A curiosidade antropológica e a consequente observação da vida selvagem são requisitos do exercício literário. Por isso não é inusitado que um escritor se ponha a observar um cortejo académico se tropeça num.
E o que vê o nosso escritor? Uma espécie de orquestra do Titanic, multiplicada tantas vezes quantos os carros do cortejo, a executar nas vésperas do naufrágio colectivo um repertório pouco exigente.
Nas galeras dos camiões dança-se, ou melhor, bebe-se como nos loucos anos vinte do século passado, com uma sofreguidão que se confunde com a alegria, o alívio e a urgência de quem escapa a uma guerra e deseja ignorar a próxima — ou apenas passar ao lado das convulsões do mundo.
Visualmente, dir-se-ia um sucedâneo de Carnaval brasileiro, com alegria — ao menos isso — mas sem brilho nem propósito, como se uma borrasca tivesse levado os adereços e os trajes e apenas sobrassem as pessoas, encharcadas, aturdidas, de cabelos escorridos.
A caravana é composta de carros em geral sem intenção alegórica, a não ser a involuntária e nada lisonjeira que remete para espécimes numa jaula de circo ambulante, exibidos aos transeuntes em pleno processo de embriaguez como numa aula de biologia se exibem, para estudo, processos biológicos ou corpos dissecados.
Os ornamentos dos carros resumem-se quase sempre a faixas com os nomes dos cursos — como etiquetas de laboratório — ou a balões coloridos, decalcados de um aniversário infantil. Nada de palavras de ordem, reclamações, exigências, propostas, denúncias, caricaturas, provocações, ou sequer humor — se descontarmos uma piada forçada e inofensiva sobre dinossauros e veterinária ou a tentativa bizarra mas sobretudo fútil (com certa lógica, afinal) de lograr acrónimos fundido Barbie e Ken com finalistas e engenheiros.
Tal como a imaginação falha por absentismo, a mítica (ou talvez apenas lendária) irreverência juvenil parece esgotar-se nesse frouxo desafio à moral que representa embebedar-se em público — para o que, na verdade, o cortejo é afinal redundante, se considerarmos todas as fases da vida académica.
Por momentos assoma uma breve ousadia, sintomaticamente no mais pequeno dos camiões: um curso, que o nosso escritor não identifica, evoca os 50 anos do 25 de Abril, com fotos de Salgueiro Maia e Zeca Afonso e as paredes alegoricamente cobertas de jornais (jornais!).
Mas a normalidade académica é retomada de imediato, antes que se criem ideias erradas sobre o desfile. O carro seguinte, de novo um poderoso semi-trailer, projecta a sua música como se quisesse ser ouvido em Marte — e a população é convidada a partilhar as fantasias de pornochachada de Quim Barreiros com os peitos da cabritinha. É o carro do curso de Educação Básica a encerrar com pedagogia e bons augúrios o cortejo.
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segunda-feira, 29 de abril de 2024
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
Alucinação outonal
Regressando de uma caminhada outonal, resolvo, imprudentemente, atravessar a cidade para ir comprar uns víveres antes de subir ao castelo. Cruzo-me aqui e ali com pares ou pequenos bandos de seres meio cambaleantes, maltrapilhos, cabelos escorridos, roupas molhadas, cheiro intenso. Mudo de passeio. E logo a seguir mudo de rua, quando vejo ao fundo um bando maior. Intuindo de onde vêm, recalculo o trajecto, como um GPS antigo quando lhe trocamos as voltas. Mas não adianta mudar o percurso, não param de vir, por todos os lados, e penso num ataque de zombies.
Ao chegar ao centro, a que faço uma tangente arriscada para não ter de dar uma volta ainda maior, vejo no meio da praça o grosso da seita, dezenas de espécimes muito juntinhos, aos pulinhos, como a “ninhada” num qualquer filme de série Z, entoando mantras. Quando lhes passo à ilharga, como que obedecendo a uma ordem mental do titereiro que os comanda e que me deve ter cheirado, uma ala inteira deles, cor uniforme, começa a descer na minha direcção, qual claque saltitante e urrante pastoreada pela polícia em dia de derby. Num primeiro momento fico apenas fascinado com aquela mole que vive e age em uníssono, como se partilhasse o mesmo cérebro. Depois, ainda dentro do meu filme de zombies, penso que, ao avançarem tão juntinhos, só me facilitam a vida e dispensam a mira — assim me tivesse lembrado de trazer a HK21 e duas ou três fitas de munições.
Continuo para o supermercado pensando que é melhor que na caixa não impliquem comigo por levar a fruta sem sacos de plástico.
Quando finalmente saio do transe, reconheço naquelas figuras que vagueiam e agora ultrapasso estudantes a regressar da latada. Alguns levam, não o ar ufano de quem venceu uma prova de iniciação, mas o ar indiferente ou entediado de quem cumpriu uma tarefa burocrática.
Ao chegar ao centro, a que faço uma tangente arriscada para não ter de dar uma volta ainda maior, vejo no meio da praça o grosso da seita, dezenas de espécimes muito juntinhos, aos pulinhos, como a “ninhada” num qualquer filme de série Z, entoando mantras. Quando lhes passo à ilharga, como que obedecendo a uma ordem mental do titereiro que os comanda e que me deve ter cheirado, uma ala inteira deles, cor uniforme, começa a descer na minha direcção, qual claque saltitante e urrante pastoreada pela polícia em dia de derby. Num primeiro momento fico apenas fascinado com aquela mole que vive e age em uníssono, como se partilhasse o mesmo cérebro. Depois, ainda dentro do meu filme de zombies, penso que, ao avançarem tão juntinhos, só me facilitam a vida e dispensam a mira — assim me tivesse lembrado de trazer a HK21 e duas ou três fitas de munições.
Continuo para o supermercado pensando que é melhor que na caixa não impliquem comigo por levar a fruta sem sacos de plástico.
Quando finalmente saio do transe, reconheço naquelas figuras que vagueiam e agora ultrapasso estudantes a regressar da latada. Alguns levam, não o ar ufano de quem venceu uma prova de iniciação, mas o ar indiferente ou entediado de quem cumpriu uma tarefa burocrática.
domingo, 28 de março de 2021
Fade news
Antes das fake news propaladas em massa por grupos ideológicos idiotas ou mal-intencionados, havia já a figura do «assessor de comunicação», geralmente um jornalista no desemprego ou com outras ambições que aceitava um salário para, intrometendo-se na área do publicitário mas sem a mesma franqueza etimológica deste, vender um produto: uma ideia, um projecto, uma instituição, uma personalidade, um político, um sabonete.
Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.
O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.
A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.
Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.
É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.
E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.
A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.
Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.
-------
* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8
Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.
O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.
A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.
Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.
É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.
E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.
A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.
Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.
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* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
«Ser humilhado é um direito»
O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não
exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades
exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com
frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto
prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se
revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos;
se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem
resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e
títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante
fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm)
para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras
à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais
afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade.
Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas
perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são
curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Praxes
Julgo por vezes que ninguém que mereça respeito intelectual simpatiza
com o mundo idiota e perigoso das praxes universitárias. O que é que isto
significa? Que tenho uma visão restrita das pessoas que merecem respeito
intelectual? Talvez. Sou um sentimental, mas não confundo afecto e piedade com
admiração. Não acho inteligentes ou iluminadas todas as pessoas que amo ou por
quem tenho compaixão. Neste tempo de dificuldades, por exemplo, apiedo-me do
país, mas continuo a não o ter lá assim em grande consideração. O país aceita
as praxes — eu tenho pena do país também
por isso.
O que acho mesmo que isto significa é que ninguém respeitável do ponto
de vista intelectual tem poder ou, tendo-o, o quer exercer contra a
imbecilidade geral. Isto significa também que à frente de uma parte das
universidades, como do país, estão idiotas, comodistas ou cobardes. Ou apenas gente manietada.
A natureza estupidificante e fascizante das praxes universitárias está há
muito identificada. Num mundo de adultos, ou num mundo de gente decente e
culta, a sua abolição tinha ocorrido há muito, sem dramas, com a veemência célere
e inelutável dos gestos necessários e consensuais.
Acontece que Portugal não é nenhum desses mundos. O poder dos reitores
e o poder da gente decente e culta é limitado. O respeito intelectual é uma
daquelas coisas obsoletas, como a palavra de honra ou a honestidade. Quem o
merece, torna-se geralmente clandestino, por segurança. Como nos media e na rua, a indigência intelectual
sequestrou o que resta de inteligência e cultura no campus. Os reitores são tolerados no seu posto — não exactamente respeitados
ou obedecidos. Os professores não contam, e muitos deles são suficientemente
cultos e intelectualmente respeitáveis para abominar as praxes.
No mundo de anedota que é Portugal, os próprios jornais de referência identificam
um rapazola qualquer como «ex-responsável pelo conselho de praxes». Notem-se os
termos, a sisudez e a gravidade dos termos: «ex-responsável» para definir um ex-cabecilha
de uma comandita vocacionada para a galhofice e a humilhação. Como se houvesse naquela
figuras alguma ponta de responsabilidade no sentido institucional ou ético do
termo. Como se com frequência aquela responsabilidade não fosse meramente do âmbito
do Código Penal. E «conselho de praxes», assim, embrulhado em respeitabilidade,
em seriedade, como se os adultos dos jornais se empenhassem na brincadeirinha
das crianças, sorvessem cerimoniosamente o chá que não está nas chávenas,
mastigassem convictos e censurando-se as cólicas a lama dos bolinhos que as
crianças lhes dão a comer.
Que a rapaziada nos seus divertidos e irresponsáveis vinte anos crie «conselhos»
e nomeie «responsáveis», determine «códigos» que regem a companhia alegre,
compreende-se — quem não quis ter na adolescência um clube secreto ou uma casa
na árvore? Que os adultos de um país, os seus jornais, as suas instituições e
os seus líderes não ponham limites à brincadeira é caso para levar a nação ao
divã de Freud ou a internar no Conde Ferreira. Se houver verba. E vagas.quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia
A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística
de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil
pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram
que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter
dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a
existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em
certas cidades mais progressivas do farwest,
os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos
índios e cowboys, que o façam lá fora.
A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas
actividades ocorram extramuros.
E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo
que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante
é limitada pela vedação do campus.
Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de
nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos —
quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte
anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de
alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.
Se você, caro cidadão, dando-lhe
na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até
transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com
sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no
percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário
municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente
divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas.
Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a
cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da
terra.
Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a
galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus
escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe,
achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente
antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as
calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde
saíam os áureos ovos. A escatologia era
assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua
acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do
condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim
do mundo).
Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos
burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da
mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural
que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso,
desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia
humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes
universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e
quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Praxe
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os
deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer
treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na
vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade
académica.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
A grande farra niilista
Hoje escreveria sobre as praxes. Sobre como a melhor das idades se
dedica à sua grande farra egoísta enquanto o país dá os primeiros passos para a
tristeza. O país paroquial e cinzento de há trinta anos prepara-se para
regressar e a melhor das idades vive a sua tradição
mediocrizante como se nada mais houvesse no mundo.
Já desconfiávamos que não podíamos contar muito com a gente nas casa dos vinte para a construção de um espírito nacional exigente, culto, aberto,
democrático, contemporâneo, cosmopolita, generoso. O maior orgulho e o maior
empenho do grosso das últimas gerações universitárias foi votado à praxe, às
tradições académicas, à imbecilização — teríamos de ser demasiado cândidos para
contar com aquela juventude. Agora
temos a certeza. Agora temos a certeza de que se algumas das conquistas
recentes — que eram em grande parte para serem vividas pela gente de vinte anos
— sobreviver será apesar daquela
juventude. A grande e permanente farra universitária continuará, e nem é como se
fosse a «última farra» — haveria algo de respeitável no gesto tresloucado de festejar pela última vez enquanto o mundo implode. É apenas a continuação, o arrastar de uma rotina niilista de cinco
anos que em grande medida interrompe o pensamento, a curiosidade, a dignidade —
quando devia estar exactamente a expandir
estas qualidades.
Hoje escreveria sobre isto e o mais que há a dizer sobre as praxes e a
vida «académica», mas o Rui Bebiano e o Daniel Oliveira fizeram-no muito bem
aqui e aqui. Leiam, por favor. Uma parte da pátria agradece a vossa curiosidade.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
«No photo»
Na imagem do JN, uma estudante procura impedir que os turistas fotografem um momento de praxe universitária (ou “ritual de integração”, o eufemismo em uso). Podemos imaginar que a rapariga pretende zelar pela dignidade dos caloiros, impedir que a humilhação a que geralmente os sujeitam seja registada e alvo de exposição pública (por exemplo, na Internet). Tenderemos a simpatizar com a jovem, com a sua diligência humanista.
Ou podemos ser mais exigentes e pedir-lhe um pouco de coerência. A dignidade dos caloiros não é ofendida pelas fotos inconvenientes que possam circular. É-o pelos actos que sobre eles cometem os colegas mais velhos. Culpar o mensageiro foi sempre a fórmula dos déspotas.
Na verdade, a rapariga que põe a mão à frente da câmara e diz «no photo» não nos deveria merecer excessiva simpatia. Se foi suficientemente inteligente para dar o primeiro passo (considerar indigna a exposição da humilhação), é mais culpada por não dar o seguinte: considerar indigna a própria humilhação.
Em bom rigor, o que a imagem do JN registou foi alguém a pretender esconder as provas da sua vileza — mesmo que inconscientemente, mesmo que com um retorcido sentimento de virtude. Como nas melhores autocracias.
Era uma estudante universitária — poderia ser o esbirro de uma ditadura.
Ou podemos ser mais exigentes e pedir-lhe um pouco de coerência. A dignidade dos caloiros não é ofendida pelas fotos inconvenientes que possam circular. É-o pelos actos que sobre eles cometem os colegas mais velhos. Culpar o mensageiro foi sempre a fórmula dos déspotas.
Na verdade, a rapariga que põe a mão à frente da câmara e diz «no photo» não nos deveria merecer excessiva simpatia. Se foi suficientemente inteligente para dar o primeiro passo (considerar indigna a exposição da humilhação), é mais culpada por não dar o seguinte: considerar indigna a própria humilhação.
Em bom rigor, o que a imagem do JN registou foi alguém a pretender esconder as provas da sua vileza — mesmo que inconscientemente, mesmo que com um retorcido sentimento de virtude. Como nas melhores autocracias.
Era uma estudante universitária — poderia ser o esbirro de uma ditadura.
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