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segunda-feira, 29 de abril de 2024

O corso

A curiosidade antropológica e a consequente observação da vida selvagem são requisitos do exercício literário. Por isso não é inusitado que um escritor se ponha a observar um cortejo académico se tropeça num.
E o que vê o nosso escritor? Uma espécie de orquestra do Titanic, multiplicada tantas vezes quantos os carros do cortejo, a executar nas vésperas do naufrágio colectivo um repertório pouco exigente.
Nas galeras dos camiões dança-se, ou melhor, bebe-se como nos loucos anos vinte do século passado, com uma sofreguidão que se confunde com a alegria, o alívio e a urgência de quem escapa a uma guerra e deseja ignorar a próxima — ou apenas passar ao lado das convulsões do mundo.
Visualmente, dir-se-ia um sucedâneo de Carnaval brasileiro, com alegria — ao menos isso — mas sem brilho nem propósito, como se uma borrasca tivesse levado os adereços e os trajes e apenas sobrassem as pessoas, encharcadas, aturdidas, de cabelos escorridos.
A caravana é composta de carros em geral sem intenção alegórica, a não ser a involuntária e nada lisonjeira que remete para espécimes numa jaula de circo ambulante, exibidos aos transeuntes em pleno processo de embriaguez como numa aula de biologia se exibem, para estudo, processos biológicos ou corpos dissecados.
Os ornamentos dos carros resumem-se quase sempre a faixas com os nomes dos cursos — como etiquetas de laboratório — ou a balões coloridos, decalcados de um aniversário infantil. Nada de palavras de ordem, reclamações, exigências, propostas, denúncias, caricaturas, provocações, ou sequer humor — se descontarmos uma piada forçada e inofensiva sobre dinossauros e veterinária ou a tentativa bizarra mas sobretudo fútil (com certa lógica, afinal) de lograr acrónimos fundido Barbie e Ken com finalistas e engenheiros.
Tal como a imaginação falha por absentismo, a mítica (ou talvez apenas lendária) irreverência juvenil parece esgotar-se nesse frouxo desafio à moral que representa embebedar-se em público — para o que, na verdade, o cortejo é afinal redundante, se considerarmos todas as fases da vida académica.
Por momentos assoma uma breve ousadia, sintomaticamente no mais pequeno dos camiões: um curso, que o nosso escritor não identifica, evoca os 50 anos do 25 de Abril, com fotos de Salgueiro Maia e Zeca Afonso e as paredes alegoricamente cobertas de jornais (jornais!).
Mas a normalidade académica é retomada de imediato, antes que se criem ideias erradas sobre o desfile. O carro seguinte, de novo um poderoso semi-trailer, projecta a sua música como se quisesse ser ouvido em Marte — e a população é convidada a partilhar as fantasias de pornochachada de Quim Barreiros com os peitos da cabritinha. É o carro do curso de Educação Básica a encerrar com pedagogia e bons augúrios o cortejo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Como travar o fascismo

Durante muitos dos últimos anos, demasiada gente achou um exagero ou “inexacto” (como se se tratasse de um debate académico) tratar os movimentos de extrema direita como fascistas ou sequer protofascistas. A versão lusa desta praga, então, era poupada e minimizada como uma simples anedota de mau gosto.
Tal resistência semântica poderia ser ilustrada com o gesto enfadado de um flanêur que brande a sua luva flácida para afastar moscas ou caracterizada como um receio instintivo ou patológico de self-fulfilling prophecies. Traduzindo, havia quem não estivesse para se incomodar com ninharias e quem sufocasse por reflexo certas palavras temendo que a sua verbalização as pudesse tornar realidade.
Seja como for, na ânsia de negar que a história se estava a repetir, demasiada gente andou (e anda) de facto a replicar os erros dos anos 20 e 30 do século XX que Paul Mason cataloga no seu “Como Travar o Fascismo” (Objectiva, 2022).

Certos capítulos do livro ecoam na minha cabeça quando leio que Paulo Portas excitou a audiência definindo como adversária da AD «a nova ameaça vermelha da “geringonça 2.0”» e quando vejo o PCP sobretudo ocupado, aparentemente, a saltar fora de uma geringonça 2.0.

Hitler e Mussolini poderiam sentir-se insultados se alguém propusesse que o nosso Dr. Sapo de Loiça os está a emular, mas teriam de se lembrar de que, apesar de melhor talhados para as artes dramáticas, também eles foram objecto de anedota antes de serem caudilhos bem-sucedidos.

Todavia, os comunistas e outras esquerdas alemãs e italianas cometeram a certa altura o erro de insistir em velhos adversários, deixando campo aberto para o novo inimigo — e as anedotas sobre Hitler e Mussolini deixaram de ter piada.

Confio, como exercício de retórica, que em Portugal já todos saibam quem é o inimigo e comecem a abandonar o medo do ridículo e das palavras (e a velha indolência burguesa) para encher as ruas e as urnas de democracia antes que elas se encham de ressentidos e arrivistas.

Mas quero em particular confiar que o PCP está atento ao enredo da História. Posso lastimar, entre outras coisas, a forma como aquele partido tem lidado com a invasão russa da Ucrânia, mas sei que, se tudo falhar, os comunistas vão ser os primeiros na rua a enfrentar a punho as falanges de arruaceiros fascistas que não tardarão a saltar da toca. Até porque, serão dos primeiros alvos. Quando nada mais resta, é bom que a democracia tenha uma guarda pretoriana, imperfeita que seja.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Tive a minha primeira ajuda do ChatGPT numa questão difícil. No final da pequena conversa disse-lhe «Thanks» e ele retribuiu «You’re welcome». Um tipo porreiro, vamo-nos dar bem.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Profetas dos últimos dias

O ambientalismo é hoje uma escatologia e os activistas continuam a ser frequentemente confundidos com fanáticos religiosos de cartaz ao pescoço a anunciar o fim do mundo numa esquina. Mas, ao contrário daqueles, os activistas não têm a possibilidade de encontrar alívio nos antipsicóticos — e menos ainda na ciência.

Tailleur

Se em vez de roupas extravagantes e penteados futuristas, eles, que não têm futuro, usassem um esmerado tie knot debaixo de um Barbour devidamente ensebado, perdão, encerado, talvez os jovens activistas conseguissem, se não salvar o planeta, fazer os velhos conservadores de todas as idades questionarem a coerência do seu pensamento.

domingo, 9 de outubro de 2022

Os anos 20, outra vez

Na história nacional da infâmia (esperemos que algum dia se possa fazer), encontraremos dois momentos premonitoriamente sinistros protagonizados pelo PSD. O primeiro aconteceu na noite das últimas presidenciais, quando um Rui Rio histérico celebrou mais os bons resultados de André Ventura e os maus da esquerda bloquista e comunista do que a vitória do seu correligionário. O segundo teve lugar há poucos dias, quando Montenegro pedinchou ao Presidente da Assembleia um lugar de vice-presidente para o Chega.
Repete-se a atracção fatal da direita pelo abismo da extrema-direita que geralmente antecede e prepara o fascismo. Está tudo na História, a de há um século e a que se desenrola hoje perante os nossos olhos, na Europa, nos EUA, no Brasil. Leitura aconselhada: Como Travar o Fascismo, de Paul Mason.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Mudança de sistema

O movimento para substituir o capitalismo começará quando o trabalho for dessacralizado. Dois guarda-sóis ao lado, gregamente estendida na espreguiçadeira, uma teórica da mudança faz um primeiro ensaio: «Trabalho? Que palavra feia!»

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Pescador do futuro perdido

Para ver a bóia, o pescador debruça-se sobre a amurada da ponte. Não porque a altura seja muita, mas porque a água é pouca. O rio vai secando e o contumaz pescador aponta a cana verticalmente a uma poça que parece pouco mais do que o resultado de uma chuvada num caminho de pó, onde não cabem carpas nem trutas e na verdade talvez nem sequer haja peixe. É a imagem de uma seca que perdura, mas talvez seja também o vislumbre de um futuro não muito distante em que das premissas da pesca apenas sobram a cana, o pescador e uma fome pouco gastronómica.

sexta-feira, 11 de março de 2022

História da Terceira Guerra Mundial

– breve incursão pelos seus prolegómenos e eventuais impedimentos.

Se lemos desprevenidos “O Fim do Homem Soviético”, da bielorrussa Svetlana Alexievich, autora de obras polifónicas que se tecem a partir da transcrição e justaposição de múltiplos testemunhos, podemos ficar surpreendidos com a quantidade de pessoas que ali manifesta saudades do regime soviético e até repúdio pela “democracia” que lhe sucedeu (antes ainda do neoczarismo de Putin). Na década final do século XX, a boa consciência ocidental projectou os seus sentimentos a Leste e imaginou uma Rússia unanimemente grata pelo "fim da história", decretado por um voluntarioso (e americano) Fukuyama. Mas o descalabro da União Soviética significou então para uma parte dos russos uma pobreza talvez maior do que a anterior, sem lhe trazer mais liberdade. Isto porque a liberdade sem autonomia financeira é algo ilusória, e o controlo dos recursos da Rússia não chegou propriamente a estar nas mãos do povo ou de um regime que zelasse pelos seus interesses. Naquele tempo, sob o olhar do Ocidente — toldado por uma bonomia ingénua e irresponsável ou emoldurado por um sorriso complacente, quando não sugestionado pelo cinismo e o oportunismo capitalista —, uma pequena quantidade de “visionários” russos agarrou a oportunidade e agarrou às mãos-cheias os despojos da URSS, fundando com ou sem consciência disso mas sem escrúpulos a oligarquia que hoje é dona abusiva da Rússia.

Da forma como na Rússia muitos viram a História a desenrolar-se, a Perestroika (e o que lhe sucedeu) tirou-lhes o pouco dinheiro que tinham ou aquele que por momentos esperaram vir a ter. Além disso, ou sobretudo, tirou-lhes o que sobrava do prestígio e do orgulho que a vitória na Segunda Guerra Mundial lhes dera e que lhes serviu de agasalho durante a idade do gelo estalinista e a longa geada da Guerra Fria.
É fácil, por isso, se queremos arranjar argumentos para contornar o problema Putin — como há quem insista em fazê-lo —, encontrar uma analogia psicológica entre a Mãe Rússia, ferida no seu brio e escarnecida pelo Ocidente auto-proclamado “vencedor da História”, e a Alemanha humilhada pelos Aliados no Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial.

Mas compreende-se melhor a invasão da Ucrânia conhecendo também “A Rússia de Putin” (2004), da jornalista Anna Politkovskaya, um regime que é um misto de Estado mafioso e ditadura de género soviético, não um país pronto para ser conduzido ao Armagedon por um führer providencial. Politkovskaya denunciou, com abundantes argumentos, a intensa corrupção e as permanentes violações dos direitos humanos que acompanhavam as movimentações internas e externas das políticas de Putin. E, como que fornecendo-lhe o derradeiro argumento, alguém do perímetro do regime mandou disparar os cinco tiros com que ela foi executada em 2006.

Contudo, se a Rússia de Putin não é a Alemanha de Hitler, é difícil, por outro lado, escapar à Lei de Godwin quando discutimos o que observamos e ouvimos do próprio Putin. É difícil não ver nele uma versão conservada no permafrost siberiano do tipo do bigodinho. Não tendo o mesmo desempenho de histrião nas suas aparições e discursos, o frígido Putin não se revela todavia menos fanático e o seu fantasioso quadro mental e o seu ressentimento não são mais sustentados do que os da besta ariana.

Ao mesmo tempo que governa com um desprezo profundo pelos seus concidadãos (que manda prender aos milhares pelo crime de terem opinião), invoca a protecção das minorias russas ou o regresso das suas terras à Mãe Pátria como razões para anexar territórios e invadir países. Mas ao argumento hitleriano da Rússia humilhada, Putin (acolitado pelos saudosos da utopia comunista que ainda não perceberam que o comunismo na Rússia acabou há muito) junta o da Rússia “ameaçada”. A Europa Ocidental, na transição do século, conquistou de facto território outrora sob a pata da URSS e aproximou paulatinamente as suas fronteiras, e com elas as da NATO, às da Rússia. Mas a Europa não conquistou esse território militarmente, antes coquetemente, pela sedução natural dos seus atributos: uma prosperidade relativamente pacífica e livre. As nações da cintura da ex-URSS não se sentiram conquistadas no sentido bélico, mas no sentido passional. Desejavam a vida europeia e voluntariavam-se ardentemente para a viver. O verdadeiro pecado da Ucrânia não foi atentar contra o Donbas russófilo (ainda que possa ter atentado), mas não querer mais o abraço incestuoso e de urso peludo da irmã Rússia.

Este “charme” europeu, a que a linguagem castrense da política e dos media preferiu chamar soft power, por contraponto ao hard power das botas cardadas americanas, corrompeu-se, no entanto, impedindo uma versão mais benevolente do primeiro quartel do século XXI e quiçá de todo o futuro — e abrindo a porta aos argumentos putinescos —, quando alguns líderes europeus, ao arrepio da vontade dos seus próprios povos, resolveram dar cobertura ao acto caprichoso de um presidente americano que decidiu, com a mesma prepotência fútil e semelhante falsidade de argumentos, invadir o Iraque.
Aquilo que a cimeira dos Açores significou para o resto do século XXI (com mais alguns passos em falso posteriores) foi um golpe na frágil expectativa das boas intenções, senão ocidentais, pelo menos europeias. De galã desejado e honrado, o Velho Continente voltou a ser visto como um gigolô que anda à boleia e se aproveita ilegitimamente de outros países. Não admira que mesmo dentro de fronteiras muitos vejam assim validada a sua teoria (habilmente aproveitada por Putin) de que a NATO não representa a legítima defesa de um bloco de países mas uma desnecessária ameaça a uma nação apesar de tudo nobre e sobretudo depositária de uma saudosa glória.

Não será quiçá suficiente para deter os ventos de guerra, mas valerá a pena ilibar o povo europeu no tribunal da História recordando que, da mesma forma que agora se manifesta contra a invasão da Ucrânia, se manifestou então contra a Invasão do Iraque.

A Terceira Guerra Mundial, se aceitarmos o pessimismo proposto pelo título deste texto, está por enquanto adiada, à custa da Ucrânia, como a Segunda o foi à custa da Checoslováquia. Há talvez algo de chamberlainesco, de adiamento, na forma como se procura evitar o envolvimento de meios da NATO na protecção da população civil ucraniana, mas isso não é necessariamente um erro. Talvez Chamberlain precise de ser reabilitado, como de alguma maneira o tentou fazer o filme “Munique: À Beira da Guerra”, pondo-o no papel de alguém que prefere ficar mal na História e adiar a guerra para quando a Inglaterra a possa travar. É certo que a História nos diz que ele podia ter preparado a Inglaterra mais cedo, mas a História é escrita pelos vencedores e no caso da Segunda Guerra Mundial foi-o tão estritamente que o seu autor, Churchill, até recebeu o Nobel da literatura por tê-la escrito.

O adiamento que aqui se valida não é o que permita aos antagonistas da Rússia de Putin prepararem-se para a guerra (ainda que tal seja prudente), mas o que permita que os conterrâneos do neoczar o derrubem. Não vale a pena, na era nuclear, tentar perceber até que ponto um Putin acossado é igual a um Hitler acossado. Vale a pena, sim, ter a opinião do mundo e sobretudo a opinião dos russos contra o déspota que os governa. Adiemos o momento de fornecer poder balístico à Ucrânia, mas forneçamos argumentos de rebelião ao povo russo. (A munição para um sniper também serve.)

domingo, 2 de janeiro de 2022

Cheirar o mundo de cima

Por vezes, para me sentir vivo, saio à varanda da cozinha, de onde, à altura de um inexpugnável quinto piso, com vistas amplas para a serra, olho o mundo e os seus habitantes como de uma torre de menagem: com a indiferença de um senhor no seu castelo.

Também saio à varanda uma vez por outra para despistar uma suspeita de Covid, sobretudo à noite, que tem sempre daquele lado um de três odores de combustão (por vezes os três): lenha a arder numa lareira, carvão a alimentar o forno da padaria e ganzas que grupos de adolescentes ali fumam há décadas. (Não são, claro, sempre os mesmos adolescentes: as gerações sucedem-se mas a falsa impressão de clandestinidade do local passa através delas como uma herança cultural de uma tribo.)

Enquanto inflo as narinas daquelas fragrâncias excluo momentaneamente um dos sintomas da doença e sei que o mundo ainda não acabou — embora possa na verdade estar para breve. Ignoro, de facto, se arde o último toro de pinheiro, a última vagoneta de carvão, o último pé de Cannabis.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Salvar a Europa. E o Mundo.

Com o blogue praticamente parado desde Abril, sinto o peso da responsabilidade na hora de tentar escrever um novo post — e por isso adio sempre esse momento. É um pouco como a humanidade reage a cada novo relatório sobre as alterações climáticas: compreende a responsabilidade que tem em mãos — e adia a década de fazer alguma coisa quanto ao assunto.

O parágrafo anterior forneceu-me em todo o caso o ânimo para arrancar finalmente com um post — e o enquadramento para falar do que na verdade queria falar no post que venho adiando. Que é sobre um livro que à sua maneira (sendo um romance) faz alertas como os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas circunscrevendo-se à Europa e aos malefícios, não das inalações de tabaco, mas do turismo.

Grand Hotel Europa, do holandês residente em Itália Ilja Leonard Pfeijffer, é, como o próprio autor discretamente o apresenta num vídeo para os portugueses, um «grande romance sobre identidade europeia, nostalgia e turismo». Nas suas páginas lemos o que já sabíamos: que os europeus estão a esvaziar de habitantes e a destruir as suas cidades históricas, transformando-as em parques temáticos para turista, sobretudo chinês, ver. Contudo, ao contrário do que acontece com os relatórios do IPCC, não saímos deprimidos das páginas de Grand Hotel Europa, mas satisfeitos, divertidos — e, temo bem, cheios de vontade de nos juntarmos às hordas de vândalos que, visitando-o, destroem o velho e charmoso império europeu. Não houve um dia, nestes meses em que me tentei reconciliar com a vida recordando com prazer o livro, que não me dirigisse com nostalgia e bravura ao armário onde guardo os trolleys e as mochilas — infelizmente sem consequências, saindo dele a apertar de novo frouxamente o robe como uma personagem de Thomas Bernhard, sem que dessa visita ao centro doméstico de logística de viagem resultasse, enfim, um leve aumento da minha pegada ecológica e uns milímetros a mais no ritmo de submersão de Veneza.

No tempo que passou entretanto também queria falar de Grand Hotel Europa porque o narrador desse romance falhado como prevenção do turismo tem muita coisa em comum com o Lúcio do meu romance Os Idiotas: é sarcástico, cheio de si, auto-sabotador e romanticamente tonto como ele. Um é a decadência em pessoa, o outro esmera-se com extravagância no vestir (com alfinete na gravata que lhe circum-navega a barriga e tudo), mas há passagens inteiras de Grand Hotel Europa que poderiam ter sido escritas pelo mesmo tipo que escreveu Os Idiotas. E vice-versa. Com diferenças substanciais nos resultados financeiros, todavia.

Se ganhei uma grande simpatia pelo romance de Ilja Leonard Pfeijffer, ao ponto de vir aqui sugerir a sua leitura, não foi porque achasse que ele escreveu A Montanha Mágica do século XXI, mas porque senti, ainda assim, a alegria dupla de uma literatura contemporânea estimulante e divertida. E porque na altura em que o li também eu andava a escrever um romance com personagens tão conscientes do seu tempo (este) que queriam salvar coisas. No caso, o mundo. Salvar o Mundo. Nada mau como ambição, heim? Já tenho o título, só me falta publicar nos classificados o tradicional anúncio: «Cavalheiro bem-intencionado e sem preconceitos ou posses procura editor/a para relação temporária mas apaixonada de trabalho.»

domingo, 25 de outubro de 2020

Hop off

Enquanto passo por um grupo de teenagers clandestinos num drink de final de tarde e sou por momentos sequestrado por uma nuvem de hip hop com rimas geradas pelo algoritmo da Empresa na Hora, tenho um pensamento típico de adulto antigo e pergunto-me onde irá parar o gosto musical desta juventude. A cena poderia ter ocorrido com adultos da minha idade a ouvir música de adolescentes da idade deles em qualquer década do século XX e até aos dias de hoje, mas, talvez também muito tipicamente, senti que desta vez é que era verdade, agora é que o gosto degenerara mesmo.

A música para crianças exaspera; suponho que é preciso ser pai delas para a ouvir deliciadamente, ou pelo menos suportá-la, ou disfarçar o melhor que se pode. A música de adolescentes é, pelo seu lado, frequentemente banda sonora de órfãos: nenhum pai com sensibilidade estética está disposto a assumir a paternidade de criaturas com tão mau uso de orelhas. Os adolescentes são indivíduos dependentes mas anseiam desesperadamente por autonomia, por romper as teias familiares, e talvez por isso a sua jukebox, instrumental na sublevação, se esforce por ser áspera a ouvidos adultos. Com este hip hop de rimas bacocas e samplers pirosos a sensação que fica é que de um modo geral se esforça pouco, embora consiga muito.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ironia

Na minha vida de plumitivo, quando possuía carteira de jornalista, hesitava involuntariamente entre dois estilos: o editorialista e o ironista. Ambas as formas derivavam da indignação, mas enquanto a primeira me expunha como ser moral e senciente a segunda desvendava as escadas que conduzem ao Olimpo da fleuma (e que nunca consegui verdadeiramente subir até ao fim).

Se me tornei um admirador da ironia não foi porque via nela utilidade directa para o mundo, mas porque adivinhei benefícios para o praticante. Não podendo espadeirar a comarca como ela precisa, mais vale rirmo-nos dela salvaguardando distâncias profilácticas.

Convém todavia lembrar que a ironia anda de mãos dadas com a liberdade e a democracia. Só quando não nos levamos suficientemente a sério e sentimos um necessário desprezo pelos que o fazem estamos capazes de resistir à bestialidade.

A Inglaterra não resistiu ao nazismo por ser uma ilha, mas pela sua capacidade de escárnio. Que nas décadas seguintes cultivou, como antes, na literatura, na política e na música, até optar, em degradée, pelo género menor da caricatura, com Cameron, May e Johnson.

Em Portugal conheço dois focos historicamente activos de ironia: o Rui Reininho dos GNR (Q.E.D.) e Vilarelho de Jales, onde pela mão dos irmãos Chaves, eles próprios capazes de fina ironia, conheci uma tribo cujo lugar de pontífice era disputado por Mó, irmão de Salu. Se a imbecilidade nacional continuar a dar crédito ao rapaz do Chega, é ali que me encontram, naquela aldeia mais britânica do que gaulesa, a bebericar copinhos de poção irónica e a entronizar Reininho como monarca de direito para liderar a reconquista.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Esperar o fim no Solar Bragançano II

No domingo fui jantar ao Solar Bragançano e como não o faço com a regularidade que gostaria lembrei-me, até pelas semelhanças de contexto, do jantar memorável e fanfarrão que ali me ofereci em Novembro de 2012*, quando nos afligia a coronotroika. Contudo, para não exagerar no paralelismo e sobretudo para levar um espírito francamente optimista para a mesa, observei, enquanto compunha a máscara depois de passar as mãos pelo álcool-gel da casa, que na altura nada nos protegia da peste e governava Passos Coelho.

terça-feira, 14 de julho de 2020

O último baile de máscaras

Este mundo disfuncional e ameaçador da Covid-19 sugere-me, na brisa nocturna que mal perturba o calor e o avançar das horas, Melancholia, o maravilhoso filme de Lars Von Trier. E por instantes penso, olhando o céu estrelado pré-alvorada e lastimando solares que não tive, que, se vamos chocar com o nosso fatal destino, talvez pudéssemos aproveitar as contingências para um último acto elegante. Já temos as máscaras, só nos falta o espírito.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Os três tês de um prelúdio para a crise: ténis, tempo (perdido) e Titanic


Os meses de quarentena e desconfinamento, que afortunadamente, ao contrário de muitos, vivo como uma espécie de prelúdio para a crise, têm-me servido sobretudo para ler o Proust que com método vinha adiando para a reforma e para ver ténis como nunca imaginei ver desporto nenhum, acumulando quantidades insensatas de partidas, glossário e bisbilhotice temática.

Se sobreviver para resumir este período e este estado de espírito, talvez possa invocar retrospectivamente uma entrada de diário não escrita que imite, na sua aparente inconsciência ou indiferença, a de Kafka a 2 de Agosto de 1914: «Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.»

Mas, na verdade, tendo em conta o ambiente glamoroso e festivo por onde se passeia o narrador da Recherche e em que disputam os jogos as maiores vedetas do ténis, o meu estado de espírito, não substancialmente diferente, é mais bem descrito como o de um passageiro do Titanic que, informado do iceberg mas resignado ao embate, procura não desperdiçar nenhuma dança e certamente nenhum cocktail.

De resto, o relato no diário, se o puder escrever ainda que postumamente, acabará por ser o mesmo. Porque, mais tarde, na falta de um deus ex-machina, o passageiro, do Titanic ou do Lusitânia (perdão, é forçoso distinguir as guerras: da Lusitânia), vai sem dúvida nadar. Isto na melhor das hipóteses. Ió.


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* Se preferirem uma versão menos sombria e houellebecquiana deste 2020, aproveitem a Mínima Luz e mantenham-se à tona com outros três tês, Três Tristes Tigres: https://youtu.be/XL4i9X0wC18

quinta-feira, 28 de maio de 2020

À luz antiga dos raios catóditos

As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sociologia barata do desconfinamento

Os testemunhos que vamos dando nas redes sociais sobre o desconfinamento utilizam uma ferramenta tecnicamente precisa — o olhómetro —, ao serviço de um fino pensamento teórico que procura, com rigor científico, confirmar sem escolhos a tendência pessimista ou optimista de cada um de nós. Este método é ainda modelado por contributos de fria matemática, como o estado de espírito, e de isenta objectividade, como o rancor ou a empatia que nos suscita o objecto de estudo — o Outro.
É assim que Portugal hoje, consoante os diagnósticos, aderiu a uma etiqueta social de pura orgia kamasutriana em espaço público — ou continua refém do medo de sair de casa. A ciência exacta que nos molda o olhar e o feeling diz-nos que o povo enlouqueceu e já não se lembra que há uma pandemia — ou que o povo soçobrou ao pânico sinistro instalado pelo Governo e não arrisca sair do teletrabalho nem para abastecer a despensa.
Onde uns vêem uma multidão desenfreada a recuperar meses de abraços e langores perdidos, outros vêem lojas pouco animadas e cafés vazios. Uns apelam para as pessoas saírem de casa e fazerem compras — outros exigem mais uma temporada de abstinência social.
O teletrabalho é a esperança de manter longe chefes e colegas intragáveis — ou a certeza inquietante de que o horário laboral e o seu olho omnisciente tomaram conta da vida privada.
O tuga aproveita para não telefazer nenhum — ou desespera por trabalho mesmo sem rede ou máscara.

Todas estas coisas e outras acontecem em simultâneo, em doses variáveis, influenciadas pela geografia e pela demografia.
O povo é biodiverso. Os problemas são complexos e paradoxais.
É no ponto onde se jogam todos os equilíbrios que as nações sobreviverão. Ou não, que sei eu.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Alegria primitiva

Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).

Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.

Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.

Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.

sábado, 11 de abril de 2020

Da bola de cotão ao comunismo

Na casa onde morava há duas décadas tinha bolas de cotão que tratava pelo nome, tal a intimidade e a antiguidade do nosso mútuo conhecimento. Na verdade, na altura li ou ouvi esta piada num livro ou numa soap opera e recorria a ela com frequência para dar um certo glamour decadente ao que era apenas desmazelo e preguiça. Hoje, nesta distopia súbita mas demorada ou sem retorno, continuo a pagar à pessoa que me limpa o apartamento, embora seja eu quem agora lida com o pó, os detergentes e a esfregona. Faço-o, o pagamento, por solidariedade, mas talvez também por gratidão mais ou menos consciente por ter tido nesta última década e meia alguém que, com diligência, a troco de uma verba que não era nenhuma fortuna, me deixava a casa habitável. E também com esperança de que alimentar uma certa normalidade seja a forma de garantir essa normalidade no futuro, de garantir que se isto passar ainda haja do outro lado, na outra pessoa, ânimo para me limpar a casa — um fio de Ariadne para sair do labirinto e continuar de casa asseada.

A normalidade na nossa vida depende da normalidade na vida dos outros, da sua sobrevivência, desde logo, e da sobrevivência da sua disponibilidade para tarefas que complementam as nossas e fazem a nossa vida mais confortável. Tendo em conta a crise económica violenta que nos anunciam para o fim da quarentena (vamos da pandemia ao pandemónio), diria que a normalidade das nossas vidas, a normalidade essencial das nossas vidas, passará por reinventar o capitalismo tornando-o mais solidário e redistributivo. Mas isto talvez seja só o comunista que há em mim a vir ao de cima enquanto vejo lá fora, na rua deserta, os homens do lixo a recolher o que produz um bairro confinado ao sofá.