Facas.
Não sei se o designer tinha em mente beleza e funcionalidade quando concebeu os talheres com cabo redondo em aço polido, mas as constantes escorregadelas e reviravoltas da faca na tentativa de cortar o conduto e as dores nos dedos resultantes da tentativa de a domar induzem-me a suspeita de que falhou ambas. O utensílio é disfuncional e a meio da refeição, com as artroses a dar sinais prematuros, já não somos capazes de ver beleza nenhuma na forquilha mal engendrada.
Bulas.
A partir de certa idade começa a incomodar-nos que os fabricantes dobrem a bula sobre as tabletes dos comprimidos de modo a que, se abrirmos a caixa pelo lado indicado, tenhamos sempre que vencer mais esse obstáculo antes de chegar à droga. A intenção é nobre («leia sempre a bula antes de se medicar») mas o resultado não é bom para cardíacos.
Jeovás.
Ao chegar à loja de conveniência das bombas de gasolina clientes aconselham-me a não entrar. Há um tipo perturbado e com ar de sicário da máfia a falar alto lá dentro. Fico ao largo a medir os acontecimentos. Minutos depois ele afasta-se para o fundo da loja e uma moça atreve-se a ir pagar o combustível. Sem desculpa e com a missão de arranjar vinho para o magusto, entrei também, para logo ser sujeito aos decibéis do personagem. Mantive-me em sentido, como os filmes aconselham que se faça perante um grizzly bear mal-disposto, e estendi-lhe a mão quando ele a estendeu, daquela maneira a que os malucos sempre recorrem quando querem parecer inofensivos. Preparava-me para correr pela vida da garrafa quando comecei realmente a ouvir o que ele dizia. Afinal, era só um mensageiro do Sistema Nacional de Saúde travestido de Testemunha de Jeová a anunciar que o vinho e os chocolates e todos aqueles produtos expostos eram — violentamente, no caso — condenados por Jeová e Manuel Pizarro.
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 15 de novembro de 2023
sábado, 7 de outubro de 2023
Pausa
Duas moças falam de desentendimentos amorosos havidos com terceiros. Uma delas é, ao que parece, vítima de ciúmes retroactivos. Tinha havido uma ruptura e uma reactivação e pelo meio a vida.
«Nós naquela altura não namorávamos», queixa-se à amiga. «Não namorávamos!», insiste algumas vezes, com ênfase, em crescendo.
Abrando discretamente o passo à espera de ouvir um sonoro e rossiano «We were on a break!», mas a moça é demasiado nova ou não está com humor para a punchline que este texto implora.
«Nós naquela altura não namorávamos», queixa-se à amiga. «Não namorávamos!», insiste algumas vezes, com ênfase, em crescendo.
Abrando discretamente o passo à espera de ouvir um sonoro e rossiano «We were on a break!», mas a moça é demasiado nova ou não está com humor para a punchline que este texto implora.
terça-feira, 27 de junho de 2023
Os imortais
Na casa dos vinte, poderiam ser um casal em lua-de-mel a emergir para um cocktail ao final de uma tarde de romance. A arquitectura é belle époque e do terraço observa-se um bosque centenário e voluptuoso. Mas eles não vieram para contemplar. Ainda antes de lhes servirem as bebidas, já um dos dois dá as cartas e ambos seguram o jogo em leque junto ao peito. Ponderam as jogadas, espreitam clandestinamente o adversário tentando adivinhar-lhe as cartas, enfrentam-se por vezes com olhares de póquer que só desviam para consultar de novo a mão que têm.
Fazem tudo, inesperadamente, sem ironia, sem fingimento, sem brincadeiras, sem as provocações, as sabotagens ou as zombarias próprias de quem joga cartas em família. Não são, está visto, um desses casais amantíssimos a quem o jogo cedo aborrece por nenhum sentir prazer em vencer o outro. Mas também ainda não têm idade para pactuarem projectar num feroz jogo de cartas a vontade de derrotar ou humilhar o cônjuge.
Seja como for, ali estão, alheados, sem pressa, como adolescentes do século XX nas férias grandes — ou seja, imortais —, dando tudo como garantido e eternamente cíclico, incluindo a exuberância das folhagens de Junho que não espreitam nem pelo canto do olho.
Fazem tudo, inesperadamente, sem ironia, sem fingimento, sem brincadeiras, sem as provocações, as sabotagens ou as zombarias próprias de quem joga cartas em família. Não são, está visto, um desses casais amantíssimos a quem o jogo cedo aborrece por nenhum sentir prazer em vencer o outro. Mas também ainda não têm idade para pactuarem projectar num feroz jogo de cartas a vontade de derrotar ou humilhar o cônjuge.
Seja como for, ali estão, alheados, sem pressa, como adolescentes do século XX nas férias grandes — ou seja, imortais —, dando tudo como garantido e eternamente cíclico, incluindo a exuberância das folhagens de Junho que não espreitam nem pelo canto do olho.
domingo, 5 de fevereiro de 2023
O homem das entregas
É um domingo soalheiro de Inverno e os casais passeiam, cão pela trela e, nalguns casos, pequena mochila ao ombro, talvez com a câmara dos instantâneos de Fevereiro ou outros instrumentos necessários a um passeio soalheiro de domingo de Inverno.
Também o homem das entregas da Glovo passeia ao sol, companheira ao lado, cão pela trela e — porque não pode dar-se ao luxo de jantar fora à sexta nem de perder um serviço ao domingo — saco amarelo ao ombro.
Também o homem das entregas da Glovo passeia ao sol, companheira ao lado, cão pela trela e — porque não pode dar-se ao luxo de jantar fora à sexta nem de perder um serviço ao domingo — saco amarelo ao ombro.
No sofá do cabeleireiro
Comme d’habitude, o cabeleireiro vaticina que tenho cabelo para a vida. Para o contrariar um pouco, talvez por instinto de humildade, queixo-me molemente da abundância de cãs e da ameaça de entradas. Ele começa a contar-me um filme que viu no dia anterior e eu desligo, sou por natureza avesso a relatos de filmes. Ou a relatos. Quando chega às cenas finais apercebo-me de que o tema ainda sou eu e os meus queixumes sobre o envelhecimento. No filme, a protagonista, que padecia de imortalidade e via com angústia desaparecerem os amores uns atrás dos outros, fica finalmente feliz quando consegue tornar-se mortal e envelhecer junto ao mais recente amado. «É a lei da vida», termina o cabeleireiro a parábola morigeradora, referindo-se já de novo aos meus cabelos em geral firmes no lugar mas não imunes à passagem do tempo.
Depois de pagar, espreitei a factura, para ver que código CAE ele usara.
Depois de pagar, espreitei a factura, para ver que código CAE ele usara.
segunda-feira, 29 de agosto de 2022
O envelhecer dos perdedores
Enquanto escrutino as degenerescências da minha pele como os macacos se catam, recordo a reportagem que vi sobre um meio-maratonista de oitenta e tal anos. Começou aos sessenta.
Com cinquenta e três, não cheguei à meia-maratona e encontro cada vez mais pretextos para deixar as sapatilhas penduradas. Os joelhos talvez frágeis, as costas a dar sinais misteriosos, o coração avariado. Mas também frio a mais, calor a mais, tempo a menos. Tudo me serve para postergar.
Nos últimos dois anos tive duas quedas e nos momentos mais duros comigo mesmo acuso-me de as ter provocado só para passar um mês ou dois sem correr, sem dilemas, sem remorsos.
O paradoxo é que gosto de correr (não só de chegar ao fim da corrida). Falta-me é paciência para os rituais preparatórios e energia para vencer os incómodos (planear, equipar, sair para o frio, sair para o calor, sair da cama).
Deve ser isto o envelhecer dos perdedores: consumir a perorar sobre um assunto o tempo que daria para tratar dele. Podemos ter a sorte de não chegar a morrer de doenças cardiovasculares, mas morremos sem dúvida de remorsos.
Com cinquenta e três, não cheguei à meia-maratona e encontro cada vez mais pretextos para deixar as sapatilhas penduradas. Os joelhos talvez frágeis, as costas a dar sinais misteriosos, o coração avariado. Mas também frio a mais, calor a mais, tempo a menos. Tudo me serve para postergar.
Nos últimos dois anos tive duas quedas e nos momentos mais duros comigo mesmo acuso-me de as ter provocado só para passar um mês ou dois sem correr, sem dilemas, sem remorsos.
O paradoxo é que gosto de correr (não só de chegar ao fim da corrida). Falta-me é paciência para os rituais preparatórios e energia para vencer os incómodos (planear, equipar, sair para o frio, sair para o calor, sair da cama).
Deve ser isto o envelhecer dos perdedores: consumir a perorar sobre um assunto o tempo que daria para tratar dele. Podemos ter a sorte de não chegar a morrer de doenças cardiovasculares, mas morremos sem dúvida de remorsos.
terça-feira, 14 de junho de 2022
terça-feira, 24 de maio de 2022
Passageiro
Não sendo propriamente um trotamundos, já dei, não sem remorsos, um bom contributo para o apocalipse climático. Entrei tarde no primeiro avião, mas a minha pegada foi entretanto impressa em duas dezenas de países de três continentes, em alguns com recidiva. Continuo a odiar os preparativos de uma viagem, mas conforta-me a ideia de ler ou dormir no avião. E sobretudo a de observar a vida selvagem nos aeroportos. Custa-me sair, mas depois de partir sinto-me bem em trânsito, imerso em anonimato. Já fiz viagens em que, a pensar nas longas escalas e noites insones, guardei espaço na mochila para um colchão de ar. Preparo-me como os fotógrafos da National Geographic, camuflado de turista e assegurando conforto no posto de observação.
Na penúltima viagem de regresso, num dia invernoso de Fevereiro, o avião fez três tentativas de aterragem em Pedras Rubras, como nos vídeos de «extreme aborted landings» do Youtube, e foi parar à Portela para recuperar o fôlego (e combustível) antes da derradeira tentativa, uma hora mais tarde. Metade dos passageiros, benzendo-se, saltou fora em Lisboa mal foi dada a oportunidade, como ratos num naufrágio, e uma boa parte dos restantes ficou a ponderar se era boa altura para poupar o bilhete, o tempo e os incómodos extra do comboio ou do autocarro alternativos. À minha frente, ainda o avião manobrava depois de aterrar, um cavalheiro agarrara-se ao telemóvel para alterar a reserva do carro de aluguer do Porto para Lisboa e nas pausas da conversa com a agência arregimentava passageiros como um pastor evangélico, não para dividir despesas, mas para salvar vidas. Num momento em que falava do modelo e classe do veículo achei que ia pedir à voz do outro lado da linha para trocar a reserva para um minibus, tal o afã de resgatar almas à sua volta. Ainda olhou para mim, mas, vendo-me afocinhado no livro, com ar de quem não vai a lado nenhum, grato por umas horas mais de leitura, percebeu que eu não tinha como ser salvo e tentou converter o passageiro ao meu lado. Que declinou — apenas, julgo, porque tinha de me fazer levantar para poder sair do seu lugar.
Não são as milhas acumuladas que fazem de mim um Passageiro Zen, mas os anos de vida que me deixam por vezes sem apego à terra.
Na penúltima viagem de regresso, num dia invernoso de Fevereiro, o avião fez três tentativas de aterragem em Pedras Rubras, como nos vídeos de «extreme aborted landings» do Youtube, e foi parar à Portela para recuperar o fôlego (e combustível) antes da derradeira tentativa, uma hora mais tarde. Metade dos passageiros, benzendo-se, saltou fora em Lisboa mal foi dada a oportunidade, como ratos num naufrágio, e uma boa parte dos restantes ficou a ponderar se era boa altura para poupar o bilhete, o tempo e os incómodos extra do comboio ou do autocarro alternativos. À minha frente, ainda o avião manobrava depois de aterrar, um cavalheiro agarrara-se ao telemóvel para alterar a reserva do carro de aluguer do Porto para Lisboa e nas pausas da conversa com a agência arregimentava passageiros como um pastor evangélico, não para dividir despesas, mas para salvar vidas. Num momento em que falava do modelo e classe do veículo achei que ia pedir à voz do outro lado da linha para trocar a reserva para um minibus, tal o afã de resgatar almas à sua volta. Ainda olhou para mim, mas, vendo-me afocinhado no livro, com ar de quem não vai a lado nenhum, grato por umas horas mais de leitura, percebeu que eu não tinha como ser salvo e tentou converter o passageiro ao meu lado. Que declinou — apenas, julgo, porque tinha de me fazer levantar para poder sair do seu lugar.
Não são as milhas acumuladas que fazem de mim um Passageiro Zen, mas os anos de vida que me deixam por vezes sem apego à terra.
sexta-feira, 11 de março de 2022
Get back
Quando nasci, os Beatles estavam a acabar, e, quando aprendi a tocar viola e sonhei com outros as minhas primeiras bandas, a música deles ainda vigorava por todo o lado mas simultaneamente pertencia já ao Olimpo e os quatro de Liverpool eram como deuses gregos, inalcançáveis, insondáveis. Quando, a mim e aos que tocavam comigo, nos veio parar às mãos um livro com as letras e os acordes de centenas de canções dos Beatles, usámo-lo como certos religiosos sinceros e ávidos de Mistério usam a Bíblia: com profunda devoção, sentindo a latência do Divino, acreditando estar ali, naquelas páginas, o segredo da Vida. Paul, George e Ringo ainda por cá andavam a fazer música, a gravar videoclipes e a dar concertos, mas isolados não exerciam um décimo da atracção que continuava a exercer o quarteto, claramente maior do que a soma das partes. Dei pouca atenção às carreiras a solo dos ex-Beatles, não exactamente porque a música deles fosse despida de interesse, mas talvez, penso agora, porque elas os humanizavam, faziam-nos descer do pedestal, tornavam-nos mais próximos, e talvez isso me causasse um certo ressentimento, uma certa mágoa perversa: os deuses não existem na mesma dimensão dos humanos e, se os Beatles tinham acabado, talvez os seus elementos não devessem ter sobrevivido e continuado a fazer música. O lugar deles era o do mito e por isso deviam ter-se esvanecido antes de eu crescer e compreender o mundo. Não necessariamente à força da bala, como John Lennon, mas tornando-se de um modo indolor abstractos, imateriais como a palavra “Beatles”.
Há poucos anos vi numa qualquer cidade da Europa um cartaz gigante a anunciar um concerto de Paul McCartney e nem por um momento senti o impulso de comprar um bilhete. Em contrapartida, Peter Jackson desencantou horas de filmagens dos dias de criação de “Let it Be”, os Últimos Dias da Criação (é adequado dizê-lo em maiúsculas dignitárias, a um tempo genesíacas e escatológicas), e montou o documentário “Get Back” — e as minhas noites nunca mais foram as mesmas. Lázaro regressou dos mortos e eu tornei-me um morto-vivo. Noite após noite, o YouTube apanha-me nas suas garras com excertos do documentário, que se encadeiam uns nos outros e me prendem horas a fio. O inimaginável aconteceu, aquilo que na minha adolescência tanto tinha desejado, sabendo ser impossível (ver os Beatles na intimidade, na intimidade do processo criativo), está agora ao alcance de um clique, integra a rede como qualquer outra das banalidades contemporâneas com que o algoritmo procura controlar-me os dias. Mas, ao contrário das outras fontes de vício, ao contrário dos vídeos dos eighties que a espaços também me fazem gastar tempo, não vejo “Get Back” imbuído de nostalgia geracional. Não só porque a minha não é exactamente a geração dos Beatles, mas sobretudo porque ver John Paul George & Ringo a interagir e a criar é como ter de súbito acesso aos aposentos privados dos deuses, mas não através dos textos duvidosos de Homero ou Ovídio, antes como se a máquina do tempo tivesse acabado de ser inventada e com essa invenção se revertesse a outra, a dos deuses, tornando-a realidade, facto; como se os deuses deixassem de ser mitos e passassem a ser verdades testemunháveis — mantendo-se a sua existência, contudo, num adequado plano sobre-humano. É com puro fascínio que vejo e revejo em “Get Back” as canções a surgirem, meros esboços, indícios do que depois foram obras-primas e marcos miliários na minha formação pessoal. É com pura comoção beatífica que vejo os quatro de Liverpool no processo de criação, com acertos e desacertos, arrufos, por vezes indiferença, sobranceria ou desdém injusto uns pelos outros, mas de súbito empolgados e sintonizados, fecundos, no rooftop de “Get Back” como no topo do mundo, criadores do próprio mundo que lhes sobreviveu, o meu mundo.
Pensando bem, suponho que é afinal também com nostalgia que vejo os pedaços de “Get Back”, mas nostalgia de um outro tipo, uma nostalgia de outros acontecimentos, que não foram indiferentes à pré-existência dos Beatles mas não se lhes referem. Naquelas horas de “Get Back” vejo também o adolescente que fui, a ânsia de criar canções, de fazer arranjos para músicas que só nós víamos como possibilidades, escrever letras que pudessem encontrar a canção que de certeza havia de lhes corresponder. Em “Get Back” vejo as jam sessions intermináveis e incipientes, que raramente davam alguma obra que valesse a pena para alguém que não os que ali estávamos a tocar, mas que em cada minuto que duravam pareciam aproximar-nos de alguma coisa mais do que a vida terrena, pouco original, quase banal que vivíamos. É como se “Get Back”, ao invés de lembrar a inveja que justamente estávamos condenados a ter, redima aos meus olhos o que tinha dado como tempo perdido. Não porque tenha resultado muita coisa de que me orgulhar daqueles anos em que o meu papel era sobretudo cabotino, mas porque me lembra o sentimento de transcendência que eles me proporcionaram.
Há poucos anos vi numa qualquer cidade da Europa um cartaz gigante a anunciar um concerto de Paul McCartney e nem por um momento senti o impulso de comprar um bilhete. Em contrapartida, Peter Jackson desencantou horas de filmagens dos dias de criação de “Let it Be”, os Últimos Dias da Criação (é adequado dizê-lo em maiúsculas dignitárias, a um tempo genesíacas e escatológicas), e montou o documentário “Get Back” — e as minhas noites nunca mais foram as mesmas. Lázaro regressou dos mortos e eu tornei-me um morto-vivo. Noite após noite, o YouTube apanha-me nas suas garras com excertos do documentário, que se encadeiam uns nos outros e me prendem horas a fio. O inimaginável aconteceu, aquilo que na minha adolescência tanto tinha desejado, sabendo ser impossível (ver os Beatles na intimidade, na intimidade do processo criativo), está agora ao alcance de um clique, integra a rede como qualquer outra das banalidades contemporâneas com que o algoritmo procura controlar-me os dias. Mas, ao contrário das outras fontes de vício, ao contrário dos vídeos dos eighties que a espaços também me fazem gastar tempo, não vejo “Get Back” imbuído de nostalgia geracional. Não só porque a minha não é exactamente a geração dos Beatles, mas sobretudo porque ver John Paul George & Ringo a interagir e a criar é como ter de súbito acesso aos aposentos privados dos deuses, mas não através dos textos duvidosos de Homero ou Ovídio, antes como se a máquina do tempo tivesse acabado de ser inventada e com essa invenção se revertesse a outra, a dos deuses, tornando-a realidade, facto; como se os deuses deixassem de ser mitos e passassem a ser verdades testemunháveis — mantendo-se a sua existência, contudo, num adequado plano sobre-humano. É com puro fascínio que vejo e revejo em “Get Back” as canções a surgirem, meros esboços, indícios do que depois foram obras-primas e marcos miliários na minha formação pessoal. É com pura comoção beatífica que vejo os quatro de Liverpool no processo de criação, com acertos e desacertos, arrufos, por vezes indiferença, sobranceria ou desdém injusto uns pelos outros, mas de súbito empolgados e sintonizados, fecundos, no rooftop de “Get Back” como no topo do mundo, criadores do próprio mundo que lhes sobreviveu, o meu mundo.
Pensando bem, suponho que é afinal também com nostalgia que vejo os pedaços de “Get Back”, mas nostalgia de um outro tipo, uma nostalgia de outros acontecimentos, que não foram indiferentes à pré-existência dos Beatles mas não se lhes referem. Naquelas horas de “Get Back” vejo também o adolescente que fui, a ânsia de criar canções, de fazer arranjos para músicas que só nós víamos como possibilidades, escrever letras que pudessem encontrar a canção que de certeza havia de lhes corresponder. Em “Get Back” vejo as jam sessions intermináveis e incipientes, que raramente davam alguma obra que valesse a pena para alguém que não os que ali estávamos a tocar, mas que em cada minuto que duravam pareciam aproximar-nos de alguma coisa mais do que a vida terrena, pouco original, quase banal que vivíamos. É como se “Get Back”, ao invés de lembrar a inveja que justamente estávamos condenados a ter, redima aos meus olhos o que tinha dado como tempo perdido. Não porque tenha resultado muita coisa de que me orgulhar daqueles anos em que o meu papel era sobretudo cabotino, mas porque me lembra o sentimento de transcendência que eles me proporcionaram.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
A viagem de helicóptero
Quando convidado para uma viagem de helicóptero na adolescência, só no último instante, depois de todos os outros compinchas, correu para o aparelho, quase tendo de subir para ele em voo, como nos filmes de acção. Anos mais tarde, a viagem era de carro para o concerto de David Bowie em Alvalade e esteve também para a perder, pela mesma irresolução. Em vários momentos chave da vida sobreveio-lhe a irresolução, e quase sempre encenou uma fuga para a frente no último instante. A biografia oficial declara-o feliz por ter acabado por se decidir em relação a alguns desses momentos, embora a memória específica das experiências se tenha perdido no mito sobre elas construído. Outras alturas houve em que ter-se decidido pelo risco ou pela aventura ou pelo mero desafio — ter-se decidido, enfim — só lhe trouxe coisas que não queria.
Talvez se tivesse perdido aquele helicóptero hoje fosse outra pessoa, lendariamente arrependido por não ter voado mas no íntimo satisfeito com a sua verdadeira natureza de espectador em vez de actor.
Diz-se que um escritor tem de viver para poder escrever, mas ninguém diz — e importa suspeitar que a verdade é esta — que para viver basta ser leitor.
Talvez se tivesse perdido aquele helicóptero hoje fosse outra pessoa, lendariamente arrependido por não ter voado mas no íntimo satisfeito com a sua verdadeira natureza de espectador em vez de actor.
Diz-se que um escritor tem de viver para poder escrever, mas ninguém diz — e importa suspeitar que a verdade é esta — que para viver basta ser leitor.
domingo, 28 de novembro de 2021
Identidade
Estive uma hora e picos numa conversa onde a voz (o timbre, a pronúncia, a expressão) de um dos interlocutores me era profundamente familiar, mas não conseguia perceber porquê. Estudei o rosto da pessoa diversas vezes, todos os pormenores que a máscara e a boina deixavam ver dele, mas não encontrei ali nada de reconhecível. Estudei-lhe a compleição, e parecia apenas comum, anónima. De resto, ele tinha dito a certa altura que era (genericamente, percebo agora) de uma terra onde eu não conheço ninguém e pus ali de parte as inquirições mentais. Fiquei-me apenas pela ideia de que a voz (e a linguagem corporal, na verdade) me fazia lembrar alguém, de eras passadas da minha vida ou possivelmente da TV ou do cinema.
Depois das despedidas, já eu encerrara o assunto, um amigo que tinha estado em cogitações semelhantes mas a propósito do nome da pessoa, fez-me perguntas que levaram a associações e, em dois ou três passos como num silogismo, cheguei à conclusão: era o T. de S.!
Camuflados por máscaras, cãs e décadas, estivéramos longo tempo numa farsa mal ensaiada, a fingir que dizíamos coisas novas para o outro, com uma cortesia de estranhos, quando podíamos ter estado a perguntarmo-nos mutuamente pela vida e a família, a rirmo-nos outra vez do que já lá vai e a reconfirmar esta ou aquela recordação que se nos turvou ou se vai perdendo.
Teria isto acontecido sem máscaras, ou envelhecer é esta coisa, sermos portadores de uma voz que pertenceu a outra pessoa, podermos ser vistos pelos outros como alguém sem ligações ao indivíduo que fomos?
Pergunto-me se ele passou pela mesma dúvida ou se nunca a teve e sustentou a farsa por uma questão de urbanidade, de resposta proporcional à minha frieza misantropa ou snob. Ter-me-á reconhecido e achado afectado ou está agora a registar no seu diário frases ponderosas ou absurdas como as minhas sobre o passar do tempo e esta coisa estranha que é a vida e nós nela?
Depois das despedidas, já eu encerrara o assunto, um amigo que tinha estado em cogitações semelhantes mas a propósito do nome da pessoa, fez-me perguntas que levaram a associações e, em dois ou três passos como num silogismo, cheguei à conclusão: era o T. de S.!
Camuflados por máscaras, cãs e décadas, estivéramos longo tempo numa farsa mal ensaiada, a fingir que dizíamos coisas novas para o outro, com uma cortesia de estranhos, quando podíamos ter estado a perguntarmo-nos mutuamente pela vida e a família, a rirmo-nos outra vez do que já lá vai e a reconfirmar esta ou aquela recordação que se nos turvou ou se vai perdendo.
Teria isto acontecido sem máscaras, ou envelhecer é esta coisa, sermos portadores de uma voz que pertenceu a outra pessoa, podermos ser vistos pelos outros como alguém sem ligações ao indivíduo que fomos?
Pergunto-me se ele passou pela mesma dúvida ou se nunca a teve e sustentou a farsa por uma questão de urbanidade, de resposta proporcional à minha frieza misantropa ou snob. Ter-me-á reconhecido e achado afectado ou está agora a registar no seu diário frases ponderosas ou absurdas como as minhas sobre o passar do tempo e esta coisa estranha que é a vida e nós nela?
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Memorabilia
Da revista Bravo, escrita numa língua que não entendíamos mas que ilustrava algo que intuíamos, com o cheiro singular das páginas da revista Bravo, tipograficamente diferente do cheiro de tudo o que se imprimia em Portugal, respeitável ou furtivo, um poster dos U2 antes da queda, outro dos Bon Jovi (para haver nisto alguma coisa de que ter vergonha), um fio de utilidade esquecida pendurado de um prego, adereço esquecido ou falhado, por baixo uma cama de ferro e outra de madeira, duas camas desirmanadas que ainda há pouco eram duas camas para quatro irmãos, uma cabeceira de cama onde bem se vê que faltam barras verticais de ferro por onde se escapa a imaginação, uma parede que é um palimpsesto familiar, tribal, estratos geológicos de tinta e eras descascando, um quadro sobrante de outra geração com uma nesga de mar vista através das dunas (rimando com GNR, 1985, e férias em Setembro sem dinheiro), uma paisagem nevada da Suíça que não se vê na imagem como tantas outras coisas que não se vêem na imagem e no entanto estão lá, um verde-escuro na parede a escurecer inapelável e redundantemente com manchas da humidade e do tempo, uma coberta de cama florida que ainda aguentará uns Invernos a inteiriçar-se com a geada que entra pelas frinchas sem perder pétalas, uma fronha de almofada que irá na bagagem das primeiras mudanças (e duas fronhas das outras, que, miseráveis, nos largarão na primeira oportunidade), entre as camas uma mesinha de cabeceira e sobre ela um leitor de cassetes, uma cassete com os nossos primeiros sucessos e um livro, quem diria, sobre a barra do fundo da cama de madeira todo o guarda-roupa de um dos dois (travel light), as camas e os pés que marcam o ritmo assentes num soalho ventilado, nós da madeira já sem nós, buracos por onde espreitam da cave, boquiabertos (de pasmo, de fome, de raiva), os futuros brilhantes por consumar, duas guitarras, emprestadas, pois claro, por mecenas generosos, em que, com a ânsia de começar e de chegar, perdemos a pele dos dedos e deixámos marcas de sangue, duas guitarras onde rigorosos trabalhos arqueológicos ou de medicina-legal também encontrarão suor e lágrimas, suor e lágrimas e tudo isto e nós os dois, espelhados, a olhar o destino de frente ou a enfrentá-lo de olhos fechados, tu e eu, penteados e tudo no ponto — a ensaiar para o Live Aid.
segunda-feira, 26 de julho de 2021
O ténis como terapêutica efémera
Contra qualquer previsão que mentes sóbrias alguma vez pudessem levar a sério, subscrevi neste Julho a Sport TV. Sim, imaginem.
O que aconteceu foi que, assacado por males de corpo e espírito, receitei a mim mesmo o torneio de Wimbledon, que tanto quanto percebi só os canais daquela estação transmitiam.
Talvez tenha depositado esperanças, além de nos efeitos revitalizadores do fascínio desportivo, em memórias infantis e maternais de roupa branca a corar ao sol sobre a erva dos prados.
Depois reforcei a terapêutica e assisti também a jogos dos torneios de Hamburgo, Båstad, Gstaad e Umag (à sua maneira igualmente evocativos da infância, mas neste caso remetendo para imagens, menos angelicais, de calções sujos e peúgas empastadas de pó e suor).
Tudo em vão. Um tipo atinge uma espécie de equilíbrio homeopático enquanto a bola vai e vem, mas no final a vida real regressa e os vinte e cinco euros da assinatura não. Vou cancelá-la. A assinatura.
O que aconteceu foi que, assacado por males de corpo e espírito, receitei a mim mesmo o torneio de Wimbledon, que tanto quanto percebi só os canais daquela estação transmitiam.
Talvez tenha depositado esperanças, além de nos efeitos revitalizadores do fascínio desportivo, em memórias infantis e maternais de roupa branca a corar ao sol sobre a erva dos prados.
Depois reforcei a terapêutica e assisti também a jogos dos torneios de Hamburgo, Båstad, Gstaad e Umag (à sua maneira igualmente evocativos da infância, mas neste caso remetendo para imagens, menos angelicais, de calções sujos e peúgas empastadas de pó e suor).
Tudo em vão. Um tipo atinge uma espécie de equilíbrio homeopático enquanto a bola vai e vem, mas no final a vida real regressa e os vinte e cinco euros da assinatura não. Vou cancelá-la. A assinatura.
sábado, 12 de dezembro de 2020
Sem palavras
O meu pai e eu não éramos muito faladores nos nossos telefonemas. Os telefonemas não serviam para contar coisas, na verdade, mas para declararmos com regularidade a nossa existência mútua enquanto pai e filho. Era como tocar com as pontas dos dedos nas costas de alguém que se ama, só para assinalar a presença, o afecto. Para reconfortar. Por vezes éramos tão telegráficos que parecíamos a sentinela nas ameias ou nas trincheiras dando voz de alento ou alívio: «Tudo calmo no posto norte». (Ou sul, dependia se ligava eu ou ele.)
Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.
O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.
De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.
Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.
A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.
Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.
Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.
Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.
O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.
Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.
O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.
De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.
Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.
A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.
Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.
Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.
Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.
O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.
sábado, 14 de novembro de 2020
Sabiá na Gaiola
Certas recordações da infância chegam-me associadas de forma misteriosa a um lugar ou a uma acção. Havia uma cançoneta do repertório de êxitos de um primo do meu pai — presença quotidiana ao cavaquinho nas nossas vidas, bardo da tribo, ar e voz de galã dos anos 50 — que para sempre ficou em mim associada a uma ramada alta, que se vindimava com escadas de muitos degraus e equilíbrio frágil. É sempre essa ramada outonal que vejo quando evoco a canção, projectando mentalmente uma espécie de video-clip privado de uma era pré-Youtube. Não me recordo de alguma vez o primo Fernando ter tocado e cantado aquela canção naquele lugar, pelo que talvez tenha sido eu a cantá-la ali enquanto apanhava bagos do chão numa vindima em que também terei decifrado pela primeira vez o sentido de algum verso ou, mais provavelmente, percebido que amava de forma irremediável a melancolia ou a tristeza sob a toada alegre e juvenil da música.
A canção chama-se Sabiá na Gaiola e só agora — demasiado tarde para a formação do meu carácter — descobri que a letra tem um final redentor.
----
Se alguém quiser ouvir a música: https://youtu.be/4jw88UfVsKA
A canção chama-se Sabiá na Gaiola e só agora — demasiado tarde para a formação do meu carácter — descobri que a letra tem um final redentor.
----
Se alguém quiser ouvir a música: https://youtu.be/4jw88UfVsKA
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Pingas
Na casa onde nasci e cresci morava uma família feliz, mesmo se o tecto pingava de Inverno — e pingava sempre. (Não é certo que na altura todos partilhássemos esta opinião de que éramos uma família feliz, mas aos cinquenta encontramos sempre forma de acreditar que sim, quando tudo o que temos de seguro é o passado antigo.) Pingava sobretudo na cozinha, que era o sítio onde mais tempo estávamos, espécie de living room à transmontana mas com uma cobertura mais permeável do que se fosse de telha-vã. Em dias de depressão atmosférica inominada tinha lugar o ritual castrense de dispor a bateria de bacias e alguidares de acordo com as linhas de infiltração e de, a intervalos que variavam com a intensidade da chuva, esvaziar e recolocar os recipientes como na Guerra de 14 se repunham efectivos nas trincheiras: mecanicamente, sem considerações ou estados de espírito.
Vivi sempre com este trauma das infiltrações e a vida foi-me renovando as razões (e as infiltrações) para isso. As pingas perseguem-me, em casa ou no trabalho, década após década. Talvez apenas para me lembrar de que faça o que fizer serei sempre o rapazinho que ficava encolhido entre as pingas a ler à luz das velas. Talvez para me lembrar de que deveria continuar a ser sempre e só o rapazinho que acima de tudo queria ficar a ler entre as pingas à luz das velas.
Vivi sempre com este trauma das infiltrações e a vida foi-me renovando as razões (e as infiltrações) para isso. As pingas perseguem-me, em casa ou no trabalho, década após década. Talvez apenas para me lembrar de que faça o que fizer serei sempre o rapazinho que ficava encolhido entre as pingas a ler à luz das velas. Talvez para me lembrar de que deveria continuar a ser sempre e só o rapazinho que acima de tudo queria ficar a ler entre as pingas à luz das velas.
terça-feira, 7 de julho de 2020
A Flock of Seagulls
A nostalgia é um péssimo juiz. Age exactamente como o trauma, mas em sentido oposto. A pessoa traumatizada repelirá, odiará, desprezará ou temerá, com fobia ou pânico, tudo o que tenha uma relação com a causa do seu trauma. Os nostálgicos, pelo seu lado, acham maravilhosa qualquer coisa que evoque um passado onde tenham estado ou a que se sintam ligados, mesmo que tangencialmente.
Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.
Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.
Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.
Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.
Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.
Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.
Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.
Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.
quinta-feira, 25 de junho de 2020
O caixote das coisas justas
Nas mudanças de estação, se não somos adeptos de disruptivos banhos de loja, imergimos decerto no guarda-roupa lá de casa em busca da indumentária da época. Dá-se o caso, a partir de certa idade e de certo genótipo, de encontrarmos ali peças, ainda em anos anteriores viáveis e suficientemente neutras para irem bem com qualquer moda, que de repente se não deixam vestir, encalhando nas curvas. É a altura em que, se temos familiares receptivos e magros ou subestimamos a vaidade dos pobres que visitam o contentor público de roupas usadas, atiramos com intenção pretensamente temporária (mas procrastinadora) as peças para o caixote das coisas justas. E ficamos de repente pesarosos. Não pela silhueta perdida, mas pela possibilidade, que nos sugere a reverberação do nome, de no caixote termos vindo a arquivar mais do que roupa.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Os tiques de Nadal
Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Dilemas antigos
Recusando que a cretinice de terceiros me perturbe o Proust e os dias, escolho sofrer só de dilemas antigos, pré-crise de 2011. Se chove, hesito entre ter música de fundo ou ficar a ouvir a chuva. Se o tempo está favorável, agora que os dias são grandes, hesito entre ler na varanda ou correr no parque. Se o ocaso está de apetite, hesito entre ficar a ler ao crepúsculo ou ficar a ver o crepúsculo.
Não é fácil.
Não é fácil.
Subscrever:
Mensagens (Atom)