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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pequenos retratos infames (3): Henrique ‘Santa Comba’ Raposo

É ilegítimo e vil usar aspectos físicos das pessoas para atacar as suas ideias ou posições políticas. Ou para as defender. Na minha pós-adolescência ocorreu acusarem-me de Júlio Isidro e simultaneamente piropearem-me de James Dean. (Hoje fariam pior.) Mas isso aconteceu, tanto para o mal como para o bem, porque na verdade ninguém, eu incluído, sabia ou se interessava pelo que eu pensava. Apenas estava toda a gente, de novo eu incluído, fascinada (como no circo) pelos diferentes ângulos da minha fotogenia: de frente para o James; de lado para o Júlio (nunca subestimem o poder afrodisíaco de um nariz).

Mas deixemos Narciso no seu lago. Se tivermos nobreza de princípios e intenções, será deveras impróprio e torpe lembrar o quanto Henrique Raposo, naquela sua foto de míope, se parece com um oficial das SS ou com um agente da Gestapo. O exercício é contudo legítimo se reconhecermos ao alvo dos nossos insultos uma inteligência capaz. Precisamente porque sabemos que Raposo não ignora as circunstâncias, as conotações e a vanidade de muitos dos seus artigozinhos irreverentes e caprichosos do Expresso, podemos, se formos igualmente mesquinhos, responder-lhe com um «Heil Hitler para ti também». Ou, pronto, não exageremos, o caso não é assim tão teutónico. Raposo talvez apenas se pareça com um mangas-de-alpaca doutrinário, uma espécie de primito lisboeta e envernizado do homem de Santa Comba, para quem basta um simples e nacional manguito das caldas. E se o caso for menos grave ainda — Raposo enquanto mero delfim de César das Neves, invejoso do sucesso daquele no anedotário luso (que não da avença, imagino que o Expresso pague mais) , até podemos achar o Henrique boa companhia para um copo. Quem não gosta de partilhar a mesa com um tipo mesmo de direita? Eu gosto, e o único amigo que tinha capaz de achar que a culpa da crise era dos gajos do rendimento mínimo vacilou nas convicções quando o Governo lhe foi ao bolso e o deixou mal equilibrado às portas do desemprego. Sinto por isso falta de alguém a quem possa pagar com gosto umas rodadas enquanto digo: o que bebes, nazi do caralho?

sábado, 1 de março de 2014

Pequenos retratos infames (2)

Helena Matos

Há uns anos entrevistei Helena Matos numa esplanada da Gulbenkian e, mesmo que a incompetente entrevista que publiquei não dê disso conta, fiquei com a sensação perturbadora de que em alguns momentos estava na presença de um espírito fanático. Por certos assomos de cólera, certas obsessões, certa impiedade. Sacudi a ideia da cabeça mas a passagem do tempo, receio, viria a dar razão ao pressentimento. Na altura fui ter com ela porque gostava da sua iconoclastia no Público, mas hoje verifico com desolação que aquilo que eu achava ser rebeldia tinha muito de facciosismo à espera de vez. Assim que a direita neocon (muitos não gostam do termo, mas desconfio que ela não se importa), na sua versão lusa, subiu ao poder, o que era nela desalinhamento, pensamento politicamente incorrecto, revelou-se engajamento, zelo, farisaísmo. Não necessariamente por fidelidade a um partido ou a um governo, mas a um ideal, ao ideal. A investigadora parecia um ser livre, contestatário, questionador, mas era sobretudo uma opositora (muitíssimas vezes com razão) de quem governava à época. O tempo, que tudo apura, agiu nela empedernindo-lhe (ainda mais) o coração e barricando-lhe as ideias na viela mais obscurantista por onde às vezes andava. Lê-la sobre homossexualidade, arte, direitos dos cidadãos e não a imaginar com bigode e pêra de inquisidor do Santo Ofício, como um ayatollah de calças, é um feito de que já não sou capaz, lamento. O seu retrato grava-no-lo ela a fogo, diligentemente, com requintes e provavelmente orações fervorosas, artigo após artigo, post atrás post.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pequenos retratos infames (1)

José Manuel Fernandes

Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto editorial, o Observador, que certamente não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos, uma espécie de Bonnie and Clyde com um gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo director do Público. Anos atrás, ele escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de “criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem. É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco grande de os portugueses confundirem o Observador com o Diário da República, quando notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício em assinar o Observador, onde as (más) novas legislativas aparecerão primeiro. O DR deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?