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terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Uma história de violência

A história central de A Cicatriz, de Maria Francisca Gama, recordou-me uma passagem de Aranda. Esta com final feliz, por comparação.


«Joca — era ele que chegava — deixou tombar a bicicleta e subiu ao encontro do grupo, parando em frente a cada um como um oficial que vistoriasse as suas tropas. Inês sentiu como uma leve náusea a sensação de pertencer a um clube, uma associação, uma seita, com as suas praxes e cerimoniais. Temia que viesse a faltar a este encontro algum sentido do ridículo. Esperou que chegasse a sua vez de ser cumprimentada e quando levantou o rosto descobriu em Joca um olhar despeitado, um olhar incapaz de, por instantes, esconder a animosidade que alguma coisa em Inês lhe despertara.

Era uma sensação frequente. Ela não sabia se tinha o dom de causar aquele género de reacção nalguns homens ou se por alguma razão era particularmente perspicaz a descobrir-lhes um certo tipo de mágoa, de ressentimento. Eles reagiam assim e ela desvendava-lhes as emoções mais profundas ou instintivas.

Tinha vivido aquilo algumas vezes. Outras situações, outros intervenientes, mas a mesma inquietação, a mesma ameaça silenciosa, que por vezes se exteriorizava brutalmente. Como quando foi agredida numa rua da cidade onde morava por os seus olhos se terem cruzado com os de um rapaz. O que a sua memória evocou foi o primeiro episódio da sua saga, a saga de uma mulher bela demais.

 

Captara aquele olhar à primeira, captara-o e compreendera-o até ao limite do entendível, como se no instante que durou tivesse sido possível decompor o acto de observar nas suas múltiplas componentes e causas e intenções, desenhar mentalmente um diagrama que permitisse seguir os ramos da evolução que levou àquilo, perceber as bifurcações, as metamorfoses, o que falhou, onde tinha sido possível intervir.

Era um rapaz, não mais do que isso, dezassete ou dezoito anos, e não era feio — um corpo grosso mas sólido, sem a flacidez da obesidade nem as suas dobras e pregas pendentes, o cabelo encaracolado quase pelos ombros, como o de um guitarrista de grunge (a barba viria no ano seguinte ou pouco depois), a adequada camisa de xadrez por fora das calças, o queixo levantado, e os olhos cinzentos, semicerrados, líquidos, excessivamente eloquentes. Passou por Inês, que estava com o seu namorado da altura, no meio de um grupo de uns cinco ou seis rapazes, todos com o ar de quem tem uma rixa agendada para o minuto e esquina seguintes, braços arqueados, andar balanceado, decidido, agressivo, até, manada de elefantes pouco preparada para as minúcias da civilidade — embora fosse também manifesto que apenas se dirigiam ritualmente ao bar do fundo da rua.

Do grupo, só ele reparou no casal de namorados. Voltou-se no momento em que passava ao seu lado e Inês viu-o, aquele olhar, e era como uma sentença, um presságio, algo de que não se podia fugir. Muita coisa estava mal com o mundo para que aqueles rapazes se sentissem tão em baixo ao acordar e precisassem de construir personas assim. Ou talvez fosse apenas a má influência das revistas e da televisão. Provavelmente era a natureza humana — só à superfície deixáramos de ser guerreiros, ou seres instintivos. Uma parte de nós, pelo menos.

Inês tinha sido bonita toda a vida. Se houvesse protótipos para a beleza, ela era um, saída directamente das mãos do escultor mais dotado ao serviço da divindade. Não: a própria divindade se tinha encarregado de conceber as formas de Inês, de a moldar e proporcionar e de a colorir com os tons certos, sem recorrer à costela de ninguém, tudo material genuíno, imaginação pura. O cabelo de querubim era um capricho, um toque que denunciava a autoria. Como nascera numa família com posses, nunca fora necessário resgatar a sua formosura, ela não foi sequestrada pela indigência, não sofreu os ataques da má nutrição, da sujidade, das doenças, a sua beleza esteve sempre evidente. Talvez por isso fosse para Inês banal, supérflua, nada que a preocupasse nem a que se tivesse de dedicar particularmente. E, de resto, não era dela a culpa de ser bonita.

O rapaz pensava de forma diferente. Não teria por certo formação política ou ideológica, a não ser talvez uma réstia mal compreendida que passava através das gerações, ou que era já anterior a qualquer formulação teórica, aquela versão do marxismo que alimentava o ódio aos ricos e poderosos, mais tarde revista e aumentada com o ódio à beleza e à saúde e ao sucesso e à felicidade, a tudo o que permitisse aos outros sorrir enquanto nós lutávamos para respirar no lodaçal da nossa existência. Não tinha esse género de formação, mas não precisava. O que precisava era de apaziguar o ressentimento, de encontrar culpados para o que falhara consigo, para o seu permanente mau humor. Chegou à esquina e, como se se tivesse esquecido de alguma coisa, como se tivesse gastado os últimos passos a tentar lembrar-se de algo, voltou para trás e ela soube que o pressentimento era fundado.

Inês conseguiu que o namorado aceitasse sair daquele local mas cedo percebeu que tomaram a direcção errada. Ali havia luz e gente, mais acima os candeeiros rareavam e deixava de haver transeuntes. Ao fim de uns minutos de caminhada, e depois de terem mudado de passeio e de rua, não restavam dúvidas de que estavam a ser perseguidos.

O rapaz alcançou-os com uma última corrida, fazendo-os parar ao colocar-lhes as mãos nos ombros.

— Eu hoje estou fodido — disse ele, e era a sua melhor abertura.

Também estava drogado, achou Inês, tanto quanto podia ver para lá do oceano em que nadavam os olhos dele. Parecia chorar. A pose, a atitude, era a de um rufia, de um agressor, de alguém prestes a cometer um assalto ou uma violação, mas uma câmara que o focasse apenas do nariz para cima revelaria um tipo desesperado, o género de amigo ébrio que queria muito ser ouvido nas suas lamentações e no minuto seguinte nos vomitava os sapatos. Claro que Inês não era uma câmara de filmar num enquadramento apertado, tinha acesso ao retrato completo. Havia desespero, sim, mas não do género que se contentaria com um divã ou um ombro. O que aqueles olhos significavam era violência. Eram uns olhos acossados, mas de alguém que reage à desolação, ao desespero, à ameaça, à raiva com doses reforçadas de crueldade. O mundo, alegadamente, tinha feito mal àquele rapaz, fazia-lhe mal dia-a-dia, privava-o de coisas, humilhava-o, deixava-o sem saídas, dorido na sua presumida fealdade e impotência — e Inês sabia que ele queria vingança.

— Não faça nada de que se arrependa — gaguejou o namorado de Inês.

Continuavam de mão dada e ela sentiu-o tremer, mas de medo, não de fúria contida. A vantagem numérica significava pouco quando se tratava de um casal como eles, em que o elemento feminino não era dotado de relevante força muscular e em que ambos viviam longe de brigas e da disputa física.

— E do que é que eu me podia arrepender? — O rapaz limitava-se a olhar para Inês, com aquele ar de denúncia e lamento, olhos semicerrados, prestes a desfazerem-se em lágrimas, mas simultaneamente frios e acusadores. No corpo sentia-se a tensão de uma mola prestes a soltar-se.

Inês não sabia se era legítimo da sua parte esperar que o namorado agisse, que desse um passo em frente para mostrar que a protegeria, ou que pelo menos o iria tentar. Não se atrevia a solicitar o altruísmo alheio, mas certos códigos sociais não escritos, ou escritos muitas vezes sem nunca se referir a fonte original, determinavam que o homem protegesse a sua mulher. Ele não o fez. Não que não o desejasse, apenas não estava dotado de coragem física. O rapaz tocou a face de Inês e deixou que a mão descaísse e pousasse no ombro dela. O namorado esboçou um gesto irresoluto, vago, que foi logo repelido. Não voltou a tentar, embora numa parte do seu cérebro estivesse a adivinhar a humilhação, o remorso que o afrontaria o resto da vida.

Ela soube pela primeira vez o que era o medo, o medo profundo, medo absoluto. Não pela sua própria experiência (estava assustada, claro), mas indirectamente, pelo processo que sentia em ebulição no namorado. De certa maneira, não voltaria a estar ligada a nenhum homem como naquele momento esteve àquele. As suas mãos entrelaçadas eram como um feixe de nervos, a corrente eléctrica atravessava-os livremente e unia os dois cérebros. Ela estava a ter duas experiências em simultâneo, a sua e a do namorado. Vivia o seu próprio medo e o pânico que explodia nas sinapses do namorado.

O rapaz agarrou o queixo de Inês e hesitou no passo seguinte. Não era um violador nem tinha pensado em assaltar o casal. Na verdade, não tinha um plano. Tudo que sentia era vontade de esmagar aquele rosto, de apertar os dedos até sentir os ossos a estalar. Era ódio na sua forma mais pura e incondicional. A simples presença de Inês nas ruas era ofensiva para alguém como ele. A sua existência, a grande afronta. Sentia perante ela o que tantos sentem diante das serpentes, aquele automatismo que os faz olhar em volta e pegar no calhau adequado. Esmaga-se a cabeça de uma cobra porquê? Pelo medo do mal que ela possa fazer? Pela mera repulsa que olhá-la causa? Porque é um ritual imposto por Deus aos humanos? Ele estava a olhá-la e não conseguia parar de a odiar. Aquela beleza não era para ele erótica, não o excitava dessa maneira, não desejava vencer a beleza possuindo-a, mostrar a sua superioridade derramando sobre ela o seu sémen com o mesmo desprezo pelos espermatozóides que sentia ao ejacular encostado a uma parede. Não. O que ele sentiu naquela noite ao ver o rosto de Inês, o corpo de Inês, os seus caracóis e o seu ar de plenitude serena foi uma ânsia de extermínio, o impulso genocida, como se a sobrevivência da sua espécie dependesse do extermínio de outra.

No último instante, um qualquer lampejo de razão iluminou a mente perturbada do rapaz. Ela viu a dúvida instalar-se no seu semblante, já tão complexo, tão contraditório, como se ele agora lutasse consigo próprio, o diabo pendurado numa orelha e um anjo na outra.

Zangado agora também com a sua própria hesitação, o rapaz largou o rosto de Inês e, de mão aberta, desferiu-lhe uma bofetada tão forte que a fez rodar e estatelar-se no passeio.

— Foda-se! — ouviu-o ela gritar, meio ensurdecida com o golpe. Era como se ele e tudo o que a rodeava estivessem muito longe, sentia uma zoeira na cabeça e a visão turva. Quase perdeu os sentidos.

Aquilo não fora a grande catarse que o rapaz esperava, a redenção pela força, a ascensão a um novo estádio. No último momento contivera-se. Mas a pequena explosão libertou energia suficiente para que, no meio da sua frustração, ele aceitasse retirar como de uma batalha vitoriosa na grande guerra que travava.

Inês viu-o afastar-se com as mãos na cabeça, sacudindo os cabelos, o som dos seus passos inaudível, o mundo a regressar custosamente. Depois olhou para o namorado, lentíssimo a estender-lhe a mão para que ela se levantasse, lentíssimo a abraçá-la, ainda meio petrificado (embora tremesse furiosamente), à espera de que ela o acordasse daquele pesadelo terrível com um beijo, que o confortasse com as suas palavras meigas, lhe dissesse que estava tudo bem, ninguém poderia ter feito nada. Não saiu em perseguição do agressor, não pensou por um minuto em vingá-la, fosse de que forma fosse. O namorado não era de um tipo efeminado, nem frágil, mas não teve qualquer reacção. Ela não o culpou. Viria a desinteressar-se dele pouco tempo depois, talvez também por isso, mas não com ressentimento.»


In Aranda, RAA

domingo, 28 de agosto de 2022

Leituras de Verão

Decidido a ir à piscina, meti a toalha e um livro no bornal e pus-me a caminho. Quando desenrolei a trouxa, pousei o livro na espreguiçadeira com a capa virada para cima e tive um breve estremecimento de embaraço. O livro chama-se Os Beijos e apresenta a todo o tamanho da capa — a preto e branco para ser ainda mais evocativo — um cavalheiro a beijar o queixo de uma donzela, ambos de amorosos olhos fechados, ela com certa malícia nos lábios.
Estava já a imaginar toda a fauna em redor da minha palmeira, pelo menos a da minha idade, ao ver-me com aquele livro nas mãos a servir de pára-sol, em exibição ainda mais ostensiva do que nas estantes de destaques da Bertrand, comentar com desdém: «ora ali está um maduro a ler um tomo da Corín Tellado».
Depois, constatando que hoje não havia interferências pimba na rádio, pensei que alguém tinha que trazer para a tarde balnear uma sugestão de subcultura, para agora não desiludir quem me lê. Recuperei o domínio e mergulhei decidida e ornamentalmente no meu romance do coração.

domingo, 31 de julho de 2022

Les beaux esprits...

«Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Segurava os coelhos pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça, onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. (…) As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras assentes em pernas de madeira, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte.

VILLA JULIANA, Rui Ângelo Araújo, Língua Morta, 2021


«…ao fim da tarde [a esposa do chefe da estação], costumava sentar-se na sala de controlo a fazer croché (…) e daquele seu croché emanava um silêncio tranquilo, e de debaixo dos seus dedos estavam sempre a aparecer mais flores e mais passarinhos; tinha diante dela, na mesa do telégrafo, um livrinho sobre o qual se debruçava a procurar novas instruções acerca de como lançar fios, como se tocasse cítara lendo a pauta. Contudo, todas as sextas-feiras matava um coelho, tirava um coelhinho da coelheira, colocava-o sobre as pernas e depois enfiava-lhe uma faca romba no pescoço e degolava pouco a pouco o animalzinho, que guinchava, guinchava durante muito tempo, até a vozita começar a fraquejar, mas o olhar da esposa do chefe da estação era o mesmo de quando fazia o seu grande napperon em croché. (…) Eu já estava a antever como ela iria matar aquele ganso, como iria escarranchar-se nele e apertar-lhe o bico laranja contra a garganta, como quem fecha um canivete; primeiro arrancar-lhe-ia uma penazita no topo da cabeça, e depois o sangue escorreria para o tacho…»

COMBOIOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS (1965), Bohumil Hrabal, Antígona, 2022

domingo, 24 de julho de 2022

Hotel do Norte revisitado

Rui Almeida, na sua página de Facebook, sobre o Hotel do Norte:

«Estará, neste final de Julho, a completar 46 anos uma das personagens deste romance, 'Hotel do Norte' (Companhia das Ilhas, 2017), de RUI ÂNGELO ARAÚJO, que acabei de ler ontem à noite. Seria fácil nomear o edifício que dá nome ao livro como a personagem principal, pois é a presença permanente em todo o enredo, nos vários tempos distintos em que se desenrola. Mas não: há uma sobreposição das personagens ao espaço, não são apenas figuras a movimentarem-se num cenário – antes pelo contrário, cada uma delas (as seis ou sete que mais importam à história, mas também outras) são pessoas a quem podemos vislumbrar o mais fundo do perfil psicológico, as motivações, as dúvidas, as angústias, os sonhos.
O núcleo temporal da história é 1975 (continuando para o ano seguinte), com a presença no Hotel do Norte de cerca de centena e meia de homens e mulheres vindos das antigas colónias portuguesas, agora independentes – os chamados "retornados". Mas a narrativa desloca-se alternadamente para 2008 e para 1941 (e, apenas uma vez, para 1970), num exercício de apelo à perspicácia do leitor para ir percebendo os pontos de ligação entre eles. Há uma história que é contada, há pessoas, cada uma delas com a sua complexidade, há um cenário que as congrega. Há depois momentos que nos trazem luz a situações que poderiam ser de outro qualquer contexto e passam despercebidas: o racismo quase inconsciente a aflorar de raivas sufocadas; o desequilíbrio nas relações entre homem e mulher, com suas pequenas e grandes violências; a hipocrisia banalizada.
É um belíssimo livro, que se lê com muito gosto, mas que exige disponibilidade para pensar.»

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Michel Houellebecq, o gentil

Há uma impressão de alívio na forma como está a ser apresentado ao mundo o último romance de Michel Houellebecq, Aniquilação. O «enfant terrible», o «mais polémico escritor francês» escreveu um livro «que permite entrever um raio de luz e esperança no futuro». Aniquilação, apesar do título, é «uma ode ao que é bom e belo neste mundo, ao que ainda pode ser salvo na humanidade». A aproximar-se dos setenta anos, Houellebecq encontrou «se não uma esperança pelo menos novos valores». O futuro ancião agora «propõe-nos uma moral que torna possível habitar o mundo e suportar a vida».

Ainda vou a meio do livro, mas posso testemunhar que o autor parece, pelo menos por enquanto, genuinamente curioso, não com a possibilidade de uma ilha milénios no futuro, mas com a possibilidade de reconciliação e redenção no presente. Compreende-se o alívio geral.

A foto na badana ainda é a do anacoreta, do belzebu, com aquela cabeleira rala e encrespada à la Gollum, mas o iconoclasta, o misantropo, o «profeta depressivo», parece hoje suavizado, optimista, empático. Uma das suas antigas personagens talvez especulasse que finalmente Houellebecq conseguiu foder sem ter de ir à Tailândia ou às putas (pardon my french). Outra poderia concluir, incrédula ou horrorizada, que se calhar Michel está apaixonado e tornou-se romântico.

Todavia, um crítico mais pragmático poderia propor que não foi Houellebecq que se moveu, mas o mundo. Com tanta gente a querer ser (e a ser) politicamente incorrecta, à esquerda e à direita, o marginal, o irreverente é talvez hoje aquele que, sem perder de vista a realidade dura e bruta do mundo, se atreve à bonomia, ousa uma certa gentillesse. Estou longe dos setenta, mas eu próprio tenho personagens que se perguntam: «que mal há numa educação para a gentileza? Não a gentileza protocolar, cavalheiresca, mas a verdadeira, a que transforma o dia do outro.»

Ou talvez Houellebecq continue igual a si mesmo e tenha escrito este livro apenas para se rebolar a rir com a forma como o mundo se agarra candidamente ao engodo como a uma inútil tábua de salvação.

Há ainda a hipótese verosímil de Aniquilação lhe ter escapado ao controlo, de o próprio escritor ter sido surpreendido com o mundo no processo de investigação e escrita do romance. Leia-se a forma como encerra os agradecimentos, na última página: «Por casualidade, acabo de chegar a uma conclusão positiva. O melhor é ficarmos por aqui.»

sábado, 27 de novembro de 2021

Romances imperfeitos

 


Está a começar a ver a luz do dia o meu Villa Juliana, numa edição da sempre generosa Língua Morta.

Terminado em Abril de 2019, é mais um dos meus romances imperfeitos, pistas para o que podiam ser e nunca serão, mas que (acredito nisso, senão não o editava) podem ainda assim proporcionar algum deleite estético a quem se dispuser a lê-los.

O romance divide-se em quatro livros, ou andamentos, ou capítulos, ou partes, nem sei bem, com certa autonomia entre si, mas que formam um todo com diferentes perspectivas e contributos para as histórias e a caracterização das personagens que as viveram. Foi feito a partir do prazer de narrar, do prazer da linguagem, do prazer de contar pequenos episódios e sondar as grandes histórias, do prazer ou do inelutável ímpeto de explorar a introspecção própria e a alheia.

Villa Juliana é o quarto na cronologia das edições e o quinto que escrevi. Permanecem inéditos o desditoso Aranda, sucessor do primogénito Hotel do Norte, e Salvar o Mundo, recém-nascido, com título ávido mas menor ambição do que a do apolíneo protagonista da Bíblia, cujo nascimento se celebra trocando prendas daqui a um mês. Por falar em prendas… façam o favor de oferecer este Villa Juliana apenas a quem mostre propensão para o ler.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Linda Boström Knausgård

Acabei há duas semanas de ler O Fim (sexto e último volume de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård) e de lá para cá andei mais ou menos obcecado em conseguir comprar alguns livros de Linda Boström Knausgård, a ex-mulher do autor e personagem central na obra (a seguir ao próprio Karl Ove).

Terminada a saga do escritor norueguês, senti uma certa desolação, como quando se acaba a tablete de chocolate. O meu sentimento geral em relação à obra não difere daquele que relatei brevemente em Abril de 2019 (link no rodapé), depois de ter lido o quinto volume, mas a verdade é que o desconforto de voyeur que ali refiro se retrai perante a escrita torrencial, magnética, de Knausgård e, suspeito, a identificação que provoca num leitor da mesma geração do autor, como eu.

Neste sexto volume, a relação de Knausgård com Linda, então ainda sua mulher, é a certa altura dominante e é esse tópico que encerra a obra. Parte do ali descrito foi também abordada em Verão, se não estou em erro, um dos quatro livros que o autor escreveu depois de A Minha Luta (e que estranhamente foram publicados em Portugal antes da tradução do volume 6).

Linda, enquanto personagem e enquanto mulher real, causa fascínio, ainda mais quando nos lembramos (e O Fim também ajuda nisso, diga-se) que ela mesma é escritora de mérito reconhecido. Com esta ideia na mente, fui procurar informação sobre os seus livros e acabei a ler entrevistas. Os dois escritores estão há uns anos divorciados (aconteceu já depois de O Fim) e há uma tentação grande por parte dos jornalistas de confrontar Linda com o que Karl Ove escreveu sobre ela e sobre a relação entre eles. Do mesmo modo, os livros de Linda — declarados como romances de inspiração autobiográfica — são inspeccionados à procura de passagens que desmintam Karl Ove. A autora insiste que os seus livros são romances e que não está interessada em mudar a história escrita pelo ex-marido. De resto, e isto é interessante, afirma que A Minha Luta também é ficção. Sabe, diz ela, que «está cheia de descrições cruéis e desnecessárias de pessoas reais», mas considera que «os livros são bons e influenciaram muita gente».

Perante isto, a minha obsessão por encontrar os livros de Linda Boström Knausgård em línguas para mim legíveis parece ânsia de fã de novelas. Em minha defesa, devo dizer que também eu senti, não que as descrições cruéis feitas por Karl Ove eram desnecessárias, mas que teria preferido que houvesse na forma como os volumes foram publicados uma margem de dúvida razoável quanto ao que é biográfico e ao que é ficção, para dispensar o leitor de se sentir cúmplice ou espectador mórbido de passagens por vezes inevitavelmente desconfortáveis (ainda que não maliciosas) para os retratados.

Contudo, não é este o meu ponto na procura dos livros de Linda. Mesmo que não acreditem (e já tenho idade para me estar nas tintas), o meu interesse em outras perspectivas eventuais sobre o universo Knausgård é literário, não melodramático, muito menos bisbilhoteiro. É como se fosse possível dar sequência a uma narrativa que nos fascinou através de outros autores que escrevem sobre o mesmo tema. E como se, além disso, pudéssemos continuar a acompanhar uma personagem que é ressuscitada noutras obras. Depois, há na biografia de Linda aspectos humanos e sociológicos, que inspiraram de facto os seus romances — não necessariamente (ou sobretudo não apenas) relacionados com a intriga e a tensão que foram desenvolvidos nos livros de Karl Ove —, que são de um eminente interesse literário, por um lado, e, por outro, de interesse psicológico, neurológico, científico e social (Linda sofre de transtorno bipolar, como o pai, e submeteu-se a perturbantes tratamentos por electrochoques).

Associando-se a estes motivos de interesse as boas críticas às obras da autora, talvez se possa perceber que tenha optado por encomendar do Brasil o livro A Pequena Outubrista (October Child, em tradução inglesa a publicar em Junho) e de Espanha o anterior Bienvenidos a América. Ignoro se há planos de alguma editora portuguesa para os publicar (a Relógio d’Água, que edita Karl Ove, diz que não os tem e eu digo que é preciso saber perder oportunidades...), mas agora também já não importa, as encomendas estão feitas. É só aguardar. Com impaciência.

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O que escrevi em 2019 sobre A Minha Luta: https://canhoes.blogspot.com/2019/04/eppur-si-muove-alguns-polipticos.html

domingo, 1 de novembro de 2020

Marcel

Uma das coisas que me intrigam na obra Em Busca do Tempo Perdido é a importância que o narrador, enquanto personagem, tem para as outras personagens, mesmo quando não se vislumbram particulares razões para isso. Se bem recordo, Marcel (auto-designado deste modo, como que arbitrariamente, uma única vez até perto do final) não pertence à aristocracia, mas a sua família é ainda assim tida em boa conta na «sociedade», que rejeita mais facilmente do que acolhe. Pessoa afável, inteligente, culta, escritor em potência, Marcel é crescentemente convidado para todos os chás e saraus, para quase todos os eventos sociais relevantes, para integrar grupos selectos, mas as atenções que desperta, a marca indelével que deixa nos outros é mais forte do que a que deixaria alguém apenas sociável ou medianamente popular. Como se Marcel tivesse um carisma nunca referido, mas visível nos outros como num espelho.

A meio do último volume, quando o narrador reencontra um Barão de Charlus muito envelhecido e debilitado após ter sofrido um ataque, o Barão aponta uma coluna de publicidade com um cartaz semelhante àquele junto ao qual Charlus estava da primeira vez que ele e Marcel se encontraram. É certo que o «invertido» Barão, que se pusera ali para o engate, chegou a sentir-se atraído por Marcel, mas ele sentiu-se (e sente-se) atraído por todos os rapazinhos com bom ar, e não é credível que se lembrasse, décadas depois, de tais pormenores sobre as circunstâncias em que encontrou cada um deles, ou sequer aqueles com quem conviveu mais tempo.

A cena, que não é a de dois antigos apaixonados a evocarem o primeiro beijo ou o primeiro olhar, é relatada para evidenciar como está intacta, além da inteligência, a memória do Barão, mas parece escrita para fazer notar também como era super-humana a sua atenção aos detalhes. Parece uma inverosimilhança.

Li algures que Proust divide a vida e o carácter do narrador por várias personagens do romance, como Charles Swann e o Barão de Charlus. Isso explicaria que do primeiro encontro entre Charlus e Marcel — o adulto snob e indiferente aos que o rodeiam e o adolescente curioso, com ambição literária e com uma faceta idólatra — não fosse apenas este a recordar-se do cartaz na coluna de publicidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Antecipando que sentirei saudades de ler a Recherche à janela confinada de Abril e Maio, dou por mim a sentir já saudades enquanto leio.

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Nota: isto não é um juízo sobre a obra, mas uma impressão sobre o acto e a circunstância de ler. Estes itens — livro, acto de ler e circunstância — influenciam-se mutuamente, mas, como se sabe, não são condições suficientes para garantirem a qualidade de determinada obra, de determinado acto de ler ou de ler em determinadas circunstâncias.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Europa no divã



Notas de leitura e reflexões a partir de três romances.

Os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta. Kamila Shamsie

Quando em 2008/2009 escrevi o Hotel do Norte não tinha em mente o drama actual dos refugiados, tanto porque na altura isso não era o tema que hoje é, quanto porque apenas queria escrever um romance, contar literariamente uma história. Mesmo a reflexão que o livro de certa forma opera sobre a condição dos “retornados”, assunto eminentemente nacional, não era para mim um objectivo claro, apenas pensava em usar pedaços das minhas memórias como matéria literária de uma ficção. Mais tarde ganhei consciência de que as personagens do romance, despidas das suas referências específicas a um episódio histórico e a um território particular, poderiam ser de certo modo arquétipos de seres humanos em trânsito encalhados num limbo entre o seu mundo anterior e um futuro incerto.

É desse limbo, mas neste caso com referência aos emigrantes e refugiados do Hemisfério Sul postos hoje em espera em países da Europa (no caso, a Alemanha) que trata o romance Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck. O livro da escritora alemã parece ecoar as palavras de Kamila Shamsie, paquistanesa com recente nacionalidade britânica, quando esta diz, em entrevista publicada na LER, que «os romancistas precisam de se comprometer com o mundo à volta deles e, necessariamente, com o mundo político à volta». Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai parece representar esse mesmo comprometimento ao confrontar um homem, alemão de leste reformado, com a realidade da imigração e dos refugiados, ao mesmo tempo que o confronta com o sentido da sua vida.

Isto pede um parêntesis. Em seu tempo, li mais ou menos cronologicamente, e com muito interesse, os livros de Saramago até A Caverna. Neste tropecei, porque senti que Saramago perdera a capacidade de harmonizar literatura e ideologia, deixando demasiadas costuras à vista num fato já de si com um corte inferior. Tinha lido na primeira juventude apologias de uma arte interventiva, e a minha costela editorialista concordara, mas depois também li argumentos diferentes, defendendo que um romance, para ser arte, não deve ser um panfleto, mesmo que o autor tenha igual anseio de morigerar. No fim de tudo não fiquei com ideias fechadas sobre o que é ou deve ser um romance, mas enquanto leitor não gosto de obras que prescrevem, prefiro as que lançam dúvidas, interrogações, eventualmente sugerem.

O romance de Jenny Erpenbeck, que se lê com gosto, fruto de vários outros méritos, não é um panfleto mas tem um notório engajamento em ideias humanitárias (nada contra) e uma certa propensão para ver os seres humanos pelo lado positivo, evocando, talvez involuntariamente, o bom selvagem de Rousseau. É, abordando as misérias e os dramas da emigração, um livro optimista, no sentido em que, apesar dos reveses, da burocracia impiedosa, da política cínica e do futuro sombrio, nenhuma das personagens, alemãs ou imigrantes, é verdadeiramente má (ainda que algumas sejam mal-agradecidas). Os maus no livro não chegam a ser personagens, mas ameaças abstractas com efeitos concretos, e a redenção do protagonista alemão exprime de uma certa forma o desejo de redenção da Europa.

Com livros como este e apelos como o de Kamila Shamsie referido atrás é previsível que certa intelectualidade à direita se horrorize com a perspectiva de um regresso ao sentimentalismo ingénuo e activista do neo-realismo (ela que nos dias que correm se extasia frequentemente com nacos de neo-fascismo).

Na verdade, todas as épocas têm romances políticos, escritos com maior ou menor subtileza, com maior ou menor engajamento. Philip Roth escreveu A Conspiração Contra a América como Orwell tinha escrito 1984, fazendo especulação literária com a História, sugerindo que a cada momento a linha entre os vários futuros disponíveis e a histórica factual é ténue. Mais do que prescientes, são livros que nos mostram mundos possíveis que os autores rejeitam e desse modo combatem.

A novidade hoje será o regresso de um certo sentido de urgência, como noutros períodos da História em que a identidade das sociedades esteve em causa. É o regresso à dúvida de quem somos «nós» e quem são «eles» e como se hão-de articular a primeira e a terceira pessoa do plural.
Este sentido de urgência pode dar, dará certamente, muita má literatura, que não sobreviverá à sua época, caso alguma coisa sobreviva. Mas tem também exemplos de excelente literatura, como A Capital, do austríaco Robert Menasse.

Neste romance, o assunto dos refugiados não é o foco principal, embora esteja presente e tenha o seu mais forte momento de irónica provocação numa pietà composta por uma muçulmana de lenço na cabeça a amparar um austríaco de fato e gravata à beira da estrada após um acidente. A personagem principal é a própria União Europeia, representada pela sua babélica e falhada capital, Bruxelas. As cinco histórias que se entrecruzam e interligam no livro têm sobretudo como protagonistas funcionários de instituições da UE (com diferentes nacionalidades e origens culturais, e com idiossincrasias que se relacionam ou digladiam com as respectivas origens, convocando reflexões sobre clichés, nacionalismos e multiculturalismo dentro da União) ou pessoas que de algum modo interagem com instituições e políticas da UE. Podemos ler o livro com a atenção apenas nas pessoas e nas histórias — com o seu sabor a thriller ou policial, os seus dramas amorosos e humanos, existenciais, o seu lado de crónica social, os seus episódios cómicos — ou podemos conjugar tudo isso com a deliciosa sátira sobre a União Europeia que o livro constitui. (Na abertura, e ao longo do romance, há um porco à solta nas ruas de Bruxelas e a política europeia sobre suínos é feita matéria literária para falar divertidamente do confronto de interesses e perspectivas dentro da União Europeia.)
Contudo, após nos rirmos do absurdo do quotidiano institucional de Bruxelas e de quão patética a União pode ser, com as suas instituições concorrentes ou contraditórias, chega-se ao fim do livro com a certeza de que esta Babel decadente e em ruptura que é a Europa não só é uma boa ideia como pode funcionar. E é este o comprometimento político — subtil na sua trama mas evidente no seu alcance — de um livro que é sobretudo um grande romance.

O terceiro livro desta minha pequena sequência de leituras é Hotel Silêncio, da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir. Aqui não há propriamente refugiados, mas um país dilacerado pela guerra. Um homem, nórdico, confrontado com os falhanços e equívocos da sua vida, decide matar-se, mas vai fazê-lo longe, para poupar a filha a encontrá-lo morto. Chega com o álibi do turismo a um país que tenta recuperar das suas próprias feridas e desata a consertar coisas, com o seu jeito para os trabalhos manuais. Pelo caminho, começa a consertar-se a si mesmo.
Este não é um romance político, embora não impeça reflexões desse cariz, especialmente se não evitarmos fazer coincidir o país da história com uma qualquer das repúblicas da ex-Jugoslávia.
O assunto aqui é a superação, pessoal ou nacional, através do acto de consertar (e de colaborar), que sucede e se opõe ao impulso de destruir. A forma concisa e poética como o livro está escrito faz pensar numa parábola, e, se o lemos na sequência dos anteriores, com o declínio da Europa no horizonte, a parábola ganha uma nova dimensão e torna-se urgente. Se nos quisermos comprometer, claro.

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Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck — Relógio d’Água, 2018
A Capital, de Robert Menasse — Dom Quixote, 2019
Hotel Silêncio, de Auður Ava Ólafsdóttir — Quetzal, 2019

sábado, 16 de junho de 2018

[Work in progress]

«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pianista

Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:


«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais; agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na plataforma junto ao lago, estendido na chaise longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite, que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas. 
Digo que a sua indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras. Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado, permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas, e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da terra.
Num dos verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas. Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei, influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio. O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago como o protagonista de A Morte em Veneza, ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era suficiente, e exacto, para o definir.»

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Caderneta de cromos


[de um trabalho em curso]

«Suponho que toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que, assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar. Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção oculta, a big picture, o verdadeiro retrato ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los, colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês, seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o bouquet.
Acresce que também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes, escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto. Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta, um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra Talhada.»

sábado, 24 de março de 2018

a violenta e cruel natureza da sobrevivência


[de um trabalho em curso]

«Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas, não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos, uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria fisicalidade.
E contudo esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela. Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da sobrevivência.»

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Ave-Rara

Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.

[work in progress]