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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol


Nas minhas deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser conhecida pela beleza.
As torres ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas, em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética, porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é belo.

O verde da vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século, as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um ecrã verde.

Há países, como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano. Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas, demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado, e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua representação escultórica e irónica.

 A Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.

domingo, 2 de setembro de 2018

A invasão da joaninha

Na Polónia, se estivermos atentos, somos duma forma ou doutra alertados para os perigos de sermos permissivos em relação à ameaça de regimes fascistas ou totalitários como o nazi e o soviético, mas quando vemos a intensa disseminação de supermercados Biedronka (a ‘Joaninha’ da Jerónimo Martins) e de filiais do Millennium Bank (Millennium BCP) interrogamo-nos se não deveríamos nós alertar os polacos quanto aos perigos que correm com esta nova ocupação.

sábado, 1 de setembro de 2018

Auschwitz e Birkenau ou o castelo de Drácula


Auschwitz e Birkenau não deviam ser visitados de Verão. O Agosto polaco é demasiado benévolo, a paisagem verde demasiado bucólica, a arquitectura demasiado harmoniosa (perdoem-me a observação) e as pessoas, animadas pelo bom tempo, demasiado gentis para que possamos sentir na pele, nas entranhas, a experiência extrema e terrível da vida num campo de extermínio nazi.

A boa prestação da guia, assertiva no relato histórico e na sugestão de que ele nos deve manter em alerta permanente, não chega a arrepiar profundamente os visitantes, decerto condoídos mas temo que não muito mais do que o estariam se visitassem uma masmorra da Inquisição, essa entidade velha de séculos e anacrónica como calças à boca-de-sino, que ninguém acredita que voltem.

A escala desmesurada de Birkenau lá arranca os seus murmúrios de espanto, mas julgo que os turistas do Holocausto apenas interiorizariam a experiência se tivessem de se enterrar nas lamas do Outono ou da Primavera ou de bater os dentes nas neves de Dezembro. Num Agosto assim, receio que a visita a Auschwitz e Birkenau, com as suas latrinas limpas e a refulgente cerâmica dos fogões de aquecimento, se pareça a uma visita aos jardins do castelo de Drácula.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Oświęcim

A ideia de pernoitar em Oświęcim* não é cara à maioria dos que visitam a Polónia. A cidadezinha, tirando o que se poderia chamar de atractivo macabro dos campos de Auschwitz e Birkenau, não parece ter outros predicados. Além disso, os guias publicados, as agências internacionais de viagens e os postos de informações no país sugerem em regra um tour directo, com autocarro de ida e volta, a partir de Cracóvia, cidade turística por excelência. O acesso por comboio regional não é difícil nem desconfortável (observação que, bem sei, resulta frívola no contexto), mas os polacos, os guias e as agências desconhecem ou desaconselham.  

Auschwitz constitui assim um dos vários programas da oferta de Cracóvia, a par das montanhas de Zakopane, da descida às minas de sal, do rafting no Dunajec, do crazy tour à cidade satélite comunista de Nowa Huta. Insere-se na rubrica «o que fazer» quando se está em Cracóvia à espera de dicas. Visita-se como se visita mais um castelo, com as suas próprias masmorras e histórias de tortura. Os turistas, quando têm a informação, a idade ou o carácter suficientes, lá adoptam ao sair do autocarro a devida expressão circunspecta, como quando visitam sem quererem parecer desrespeitosos um templo de outra religião. Se lhes pedissem, descalçar-se-iam ou cobririam a cabeça, mas muitos ficariam aborrecidos se não pudessem fotografar. No final das férias terão disponível para os amigos um relato da visita, intercalado em histórias de refeições deliciosas ou horríveis, dificuldades do câmbio monetário, noites em bares e picardias sobre os polacos e as polacas.

Não é portanto prevista ou sugerida uma estadia em Oświęcim (embora a cidade tenha vários hotéis, e um deles, o Hampton by Hilton, fique mesmo na entrada do pequeno centro histórico). Presumo que ninguém queira que os turistas se aborreçam a cismar numa pacata cidade a braços com a sua ocupação nazi e os seus blocos de habitação comunistas quando há tanta coisa excitante para fazer no resto da Polónia.

* Lê-se mais ou menos «óche-vién-tchim», daí «Auschwitz» em alemão.

No gueto de Varsóvia


1. Um grupo com umas três dezenas de rapazes e raparigas, morenos na sua maioria, participa de uma cerimónia no monumento que homenageia a revolta do gueto de Varsóvia. A certa distância, estrategicamente colocados nas quatro esquinas de um rectângulo imaginário, quatro jovens adultos, igualmente morenos, parecem apreciar o cerimonial, mas percebe-se pelos movimentos de cabeça, pelos auriculares discretos e pelo volume suspeito ao fundo das costas, sob a fralda da camisa, que montam guarda. Armada.
Não há polícia polaca (ou loura) nas redondezas.

2. No museu contíguo, cuja arquitectura do hall pretende evocar a separação das águas do Mar Vermelho para a passagem franca dos judeus perseguidos, os seguranças, mulheres e homens, são também morenos. E ríspidos, rudes, autoritários. Deslocados, pensa-se. O bilheteiro, não divergindo do aspecto judaico mas menos anguloso e mais bonacheirão e, ao contrário dos colegas na entrada, simpático e afável, pede desculpa por o preço dos bilhetes não estar visível e pede desculpa pela rudeza e antipatia da segurança. Sugere que se escreva à direcção do Museu. Sugere sempre, as queixas são habituais. Ele próprio tem dito aos chefes que essas coisas são pouco agradáveis.
Ficamos sem saber se ele é o judeu bom no sketch do polícia mau e do polícia bom ou se concorda genuinamente que é um pouco perturbante (ou pelo menos irónico, de uma ironia sem riso) que naquele museu se escondam os preços dos bilhetes e se recebam com autoritarismo rude os visitantes.
Em todo o caso, apropriamo-nos da sugestão da separação das águas e decidimo-nos pela visita.