Na casa dos vinte, poderiam ser um casal em lua-de-mel a emergir para um cocktail ao final de uma tarde de romance. A arquitectura é belle époque e do terraço observa-se um bosque centenário e voluptuoso. Mas eles não vieram para contemplar. Ainda antes de lhes servirem as bebidas, já um dos dois dá as cartas e ambos seguram o jogo em leque junto ao peito. Ponderam as jogadas, espreitam clandestinamente o adversário tentando adivinhar-lhe as cartas, enfrentam-se por vezes com olhares de póquer que só desviam para consultar de novo a mão que têm.
Fazem tudo, inesperadamente, sem ironia, sem fingimento, sem brincadeiras, sem as provocações, as sabotagens ou as zombarias próprias de quem joga cartas em família. Não são, está visto, um desses casais amantíssimos a quem o jogo cedo aborrece por nenhum sentir prazer em vencer o outro. Mas também ainda não têm idade para pactuarem projectar num feroz jogo de cartas a vontade de derrotar ou humilhar o cônjuge.
Seja como for, ali estão, alheados, sem pressa, como adolescentes do século XX nas férias grandes — ou seja, imortais —, dando tudo como garantido e eternamente cíclico, incluindo a exuberância das folhagens de Junho que não espreitam nem pelo canto do olho.
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terça-feira, 27 de junho de 2023
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
A vingança amarela
Todos os meses de Fevereiro as mimosas florescem e é como se tivesse lugar uma vingança colorida. Classificadas de invasoras, são alvo da sanha humana até quando despontam em lugares onde não há senão descampado ou lixo para invadir. Como se a malta estivesse mesmo à espera de as extinguir para desatar a plantar no seu lugar, com inesperado entusiasmo florestal, carvalhos, bordos, castanheiros, azinheiras, azereiros, sobreiros, freixos, amieiros e choupos, repondo duma furiosa assentada todo o catálogo da floresta autóctone portuguesa. Não, por mim, no que toca à cobertura vegetal da pátria, confio mais na vingança sazonal da bela e perfumada acacia dealbata.
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
A peregrinação de um caçador-recolector
Depois de meses de ausência, lá fui visitar a terra-mãe. Pelo caminho, vi, conferenciando como pombos numa praça, o maior bando de corvos com que alguma vez me cruzei, e achei isso de bom agouro. Parei o carro junto ao baldio e fui em paz até eles, mas espantaram-se às centenas e não pude estabelecer contacto, apenas desfrutar do panorama visual daquela chusma em vaivém, pousicando aqui e acolá e nas torres de iluminação de um estádio longe do Qatar.
Ao chegar, fui primeiro ao lago, um dos meus territórios de caça. A tarde findava e não queria negar à sorte a chance de me surpreender outra vez com alguma da esquiva fauna avícola que já por ali vi: corvos-marinhos, patos selvagens, a garça-real que iniciou o Villa Juliana. Passeei brevemente de mãos nas costas, místico tal monge em claustro, e lá tive um gazear, mas quando virei os olhos aos céus já não pude ter a certeza se o que os cruzava era deus, garça ou ave ainda mais rara.
Ia dizer que continuei pelas estações da minha via-sacra, mas o que evoco em cada sítio onde me detenho não tem nada de dor ou sofrimento, pelo que mais acerto se disser que peregrinei. Não com um percurso pré-definido, mas deixando-me levar pelas muitas áleas e carreiros, entregando-me ao dédalo sensual do parque romântico como ali mesmo se entrega o corpo dorido às mãos do balneoterapeuta.
Cheguei à zona sul, onde antigamente, se centrava a nossa actividade micológica e os meus olhos deitaram-se pavlovianamente a sondar os canteiros. Não procuravam os cogumelos perdidos, mas a iminência do Mistério, a emoção, o espanto que na altura me tomava nas raras vezes em que encontrava um. Julgo que por isso peregrino: não para evocar momentos, estórias, pessoas, mas para recuperar a inocência, a virgindade, a capacidade de expectativa e fascínio de quando o mundo estava por descobrir e era prometedor.
Caía uma morrinha e deitei o capuz pela cabeça. Há hoje ali bungalows e turistas neles, pelo que o meu deambular de recolector nas zonas de sombra dos canteiros pareceria decerto sinistro se algum perscrutasse a noite acabada de instalar. Isso não me demoveu. Nem sequer a possibilidade nada remota de o meu passarinhar ser confundido com voyeurismo ao cruzar, mesmo que à distância, os grandes envidraçados iluminados por dentro que expõem, se os houver, os esplendores e misérias dos cortesãos em escapadinha de fim-de-semana.
Não tendo encontrado roca ou frade, a minha atenção voltou-se depois para a flora. Os letreiros brancos que puseram defronte de algumas árvores brilham como faróis na noite e resolvi orientar a navegação por eles. Recolhi: cedro-do-atlas, faia vermelha, abeto-de-douglas, calocedro, sequoia-sempre-verde, bordo-japonês, choupo-branco, pinhão-chinês (com um belo triplo tronco), castanheiro-da-índia, carvalho-americano e o ex-libris local, o exemplar de sequoia-gigante de casca fibrosa e suave que hoje se tornou moda apalpar como em Verona se apalpam os seios de Julieta. Encostei-me a ele, mas de forma pudica.
Também recolhi, sem letreiro, vários exemplares de árvores de meródios, que noutros locais se conhecem como medronheiros e que na antiguidade me embriagavam só de lhes olhar os frutos vermelhos com vago conhecimento das suas propriedades alcoólicas (que de resto ali não se aproveitam). Ia jurar que estão iguais, mantêm a mesma leve ameaça de fruto proibido conjugada com a mesma sedução genesíaca.
Não há letreiros para todas as espécies, mas também não há alfabeto nem gramática para alguns dos exemplares sob cuja sombra me recolhia há mais de trinta anos. E se houvesse não me dariam informações curiosas e úteis sobre os seus nomes, características e proveniência, mas sobre certas propriedades inefáveis.
Andei também a respigar pelo minigolfe, descobrindo as suas velhas pistas como alicerces aztecas a despontar das ervas crescidas e das folhas de Outono. Passei pelas traseiras hoje amplas do balneário e encontrei a antiga serralharia onde quase fiz carreira depois de um curso profissional e equívoco em metalomecânica. E passei pela casa onde viviam as freiras, pensando que se aguentei sem esforço os retiros e os terços é talvez porque estava vagamente apaixonado por uma delas.
Chovia copiosamente quando terminei a peregrinação pelos lugares devotos da minha religião pessoal, mas ainda não era o Dilúvio.
Ao chegar, fui primeiro ao lago, um dos meus territórios de caça. A tarde findava e não queria negar à sorte a chance de me surpreender outra vez com alguma da esquiva fauna avícola que já por ali vi: corvos-marinhos, patos selvagens, a garça-real que iniciou o Villa Juliana. Passeei brevemente de mãos nas costas, místico tal monge em claustro, e lá tive um gazear, mas quando virei os olhos aos céus já não pude ter a certeza se o que os cruzava era deus, garça ou ave ainda mais rara.
Ia dizer que continuei pelas estações da minha via-sacra, mas o que evoco em cada sítio onde me detenho não tem nada de dor ou sofrimento, pelo que mais acerto se disser que peregrinei. Não com um percurso pré-definido, mas deixando-me levar pelas muitas áleas e carreiros, entregando-me ao dédalo sensual do parque romântico como ali mesmo se entrega o corpo dorido às mãos do balneoterapeuta.
Cheguei à zona sul, onde antigamente, se centrava a nossa actividade micológica e os meus olhos deitaram-se pavlovianamente a sondar os canteiros. Não procuravam os cogumelos perdidos, mas a iminência do Mistério, a emoção, o espanto que na altura me tomava nas raras vezes em que encontrava um. Julgo que por isso peregrino: não para evocar momentos, estórias, pessoas, mas para recuperar a inocência, a virgindade, a capacidade de expectativa e fascínio de quando o mundo estava por descobrir e era prometedor.
Caía uma morrinha e deitei o capuz pela cabeça. Há hoje ali bungalows e turistas neles, pelo que o meu deambular de recolector nas zonas de sombra dos canteiros pareceria decerto sinistro se algum perscrutasse a noite acabada de instalar. Isso não me demoveu. Nem sequer a possibilidade nada remota de o meu passarinhar ser confundido com voyeurismo ao cruzar, mesmo que à distância, os grandes envidraçados iluminados por dentro que expõem, se os houver, os esplendores e misérias dos cortesãos em escapadinha de fim-de-semana.
Não tendo encontrado roca ou frade, a minha atenção voltou-se depois para a flora. Os letreiros brancos que puseram defronte de algumas árvores brilham como faróis na noite e resolvi orientar a navegação por eles. Recolhi: cedro-do-atlas, faia vermelha, abeto-de-douglas, calocedro, sequoia-sempre-verde, bordo-japonês, choupo-branco, pinhão-chinês (com um belo triplo tronco), castanheiro-da-índia, carvalho-americano e o ex-libris local, o exemplar de sequoia-gigante de casca fibrosa e suave que hoje se tornou moda apalpar como em Verona se apalpam os seios de Julieta. Encostei-me a ele, mas de forma pudica.
Também recolhi, sem letreiro, vários exemplares de árvores de meródios, que noutros locais se conhecem como medronheiros e que na antiguidade me embriagavam só de lhes olhar os frutos vermelhos com vago conhecimento das suas propriedades alcoólicas (que de resto ali não se aproveitam). Ia jurar que estão iguais, mantêm a mesma leve ameaça de fruto proibido conjugada com a mesma sedução genesíaca.
Não há letreiros para todas as espécies, mas também não há alfabeto nem gramática para alguns dos exemplares sob cuja sombra me recolhia há mais de trinta anos. E se houvesse não me dariam informações curiosas e úteis sobre os seus nomes, características e proveniência, mas sobre certas propriedades inefáveis.
Andei também a respigar pelo minigolfe, descobrindo as suas velhas pistas como alicerces aztecas a despontar das ervas crescidas e das folhas de Outono. Passei pelas traseiras hoje amplas do balneário e encontrei a antiga serralharia onde quase fiz carreira depois de um curso profissional e equívoco em metalomecânica. E passei pela casa onde viviam as freiras, pensando que se aguentei sem esforço os retiros e os terços é talvez porque estava vagamente apaixonado por uma delas.
Chovia copiosamente quando terminei a peregrinação pelos lugares devotos da minha religião pessoal, mas ainda não era o Dilúvio.
sexta-feira, 24 de junho de 2022
domingo, 3 de janeiro de 2021
As árvores de Janeiro
As árvores de Janeiro parecem saídas de quadros de Caspar-David Friedrich. Lúgubres e belas.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Nos fundilhos de um negrilho
O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
sábado, 8 de agosto de 2020
A marmota no feitiço do tempo
O meu Proust vai lento (deve ser para ai a terceira vez que escrevo isto e cada vez me sabe melhor fazê-lo) e se isso me traz um pouquinho de frustração quando reparo nos livros que tenho em espera não é, ainda assim, coisa que me apoquente.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…
Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…
Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
As tílias no tempo
Se olharmos uma tília frondosa num final de tarde com vento, percebemos os movimentos amplos, ondeantes dos ramos, como madeixas sensuais atiradas para trás, afastadas elegantemente de um rosto veterano da sedução urbana, e podemos descobrir, se tivermos olhar minucioso, o tremelicar assustadiço ou o tiritar enregelado das folhas, cardume oscilante de verde-escuro húmido e verde pálido, recém-postas num mundo que não compreendem ou que é desprovido de conforto e calor uterino. Mas se o nosso espírito comportar várias leituras do tempo e dos tempos, também podemos ver na vibração das folhas o saltitar excitado de crias novas loucas de alegria por fazerem parte da festa que é um Maio a saber a estio, sem a secura e a amarelidão de Agosto.
domingo, 19 de abril de 2020
Uma perturbação menor na paisagem
Está a ganhar folhas finalmente a última árvore da fila que se alinha, pela minha perspectiva de quinto andar quando sentado a ler, na base da janela. Está agora quase completa, e assim vai ficar, a paleta de verdes-primavera que do lado poente ameniza a vista da cidade. Assim vai ficar porque as folhas que completariam a paleta já não têm árvores onde nascer. A fila era antigamente parte de um L, mas um dos lados deste foi banido por mor das obras que se fizeram na escola. E logo aqui em baixo, no cul-de-sac, foi erradicado um dos elementos do belo par amoroso que dava sombra ao estacionamento e encanto à praceta, talvez porque à noite também tornava mais resguardada a erva que ali se fuma há gerações.
Se não me levantar da cadeira, se erguer apenas os olhos do livro para a vista, posso esquecer a tragédia amorosa e estética do cul-de-sac e, de vestígios humanos, ter apenas, por sobre a fila de árvores, as aldeias lá longe na encosta do Alvão, distantes o suficiente para não terem escala humana, serem uma perturbação menor na paisagem.
Se não me levantar da cadeira, se erguer apenas os olhos do livro para a vista, posso esquecer a tragédia amorosa e estética do cul-de-sac e, de vestígios humanos, ter apenas, por sobre a fila de árvores, as aldeias lá longe na encosta do Alvão, distantes o suficiente para não terem escala humana, serem uma perturbação menor na paisagem.
terça-feira, 31 de março de 2020
Casas mal-amadas
Numa zona de lameiros havia na minha infância, à margem da estrada, duas casas com graça: uma com alvura e estilo Raul Lino e outra construída numa simetria de pedra à vista e portadas sangue-de-boi que, pela majestade aparente, se diria senhorial mas, pelo estilo arquitectónico e época de construção, o não era. Ambas tinham nos seus lotes de terreno árvores que as emolduravam e ramadas que as ladeavam. A casa de pedra na verdade não tinha árvores, tinha o seu próprio bosque, de que ela era o centro, como clareira encantada que se entrevê. Era, também por isso, uma casa toda mistério e promessas que provocava desejo de posse.
Nenhum de nós amantes pueris que por ela passávamos e anelávamos quotidianamente logrou na vida ganhar dinheiro para compras assim, e isso irmana-nos, a nós e à casa, no infortúnio.
Como a vida não é um conto de fadas mas quase sempre epopeia reles de videirinhos, o novo proprietário fez nela obras de renovação que incluíram derrubar as árvores e a ramada. É agora uma desolação e um embaraço vê-la. No descampado dos lameiros surge frágil, exposta às intempéries, e nua, o que nos obriga a desviar os olhos por pudor. E se o não fazemos, se a espreitamos (e devassamos), notamos como a arquitectura é afinal menos nobre do que parecia, mais grosseira. Falta-lhe a moldura verde a dar vida à pedra bruta e arte à cantaria tosca, a interromper a monotonia cinzenta e a encobrir com mistério de folhagem o que nela há de menos conseguido.
Virá o Verão e a inclemência do sol, mas só a casa, habituada a muitas décadas de sombras frondosas e acolhedoras, nos há-de merecer pena, com a sua pele fina agora sujeita ao melanoma das casas mal-amadas; os proprietários, esses, hão-de decerto resistir bem à canícula — com bonés de basebol, amplos e coloridos guarda-sóis da Super Bock e, talvez, infame evocação da velha latada, uma rede de plástico verde sobre os carros.
Nenhum de nós amantes pueris que por ela passávamos e anelávamos quotidianamente logrou na vida ganhar dinheiro para compras assim, e isso irmana-nos, a nós e à casa, no infortúnio.
Como a vida não é um conto de fadas mas quase sempre epopeia reles de videirinhos, o novo proprietário fez nela obras de renovação que incluíram derrubar as árvores e a ramada. É agora uma desolação e um embaraço vê-la. No descampado dos lameiros surge frágil, exposta às intempéries, e nua, o que nos obriga a desviar os olhos por pudor. E se o não fazemos, se a espreitamos (e devassamos), notamos como a arquitectura é afinal menos nobre do que parecia, mais grosseira. Falta-lhe a moldura verde a dar vida à pedra bruta e arte à cantaria tosca, a interromper a monotonia cinzenta e a encobrir com mistério de folhagem o que nela há de menos conseguido.
Virá o Verão e a inclemência do sol, mas só a casa, habituada a muitas décadas de sombras frondosas e acolhedoras, nos há-de merecer pena, com a sua pele fina agora sujeita ao melanoma das casas mal-amadas; os proprietários, esses, hão-de decerto resistir bem à canícula — com bonés de basebol, amplos e coloridos guarda-sóis da Super Bock e, talvez, infame evocação da velha latada, uma rede de plástico verde sobre os carros.
sábado, 10 de agosto de 2019
Sol coado
Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.
Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).
A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.
Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.
Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.
Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)
Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.
----------------
[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol
Nas minhas
deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável
momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do
período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser
conhecida pela beleza.
As torres
ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma
cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram
cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas,
em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num
arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar
de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os
mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética,
porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é
belo.
O verde da
vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e
clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o
verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo
estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e
jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe
arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século,
as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram
ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais
eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um
ecrã verde.
Há países,
como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o
filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e
renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a
amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o
clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano.
Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia
sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros
semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios
de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas,
demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de
Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado,
e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à
ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua
representação escultórica e irónica.
A
Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do
século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na
Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca
arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega
por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos
de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Tílias
Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche
de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que
lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade,
quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores
que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar
(ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva.
Mas um barman que fala no cheiro das
tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável.
Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente
empatado Rússia x Bélgica.
Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos
querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes
aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas
áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato,
se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.
Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como
o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais
CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no
Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado
à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado
não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que
existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.
Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas,
com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos
espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico
algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e
regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a
copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças
de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do
que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que
fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se
preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado
a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.
O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente
a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para
quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da
história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar
o perfume das tílias.
O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo
ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente
de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a
cabeça e padecem de rinite opcional.
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