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domingo, 31 de julho de 2022

Padrões desportivos

Não se percebe porque dá na RTP2 e não na RTP1 a final do Campeonato Europeu de Futebol Feminino. O estádio está cheio e vibrante e o jogo cumpre os padrões: tem o número regulamentar de faltas consumadas e fingidas, a adequada intensidade dramática e teatral, o futebol é igual e tem a mesma toada rufia, cumprem-se os mínimos do regimento de tatuagens e até se levantam camisolas para limpar o suor. Só o hairstyle é menos variado e exuberante.

P.S.: Também se despem camisolas para celebrar golos. Quod erat demonstandum.

domingo, 25 de abril de 2021

Dilemas morais que capturam uma mente contemporânea na hora de arrumar livros na estante

Lido com prazer e proveito o primeiro dos dois livros de Linda Boström Knausgård que encomendei* fui arrumá-lo na estante e as habituais hesitações arquivológicas foram agravadas por um dilema, digamos, ético.
O primeiro impulso foi juntar o livro aos volumes de Karl Ove Knausgård, com base em afinidades geográficas e de apelido. Achei desadequado, não tanto porque os Knausgård estão divorciados mas porque aquela arrumação poderia sugerir uma subordinação de uma a outro.
Com isto em mente, lembrei-me de o juntar aos de Siri Hustvedt, uma escritora que não usa o apelido do marido mas que foi durante muito tempo apresentada como «esposa de Paul Auster». Também não me agradou a ideia, porque seria reagir gregariamente, continuando a subordinar a individualidade e o mérito próprio da autora a questões exteriores à obra.
Tudo isto na verdade se passou numa fracção de segundo e foi insuficiente para vencer a inércia do gesto, que ia já a caminho de pousar o livro sobre o sexto volume de A Minha Luta e não se deteve.
Bem sei que ninguém das hostes siamesas do politicamente correcto e do politicamente incorrecto virá fiscalizar-me as estantes, mas não deixei de sentir algum alívio quando me apercebi que entre os Knausgård ficara afinal um outro nórdico, Knut Hamsun, cujo Fome tinha acabado de ler dias antes.

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* Bienvenidos a America, edição espanhola de Välkommen till Amerika

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«A condição humana pode ser muito cínica»

«A condição humana pode ser muito cínica. Existem pessoas que têm medo de mudanças evidentes e rápidas, que detestam o feminismo, a transformação social, a queda de certas hierarquias, e querem vê-las restabelecidas.»
A citação é de Anne Applebaum e resume indirectamente a simpatia pelo Chega.

Sim, há os trolls que saíram das caixas de comentários dos jornais para a luz do dia e concordam com as boçalidades do líder. Sim, há pessoas no geral estimáveis mas zangadas com a vida e a política e que se iludem com as mentiras de um paladino de fancaria que uma criança é capaz de detectar. Mas os mais perigosos são os cínicos, para quem os fins justificam os meios. Para esses, André Ventura é o idiota útil, o testa-de-ferro, o magarefe que trata do trabalho sujo. Eles ficam a aguardar para colher os despojos.

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A entrevista de Anne Applebaum pode ser lida aqui:
https://brasil.elpais.com/brasil/2021/01/07/eps/1610037420_550433.html

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O Infinito Num Junco

Uma das muitas coisas de que estou a gostar em O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, é a forma como a narrativa e a estrutura do livro estão por vezes organizadas, não por ordem cronológica ou geográfica, como acontece geralmente com os livros de história ou de divulgação, mas por associação de ideias, por sugestão dos campos semântico ou lexical das palavras.

Agrada-me igualmente a atenção «feminista» que é dada ao tema, procurando e valorizando, sem empolamento, informação que noutros autores ou noutra época passaria despercebida, como por hábito patriarcal as mulheres passavam, mesmo quando o mérito era delas.

Depois de um bom romance de uma mulher (Siri Hustvedt) — e um livro feminista, na verdade —, é agradável ler um ensaio sobre livros na Antiguidade onde as «antepassadas» da escritora americana têm justa presença.