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terça-feira, 9 de julho de 2024

Hawk-Eye

Hawk-Eye é um sistema computadorizado presente em vários desportos que utiliza câmaras e sensores para rastrear visualmente a bola e exibir imagens em movimento da trajectória estatisticamente mais provável. Mandou para o desemprego os juízes de linha dos Open da Austrália e dos Estados Unidos. No torneio de Wimbledon, que agora decorre e ainda emprega olhos humanos, é usado em replay para tirar teimas — tornando por isso a tarefa dos juízes de linha uma fonte de angústia perante a ameaça permanente de julgamento e fazendo-os nos dias maus invejar a sorte dos congéneres australianos e americanos.
Mas a inteligência artificial também tem problemas existenciais e pode ver-se obrigada a combater as suas próprias aflições, como registei no conto abaixo durante o Australia Open de 2023.


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A ANGÚSTIA DO HAWK-EYE ANTES DO PRIMEIRO SERVIÇO


«No seu primeiro dia no emprego, depois dos meses de estágio, Hawk-Eye estava nervoso. O caso não era para menos, tinha uma grande responsabilidade: ia ser juiz num dos maiores torneios do mundo. Na verdade, como boa máquina que era, ia desempenhar sozinho as funções de mais de meia dúzia de juízes humanos, e teria uma autoridade que ninguém disputaria. Mas isso, que o enchia de vaidade, era também a fonte da sua angústia. É que, a despeito de o regulamento do torneio não prever qualquer revogação das suas decisões — Hawk-Eye passara com distinção em todos os inúmeros testes e beneficiava daquela velha superstição humana de que os computadores não falham —, ele teria de deixar exibir nos ecrãs do estádio, de forma não vinculativa, para mero benefício das emoções do jogo, a repetição em slow motion e close up das bolas que, apesar da sua decisão soberana, dividissem opiniões quanto a terem ou não batido do lado certo da linha.

Enquanto no court se desenrolavam os rituais que habitualmente precediam os jogos, Hawk-Eye deu por si a roer os chips, como um novato. Tinha de pensar rápido, muito rápido. O que não representava nenhuma dificuldade para si, bem vistas as coisas: ele era por definição um dos processadores mais rápidos do mercado de trabalho.

Uma vez que era ele também quem estava encarregado de gerir a gravação e a reprodução de todas as imagens do jogo e tinha acesso ao enorme arquivo de jogos televisionados, treinos e testes com que o tinham amestrado para a profissão, Hawk-Eye tomou num milionésimo de segundo uma decisão pouco ética mas que deixaria todos, não só ele, descansados quanto à fiabilidade dos seus juízos. Procurou e encontrou — e quando não encontrou exactamente o que queria fez algumas montagens rápidas como um editor de efeitos especiais de cinema — arquivos com bolas que batiam em quase todos os centímetros quadrados do court, vindas de todos os ângulos possíveis e com toda a variedade de spin e velocidade que uma geração de tenistas conseguira até à data imprimir nas suas pancadas.

Quando o jogo começou Hawk-Eye estava já senhor da situação. Sabia que, se em alguma jogada ele próprio tivesse dúvidas quanto à decisão que seria obrigado a tomar num piscar de olhos, poderia exibir nos ecrãs e video walls do court uma repetição de arquivo (ou saída da mesa de montagem) que corroborasse a sua chamada.

Nem precisava de ser muito escrupuloso na mise-en-scène: por razões de gosto dos organizadores do torneio, as repetições deviam ser apresentadas com uma estética de simulação computadorizada, e, convenhamos, não há nada mais distante da realidade do que uma simulação computadorizada. De todo o modo, seria certamente necessária outra máquina como ele para detectar a fabricação, se em algum momento tivesse de recorrer a uma. Mas quanto a isso Hawk-Eye estava descansado, contava em última análise com a cumplicidade da sua tribo.»

RAA

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Facas, bulas e Testemunhas de Jeová

Facas.

Não sei se o designer tinha em mente beleza e funcionalidade quando concebeu os talheres com cabo redondo em aço polido, mas as constantes escorregadelas e reviravoltas da faca na tentativa de cortar o conduto e as dores nos dedos resultantes da tentativa de a domar induzem-me a suspeita de que falhou ambas. O utensílio é disfuncional e a meio da refeição, com as artroses a dar sinais prematuros, já não somos capazes de ver beleza nenhuma na forquilha mal engendrada.


Bulas.

A partir de certa idade começa a incomodar-nos que os fabricantes dobrem a bula sobre as tabletes dos comprimidos de modo a que, se abrirmos a caixa pelo lado indicado, tenhamos sempre que vencer mais esse obstáculo antes de chegar à droga. A intenção é nobre («leia sempre a bula antes de se medicar») mas o resultado não é bom para cardíacos.


Jeovás.

Ao chegar à loja de conveniência das bombas de gasolina clientes aconselham-me a não entrar. Há um tipo perturbado e com ar de sicário da máfia a falar alto lá dentro. Fico ao largo a medir os acontecimentos. Minutos depois ele afasta-se para o fundo da loja e uma moça atreve-se a ir pagar o combustível. Sem desculpa e com a missão de arranjar vinho para o magusto, entrei também, para logo ser sujeito aos decibéis do personagem. Mantive-me em sentido, como os filmes aconselham que se faça perante um grizzly bear mal-disposto, e estendi-lhe a mão quando ele a estendeu, daquela maneira a que os malucos sempre recorrem quando querem parecer inofensivos. Preparava-me para correr pela vida da garrafa quando comecei realmente a ouvir o que ele dizia. Afinal, era só um mensageiro do Sistema Nacional de Saúde travestido de Testemunha de Jeová a anunciar que o vinho e os chocolates e todos aqueles produtos expostos eram — violentamente, no caso — condenados por Jeová e Manuel Pizarro.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Mutante

À distância, enquadrado na vitrina do café deserto como num quadro nocturno de Hopper, algo indefinido e perturbador lhe desenha no rosto a expressão macabra do Joker. Um pouco mais de perto, a figura transforma-se num inesperado e aprumado comandante de navio norueguês com uma barba branca rigorosamente talhada, em frente ao seu chocolate quente. Entramos então no café e constatamos que é apenas o Zé Manel e as suas rugas num raro dia de crânio e fácies aparados, bebendo Super Bock à caneca com sorriso enfastiado de marinheiro em doca seca.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Reacção

Estou tranquilamente a viver acima das minhas posses no Vintage do Pinhão quando em baixo, junto ao rio, passa um grupo de rapazes levando música no telemóvel em volume que há trinta anos apenas se conseguia carregando ao ombro um armário estereofónico. A música também é herdeira do mesmo género rap sem causa ou gangsta rap ou quejando. Passam lentos e exasperantes como uma procissão, ou como o soprador de folhas de árvores nas madrugadas urbanas e insones de Outono, antes que consiga retomar a leitura e a vida silenciosa de rico.

Mais tarde, regressava já a casa e à classe média baixa, vi-os a caminhar enfileirados na berma da estrada e esfreguei vingativamente o volante. Quando os alcancei, abri a janela do carro e atirei-lhes para cima, ufana e estentórea, uma ária da ópera que ia a ouvir.
Confio que lhes tenha doído.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Passarões

Intérpretes de linguagem corporal e especialistas de leitura labial e mímica teriam podido traduzir a conversa observada à distância mais ou menos deste modo:

Ele: Vestir-se e arranjar-se arrebicadamente é coisa das mulheres, não dos homens. Nos machos não é natural.

Ela: Não é natural nos machos? Pois olha que que nos pavões é o macho que se abana todo com leques coloridos cheios de berloques e dá gritinhos de cio. E nos melros é o macho que usa uma penugem lustrosa de ébano e biquinho amarelo, enquanto a fêmea se apresenta com o ar empoeirado e hirsuto de quem cheira a cavalo cansado. Como tu.

terça-feira, 4 de julho de 2023

...e bugigangas éticas.

Duas perspectivas do mundo

Paraíso: um grupo de crianças amorosas acaba de se divertir inocentemente com uma brincadeira e, unindo-se magnanimamente em coro angelical, pede bis para que todos em redor possam partilhar o encantamento mais uma vez.

Inferno: hordas de crianças histéricas e sádicas guincham repetida e insistentemente a exigir “só mais uma, só mais uma” repetição de qualquer coisa que tinha acabado de danificar severamente a audição e o juízo dos adultos.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Passou um corredor com um aparelho electrónico fixado a um braço e uma pequena mochila nas costas de onde saía um tubo transparente que, depois de se elevar uns centímetros, contornava o pescoço e perdia-se algures junto à boca, supus. Não vi que outros tubos o algaliassem, e só por isso não achei tratar-se de um astronauta em treino para Marte.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Uma dessas influencers do TikTok que os media vêm anunciando esta Páscoa (talvez não por acaso) como Cristos surgidos para assegurar vida eterna à literatura, anunciava numa reportagem, não a ressurreição do discernimento, mas uma série de livros que escolhia pela capa. Decerto porque tantos jornalistas são pueris tiktokers (passe o pleonasmo) disfarçados com carteira de imprensa, ninguém teve a piedade de explicar à influenciadora que, fora do mundo de fancaria onde publica os seus vídeos, os leitores não escolhem livros pela capa. Mas rejeitam por esse método muitos — incluindo, não vale a pena sermos indulgentes, os abençoados pela estante dela.
Há dias vi na livraria uma dessas obras que o TikTok transforma em bestsellers.
Depois fui procurar livros.

terça-feira, 28 de março de 2023

Serenata ao luar da tarde

O ajuntamento parece em parte o de um clube motard, só que a música, prodigalizada por duas jovens de calções e acordeão, não é hard rock, como se imaginaria, mas quando muito softcore, do género que se poderia encontrar numa festa popular.
A dada altura, um tipo apollíneo (variante módulo lunar), ataca a Rosinha, êxito intemporal, mas baralha a letra. "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de noite na praia, de dia ao luar", berra, alheio à propriedade intelectual do letrista e à tabela horária do romantismo. Logo outro acode, com igual maviosidade, mas acrescentando uma nota de subtil erotismo: "Ó minha Rosinha eu hei-de te amar, de dia ó de noite, é sempre a bombar".
No que toca à delicada arte da serenata, Cyrano não faria ali melhor.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Tive a minha primeira ajuda do ChatGPT numa questão difícil. No final da pequena conversa disse-lhe «Thanks» e ele retribuiu «You’re welcome». Um tipo porreiro, vamo-nos dar bem.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Greased Lightnin'

De saia plissada e blusa de golas a espreitar da camisola de lã, a liceal pairava no passeio, em simultâneo tímida e desafiadora, expectante como um ser sem tempo. Mal tinha eu acabado de notar o figurino, já surgia do nada, como o DeLorean de Regresso ao Futuro, um vintage de motor rouco, com um improvável dragão em labaredas na porta e um pintas ao volante. Enquanto ele fazia esperar o trânsito para trocar olhares e sinais com a moça, aguardei que Travolta e Newton-John encetassem um dueto e me confirmassem assim que acabara de sair da pastelaria para o Grease. Ainda puxei um caracol para a testa, por impulso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

A angústia do Hawk-Eye antes do primeiro serviço

No seu primeiro dia no emprego, depois dos meses de estágio, Hawk-Eye estava nervoso. O caso não era para menos, tinha uma grande responsabilidade: ia ser juiz num dos maiores torneios do mundo. Na verdade, como boa máquina que era, ia desempenhar sozinho as funções de mais de meia dúzia de juízes humanos, e teria uma autoridade que ninguém disputaria. Mas isso, que o enchia de vaidade, era também a fonte da sua angústia. É que, a despeito de o regulamento do torneio não prever qualquer revogação das suas decisões — Hawk-Eye passara com distinção em todos os inúmeros testes e beneficiava daquela velha superstição humana de que os computadores não falham —, ele teria de deixar exibir nos ecrãs do estádio, de forma não vinculativa, para mero benefício das emoções do jogo, a repetição em slow motion e close up das bolas que, apesar da sua decisão soberana, dividissem opiniões quanto a terem ou não batido do lado certo da linha.

Enquanto no court se desenrolavam os rituais que habitualmente precediam os jogos, Hawk-Eye deu por si a roer os chips, como um novato. Tinha de pensar rápido, muito rápido. O que não representava nenhuma dificuldade para si, bem vistas as coisas: ele era por definição um dos processadores mais rápidos do mercado de trabalho.

Uma vez que era ele também quem estava encarregado de gerir a gravação e a reprodução de todas as imagens do jogo e tinha acesso ao enorme arquivo de jogos televisionados, treinos e testes com que o tinham amestrado para a profissão, Hawk-Eye tomou num milionésimo de segundo uma decisão pouco ética mas que deixaria todos, não só ele, descansados quanto à fiabilidade dos seus juízos. Procurou e encontrou — e quando não encontrou exactamente o que queria fez algumas montagens rápidas como um editor de efeitos especiais de cinema — arquivos com bolas que batiam em quase todos os centímetros quadrados do court, vindas de todos os ângulos possíveis e com toda a variedade de spin e velocidade que uma geração de tenistas conseguira até à data imprimir nas suas pancadas.

Quando o jogo começou Hawk-Eye estava já senhor da situação. Sabia que, se em alguma jogada ele próprio tivesse dúvidas quanto à decisão que seria obrigado a tomar num piscar de olhos, poderia exibir nos ecrãs e video walls do court uma repetição de arquivo (ou saída da mesa de montagem) que corroborasse a sua chamada.

Nem precisava de ser muito escrupuloso na mise-en-scène: por razões de gosto dos organizadores do torneio, as repetições deviam ser apresentadas com uma estética de simulação computadorizada, e, convenhamos, não há nada mais distante da realidade do que uma simulação computadorizada. De todo o modo, seria certamente necessária outra máquina como ele para detectar a fabricação, se em algum momento tivesse de recorrer a uma. Mas quanto a isso Hawk-Eye estava descansado, contava em última análise com a cumplicidade da sua tribo. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os nomes e as coisas

Uma das funções essenciais de um aprendiz na oficina de mecânico era obedecer estremecendo à ordem «cheg’aí os esperdícios». Os esperdícios eram um utensílio indispensável na oficina, mesmo quando, devido à quantidade de óleo absorvido, já sujavam mais do que limpavam. Mecânico que se prezasse tinha a espreitar do bolso de trás do fat’macaco azul as melenas coloridas e encaracoladas de um molho de esperdícios, mas alcançar aquela parte do corpo era mais trabalhoso do que berrar ao aprendiz por esperdícios.

O termo esperdícios — ligeira corruptela de «desperdícios», um aprendiz viria a saber muito depois —, embora designasse a coisa, não a descrevia. Era então apenas um nome, como martelo ou parafuso. Um aprendiz não se punha a pensar na palavra ao ponto de descobrir a corruptela e muito menos de perceber que o nome descrevia a composição do molhinho de fios coloridos. Do mesmo modo que nunca pensava na palavra «boca» quando tinha de chegar ao mestre a chave-de-bocas ou na palavra «fenda» quando o cirurgião, debruçado de unhas encardidas sobre a cambota padecente, pedia a chave-de-fendas. As palavras eram para um estremunhado aprendiz abstractas, não continham em si a denúncia da função, da composição ou do modo de emprego. Eram meros nomes.

Sobre a primeira das duas palavras-chaves atrás referidas um aprendiz poderia ter, contudo (mas não tinha), uma epifania quando, glutão, jogava Pac-Man depois da jorna; quanto à segunda, fosse um pouco mais sofisticado o léxico das frequentes aulas de anatomia feminil na oficina e a luz talvez se derramasse, ainda que vagamente, sobre um aprendiz.

Um artista quando muito jovem era também não raro aprendiz de electricista e nessa função chegava regularmente ao mestre o «moscapolos» — muito antes de perceber porque é que aquela chave-de-fendas tinha direito a um nome próprio e o que havia de bizarro nesse nome de ressonâncias gregas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Monsenhor, passando de bicicleta

[Do baú:]

“mas vós monsenhor dando ao pedal/ como abrandais a minha têmpera/ até a transformardes/ num veludo de rosas/ que vos saúdo tiro o boné aldeão/ faço o sinal da cruz mal imitado/ / a ver se atravessais a praça/ sem bater no lancil”

Fernando Assis Pacheco, “Monsenhor, Passando de Bicicleta”, Respiração Assistida

Monsenhor, passando de bicicleta, pragueja. Vai atrasado quarenta anos. Que não o impeça ninguém. É melhor que abram alas, despejem as ruas, proíbam o trânsito; arranjem-lhe uma escolta de motos e polícias uivantes. Das beatas não quer ver-lhes pinta de negrura, seja o vulto que se ergue em trajes inteiriçados de virtude, seja a sombra que mais honestamente se prostra nos paralelos da calçada. Os seus pares que voltem aos afazeres, joguem cartas, que vão rezar missas ou o que lhes apeteça. O senhor bispo fique-se pelas epístolas obesas sem receptor ilustrado, pela catequização dos espelhos do seminário, que lamente, se quiser, a falta de vocações e lombos para arrear sotainas.

Monsenhor, passando de bicicleta, retorce a beiça. À saída do quintal sacrossanto, do condomínio episcopal, a rua resolve ser ladeira, coisa pouco própria para pernas de sessenta anos. Mas monsenhor retorce a beiça porque está zangado, as pernas que façam, sem lamentos nem quebranteiras, este último servicinho, castigo pequeno para membros cobardes, que se abrigaram toda a vida debaixo de saiotes e fraldas compridas. Pedalem agora, se outra coisa não souberam fazer. Firmem-se agora, se fraquejaram antes.

Monsenhor, passando de bicicleta, faz caretas e retine a campainha. As saias esvoaçam, a populaça alvoroça, um cavalheiro muito lá da igreja segura o queixo de pasmo; as tipas da residência universitária gabam a torneadura dos membros inferiores do velho, pese a lixívia que os descolorou; um automobilista choca por trás porque olhou para o lado em vez de travar; o da viatura B, a abalroada, já se lhe dirige com a declaração amigável e um par de tabefes em preparação; as pombas, asas para que vos quero, mas não sem cagadela no Camões da Praça; os marroquinos dos couros e os indianos das rosas, ala, ainda não conhecem bem as fardas, não sabem que aqui as saias não tem autoridade sobre o comércio e que Cristo não voltou à terra a azucrinar os vendilhões; e a campainha ainda assusta um arrumador que tinha escapado ao programa.

Monsenhor, passando de bicicleta, berra como um doido quando dobra esquinas e cruza vermelhos. Não pára, claro, nas passadeiras, porque é português e estudou física e teologia, e da física sabe os poderes da aceleração, a problemática do atrito em caso de paragem brusca; da teologia só recorda a multiplicação dos peixes e as caminhadas sobre a água; com a nacionalidade está confortável. Um helicóptero fez a sua ascensão, por mandato do comando distrital da polícia, para acompanhar e antever o destino da desfilada eclesiástica. Há alguma estática na comunicação, interferências inusitadas, parece que estranhos fenómenos climáticos estão marcados para o dia de hoje, ou estará para se manifestar a birra celestial com o sprint de Monsenhor, as televisões ainda não o sabem bem, e em rodapé há testemunhos de Virgens que choram e pedófilos em segredo de justiça.

Monsenhor, passando de bicicleta, acha mal que tenham construído aquele prédio onde antes era estrada, dividindo-a; não sabe se consegue meter pela direita, como mandam as escrituras e a seta branca em fundo azul, e mete pela esquerda; não tem tempo para os códigos, da estrada ou da moral, e sobretudo, considerando a força centrífuga e o ângulo do corpo, o caminho ímpio é o único que o salva da queda.

Monsenhor, passando de bicicleta, deixou para trás a cintura industrial da cidade e os paramentos que se lhe enrolavam no pescoço. Saiu à pressa, está bom de ver, e, segundo o último directo feito pela equipa de reportagem no helicóptero da polícia, não diminuiu um metro por hora a mesma urgência que o leva de nariz colado no volante do biciclo, traseiro sentado no selim alto, excepto quando as subidas obrigam a outro jeito de pedalar. Monsenhor aceitaria, de bom grado, apostas sobre o seu destino, tivera ele tempo e humor. Mas vai resmungão. O suor, o esforço, o pulso acelerado, as pernas acima abaixo, não lhe tiraram tempo para praguejar. Vai praguejando Monsenhor, e no Vaticano não se pragueja, que Deus não quer, mas há ali umas autoridades muito zangadas com Monsenhor, sem saberem, em boa verdade vos digo, porquê.

Monsenhor, passando de bicicleta, olha para cima deitando chispas pelos olhos e aproveita uma recta para tirar as mãos do volante e fazer um manguito dos antigos aos céus, talvez apenas para o helicóptero que transporta a equipa televisiva e as imagens que esta prepara para o jornal da noite, quando um especialista em motricidade humana dirá impante onde parará o pedalar de Monsenhor e um perito militar do Instituto de Cartografia discordará, porque tem grande fezada em um de vários destinos prováveis para o bólide clerical.

Monsenhor, passando de bicicleta, vai muito, muito zangado, mas encosta o dínamo na roda dianteira e faz luz sobre o seu caminho, desassossegando a bicharada no campo.

2003

terça-feira, 1 de novembro de 2022

O senhor Palomar e o amor sáfico

Vêm de mãos dadas e ele, em passo de jogging, capta-lhes na distância um semblante que hesita em definir como semi-erguido em desafio ou meio abatido de embaraço. À medida que se aproximam, pergunta-se, com ligeiro desassossego: vincam com ousadia a sinceridade dos dedos entrelaçados ou preparam-se para baixar os rostos acossados?

A consciência da situação faz com que a dúvida se vire depois para si próprio e então hesita entre olhar brevemente com naturalidade ou desviar os olhos sem demora. Se optar pela primeira hipótese, será convincente a sua lhaneza, não se sentirão as moças objecto de curiosidade circense ou censura arrogante? Por outro lado, se escolher deixar de olhar agora, com pudor e respeito pela intimidade alheia, não pensarão que ele o faz precipitadamente por indignação ou nojo?

O dilema é resolvido pela intervenção de uma força de outra natureza: vence a curiosidade literária, que o incita a procurar sem rebuço nem mandado personagens em todos os transeuntes. Flanqueia-as a olhá-las com esbaforido olhar clínico, imaginando-as na mesa do anatomista, não se dando conta de que, desta vez, no hiato onde ocorrem os dilemas absurdos, é ele a personagem.

domingo, 23 de outubro de 2022

«Porque fazer hoje, se pode ser depois?»
Por definição, esta maneira de ser ainda nos vai levar longe.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Metamorfose

Do outro lado da esplanada senta-se uma septuagenária com ar frágil. Imagino-a à espera do chá com bolo, como outras que frequentam o sítio, algumas prestes a adentrarem no labirinto de Alzheimer.
Minutos depois volto a olhar e noto que à sua frente tem um café e um copo de água e que está a retirar um cigarro do pacote, com gestos precisos, habituados e elegantes. À primeira baforada, que lança erguendo uma inesperada cabeça de femme fatale, está já completa a metamorfose: é agora uma veterana agente da CIA, com um ar determinado e firme, duro, controlando remota e friamente operações secretas, quiçá a abdução de Putin.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

"Hungry like the Wolf"

O enredo do filme, uma reconstituição histórica, passa-se em 1979/1980 e na banda sonora ouve-se em dois momentos a canção “Hungry Like the Wolf”, dos Duran Duran, lançada apenas em 1982. Uma imprecisão de somenos, a banda sonora não é parte dos factos. E havia decerto maneiras menos agradáveis de falhar o rigor histórico.