Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)
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* Excepto para David Foster Wallace.
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quinta-feira, 9 de julho de 2020
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O direito à poligamia
Decerto com razoável ironia, o escritor Nick Hornby propôs algures que se
devia queimar os livros «complicados». Esta é daquelas frases que dão jeito a um
provocador e está de acordo com o zeitgeist
comercial, numa altura em que há empresas que não se importam de lançar e
depois retirar compungidas do mercado produtos politicamente incorrectos porque
sabem que a visibilidade concedida pelo “escândalo” lhes acabará por trazer
lucros. Ainda que aqui não haja necessidade de Hornby se vir a queixar de citação
fora de contexto: a sua afirmação tem tanto de provocador como de banal. Muitos
disseram o mesmo, por aquelas ou outras palavras, e vários deles eram também
escritores, ou coisa aproximada.
O El País, que traz a notícia e fala da repercussão que terá tido aquele fait
divers literário, dá-se contudo ao trabalho de coligir uma lista de 10 livros que «carregam o estigma (muitas vezes injusto) de serem inacabáveis»,
por gigantismo ou ilegibilidade. Vai de O Arco-Íris da Gravidade a A
Piada Infinita, mas passa por Crime e
Castigo e Guerra e Paz. Isto é ir
um bocadinho mais longe do que se atreveria José Rodrigues dos Santos, e o
artigo mistura, com certa tontice, a suposta complexidade com o tamanho dos
livros.
Teremos, portanto, duas razões, nem sempre acumuláveis, para queimar
livros: a dificuldade de leitura que eles oferecem ou o número de páginas que
os constitui.
Reparem que nenhum dos escritores citados na peça, Nick Hornby ou Kingsley
Amis, teve a franqueza de Fernando Pessoa, nenhum defende que pura e
simplesmente se não leia. Não. São (ou eram) escritores: naturalmente não
querem afastar a clientela (pelo contrário, como se verá adiante). Consideram a
leitura importante, claro, ou uma interessante «actividade hedonista».
No que toca ao tamanho dos livros, a estigmatização dos grandes é
estulta, se tivermos precisamente em conta o prazer da leitura: o que importa
ler dez novelas ou um só calhamaço, dez autores ou um só escritor, se o objectivo
é o prazer que tiramos do exercício de ler? Eu, por exemplo, e pensando só no
prazer, trocaria de bom grado uma dezena de livros menores que li por um novo
tomo de A Piada Infinita. Ganharia,
entre outras coisas, novidade e variedade, tudo num só livro, vejam só.
De resto, para escritor, aquele Hornby parece ter um medíocre
conhecimento da natureza humana. Ignora que, nos prazeres literários como,
digamos, na culinária, os seres humanos são diferentes?
E vamos ao argumento da complexidade. É claro que há gente que lê ou
diz ler destas obras «estigmatizadas» para poder fazer alarde de superioridade intelectual
ou para seguir, por pretensão, o mais exigente cânone. Eu li o Ulisses em bicos de pés e pouco percebi
dele na altura, mas não me arrependo de ter seguido a via pedante (se quiserem)
em vez da via pirómana. Acredito que, neurologicamente, duas pessoas diferentes
possam sentir o mesmo grau de prazer a ler o supra-referido dos Santos, por
exemplo, ou o falecido Wallace, mas desconfio que o cérebro do leitor que lesse
o segundo sairia bastante mais colorido e refulgente de uma ressonância magnética.
E eu não vejo, com franqueza, razões para se preferir levar para casa imagens
de um blackout quando se faz uma IRM.
Tirando Philip Roth — que chegou ao ponto de desaconselhar a leitura tout court mas porque, bem sabemos,
decidiu deixar de escrever —, o aprendiz de Torquemada que manda queimar livros
alheios está, geralmente, com consciência disso ou não, a ser juiz em causa própria,
a autojustificar as suas opções enquanto escritor, a puxar a brasa à sua
sardinha literária, a defendera a sua bancazinha no mercado livreiro.
Adicionalmente, mostra que, por infelicidade, o ter-se tornado escritor não
preservou o leitor que eventualmente havia nele. É que nenhum leitor
verdadeiramente interessado na leitura (ou viciado
na leitura, se quisermos continuar nas metáforas hedónicas) escolherá ou
rejeitará um livro pelo seu tamanho, ainda que possa ter o seu próprio
calendário de leituras e tendência a postergar indefinidamente luxações nos
pulsos.
Nick Hornby diz, e nisto tem razão, que «de cada vez que continuamos a
ler sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver TV um
prazer». Mas um escritor com alguns conhecimentos de sociologia, psicologia,
neurologia ou o diabo a quatro e que apreciasse a diversidade humana talvez não
devesse ignorar que se pode não ter a menor vontade de ler o mais fininho dos
livros de JMS (J),
se ele algum dia escrever um à sua imagem, e encontrar em cada magra página um
trabalho de Hércules. Num mundo em que o cânone excluísse livros complicados e/ou
grossos (e esse mundo já está aí), haveria sempre gente a reconhecer que prazer
é ver TV.
A redutora imagem da humanidade implícita numa condenação dos livros «excessivamente
complicados» é, insisto, apologia de uma escola ou da obra própria. Infelizmente,
uma parte dos escritores não resiste a esta tendência, e é por isso que tantas
vezes ler-lhes as entrevistas se torna penoso. Detesto escritores possessivos,
que me queiram só para si. Enquanto leitor, reclamo o meu direito à
biodiversidade — ou à poligamia, para regressarmos ao prazer.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão (ou notas sobre A Piada Infinita)
Depois de por três vezes tergiversar
(aqui, aqui e aqui) sobre A Piada
Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma
coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.
Lido no Verão e em férias, os
problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo,
estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da
adolescência. A Piada Infinita (API) tem
um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não
está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos,
paradoxalmente, legais, autorizadas e
estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este
ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se
dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário
e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos
estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre
é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados
com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro
estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter
cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o
mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda
alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este
tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica
ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão
luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o
mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é
o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de
API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio
Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele
continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para
compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria
farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e
apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo
adulto apenas no BI. A Piada Infinita
é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de
substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3.
Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de
horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks,
e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo
entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença
seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a
correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.
NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa
assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em
casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é
uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com
a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe
tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para
hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida
por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois
de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.
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