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sexta-feira, 24 de junho de 2022

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição»

No trecho que transcreverei abaixo, poderão ler Mark Fisher (em 2014, creio) a constatar como a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu as artes da fruição. Reparem que Fisher falava de música e de dança em discotecas — imaginem o quão comprometida está a fruição de outras artes. Hoje ninguém senão Fisher ou os semelhantes que lhe sobreviveram (alguns dos quais são leitores redundantes ou autores igualmente improfícuos de posts como este) sequer percepciona como negativas as «exigências incessantes das comunicações digitais».

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição» é portanto um bom epitáfio colectivo. A colocar na vala comum desta era.

Aqui fica a citação:
«Há que lembrar que, segundo Berardi, estamos tão assoberbados com as exigências incessantes das comunicações digitais que nos sentimos demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição — as excitações têm de vir de modo hiperbólico, sem chatices, para que possamos voltar rapidamente a ver o e-mail ou as actualizações nas nossas redes sociais. As observações de Berardi podem oferecer-nos uma perspectiva das pressões a que tem sido sujeita a música de dança na última década. Ao passo que a tecnologia digital dos anos 80 e 90 alimentou a expectativa colectiva da pista de dança, a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu-a, conseguindo até pôr os frequentadores de discotecas a verificar os seus smartphones. (“Telephone”, de Beyoncé e Lady gaga — que coloca as duas a implorar a alguém que está a ligar que pare de as chatear para que possam dançar —, parece agora uma derradeira tentativa falhada de manter a pista de dança a salvo da intrusão comunicacional.»*

* Fantasmas da Minha Vida, 2020, pp.265 e 266, VS Editor, tradução de Vasco Gato.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Pensar e agir fora da caixa de supermercado

(A propósito de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa?, de Mark Fisher)

O que há de escusado ou até patético em enfiar um melão ou um cacho de bananas dentro de um dos sacos de fina película plástica transparente que os supermercados disponibilizam em abundância aos seus clientes é menos perturbador do que o que revela da existência pavloviana que o capitalismo reserva às pessoas. O apocalipse ambiental é uma realidade ao virar da esquina; os muitos loucos ou fanáticos religiosos que durante décadas ostentaram cartazes a dizer «O fim do mundo está próximo» tinham provavelmente razão, apenas não foram suficientemente perspicazes ou precisos quanto às causas.
E contudo o problema é muito menos o uso desnecessário, desmesurado e nefasto de sacos de plástico para enfiar artigos que deles não necessitam do que a longa cadeia de gestos irreflectidos onde ele se insere.

As secções de fruta e hortaliças apresentam dispensadores de sacos em lugares estratégicos e o cliente dirige-se-lhes mecanicamente, sem se questionar, numa coreografia de gestos pré-determinados. A mesma coreografia que o pôs sem hesitações, com uma eficácia comportamental que poucas campanhas estatais logram obter, a pesar a sua própria fruta e a registar as suas próprias compras, ignorando que isso é sintoma de uma de duas formas de automatização levadas a cabo pelas empresas para reduzir os custos com trabalhadores e aumentar lucros: a automatização tecnológica e a automatização do cliente. Ambas as formas de automatização se inserem na recusa paradoxal da promessa com cem anos de que o futuro e a robotização nos libertariam do trabalho, nos devolveriam o tempo. O que acontece é o contrário: a evolução tecnológica não nos reduziu a semana laboral (nem nos aliviou da chantagem moral inerente à suposta realização do homem pelo trabalho — «Arbeit macht frei», não é?) e fez-nos entregar gratuita e voluntariamente tempo e serviços às empresas que investiram em tecnologia.

As considerações anteriores surgem-me após a leitura de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa? (2009), de Mark Fisher. Diz o autor, e todos o sabemos já, que «as alterações climáticas e a ameaça do esgotamento dos recursos estão a ser, mais do que recalcadas, incorporadas na publicidade e no marketing». Contudo, isso não significa que o capitalismo actual tencione, de forma alguma, fazer o que quer que seja quanto ao problema. É só uma demonstração da sua «plasticidade» (no sentido de maleabilidade). Segundo Fisher, uma das características principais do realismo capitalista (o suposto «realismo» é o artifício intelectual a que o capitalismo recorre para que o consideremos insubstituível, inevitável) é a sua capacidade de condicionar «os horizontes do pensável e, por isso, do possível». Precavido, o capitalismo não ignora os problemas e não hesita em subordinar-se «a uma realidade infinitamente plástica, capaz de se reconfigurar a qualquer momento». Mas fá-lo para garantir que as «zonas culturais» alternativas ou independentes «não designam algo exterior à cultura dominante; ao invés, são estilos, os verdadeiros estilos principais, aliás, no seio da cultura dominante».

Em rigor, ao contrário dos autoritarismos históricos, o capitalismo aceita que as mais diversas entidades, concretas ou abstractas, sugiram às pessoas o que fazer e como se comportar perante novas tendências e desafios — mas apenas se desse comportamento resultar a manutenção ou o reforço do statu quo económico e social. Com efeito, o capitalismo apressa-se frequentemente a ser pioneiro na «aceitação» dos novos tópicos, mas estabelece de imediato os limites da discussão, fingindo-se «realista».

Com uma estrutura funcional muito próxima da de uma religião ou de um estalinismo de aparência amigável, o realismo capitalista tem os seus dogmas e, claro, os seus zelotas. São eles que estabelecem que «dizer às pessoas como perder peso ou como decorar a casa é aceitável; mas reivindicar qualquer tipo de progresso cultural é ser opressivo e elitista» (p. 108). Sem o saber, ecoei esta frase de Fisher em dois textos, de 2011 e 2014, respectivamente. No primeiro*, observei como a direita neoliberal, fingindo recusar todas as formas de proselitismo televisivo (ou seja, de opressão elitista), foi na verdade permitindo um doutrinamento de massas não menos opressivo e particularmente imbecilizante. No segundo **, levei mais longe o raciocínio para sugerir que o Estado, assustado com a mera e impensável possibilidade de promover qualquer forma de elitismo cultural, se deixou sequestrar por uma ideia falsa de liberdade ou democracia, conducente na prática a uma mediocracia (na acepção pejorativa). Exactamente porque o realismo capitalista permite todas as formas de moralismo excepto o questionamento da sua própria validade moral.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Problemas do teatro em Portugal

Raramente falo aqui de assuntos da minha área profissional, mas desta vez reincido, por mera irritação. O encenador Jorge Silva Melo (que também aprecio, já agora) tem-se queixado com frequência das curtas digressões dos espectáculos em Portugal, e isso é triste, de facto. Mas o lamento vem de quem em simultâneo assinala que, de Agosto até à data, andou por onze teatros (onze!). Não é assim tão pouco, acreditem. Talvez por isso o foco desse post do encenador, que podia apenas ter celebrado o feito, se virasse para outra questão: a magna desfaçatez de «apenas» quatro directores (que identifica) desses onze teatros terem ido falar com a companhia (ou com ele, não sei bem). «Vergonha», «falta de respeito» foram os expectáveis (e talvez esperados) comentários ao post.

Ora, eu pensava que o respeito se manifestava de muitas maneiras possíveis e que as hierarquias e embaixadas diplomáticas se reservavam para rituais protocolares. Há alguma falta de dignidade em ser uma companhia acolhida por empenhados técnicos e produtores — e pelo público de uma cidade? Está o director de um teatro, para além das suas específicas funções profissionais, imbuído de alguma dignidade que os seus colegas na equipa não tenham?

Já lá vai o tempo em que a chegada à província de uma companhia ou de uma diva de Lisboa era acolhida pelas autoridades civis, eclesiásticas e a fanfarra dos bombeiros, se não houvesse regimento militar nas proximidades. Os verdadeiros problemas do teatro em Portugal são mais prosaicos e contemporâneos.

sábado, 30 de outubro de 2021

«O tempo da tirania dos programadores»

A meio de uma conversa com interesse para quem tem curiosidade pelo mundo das artes performativas em Portugal o coreógrafo Paulo Ribeiro, que aprecio, disse uma frase que o JN, não escapando ao zeitgeist, usou como título da entrevista: «Vivemos o tempo da tirania dos programadores». A dramatização excessiva do tópico, o impulso para criar um sound bite, é, portanto, do jornal. Imagino que a expressão não pretendesse lançar um anátema sobre todo um conjunto de pessoas com circunstâncias, trabalho e sensibilidades diferentes, mas a frase feita título junta-se a outras afirmações igualmente negligentes que a espaços são proferidas na esfera pública, como aquela de igual teor que num célebre programa de televisão a meio do ano passado uniu figuras tão improváveis como Maria do Céu Guerra e Álvaro Covões, com a aparente aquiescência de Graça Fonseca. Merece por isso uma reflexão.

Lê-se na entrevista que os programadores, quiçá «insensíveis», são uns tiranos porque na sua maioria «não respondem», deixam que as ideias se vão «desmembrando na sucessão dos pequenos poderes» (de que vivem reféns, pode presumir-se) e «cometem o erro da voragem» da descoberta de novos talentos. É curioso que em geral os novos talentos, quando têm a sorte de ser entrevistados, se queixam da escassez de oportunidades — e é com estas e outras peças que um programador tenta quotidianamente montar um puzzle. Porque um programador, quando empenhado no seu ofício, tende a ser um laborioso montador de puzzles, de quebra-cabeças constituídos por peças abundantes e multiformes, irrequietas, nem sempre facilmente discerníveis e que não raro se atraem e repelem de moto próprio.

De acordo com um texto da Espaço Público, associação profissional de programadores, o programador cultural é um «mediador» que trabalha «no cruzamento das esferas cultural, social, estético-criativa, comunicacional, económica e política» e opera a dois níveis ou assume duas funções: «como canal entre o campo da produção artística e o da recepção cultural (os públicos) e como facilitador ou intérprete nas relações entre as comunidades artísticas e as entidades tutelares dos espaços ou projectos».

Na verdade, a minha opinião é que um programador é alguém sobretudo condenado à frustração. Não é um frustrado, como na literatura se diz sarcasticamente que um crítico é um escritor frustrado. Alguns programadores desenvolveram em algum momento eles próprios experiências criativas ou artísticas, mas a sua frustração não vem projectada de um putativo fracasso dessas experiências. A frustração vem da inerente, inexorável, inevitável incapacidade de se dar por satisfeito e de satisfazer plenamente os outros com o seu trabalho. Não é apenas a impossibilidade notória de fazer a quadratura do círculo quanto a acolher os interesses dos diferentes artistas e públicos, é sobretudo a frustração, mais dolorosa, de não ter recursos, calendário e por vezes público suficientes para produzir um ciclo de programação capaz de reunir todas as ideias e propostas que a dado momento transbordam da sua carteira de projectos a considerar.

É que, independentemente do que pensa o país mediático e o público absentista, e do que pensam os criadores uns dos outros, Portugal (que também tem muitas estruturas de criação supérfluas ou medíocres e quem exija veementemente um lugar para elas), Portugal tem nas mais diversas áreas artísticas uma boa quantidade de criadores de talento e com projectos merecedores de palco — mas não há um único espaço de programação que seja capaz de apresentar todas as propostas merecedoras dele. Quando alguém se queixa de que os programadores «não respondem», esquece-se certamente desta realidade e do esforço desmesurado que é exigido a um programador para corresponder a todas as solicitações.

Programar é, é claro, seleccionar, mas é também, portanto, ter de lidar com a mágoa de deixar de fora. Programar é mais sobre incluir do que excluir — a exclusão não é algo a que um programador se dedique, muito menos por sadismo, travessura ou tédio. Um programador, quando entusiasmado com a função, não ocupa o seu insuficiente tempo a decidir quem fica de fora, mas (com uma alegria que não afasta a insatisfação e a tristeza pelo que se perde) a escolher (nas circunstâncias e com os meios que são os seus) quem entra. E o contentamento pelo que consegue incluir no programa é breve, porque logo regressa a melancolia de saber que o seu é um trabalho de Sísifo e que nem sequer consegue rolar o raio da pedra até meio da encosta.

Dada a aparente impossibilidade de os programadores deixarem de parecer «tiranos» aos olhos de quem não é programado — aos olhos de quem, no seu próprio momento de frustração, é por vezes incapaz de uma visão holística do panorama artístico —, o que fazer? Derrubar o «tirano»? É uma hipótese que perversamente me atrai, devo dizer. Mas parece pouco sensata. De uma forma ou outra, a polis há-de seleccionar, escolher. Não o fazer, é entregar ao acaso as decisões, ou, coisa ainda mais arriscada, é entregar as decisões a outras formas de tirania, porventura mais viciosas ou ainda mais exclusivas, menos preocupadas em garantir possibilidades de escolha ao público. A busca do graal da imparcialidade (que no fim da jornada resulta, na verdade, no acriticismo e na aleatoriedade) seria talvez obtida substituindo-se nos espaços culturais a figura do programador pela do recepcionista, um digno amanuense como os que, nos consultórios, atendem os telefones e respondem aos e-mails, preenchendo os buracos da agenda por ordem de chegada dos pedidos de marcação. Claro que desta forma, como sabe quem passa pela experiência de marcar consultas no SNS, cada artista, como cada cidadão, arriscar-se-ia igualmente a ter de esperar meses ou anos pela sua vez de ser atendido — e em geral sem a alternativa de um sector privado. E a quem atribuir nessa altura culpas pelo infortúnio? Ao amanuense? Ao sistema? À vida, talvez.

Abdicar tão-só da mediação, como descobrimos dolorosamente com a desvalorização do papel da imprensa no mundo actual, não é a fórmula mágica que cria mais espaço para a qualidade.


P.S.: Sei que outros experimentam sentimento idêntico, mas este não é um texto corporativo, apenas a expressão, de resto desnecessária e vã, de um homem e as suas circunstâncias.

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A entrevista do JN:
https://www.jn.pt/artes/paulo-ribeiro-vivemos-o-tempo-da-tirania-dos-programadores-14220416.html?fbclid=IwAR2FCzVCPfwPqTpLcPeXJ0nIPstWXb56rG4vn3HMRKCYcJQnUR6Aoc_elkM

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Venda de livros

A decisão de autorizar a venda de livros é elementar. A decisão de as livrarias continuarem fechadas é… característica. Em Portugal os governos não pensam ser necessário ter uma política de cultura e do livro e por isso têm por ministério da área uma repartição que se ocupa do despacho e é vagamente instruída para deitar como puder, preferencialmente sem despesa, água na fervura do sector. O ministério da educação, por sua vez, especializa-se em assobiar para o lado, não vá alguém querer implicá-lo nisto dos livros.

A nação, que há muitos anos não tem um governo capaz de perder um minuto do seu precioso tempo a olhar para a arbitrariedade instalada com o acordo ortográfico, não era agora que ia ter um disposto ao exercício de imaginar a venda de livros em tempos de cólera.

De resto, a dica do presidente sobre este assunto deve ter caído no conselho de ministros como mosca na sopa, uma contrariedade, a excentricidade de um ex-vendedor de enciclopédias a que havia contudo que dar alguma atenção não fosse o homem indispor-se quando se tratasse de temas sérios.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Fonte de discórdia

A narradora do romance Recordações do Futuro, de Siri Hustvedt, defende — como de resto a própria autora na sua vida real — a tese, assaz plausível, de que aquela que os especialistas consideraram a obra de arte mais influente do século XX, a célebre Fonte atribuída a Marcel Duchamp, foi na verdade uma criação da artista e poeta avant-garde e dadaísta Elsa Hildegard ou Baronesa von Freytag-Loringhoven.
O que acho irónico nisto não é haver um equívoco associado à peça que inspirou uma longa série de equívocos na arte, mas ver uma parte da comunidade que validou a ideia revolucionária e transgressora de “arte conceptual” ser hoje potencial veículo da perpetuação de um sentimento reaccionário: o patriarcalismo.
Explico melhor: a ironia não vem da resistência que especialistas oferecem à sugestão de que há uma autoria diferente e feminina para A Fonte, mas da possibilidade que se abre de vermos detractores habituais da arte conceptual tornarem-se de súbito acérrimos defensores do legado de Marcel Duchamp.

domingo, 15 de novembro de 2020

#ACulturaÉSegura

Nas livrarias, o risco de apanhar covid folheando livros é irrelevante, excepto nas prateleiras do top e dos destaques, onde raramente há literatura.

sábado, 30 de maio de 2020

O calcanhar de Aquiles de Pacheco

O ódio antigo de Pacheco Pereira à cultura contemporânea, que amalgama de forma voluntariamente ignorante e preconceituosa, é incompreensível e desolador em alguém estimável como ele.
O blogue Ouriq explica por que é infame o artigo que Pacheco escreveu hoje no Público:

«Os ignorantes filistinos e alguns dos muito cultos sofisticados que se dedicam à preservação do património cultural têm um ódio de estimação comum: os artistas contemporâneos. Os primeiros acham que a arte só deve vingar se tiver valor comercial e os segundos imaginam-na como um passatempo de aristocrata ou burguês endinheirado. Há uma regra que me parece muito válida: sempre que pessoas com características opostas estão de acordo relativamente a um tema que não é consensual, detectámos um caso complexo. A crónica de hoje de Pacheco Pereira é infame porque se percebe que o seu principal interesse não é ajudar os feirantes mas atacar os artistas, esses subsídiodependentes. Fazê-lo num momento de crise profunda, que se anuncia prolongada, e quando o ministério da cultura está nas mãos de alguém incapaz e sem peso político, foi uma verdadeira sacanice. Foi também bastante estúpido, porque muitos artistas contemporâneos dão trabalho a pessoas — penso nos roadies dos cantores, por exemplo — que, pela actividade precária, itinerante e sazonal, e ainda o desprestígio social, são tão "ignorados" e tão "invisíveis" como os feirantes que o cronista usa para atacar os artistas. "Mau trabalho", Pacheco, muito mau trabalho.»

Ouriq:
https://ouriquense.blogs.sapo.pt/tiro-aos-artistas-em-tempos-de-crise-924308

Artigo de Pacheco Pereira:
https://www.publico.pt/2020/05/30/opiniao/opiniao/ignorados-invisiveis-1918665

sábado, 25 de abril de 2020

O livro e a cultura

O editor e escritor Francisco José Viegas alerta há muitos anos, e com lancinante razão, para a tristeza trágica de termos um país sem uma política «favorável à criação de leitores e à circulação do livro». Fá-lo, por vezes, e é pena, opondo ao do livro outros sectores culturais onde a «incúria ou a indiferença» dos poderes será menor. Aconteceu de novo no artigo que escreveu esta quarta-feira no Público.

Defendermos que o livro e a leitura precisam de ser a grande prioridade de qualquer política cultural não nos devia tornar insensíveis a outras áreas. Por isso, a recorrente alusão de FJV ao sector do «espectáculo» com um certo tom de menosprezo compreende-se mas a generalização implícita e injusta desilude quem o lê e partilha as suas preocupações, fazendo temer uma mundividência algo truncada.

Julgo que concordamos que um dos grandes equívocos desta era, que perverte o apoio às artes, é tomar-se também como «cultura» actividades que com maior honestidade e proveito público se catalogariam de forma diferente. Manifestações, por exemplo, do domínio do mero entretenimento, em que sobretudo a moderna música popular é pródiga. Esta promiscuidade terminológica deixa sequelas legislativas e constitui a antecâmara de certa permissividade institucional na utilização discutível de dinheiros públicos, contribuindo, por isso, para a má percepção ou mesmo o antagonismo de alguma opinião pública.

E contudo uma parte do mundo do espectáculo, aquela que se refere por exemplo ao teatro e à dança e seus cruzamentos, padece de problemas análogos aos do livro. Também esta área, quando não coincide com o «espectáculo» no sentido superfluamente festivo e sobretudo decorativo a que Viegas alude, carece de uma política favorável à criação de público e à circulação de produções. Infelizmente, o sistema político e social vigente opera aqui do mesmo modo que expressa esta passagem essencial do artigo de FJV:
«“de cima” […] nunca vem um exemplo capaz de levar mais pessoas a ler, a querer ler ou a sentirem que a leitura é um importante instrumento de conhecimento e de diálogo com o passado e com o futuro, e também de elevação individual e participação na vida comunitária».
Experimente-se substituir na frase anterior, para alargamento da ideia e não como oposição a ela, o campo semântico da «leitura» pelo do «teatro» e compreenderemos como um dos problemas estruturais da cultura no país é, de facto, «a indiferença e a incúria», mas também o desdém ou mesmo a hostilidade, de diferentes poderes políticos e económicos.

A cultura, do livro ao teatro, tem demasiadas vezes essa função, nem sempre involuntária, de pin de lapela e item de checklist inofensiva ou politicamente correcta. É usada por dirigentes ou entidades como berloque em eventos auto-promocionais e exibida depois, com a aposição de um diligente visto burocrático, numa lista de pequenas penitências ou obrigações a que o moderno líder político não julga poder escapar — embora também nunca lhe ocorra ter nada de importante a fazer com ela.

No fundo precisamos de CEOs e de líderes e representantes políticos (no caso não demasiado provável de ainda termos onde os escolher) capazes de darem o exemplo a partir «de cima», capazes de adoptarem como lema para si mesmos e para as instituições que dirigem (a começar pelas televisões de sinal aberto e pelas grandes editoras) o slogan da RTP2: «Culta e adulta». Culta no sentido antigo de se ter mundo e leituras e adulta não no sentido de liberdade para a pornografia mas de fim da idade parva.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Da pandemia à utopia

Aquilo a que por estes dias se chama «cultura» tem tantas facetas, abrange sectores e géneros tão variados, grupos artísticos e sociais tão distintos, classes profissionais tão diversas, escolas de gosto, tribos e gerações tão irreconciliáveis, é um tal saco de gatos, em suma, que fazer um festival «de música» para ajudar só podia espoletar mal-entendidos e controvérsia, gerar invejas e ódio, como de resto sempre geraram todos os programas de apoio às artes, da Grécia ao Covid-19, passando por Florença.
Talvez, por isso, como alguém já disse, «a resposta para a dificuldade dos trabalhadores desta área» (como para a dos taxistas, por exemplo) «tem de vir da Segurança Social e não do Ministério da Cultura», que só por equívoco semântico tem sede no Palácio da Ajuda.

Já a resposta para a «cultura» propriamente dita, em tempos de pandemónio ou não, tem de vir da sociedade civil. Uma coisa é a sobrevivência física ou digna de pessoas, outra é a sobrevivência das artes que elas praticam. E as artes só sobrevivem se a sociedade civil as procurar, as frequentar, as reclamar — e aceitar pagar por elas, directamente ou via impostos (a forma moderna de mecenato). Mais do que sermos entretidos em casa (quem é que raios na civilização ocidental não se preveniu com livros para um tempo assim!?), do que precisamos agora é de planear um futuro onde a Segurança Social ainda existe e não abandona ninguém e o Ministério da Cultura é relevante na sociedade que teremos então. A quarentena como revolução silenciosa; da pandemia à utopia, enfim.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Artes, públicos, apoios


A propósito do debate gerado por nova falha de mais um modelo do apoio às artes performativas em Portugal — com manifestações de solidariedade mas também de inveja, com indignações ao rubro pela escassez do apoio e indignações não menos afogueadas por o Estado ainda se dar a esse luxo claramente acima das nossas possibilidades e interesses —, relembro um texto de 2014, publicado aqui no blogue. Pode ser lido neste link: http://canhoes.blogspot.pt/2014/06/deixem-o-pimba-em-paz-as-artes-e-o.html

Se tivesse tempo (e ânimo) desenvolveria melhor uma ou outra ideia, corrigiria uma ou outra passagem, acrescentaria outras reflexões, dados (e culpados). Sobretudo corrigiria, com matéria adequada, o tom pessimista, que hoje, passados quatro anos e várias experiências vividas, sei não ser uma inevitabilidade. De forma nenhuma.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Best-sellers à portuguesa

Não vi nenhum dos filmes da trilogia Balas & Bolinhos — mas apenas porque não calhou (no que se refere a cinema sou muito diverso e laxo na disposição). Li porém com curiosidade uma entrevista do realizador, que agora lança Bad Investigate, por causa da frase em destaque no jornal: «Ando com este saco de pedras às costas por ter levado pessoas às salas de cinema.»

Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.

Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.

Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»

Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.

Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»

Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.

(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Elbphilharmonie x Cineteatro Capitólio

Hamburgo tem uma nova sala de ópera e isso é um dos argumentos que servem a Luís Naves para, num post do Delito de Opinião, ridicularizar o ranking das cidades europeias no domínio da cultura e da criatividade que coloca Lisboa à frente da Cidade Hanseática.
A capital lusa, pelo seu lado, vai reabrir uma das antigas salas do Parque Meyer, consagrando-a a «música*, humor e cinema».
Ninguém estava (infelizmente) à espera que no Parque Meyer se abrisse uma sala de ópera, tanto mais que a exploração do espaço em causa, o Cineteatro Capitólio, foi posta a concurso. Só em sonhos mais delirantes do que os do ranking produzido pela União Europeia um espaço posto a concurso para exploração privada teria como vencedor um projecto dedicado à música clássica. Assim em Portugal como decerto em Hamburgo.
A nova ópera alemã — presumo que Luís Naves se refira à Elbphilharmonie — custou, à boa maneira portuguesa, quatro ou cinco vezes mais do que as primeiras estimativas, sofreu atrasos embaraçosos e a sua exploração, hélas!, não foi entregue a privados. É que, ainda que certamente haja na Alemanha mais amantes de ópera do que em Portugal e a melomania privada tenha ali mais recursos do que na ocidental praia lusitana, a ópera é um prazer caro e não rentável.
Civilizada, culta e rica, a Alemanha não deixa, naturalmente, que considerações sobre os gastos públicos** privem uma cidade de uma nova ópera.
Em Lisboa, contudo, orçamentos municipais mais apertados estimulam outras soluções. Confia-se que empresas privadas consigam dinamizar uma sala de espectáculos da cidade — sem encargos para a Câmara, com proveito para os munícipes e, fazem-se decerto figas, sem prejuízo para o concessionário.
Não se pode censurar a vencedora Sons em Trânsito por propor «música, humor e cinema» para o Capitólio. E nem é justo acusá-la de oportunismo por utilizar como referência a localização e o patrono do espaço (Raul Solnado) para balizar preventivamente o «humor» que o Cineteatro acolherá. Os restantes candidatados não tinham como apresentar proposta essencialmente diferente — e programações culturais mais abrangentes e diversas, que incluam música clássica, dança e teatro, não são privatizáveis. Nem em Lisboa nem em Hamburgo. As cidades que se querem afirmar por esta via “culta” ou têm a sorte de ter no seu território teatros financiados pelo Estado Central ou reservam verbas no orçamento municipal. Não há outro caminho: os apoios de empresas nacionais dão, no máximo, para mais um redundante festival de Verão.


* Sobretudo pop/rock, naturalmente.
** Mesmo que auxiliados por investimento privado na parte comercial do projecto.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A salvação é possível, irmãos!

Apesar do nome, Salvador Sobral não vem redimir anos de indigência televisiva. Mas, ah, sabe bem esta pausa na nacional e proverbial pimbalhice! A estratégia de Nuno Artur Silva (de que já aqui falei) foi recompensada e veio relembrar a condescendência, a indiferença, o niilismo ou a cobardia de sucessivas direcções editoriais das televisões, pública e privadas. Sim, a popularidade é possível por outras vias.

A ironia de sempre é que as televisões são por natureza máquinas de popularizar e, quando, inseguras, incompetentes ou cínicas, baixam a sua bitola ao nível da miséria intelectual, popularizam lixo. Décadas de irresponsabilidade institucional fizerem crer que a única forma de comunicar esteticamente com as massas era através da mediocracia artística. Mas eis que o país, um país maior do que as habituais bolsas de resistência cultural, se mostra capaz de apreciar e amar uma boa canção, mais devedora ao jazz do que à fórmula habitual de encher as insuportáveis e itinerantes chouriças de sábados e domingos à tarde.

Ainda não será desta que as populações se revoltam contra a imagem que a televisão faz delas, mas talvez fique um pouco mais evidente que aquela imagem é, antes de mais, o espelho de quem faz televisão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»

Li este título do Público e achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes, dificilmente chegarão para um único Inverno.

Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de uma iniciativa para a promoção da leitura.

Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e nem sequer toda a música.)

É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa, escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social ou anti-moderna que ler é.

O Público dá esta notícia pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas como a noticiada pelo Público. Mas não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência ou vocação pessoal — e apesar do país em que vivem.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Enologia da arte

A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.

Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

DG Artes (2)

De resto, a própria DG Artes chumbaria com facilidade se fosse julgada pela sua perspicácia e competência planificadora e administrativa. Há dez anos que ignora a existência de uma rede de infra-estruturas teatrais no país — e ajuda assim alegremente a que uma parte delas vá deixando de ter como prioridade a arte e se dedique ao folclore revivalista e salazarista dos anos 60. Depois de ter aprovado (com excessiva magnanimidade e displicência) um conjunto de obras, o Estado foi incapaz de implementar uma rede nacional de teatros. Mas o certo é que ela existiu (com absoluta informalidade e voluntarismo autárquico, e com deficiências estratégicas e artísticas graves, claro). Contudo, a DG Artes não mudou a sua lógica de funcionamento, como se vivesse num mundo à parte (talvez viva). Quando resolveu criar há dois anos a modalidade de Apoios Tripartidos (companhias / DG Artes / administração local), numa lógica aparente de descentralização e de criação de redes regionais, fê-lo, por exemplo, sem uma palavrinha aos teatros municipais que operam no território, muitos deles substituindo-se ao Estado central na prestação de um serviço regional (supra-municipal, portanto, mas com orçamento municipal). Eu sei que é custoso um tipo levantar-se da cadeira para conhecer o território de um país, mas a Secretaria de Estado da Cultura e a DG Artes não deveriam ignorar que têm interlocutores in situ.

A lógica mangas-de-alpaca da DG Artes

Com a sua lógica de mangas-de-alpaca, a Direcção-Geral das Artes acaba de recusar a admissão a concurso de alguns dos bons projectos artísticos portugueses e, simultaneamente, de admitir outros de interesse menor.
O rigor teutónico e kafkiano do processo administrativo foi a forma que a DG Artes encontrou de eliminar à cabeça uma boa parte dos candidatos, aproximando-se deste modo mais facilmente das suas quotas — sem ter de reflectir sobre arte ou interesse cultural. Tanto assim que a sua recusa é (ou pretende ser) definitiva, contrariando, de resto (se não ilegalmente, deselegantemente) toda a normatividade do procedimento administrativo. No stress de chegar ao fim do labirinto do Minotauro você trocou o nome de um ficheiro e fez o upload errado? Azar, a DG Artes não condescende nem lhe dá possibilidade de provar que tem o documento certo.
Seguindo os critérios da DG Artes, não é um cenário impossível ver o território português daqui a uns anos com uma razoável cobertura de experientes administrativos — e deserto de arte.
Não se veja aqui a apologia do desleixo ou da incompetência administrativa. É claro que as companhias devem prestar contas e devem gerir com rigor e parcimónia os dinheiros públicos. Mas é também evidente que devem continuar a ser… artistas. Se a arte fosse o mais importante para a DG Artes, o seu concurso dava naturalmente possibilidade de supressão de lacunas, de correcção de documentos, como qualquer repartição menor do Ministério das Finanças o faz. Aplicasse multas, por exemplo, mas não excluísse com uma frieza de autómato. O quadro técnico e político da DG Artes pode não gostar de artes — mas devia saber que está ao serviço delas.

P.S.: Também há bons projectos admitidos, a frieza de autómato permite-o, ainda não chegámos à fase do cinismo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Referências culturais

Notar a frequência com que os meus escritos evocam banda desenhada, música pop, cinema ou livros pouco recomendáveis remete-me para a pergunta certeira que Nuno Costa Santos faz no Marginal Ameno
«como é que alguém com 40 anos pode criar hoje — nas escritas, nas representações, nas artes em geral — fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.»

Na verdade, e não desfazendo, não andamos assim tão longe dos helenistas e dos latinistas de gerações anteriores. Eles evocam As Metamorfoses e nós Asgard, versão Marvel. Eles falam da Odisseia de Homero e nós da saga sobre a ascensão e queda do Daredevil, por Frank Miller. Somos todos bons rapazes, amantes de seres fantásticos e aventuras. Uns, nostálgicos de canções napolitanas, outros, de 16 Lovers Lane. No fundo, ninguém sai da adolescência, tenha ela como referência a Renascença ou os eighties.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Bombos

[Para os patriotas que se entusiasmaram com o post anterior]

Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque, não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.


P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer relevância musical.