Mostrar mensagens com a etiqueta Afectos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Afectos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de outubro de 2023

Pausa

Duas moças falam de desentendimentos amorosos havidos com terceiros. Uma delas é, ao que parece, vítima de ciúmes retroactivos. Tinha havido uma ruptura e uma reactivação e pelo meio a vida.
«Nós naquela altura não namorávamos», queixa-se à amiga. «Não namorávamos!», insiste algumas vezes, com ênfase, em crescendo.
Abrando discretamente o passo à espera de ouvir um sonoro e rossiano «We were on a break!», mas a moça é demasiado nova ou não está com humor para a punchline que este texto implora.

domingo, 25 de setembro de 2022

Compreendendo a mosca

A mosca cola-se ao vidro da janela não como um recluso a cobiçar nostalgicamente a liberdade e o ar puro mas com a melancolia abstracta de um amante sonhador ou preterido.
A esta luz consigo perceber que quando a mosca pousa em nós na piscina não o faz obedecendo a uma vocação para importunar, mas por uma carência dolorosa, um desejo erótico de pele nua.
A mosca é um amante ferido ou muiiito insatisfeito.

domingo, 7 de novembro de 2021

O casaco de angorá

Todos os parques que se prezem têm figuras mitológicas. Aquele que atravesso para ir trabalhar ou quando resolvo correr junto ao rio também as tem e uma delas está viva, cruzamo-nos com certa frequência, até já a mencionei em dois ou três destes textinhos. Faz-se geralmente acompanhar de um aparelho de música dentro de um saco de plástico que debita êxitos melancólicos dos setenta e oitenta ou, talvez quando o humor está mais espevitado, música de baile brejeira. O volume também varia com os dias ou os humores, por vezes elevado a uma agressividade punk que não tem correspondência no rosto do portador. Hoje estava baixinho, surpreendentemente baixinho, e não foi a primeira coisa em que reparei.
Olhava um casaco à minha frente que, sendo mais rosa do que púrpura, ainda assim me fez pensar no casaco de angorá de Agnes, a mãe alcoólica de Shuggie Bain, protagonista do livro homónimo de Douglas Stuart sobre uma infância dura em Glasgow. Uma cabeça miúda encostava-se ao ombro daquele casaco e o par ia de mãos dadas, carinhosamente. Foi quando os ultrapassei que ouvi a música e vi o saco.
Era uma imagem inesperada, o habitante solitário e melancólico do parque — talvez, como Shuggie, vítima de bullying na infância, se já tinha então aqueles modos tímidos e invulgares — de mão dada com uma mulher vestida de angorá. A literatura a irromper pela vida real.
A mulher não tinha idade para ser mãe do homem da música e não tinha ar de alcoólica, mas a ternura recíproca surgiu-me ali surpreendente e redentora (e efémera) como em certas passagens de Shuggie Bain.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sem palavras

O meu pai e eu não éramos muito faladores nos nossos telefonemas. Os telefonemas não serviam para contar coisas, na verdade, mas para declararmos com regularidade a nossa existência mútua enquanto pai e filho. Era como tocar com as pontas dos dedos nas costas de alguém que se ama, só para assinalar a presença, o afecto. Para reconfortar. Por vezes éramos tão telegráficos que parecíamos a sentinela nas ameias ou nas trincheiras dando voz de alento ou alívio: «Tudo calmo no posto norte». (Ou sul, dependia se ligava eu ou ele.)

Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.

O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.

De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.

Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.

A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.

Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.

Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.

Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.

O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

À luz antiga dos raios catóditos

As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

S.T.T.L.

Os anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado, cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza. Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas namoradas.
O tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta, ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas. Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições (estava, avidamente).
A sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais intrincados quanto para lobrigar as rocas mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos. 
De resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados do Sporting.
Nos anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos, que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta de lhe termos descoberto o fingimento.
Com o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma pessoa difícil.
Mas os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o tio era então o meu segundo pai.
   Sit tibi terra levis.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dhafer Youssef ou a reconciliação da espécie


Há três anos havia lua cheia e Dhafer Youssef actuava em Sines (lembras-te?). Nós estávamos no mesmo paralelo, mas não mesmo mesmo meridiano — e contudo parámos o carro na berma alentejana, saímos para o calor da noite com o rádio no máximo e dançámos no alcatrão, inquietando a bicheza que esbugalhava um olho de cada vez nos prumos das cercas ao redor. Apesar da proximidade mediterrânica e do Sete Sóis, Sete Luas, que também já visitáramos e havíamos de visitar, não nos ocorria exactamente a celebração de um melting pot musical ou cultural, pensávamos apenas no prazer de ser Verão e estarmos vivos a Sul. Mas calhava de Youssef — o tunisino, o francês, às vezes vienense, o terráqueo, em suma — ser versado na Teoria das Cordas e explicar o Universo dedilhando o seu oud ou tensionando incrivelmente as fibras da laringe. Por isso havia Harmonia e o jazz era o seu esperanto — e nós estávamos afinal sintonizados com o Cosmos, reconciliados com a espécie. Tínhamos bebido um copo ou outro, é certo.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia

Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.

Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.

(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

To send you my love

No Verão passado frequentei com certa assiduidade, para livros e vinho, a esplanada ocidental da Club House de Vidago. Tanto porque sou patologicamente avesso à humanidade (embora às vezes disfarce) e o sítio é pouco concorrido, como porque tenho romântica nostalgia de um passado aristocrata que não posso reivindicar e por tantas razões abomino.
Para lá das minhas bizarrias (e das minhas frases barrocas), locais como o Parque de Vidago agradam-me também porque providenciam um contacto delicado com a Natureza.
Por todas estas razões, aceito partilhar com poucas pessoas os momentos que ali passo, e a memória de cada tarde é preciosa.

Se hoje evoco este cenário é porque, por razões particulares, recordei uma tarde em que ali passeei com a mais nova das minhas irmãs. Não era a primeira vez que íamos juntos esquecer o mundo e a vida, mas naquela tarde de 2013 deambulámos descalços pelo relvado suave e levemente húmido dos buracos 17 ou 18. Talvez o momento panteísta apenas tenha sido intenso para mim, mas eu gostaria que aqueles minutos de felicidade tivessem tomado também o espírito da minha irmã deixando marcas duradouras. Que o meu amor e o meu orgulho nela, já que não saem por palavras, tivessem descido aos meus pés e ao solo como a corrente eléctrica das trovoadas e subido depois pelos dela ao seu coração. Se isso não aconteceu então, que esses sentimentos façam agora o caminho dos meus dedos para a ligação ADSL, do meu ecrã para o dela. Que de mim se aproveite alguma energia para fortalecer (ainda mais) a dela. A tua, irmã.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (2)

Como a mãe do post anterior, talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do bairro onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado. Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou — mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento se tenha usado gel. Ou por causa disso.

Gel, mães e filhos (1)

Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência, está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.

A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Padrinho

Na Periférica, a coluna de J. Rentes de Carvalho tinha o título deste post. Todas as rubricas eram na revista nomeadas a partir de filmes e a sugestão de O Padrinho para a crónica dele foi absolutamente incontroversa — não sendo a boutade o argumento principal, já que em rigor não havia uma boutade no título.
Mais de uma dezena de anos depois, aquilo de sábado na Traga-Mundos não foi bem um debute, uma entronização que JRC apadrinhasse. Foi um reencontro afectivo. De vez em quando, para revermos amigos, para podermos ter aquele abraço reconfortante, para recebermos a bênção balsâmica de um patrinu, de um pater, temos de trocar as voltas à vida, criar situações onde tal possa ocorrer. No sábado, todos (até eu) exagerámos dizendo que estávamos ali a propósito d’Os Idiotas — mas ninguém escondia com muita convicção que estávamos ali para recebermos afecto e um pouco daquela espantosa energia vital de Rentes de Carvalho.
Il padrino, pelo seu lado, não foi avaro, foi aliás desmedido — para meu embaraço. O texto com que se prontificou a participar na instrumental apresentação do livro, o trecho que se me refere, deve por isso ser lido apenas como uma enorme e paternal demonstração de generosidade.

(Texto da apresentação aqui ou aqui.)