quarta-feira, 20 de maio de 2026

No prelo

No final de 2020, talvez estimulado pela experiência do confinamento, concorri a uma bolsa de criação literária. A ideia era conseguir tempo e um compromisso para escrever alguma coisa de maior fôlego, em modo de dedicação exclusiva, ou quase.

Várias coisas correram mal: a DGLAB só me conseguiu arranjar seis meses (em vez de o ano inteiro que eu ambicionava); a dedicação quase exclusiva foi, como não podia deixar de ser, uma miragem (seria preciso mais do que uma sabática para me afastar do trabalho); na ponta final do manuscrito adoeci.

Apesar de tudo, o romance — ou a versão possível do projecto inicial — ficou concluído. E na gaveta.

Os anos passaram: havia no livro — entre imperfeições — uma opção de casting que me incomodava; o conceito de reescrita, que se impunha, atirava-me para o sofá e não para a secretária; o impulso de publicar primeiro o Aranda, velho romance enjeitado, ganhou forma e depois esvaneceu-se; no seu lugar veio, e depois foi-se, a intenção de publicar uma colectânea de contos; até que, no final de 2025, um pouco por piedade, passei de novo os olhos pelo manuscrito.

Ou porque tinha bebido nesse dia ou porque os novos comprimidos que me prescreveram têm propriedades que favorecem o optimismo e a indulgência, senti de novo carinho por aquelas páginas e até encarei com um certo ânimo a ideia de reescrever algumas delas. O que fiz. Sem exageros de dedicação, claro está.

O resultado vai agora para a tipografia, numa edição que não é bem de autor, mas quase, para não comprometer muita gente.

Chama-se Salvar o Mundo, mas não promete nada.

Em breve darei mais notícias e anunciarei aqui o site onde podem fazer encomendas. Não espero outra coisa da vossa parte, de resto.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Liberdade, marca registada

Ontem o algoritmo mostrou-me uma garrafa de Água das Pedras com um cravo vermelho dentro. Por uma fracção de segundo senti um orgulho bacoco, por ver o nome da minha terra associado ao 25 de Abril. Logo sacudi a cabeça e substituí aquele pensamento atávico por uma racionalização do olhar: as marcas associam-se às datas festivas para se promoverem. Certamente não seria a única a fazê-lo com o 25 de Abril.
Não verbalizei esta afirmação, mas o algoritmo, como o deus católico, agora também lê os pensamentos e de imediato aquela sessão de scroll transformou-se num desfilar de marcas usando a ideia de liberdade para sugestões comerciais mais ou menos subtis: diferentes tipos de bebidas, supermercados, computadores, bancos, comida, material de escritório. Em menos de cinco minutos, sem pesquisar, surgiram-me dez imagens publicitárias que guardei no telemóvel nem sei bem para quê.
No final deste episódio, dois sentimentos antagónicos, um optimista e outro pessimista, se digladiaram em mim: se tantas empresas encontram utilidade comercial numa associação ao 25 de Abril, é porque uma larga maioria de consumidores vê a data de forma positiva. Mas, se nos lembrarmos de como o capitalismo incorpora, mastiga e regurgita as ideias políticas e as dissensões sociais, transformando-as em moda, style ou meros hábitos frívolos, percebemos que os consumidores não vão desatar a fazer revoluções e a exigir liberdade e democracia — como no Natal não se tornam verdadeiramente boas pessoas. O mais que farão será usar em Abril cravos ao peito, como em Dezembro usam barretes de Pai Natal ou chifres de rena e na Páscoa se vingam no folar de um jejum que não fizeram.
Sim, a liberdade de Abril não é uma marca registada do PCP — mas, se não houver nada de novo debaixo do Sol, corre o risco de ser uma marca registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Qué frô?

Ontem havia celebração e distribuíam-se cravos e um pequeno grupo de indianos (ou nepaleses ou bengalis) veio também buscar o seu e juntou-se ao povo em festa.

No 25 de Abril e na vida toda a gente humana quer frô e liberdade, por mais que isso custe aos fascistolos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ventura para tótos

Num comentário em defesa de Ventura, leio:
«Falar em rever a constituição é antidemocrático? Não há nada que ele [Ventura] defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos. Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?»

Estas três frases são um condensado da argumentação pró-Ventura nestas eleições. E são indistintamente proferidas por apoiantes ingénuos e militantes manipuladores, sendo os primeiros geralmente vítimas intelectuais dos segundos.

Desmontemos as frases para elucidação de uns e denúncia de outros.

«Falar em rever a constituição é antidemocrático?» Não, não é. Mas querer revê-la para a tornar não democrática é. E é isto que está em causa: os objectivos concretos do Ventrulha, já por ele enunciados em diferentes momentos, e não um exercício abstracto ou retórico de mero debate filosófico.

«Não há nada que ele defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos.» Mentira. Muitas das coisas que ele defende e afirma, se postas em prática, transformam democracias em regimes iliberais, como a Hungria e os Estados Unidos de hoje, regimes que ele publicamente admira.

«Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?» Esta é mesmo para rir. Por definição, os tiranos estimam muito a sua própria liberdade e proíbem-na aos seus povos. Trump, que Ventura elogia, viveu os seus quase oitenta anos em democracia e isso não o está a impedir de instalar um regime autoritário (ou mesmo fascista) no seu próprio país.

Em suma, para se fazerem respeitar intelectualmente, os seguidores “distraídos” de Ventura deviam instruir-se — e, consequentemente, mudar de campo. Os seguidores esclarecidos, se deixarem de ser dissimulados, mostram pelo menos coerência — mas respeito não têm como ganhar. Não pode ter respeito quem propaga ódio e venera escroques.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

João Miguel Tavares não é atrasado mental

No seu último artigo no ‘Público’ João Miguel Tavares indigna-se por Sérgio Sousa Pinto considerar atrasados mentais aqueles eleitores que não vêm «um perigo imediato em André Ventura, mas sim no Partido Socialista».

Diz JMT: 
«Sousa Pinto defende que a memória dos anos 1930 nos deve lembrar o que a extrema-direita é. Certíssimo. Mas… e a memória dos anos 2005 a 2011? Essa não conta? Não merece reflexão histórica?» 

Depois acrescenta: 
«Sérgio Sousa Pinto recua cem anos para invocar os perigos do fascismo e não consegue recuar vinte para explicar os erros do PS?» 

E conclui: 
«Nenhum socialista tem direito a chamar “atrasado mental” a quem desconfia mais do PS do que do Chega enquanto este trabalho de reflexão, que já leva pelo menos 15 anos de atraso, continuar por fazer.»

Nos comentários ao artigo na página de Facebook de JMT, há quem mais ou menos diga que o autor equipara os danos do governo de Sócrates aos danos do fascismo. Ele mais ou menos diz que não.

A mim parece-me evidente é que que João Miguel Tavares considera mais provável António José Seguro fazer regressar a corrupção de Sócrates do que Ventura instalar o caos moral e social de Trump à escala de Portugal. Não creio que JMT seja atrasado mental, acho só que é um dos mais activos apoiantes de Ventura e do que ele representa, sem nunca dizer, explicitamente, que o é.