uma camisa «tipo ganga» (6€).

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Europa no divã



Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.

Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie

Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.

É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.

Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.

O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.

Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).

Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.

A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.

Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.

O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.

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Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck — Relógio d’Água, 2018
A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Hotel do Norte por Carlos Alberto Machado

Enquanto finjo pensar sobre o que que hei-de-dizer na apresentação aguiarense do Hotel do Norte, no próximo sábado, deixo aqui o texto generoso que o editor Carlos Alberto Machado usou na apresentação na Flâneur.


HOTEL DO NORTE
Breve apresentação por Carlos Alberto Machado
Porto, Livraria Flâneur, 16 de Dezembro de 2017


Este Hotel do Norte, tem, na minha leitura, um olhar sobre o mundo português dos séculos XX e XXI, em particular com a vinda para Portugal, nos anos 1975 e 1976, de centenas de milhar de cidadãos, com bilhete de identidade português, vindos das então colónias, sobretudo de Angola e de Moçambique. Chamaram-lhes, impropriamente, “retornados”, pois uma parte considerável deles só conheciam Portugal de ouvir falar, como se sabe. Hoje, talvez lhes chamássemos refugiados – de guerras, ou de países à beira da falência social, chamemos-lhe revolução. Seja como for, este “tema” dos “retornados” não deve ser esquecido. Adverte, no livro, um deles – o Sr. Beirão, que gloriosamente faz jus ao nome licoroso:

«Não têm nada a temer, a ditadura acabou. O nosso Walter apenas trata de duas coisas: dar continuidade ao livro de registos do hotel e assegurar que a nossa passagem por aqui não será esquecida pelas gerações vindouras. Os outros olhavam-no, ainda indiferentes — conheciam a história. E porque haveríamos de querer que se lembrem que estivemos aqui, fugidos de um problema que não criámos?, perguntava um dos renitentes. Ora, precisamente, aí está um bom motivo, dizia o Sr. Beirão. Se vivemos as consequências de um problema que não criámos, será bom que o país não se esqueça disto, quando um dia nos quiser acusar dalguma coisa. Ou, pelo contrário, se formos nós a querer acusar o Estado de alguma coisa. Ouvi falar que há quem pense em exigir indemnizações e para isso é bom que não nos percam o rasto nem por um dia
[p. 87]

O retorno (ou a fuga) das colónias africanas: um tema que se cola à pele das personagens – e assim não se poderá ler este livro sem ter esse alerta.
Além do Sr. Beirão, outra personagem acima citada, o inquiridor Walter (que é, se não me falhou a atenção, a única personagem que está presente do princípio ao fim do livro). Walter, o do bigode vermelho, é um solitário que «não pensava no erotismo e na religião como opostos: desejava do mesmo modo inofensivo a vida eterna e a satisfação do corpo.» [p. 87] Como disse na sinopse, Walter envereda por uma investigação detectivesca através da história e do rasto ténue que os antigos hóspedes deixaram – desde 1941, quando as termas e os hotéis do parque onde este situa tiveram uma época de algum fausto, embora a saúde fosse então o principal motivo da estadia de famílias burguesas. Quando travamos conhecimento com esta personagem, logo nas primeiras páginas do livro, vemos que ele se irá dedicar, com tenacidade e até teimosia, a reconstituir a vida do hotel (numa inquirição arquivística a partir dos documentos existentes na cave do hotel), desde o meio do século XX (anos 40), até 1975, ano em que ali chega vindo de Moçambique. Esta é a linha principal do livro: a que nos vai mostrando, num vaivém entre a realidade e a ficção, de forma insidiosa, as relações entre “retornados”, as destes com habitantes dos lugares circundantes, e, quem sabe, as de entre homens e mulheres cujas vidas, todos enredados numa trama que o empreendimento detectivesco de Walter ora parece desvendar (aquilo que está por detrás das aparências), ora faz mergulhar a aparente clareza das coisas em estratos de sonho ou de fantasia. E isto não fui eu que descobri. Tenham paciência, por favor, para esta citação, um pouco mais longa:

«A meio da leitura do manuscrito [Leonardo] não estava capaz de decidir se o que tinha à minha frente era material biográfico ou uma ficção.»
[p. 269]

«As histórias da infância estavam registadas em capítulos intercalados, com referência ao tempo presente. Histórias dentro de histórias que narravam os nossos encontros e as nossas conversas com um detalhe inquietante. Era uma sensação bizarra ver-me como personagem de algumas passagens daquele manuscrito, passagens que lhe conferiam absoluta verosimilhança mas que se sucediam a outras que não poderiam ser senão especulação. Por mais que Jorge conhecesse os personagens da sua história (aqui entendida no sentido biográfico) (…) o relato estava construído com um pormenor que apontava para a liberdade literária. As investigações de Walter, sobretudo, não podiam ser outra coisa.
Talvez Jorge tivesse descoberto uma vocação artística tardia e, na verdade, aquele manuscrito na forma de bonecas russas fosse uma tentativa de romance, mesmo que pudesse parecer-se com a sua biografia e ele se servisse de memórias para o compor. Talvez até os relatos que ele me fazia não fossem mais do que testes do valor do material que estava a escrever — muitos escritores liam os seus esboços a um círculo íntimo para avaliar o impacto da obra que escreviam antes de a darem por encerrada e a publicarem. Nesse caso, ter-me-ia Jorge escolhido também para agente literário? Quereria que fosse procurar um editor para a sua obra? Se fosse assim, por que não me tinha simplesmente dito tal coisa?»
[p. 270]

Trata-se aqui de «histórias dentro de histórias», de uma narrativa em «forma de bonecas russas». É este um dos principais, senão o principal, mérito desta grande narrativa do Rui Ângelo Araújo, a mestria com que, sem deixar de nos contar uma estória, várias estórias, nos faz mergulhar numa roda-viva de sensações, em que, em cada nova arrumação dos vidrilhos do caleidoscópio narrativo, nos deslumbra com as suas voltas e contravoltas.
E nessas estórias, enredos, fios narrativos, ancorados em personagens ricas, intensas, com energia, como dizia o poeta Ruy Belo, que o Rui Ângelo tão bem sabe construir, temos os ditos Beirão e Walter, Delfina e a sua mãe e padrasto, de entre os retornados”, e, fora deste universo restrito, o taberneiro Emílio, Eurico e a sua esposa, a “cantadeira” Rosa, um Jorge que se desvenda ao longo do livro em relação psicanalítica com um outro não menos enigmático Leonardo, que surge como um narrador tardio, a Catarina Mendonça e os seus pretendentes, esta Catarina que, no tal clima de deslizamento entre o real e a ficção, ora parece alguém “real”, ora alguém saído da inquirição arquivística de Walter… E há assaltos e roubos, amores e desamores, mortes, incêndios…

E como se tudo isto não fosse razão, razões, muitas, para ir a correr comprar e ler este Hotel do Norte, há outras razões: como já disse um crítico encartado, este romance é «um belo exercício de escrita» e o seu autor «mostra aqui, na sequência do que já havia feito anteriormente, que é um excelso prosador.» E eu estou em pleno acordo com o crítico.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O meu livro menos meu

Consultando arquivos para tentar anotar meia dúzia de ideias para a apresentação vila-realense do Hotel do Norte, descubro, com embaraço, que, desde 2014, ameacei com alguma regularidade editar o livro por mim mesmo. Era decerto a ânsia juvenil (retardada) de me ver publicado, a vaidadezinha pateta a exigir um tributo em letra de imprensa. Pelos vistos, a edição de Os Idiotas no ano anterior não me tinha satisfeito completamente o ego.

Na verdade, a auto-ironia anterior, ainda que justa, não expia totalmente aquela espécie de bluff. O Hotel do Norte era uma coisa que trazia atravessada na garganta. Quando o escrevi, em 2009, estava decidido a purgar-me do que tinha sido a minha escrita na Periférica. Mais precisamente, estava a tentar dar uma outra respeitabilidade a prosa. Por alguma razão, não me convencia ou confortava o (relativo) reconhecimento que os textos na revista, satíricos e geralmente pueris, tinham alcançado.

Ao longo dos anos, o Hotel do Norte tornou-se por sua vez a minha némesis. Já tinha entretanto escrito e publicado Os Idiotas (o livro em que me reconciliei com a prosa periférica), mas a sombra do Hotel do Norte pairava sobre tudo. Os amigos que leram ambos os livros mal disfarçavam a sua preferência pelo Hotel do Norte. O Rentes de Carvalho, que nesta livraria apresentou em 2013 Os Idiotas, fê-lo apenas como pretexto descarado para dizer que, na verdade, mais valia que se lesse o Hotel do Norte.

De modo que, de 2014 em diante, precisava de me livrar do fantasma do Hotel do Norte. Eu não estava convencido do interesse deste livro. De vez em quando, nos momentos de maior presunção, alimentado por um ou outro comentário positivo, sim, sentia certo regozijo por o ter escrito, mas logo descia sobre mim a verdade nua e crua de que o romance era medíocre, ou pelo menos ingénuo e com um estilo que era menos meu do que o que estava presente nos outros livros que escrevera.

Em 2015 escrevi e publiquei a novela A Origem do Ódio, com uma construção, uma fluência, um ritmo prosódico, um léxico, uma sintaxe e um território semântico que achava mais meus. Mas, de novo, frequentemente a novela tornava-se sobretudo pretexto para evocar o Hotel do Norte.

Eu tinha mesmo de me livrar dele, para deixar viver os outros livros e me lançar a escrever os próximos.

Por isso, foi com um certo alívio que acordei com a Companhia das Ilhas a edição do Hotel do Norte em 2017. E finalmente aí está ele, «um dos romances do ano», considerou simpática e exageradamente um jornalista — talvez na verdade apenas para me manter sob o embaraço do meu livro menos meu.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O Hotel na Flanêur

A apresentação do Hotel do Norte na Flanêur correu bem, já que perguntam, mas percebemos que andamos a falhar a vida quando autografamos os nossos livros com gesto mecânico de amanuense, evitando por pouco acrescentar o número de funcionário à assinatura.

Ao simpático e generoso Carlos Alberto Machado coube o elogio póstumo da obra e eu justifiquei-me mais ou menos como se segue:
«A escrita deste romance, Hotel do Norte, partiu de algumas das coisas que me fascinaram (e fascinam): edifícios antigos abandonados ou em ruínas, os “retornados” ou refugiados dos anos 70 e 80, a infância e a adolescência em qualquer das suas fases. 
1) Sempre que olho para um edifício antigo, seja onde for, ponho-me logo a imaginar moradores e histórias. Se o edifício estiver abandonado, o fascínio aumenta, porque o abandono remete-me para histórias de época, estimula exercícios arqueológicos e sobretudo acrescenta mistério. Geralmente quero visitar estes edifícios, independentemente do seu estado de ruína, e muitas vezes faço-o. A imersão física exacerba a imersão psicológica. É como subir a serras para ver a paisagem ou caminhar pela areia a olhar o mar: uma experiência sensorial e emocional.No território das Pedras Salgadas e Vidago, onde vivi até pouco depois da tropa, havia suficientes ruínas cheias de história e mistério. Hotéis, casas de chá, um ou outro pequeno palacete (aos nossos olhos), pequenos edifícios de apoio às estâncias termais, todos a ameaçar ruína e com a patine de uma época áurea, algumas décadas de glória, algumas gerações de visitantes que gravaram ali memórias e mitos de exuberância e cosmopolitismo. 
2) Os “retornados” ou exilados de África entraram na minha vida quando começava a fazer uma ideia do que era o mundo, mas na verdade eu nunca soube quem eram aquelas pessoas que nos anos 70 se tornaram meus vizinhos. Os que tinham a minha idade, e se tornaram meus colegas, eram crianças como eu, ainda com poucas memórias: a condição de “retornados” era um pequeno exotismo que logo se diluiu nas aventuras comuns, e mais importantes, que vivemos durante o crescimento. Dos adultos, que experimentaram com todas as dores e faculdades e puderam intelectualizar a experiência do “regresso” (que em tantos e tantos casos não era regresso nenhum), eu pouco sabia. Nomes, características físicas, um ou outro tique, pouco mais. Talvez um pouco mais, mas esse pouco foi-se perdendo numa adolescência e juventude com outros horizontes e interesses. 
3) A infância e a adolescência em si mesmas, sem hotéis em ruínas ou novos vizinhos africanos, são um território de fascínio e mistério inesgotável. Se não houvesse mais nada sobre o que escrever, haveria as memórias de infância — que são, como se sabe, a nossa maior ficção. Ninguém, nem nós, sabe exactamente, com rigor histórico, o que aconteceu na infância, na nossa e na dos que nos rodearam. Todas as tentativas que fazemos, orais ou escritas, falham um pouco ou muito e, para compensar, ficcionam alguma coisa, senão tudo. Simultânea e paradoxalmente a infância, a nossa infância, é o tema que melhor conhecemos. Daí tantos autores não conseguirem evitá-la. 
O romance nasce então destes três fascínios — e procura juntá-los numa narrativa coerente e numa intriga funcional. É uma história a três épocas — 1941, 1975 e actualidade —, como matrioskas russas, que vive, talvez como boa parte da literatura, de combinações de realidade e ficção, memória e fantasia, verdade e mentira, tanto num sentido diegético como exegético.
Um dos protagonistas de 1975, talvez para evitar viver a sua época, mergulha numa investigação detectivesca sobre uma personagem de 1941, a partir dos arquivos documentais e fotográficos do Hotel — e com esse misto de arqueologia e efabulação se conta a história de Catarina. O narrador de 2008 fala da sua infância, talvez por catarse, talvez em busca de uma justificação. Entretanto, estes protagonistas vivem e relacionam-se com outras personagens — e o livro também trata disso, dessas vivências, e das restantes personagens, com os seus próprios pedaços de vidas e memórias, e das ligações horizontais e verticais entre todos.
Só que o Hotel do Norte já não existe fisicamente. E a sua demolição torna ainda mais difícil ou especulativo ou inverosímil qualquer exercício memorialístico que as personagens, os narradores ou o autor tenham feito.»

sábado, 9 de dezembro de 2017

Flâneur

(clique)

A 16 de Dezembro vou flanar pelo Porto com o Hotel do Norte na bagagem e o Carlos Alberto Machado por companhia. Das Ilhas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sábado à quinta

A revista Sábado traz o Hotel do Norte na sua edição de ontem. Um texto de Gonçalo Correia.

(Clique para ampliar) 

sábado, 7 de outubro de 2017

Negócios

O Hotel do Norte tem uma generosa recensão na edição de ontem do jornal 'Negócios', assinada por Fernando Sobral.

(Clique para ampliar)

Também pode ser lida neste link: http://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/em-busca-do-destino

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PUB

O Hotel do Norte vai debutar na Festa do Livro em Belém no dia 22 de Setembro. Nuno Costa Santos, escritor e guionista, tem a gentileza de o apresentar e Marcelo Rebelo de Sousa empresta o quintal.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PUB


Nas livrarias a partir da segunda semana de Setembro. Edita gentilmente a Companhia das Ilhas. Stay tuned for more updates.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Nostalgia da prosa inútil

Nos últimos três anos, tirando a inesperada interrupção para escrever e publicar A Origem do Ódio, a minha relação com a escrita tem sido distante ou indiferente. A vida prosaica impôs-se-me, para regozijo da troika, e o tempo não me chegou para muito mais do que fracassar a gerir o equilíbrio entre frustrações e realizações profissionais (como acontece com provavelmente a maioria das pessoas que não ganham o euromilhões nem um lugar de CEO).
Não é esta a única, mas é uma das razões porque se editará em finais de Setembro, não havendo contratempos, o Hotel do Norte, romance que já por aqui foi várias vezes mencionado e que, passe a publicidade, sucederá Os Idiotas e a atrás referida novela.
Talvez ter um novo manuscrito impresso e encadernado seja o estímulo necessário para tentar combater o vício do trabalho e o que ele tem de amanuense. É que, apesar de tudo, sabia melhor varar as noites a tentar compor frases sem qualquer utilidade prática.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Silvano, o profeta

«Há um profeta no Seixo, disse Eurico, levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa. À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação (estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo, como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir, dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»

in Hotel do Norte

quarta-feira, 18 de março de 2015

Gostava do tic tic tic tic da tesoura

«Aparava o cabelo de quinze em quinze dias e escanhoava a barba todas as manhãs, bem cedo. Por vezes, se ia haver baile à noite no Casino, ou algum sarau de nota no Hotel, passava novamente ao final da tarde na barbearia para que lhe fosse devolvida a face macia. Não adivinhava quando o destino lhe iria conceder a possibilidade de aproximar a cara ao rosto de uma mulher, mas ia querer estar prevenido. O bigode, encostado ao lábio superior e cortado à escovinha, era também alvo do seu zelo e da dedicação profissional do barbeiro. Nunca lhe passou pela ideia rapá-lo, como alguns faziam, embora em certas alturas se pusesse ao espelho a imaginar o que aconteceria na hora de beijar. Pelo sim, pelo não, escolhera um modelo curto e mantinha-o sob vigilância da tesoura.
A natureza favorecera-o, cedo deixara de ser imberbe e a vasta pilosidade tinha crescimento rápido. Isto causava os seus incómodos, perdia muito tempo no barbeiro. Mas sentia-se viril e, como sabia escolher bem o artífice, raramente dava por perdidas as horas dedicadas ao apuro da fácies.
Os outros homens da família tratavam do aprumo recorrendo aos serviços que o Hotel do Norte proporcionava. Ele não lhes seguia as pisadas, não nesta matéria. Descobrira muito cedo a barbearia na saída norte do Parque, ainda pela mão do avô materno, que tinha as suas excentricidades e gostava de confraternizar com a população local. Mesmo que com o crescimento viesse a distanciar-se das ousadias do avô, não mais esqueceu o caminho daquele pequeno estabelecimento de uma só cadeira, e logo que teve autonomia decidiu que trataria ali do aspecto.
Não saberia explicar por que e não se questionava. No Hotel havia talvez uma partilha excessiva de intimidades, eram aviados aos três em frente ao mesmo espelho corrido e nas cadeiras de espera ficavam todos os outros a olhar. Ali, na barbearia do bairro, havia aspectos mais deploráveis, claro: a clientela não era selecta, acorriam também agricultores e operários, com pescoços surrados e doses de piolhos. Mas ele não conhecia ninguém e os outros, pelo contrário, sabiam muito bem quem ele era, cedendo a vez, desfazendo-se em vénias e ademanes, mantendo distância e guardando silêncio sempre que ele entrava e abanava o rosto com o chapéu, para afastar os cheiros.
Nunca confraternizava com os nativos. A barbearia esvaziava-se, ainda que ele pressentisse através da porta os olhares tímidos e reverentes do outro lado da estrada. Aguardava que o barbeiro espanasse com esmero a cadeira e, mal se sentava, lembrava-lhe a necessidade de passar os instrumentos pelo álcool uma segunda vez. Depois relaxava e entregava-se às mãos compridas, ossudas e experientes, sentindo um enlevo que o tornava dócil, manietável, paciente. Regia com uma ponta de desconsolo à notícia de que o serviço estava pronto e encontrava sempre um reparo a fazer que lhe permitia um encore na prestação do mestre.
Gostava do tic tic tic tic da tesoura no ar à volta da sua cabeça, das poses do barbeiro, pernas flectidas, braços levantados, a olhar a obra de diversos ângulos, directamente e no espelho. Por cada estocada no cabelo a tesoura repetia meia dúzia no vácuo, em preparativos sonoros, aquecimento de atleta antes do salto. Ele aprovava este método perdulário, jamais censurava o desperdício de energia e a lentidão, entregava-se-lhe. O espanador no rosto e no pescoço a seguir ao corte causava-lhe volúpia, e depois abria com prazer os braços para que lhe fosse escovado o fato.
Tinha vinte e seis anos e nunca beijara uma mulher.»

in Hotel do Norte (2009)

sábado, 13 de dezembro de 2014

O primeiro murro e os seguintes

«Não visitei o quarto senão quando o Hotel era uma ruína sem ponta de nobreza, disse eu a Leonardo. Não que eu concordasse que nobreza teria sido um termo adequado para caracterizar aquele edifício, pese embora o facto de alguma nobreza nacional ter em tempos ali pernoitado. Mas a decadência tem o poder de exaltar o que a antecede, disse eu, e nas madeiras apodrecidas, nas paredes esburacadas, no mobiliário despedaçado podia imaginar-se um luxo ou pelo menos uma distinção maior do que aquela que na verdade existira.
Durante muito tempo não soube que intuição me levara àquele exacto compartimento e depois descobri que a intuição nada tinha a ver com o assunto. Em 1998 eram ainda visíveis as marcas claras dos calendários na parede (ou eu imaginei que aquilo eram marcas de calendários) e o crucifixo de madeira preta permanecia, tutelar, na parede onde se encostara a cabeceira da cama. Depois o Hotel do Norte foi demolido e o espaço que ele ocupava no chão entretanto nivelado era ridiculamente pequeno, parecia impossível que naquela reduzida clareira do Parque pudesse ter existido semelhante edifício e que por ele tivessem passado tantas épocas e tantas vidas.
Leonardo permanecia atónito depois da nossa aventura no clube de jazz. Tínhamo-nos escapado sem qualquer problema, mas abandonáramos o corpo inanimado de Octávio e eu sabia que isso iria pesar na consciência dele, mesmo que nos tivéssemos certificado, à distância, como malfeitores compassivos ou arrependidos, de que os amigos dele o tinham enfiado numa ambulância não muito depois da minha agressão.
Ter imaginado que estes acontecimentos me iriam deixar sem interlocutor (que importância tinha a minha história perante a enormidade daquilo que Leonardo e eu fizéramos?, era isto que Leonardo estaria a pensar naquele momento) fez-me desejar acelerar o relato, saltar etapas, chegar ao seu término, mas logo percebi que era uma coisa estúpida de fazer. Aquilo não podia ser varrido para debaixo do tapete, ignorado como mais um incidente numa noite excessiva de copos, nem sequer sepultado debaixo da torrente de revelações que eu reservara para Leonardo naqueles últimos dias, dez anos depois da minha primeira partida. Ele olhava para mim e — eu percebia — continuava a ver-me erguer o postalete e a fazê-lo descer sobre a cabeça de Octávio, felizmente sem usar a circunferência aguçada da base. Se fosse um dos seus próprios pacientes, Leonardo ter-se-ia aconselhado a afastar-se de mim, pelo menos enquanto não conseguisse ultrapassar o trauma, resolver o impasse existencial, moral, em que se afundara. Mas eu não era apenas parte do problema, ou nem sequer era o problema. Leonardo precisava de mim para se ver a si próprio a perder o juízo. Eu era o espelho, era mais fácil ver-se reflectido em mim de navalha na mão prestes a consumar uma loucura. Se tivesse de pensar sobre isto a sós — o que decerto também faria: à noite, na cama; durante a curta viagem de carro para o consultório; nos únicos momentos em que eu o deixava sozinho —, talvez não tivesse coragem de o fazer, pelo menos não profundamente, não tão cedo, não sem se socorrer de uma boa dose de whisky. A minha presença solicitava o que de racional e profissional havia nele, mesmo que desta vez a vocação tivesse de ser posta ao serviço da sua auto-análise.
Eu queria ajudá-lo forçando a normalidade. Estava de regresso à cidade para lhe contar a minha história e era isso que iria fazer, já que nada tinha acontecido — queria eu que parecesse, queria eu que fosse verdade — que impusesse uma mudança de planos. Mas daquela noite em diante tivemos de lidar também com a presença opressora dos fantasmas de Leonardo, que disputavam aos meus o espaço sofisticado do seu gabinete, ou todos os outros sítios por onde andámos.

A primeira vez que desejei enfiar um murro na cara de alguém, disse eu a Leonardo, não estava convencido, por razões físicas e morais, de que o podia fazer. Ignorava a extensão da minha força por nunca a ter verdadeiramente posto à prova e inibia-me o excesso de doutrina católica. Temia que um murro não fosse suficiente e eu não fosse capaz de sustentar a briga ulterior, mas temia ainda mais que o Céu estivesse de facto a observar-me e fosse testemunha da minha iniquidade. Fingia então indiferença, superioridade, desprezo. Passei a fazê-lo com demasiada frequência, ignorando o quanto era acreditado naquele meu papel (embora, no íntimo, supusesse que pouco: não poderia transmitir esses sentimentos, ou a ausência de sentimentos, uma vez que o que sentia era raiva, impotência, desejo de vingança). Eu lia algures que uma pessoa podia transmitir beleza, se se sentisse bela, ou confiança, se se sentisse confiante. O carisma, recitava de cor depois de ter lido, era algo químico, como o odor que os cães pressentem quando não conseguimos conter o medo. Mas eu sentia medo e raiva e ressentimento, como poderiam os outros ignorá-lo? Não agredia a murro todos aqueles que injustamente me incomodavam — o preto era também um medroso —, mas os meus pensamentos apresentavam um currículo de serial killer, ou pelo menos de alguém demasiado violento, incapaz de conter a cólera. Foi a consciência de que, para todos os efeitos, eu era um pecador, que me era impossível não transgredir em pensamentos e, consequentemente, impossível evitar o Inferno, que me fez entrar numa nova etapa da minha vida. A lógica infantil moldada pela catequese salvou-me, embora não da maneira que os catequistas desejariam. Convenci-me, por volta dos doze anos, de que era um pecador reincidente e que não tinha grandeza bastante para a redenção, já que não conseguia arrepender-me de cada maldade que pensava. Se havia uma paridade entre os actos e os pensamentos, por que me continha eu?
Quando a ocasião se proporcionou de novo, disse eu a um Leonardo enfraquecido mas ainda capaz de atenção, tinha-me livrado do obstáculo moral e desenvolvera uma estratégia para evitar a briga que consistia em dar o primeiro murro — e dar também todos os seguintes, numa sucessão e ritmo que imobilizasse o adversário antes de ele ter tempo de reagir e notar que era mais forte. Jogávamos futebol. Ou jogavam os outros, e eu limitava-me a sonhar que em algum momento poderia ser chamado a substituir um dos da nossa equipa (fazia figas para que alguém se aleijasse o suficiente para ter de sair do campo). Estava de pé junto à linha imaginária que delimitava a área de jogo quando um rapaz mais velho, que não jogava, se aproximou pelas costas e me puxou os calções até aos joelhos, perdido de riso e a gritar para as raparigas que assistiam envergonhadas se era verdade ou não que também a minha pila era preta.
Por segundos que me pareceram eternos, fiquei ali com os calções em baixo a sentir a maior humilhação da minha vida. Depois, baixei-me para os puxar para cima e com o mesmo movimento apanhei um pau do chão e atirei-me com ele para cima do tipo que me fizera aquilo. Não parei de lhe bater enquanto não houve sangue e quando terminei já não sentia raiva nem sentia nada. À minha volta todos estavam parados a olhar, sem decidirem o que fazer. Eu tinha sido o ofendido, era meu direito retaliar, mas na sua apatia eles pareciam buscar uma razão para se lançarem em grupo sobre mim. Abandonei no mesmo momento o jogo em que não participara e abandonei a obsessão em sentir-me injustiçado, rejeitado. Dali em diante seria verdadeiramente capaz da indiferença, do desprezo, não raro da superioridade. Passei por eles como numa despedida, a aguentar os seus olhares confusos e nervosos, vazio de sentimentos e estados de espírito.
Terminei a história sem convicção, não estava convencido de que as coisas se tinham passado assim, de que aquele tinha sido um momento inaugural ou sequer que tivesse existido. Por vezes, imaginava a minha biografia, ou alguns episódios dela, como uma ficção que eu próprio reescrevia de acordo com uma disposição posterior. Leonardo deve ter percebido esta hesitação e interpretou-a como se eu estivesse a tentar algo para o confortar, a inventar uma parábola, uma coisa que relativizasse o seu acto e lhe apontasse pistas sobre como lidar com ele e com o futuro, se acaso Octávio recuperasse com vontade de continuar a sua saga importunadora. Talvez fosse assim de facto, talvez esta história não fizesse parte da narrativa inicial que eu tinha para Leonardo e a tivesse inventado no momento, para ele e para mim, como uma forma de lhe ser útil.»

in Hotel do Norte

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Tudo o que era certo e errado

«A minha mãe nasceu num casebre com piso de terra e duas divisões, numa das quais vivia o gado, uma vaca e um burro — suponho que há pouca originalidade nisto, disse eu. Jantava com Leonardo num restaurante novo e gastei pouco tempo a estudar o espaço, um japonês de asséptico minimalismo. É fastidioso tentar perceber o que cresceu mais depressa, continuei, se a família se o número de animais, mas ainda que ambas as expansões denunciassem uma certa prosperidade, isso não aproximava a infância dela dos padrões mínimos de conforto que hoje reivindicamos, nem acrescentou compartimentos à casa, à excepção de um telheiro sem paredes. Com oito anos e três irmãos mais novos viu-se investida de responsabilidades maternais e mandada diariamente para os montes atrás de uma pequena manada de vacas indolentes. Não sei se há um momento limite para a salvação — se decidirmos considerar que retirar alguém de um mundo rústico daqueles salva —, mas o resgate da minha mãe aconteceu talvez um pouco tarde, deixando-a num limbo entre duas existências. Não era demasiado tarde para alguma escolaridade, mas havia já uma vida de memórias indeléveis, todas efectivamente marcadas na pele.
Leonardo estava a gostar do peixe cru; eu aproveitava a minúcia que os hashi permitem para debicar como alguém devoto de uma filosofia ascética. Andei muitas vezes pelo território onde ela guardara gado, disse, mas só no fim senti ter incorporado um pouco daquela experiência. Faltava-me, claro, a herança genética, e de todas as versões da história a única que me penetrou com força foi a última, quando ela se despiu de vaidades, de vergonhas, quando deixou de interpretar ou justificar a sua própria vida e, solicitada pela velhice, apenas reviveu, com distanciamento, ou talvez com alegria feroz, um conjunto de factos.
Creio que há uma certa justiça na senilidade, dei por mim a dizer, em algum momento as pessoas deveriam sentir-se livres para falar de si próprias e das suas vidas sem o peso da moral. Claro que a minha mãe acreditava na vida depois da morte e por sua vontade deixaria as confissões e os ajustes de contas para o outro lado ou para a sua antecâmara, mas por vezes a biologia antecipa o alívio. A degenerescência convidou-a a esquecer a religião e a tomar as coisas pelo lado físico, brutal, que elas tinham representado para si. A destruição dos neurónios começou por aquele punhado deles que se ocupava das conveniências.
Também para mim era uma experiência inesperada, disse eu a Leonardo. Um ano antes de ela morrer, era uma outra mulher aquela que eu levava a revisitar a aldeia na montanha onde nasceu. O exercício do dever filial há muito deixara de ter significado para mim, mas de repente aquilo revelava-se algo diferente. Tomava-a pelo braço e sentia uma corrente de afecto, uma vontade de a abraçar e de a beijar, o que passei a fazer com uma frequência que não punha em prática desde a infância.
Também eu, por razões diferentes, tinha entrado num estado amoral, ou pelo menos associal. Vais-me censurar por dizer isto, disse a Leonardo, mas tive uma espécie de flirt com a minha mãe nos meses que ela levou a morrer. Era algo que não nos estava vedado, não éramos consanguíneos, não havia nenhum tipo de jurisdição sobre nós que não fosse pura convenção, e a isso já não ligávamos, enlaçávamo-nos apenas, nas encostas da sua infância, ela a achatar camadas de memórias e eu, galante, ao serviço da rapariga em que ela se transformara.
Dançávamos, porque, ao mesmo tempo que recordava cada uma das vacas que pastoreara, lhe vinham memórias de bailes em que não participara, ou que aproveitara pouco. A dança era, aliás, logo a seguir ao canto, uma parte fundamental da sua existência, dizia-me ela e dizia eu a Leonardo. Achava-se uma tola por algum dia ter sentido timidez, ligado às conveniências, dado prioridade aos deveres. Havia um filme, como se chamava?, dizia a minha mãe, em que uma moça bonita cantava e dançava nas montanhas da Suíça. Eu sabia que era na Áustria, Música no Coração, mas que importavam estas clarificações quando me podia limitar a rodopiar com ela nos braços, bebendo da sua felicidade, zelando para amortecer as suas quedas?
Ali em baixo, dizia a minha mãe à vista das ruínas do casebre onde crescera, ali em baixo não viviam pessoas, viviam animais. Não digo isto com mágoa nem nostalgia. Era assim. Éramos assim. Agíamos por impulsos e necessidades, como o gado do outro lado da parede. Quando vi o meu primeiro lobo, aqui mesmo onde estamos, senti medo, claro, ia nesse sentido a escassa instrução que tínhamos, mas também me achei em pé de igualdade com ele. Durante toda a vida pensei nestes encontros como se fosse uma pobre criança indefesa à mercê de uma fera sem compaixão, mas ultimamente vejo as coisas de outra forma. Sabes, dizia a minha mãe e repeti eu a Leonardo, acho que agora me lembro melhor de tudo. Eu não ficava petrificada, nem os lobos estavam convencidos da sua superioridade. Medíamo-nos com respeito e curiosidade, muita curiosidade, e depois eu pensava que tinha de proteger as vacas, que tratava pelo nome próprio, e de me salvar de uma sova em casa: pegava em paus e pedras e gritava-lhes, aos saltos, como aqueles chimpanzés da televisão. Podes-te rir, não me envergonho da comparação, eu era pouco mais do que uma macaquinha, trepava às árvores e nadava nua no ribeiro — depois é que tive de aprender tudo o que era certo e errado.»

in Hotel do Norte

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Confidencial

Porque as coisas são o que são e porque esta noite me visitou o espírito carrancudo mas empreendedor do Torga, comunico aos que se interessam que editarei por mim mesmo, num qualquer dia solarengo, o Hotel do Norte e o Aranda. Não prometo é que esse dia esteja perto (e com isto não estou a ser um céptico do aquecimento global). 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cansado da guerra

Furtei-me ao dever (as Metamorfoses de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pedras Salgadas: futuro e memória


As ecohouses de Pedras Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas, inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se… ao arvoredo do parque.

As ecohouses precisam de um cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações 3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era bonito antes de as casas existirem. Na verdade, o sucesso das ecohouses das Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente protegidos.

Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses. Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso. Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as duas actividades são incompatíveis.

Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista, se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago Palace Hotel, ali ao lado.

No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um futuro digno da sua antiga glória, é proteger o património, como fez com as ecohouses (e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória. Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e eventualmente lucrativos.

Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo, revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra, ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as demolições.

O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um “turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora, estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir, como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los, dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.

Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso património e do nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma torneira em frente à entrada.