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domingo, 5 de fevereiro de 2023

O homem das entregas

É um domingo soalheiro de Inverno e os casais passeiam, cão pela trela e, nalguns casos, pequena mochila ao ombro, talvez com a câmara dos instantâneos de Fevereiro ou outros instrumentos necessários a um passeio soalheiro de domingo de Inverno.
Também o homem das entregas da Glovo passeia ao sol, companheira ao lado, cão pela trela e — porque não pode dar-se ao luxo de jantar fora à sexta nem de perder um serviço ao domingo — saco amarelo ao ombro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O capitalismo como monarquia

É fácil encontrar apoiantes da monarquia em descendentes, mesmo que remotos, de marqueses, duques, condes, barões ou até escudeiros. Mais difícil será encontrar um que assuma sê-lo por nostalgia ou anelo do privilégio. Não serei muito injusto se disser que ninguém é monárquico porque deseja servir uma elite, mas porque considera ter boas possibilidades de pertencer a essa elite.

No capitalismo actual, as elites políticas e empresariais não vivem menos a legitimidade do privilégio do que velhos duques de bigode enrolado ou velhas duquesas de leque enfastiado. Pavoneiam-se pela urbe com absoluto descaramento, como outrora se desfilava ociosamente de caleche e cartola nas barbas do povo descalço e servil. Vê-las-ão com um esgar de nojo ou escândalo se ousarem falar-lhes das desprezíveis dificuldades de viver com o salário mínimo, como antes se observava na cara da aristocracia a máscara do tédio se o feitor mencionava a doença de um criadito.

Paulatinamente, desde os anos oitenta do século XX, o capitalismo foi fazendo o seu caminho na (re)instituição legal do privilégio de casta. É assim que a lei hoje aceita bonacheiramente despedir sem rebuço nem indemnização um assalariado e tem horror a tocar no vencimento milionário de um CEO, no bónus obsceno de um gestor ou na indemnização pornográfica de uma administradora. Na Idade Média, o valor de um condado podia ser medido pelo número de homens sob o domínio do seu senhor, geralmente centenas ou milhares. Hoje, é o valor do salário do “senhor” que pode ser medido pelo número de salários de homens comuns que cabem no seu cheque mensal, não raro centenas. Ou milhares. Em ambos os casos, a moral de Estado, recostada no canapé a coçar os interstícios das banhas, não via ou vê razões para alterar seja o que for.

A inabalabilidade do regime feudal não pode contudo servir de justificação para os desmandos de hoje. Assim como o que quer que Passos Coelho tenha legislado no seu pequeno reinado neoliberal não pode servir de desculpa hoje para a dinastia PS.

Indemnizações e vencimentos como os de Alexandra Reis (voilà!) não são uma fatalidade feudal. É possível no quadro legal em vigor, apesar de tudo, não pagar daquele modo, não indemnizar daquele modo. E sobretudo é possível mudar o quadro legal. Só não sei se ainda é possível mudar o quadro mental das castas sem mudar o sistema capitalista. E não vão ser elas a mudá-lo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Mudança de sistema

O movimento para substituir o capitalismo começará quando o trabalho for dessacralizado. Dois guarda-sóis ao lado, gregamente estendida na espreguiçadeira, uma teórica da mudança faz um primeiro ensaio: «Trabalho? Que palavra feia!»

sábado, 13 de agosto de 2022

Títulos nobiliárquicos

O livro De Ansatte, de Olga Ravn, que ensaia uma crítica da vida regida pelo trabalho e pela lógica da produtividade, foi traduzido para português sob o título Os Funcionários, e isso parece-me quase eufemístico, como se Os Empregados ou Os Trabalhadores não fossem opções de tradução convenientes. O caso seria de uma refinada meta-ironia se, dentre as hipóteses possíveis na linguagem capitalista, a escolha tivesse sido Os Colaboradores.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Pensar e agir fora da caixa de supermercado

(A propósito de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa?, de Mark Fisher)

O que há de escusado ou até patético em enfiar um melão ou um cacho de bananas dentro de um dos sacos de fina película plástica transparente que os supermercados disponibilizam em abundância aos seus clientes é menos perturbador do que o que revela da existência pavloviana que o capitalismo reserva às pessoas. O apocalipse ambiental é uma realidade ao virar da esquina; os muitos loucos ou fanáticos religiosos que durante décadas ostentaram cartazes a dizer «O fim do mundo está próximo» tinham provavelmente razão, apenas não foram suficientemente perspicazes ou precisos quanto às causas.
E contudo o problema é muito menos o uso desnecessário, desmesurado e nefasto de sacos de plástico para enfiar artigos que deles não necessitam do que a longa cadeia de gestos irreflectidos onde ele se insere.

As secções de fruta e hortaliças apresentam dispensadores de sacos em lugares estratégicos e o cliente dirige-se-lhes mecanicamente, sem se questionar, numa coreografia de gestos pré-determinados. A mesma coreografia que o pôs sem hesitações, com uma eficácia comportamental que poucas campanhas estatais logram obter, a pesar a sua própria fruta e a registar as suas próprias compras, ignorando que isso é sintoma de uma de duas formas de automatização levadas a cabo pelas empresas para reduzir os custos com trabalhadores e aumentar lucros: a automatização tecnológica e a automatização do cliente. Ambas as formas de automatização se inserem na recusa paradoxal da promessa com cem anos de que o futuro e a robotização nos libertariam do trabalho, nos devolveriam o tempo. O que acontece é o contrário: a evolução tecnológica não nos reduziu a semana laboral (nem nos aliviou da chantagem moral inerente à suposta realização do homem pelo trabalho — «Arbeit macht frei», não é?) e fez-nos entregar gratuita e voluntariamente tempo e serviços às empresas que investiram em tecnologia.

As considerações anteriores surgem-me após a leitura de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa? (2009), de Mark Fisher. Diz o autor, e todos o sabemos já, que «as alterações climáticas e a ameaça do esgotamento dos recursos estão a ser, mais do que recalcadas, incorporadas na publicidade e no marketing». Contudo, isso não significa que o capitalismo actual tencione, de forma alguma, fazer o que quer que seja quanto ao problema. É só uma demonstração da sua «plasticidade» (no sentido de maleabilidade). Segundo Fisher, uma das características principais do realismo capitalista (o suposto «realismo» é o artifício intelectual a que o capitalismo recorre para que o consideremos insubstituível, inevitável) é a sua capacidade de condicionar «os horizontes do pensável e, por isso, do possível». Precavido, o capitalismo não ignora os problemas e não hesita em subordinar-se «a uma realidade infinitamente plástica, capaz de se reconfigurar a qualquer momento». Mas fá-lo para garantir que as «zonas culturais» alternativas ou independentes «não designam algo exterior à cultura dominante; ao invés, são estilos, os verdadeiros estilos principais, aliás, no seio da cultura dominante».

Em rigor, ao contrário dos autoritarismos históricos, o capitalismo aceita que as mais diversas entidades, concretas ou abstractas, sugiram às pessoas o que fazer e como se comportar perante novas tendências e desafios — mas apenas se desse comportamento resultar a manutenção ou o reforço do statu quo económico e social. Com efeito, o capitalismo apressa-se frequentemente a ser pioneiro na «aceitação» dos novos tópicos, mas estabelece de imediato os limites da discussão, fingindo-se «realista».

Com uma estrutura funcional muito próxima da de uma religião ou de um estalinismo de aparência amigável, o realismo capitalista tem os seus dogmas e, claro, os seus zelotas. São eles que estabelecem que «dizer às pessoas como perder peso ou como decorar a casa é aceitável; mas reivindicar qualquer tipo de progresso cultural é ser opressivo e elitista» (p. 108). Sem o saber, ecoei esta frase de Fisher em dois textos, de 2011 e 2014, respectivamente. No primeiro*, observei como a direita neoliberal, fingindo recusar todas as formas de proselitismo televisivo (ou seja, de opressão elitista), foi na verdade permitindo um doutrinamento de massas não menos opressivo e particularmente imbecilizante. No segundo **, levei mais longe o raciocínio para sugerir que o Estado, assustado com a mera e impensável possibilidade de promover qualquer forma de elitismo cultural, se deixou sequestrar por uma ideia falsa de liberdade ou democracia, conducente na prática a uma mediocracia (na acepção pejorativa). Exactamente porque o realismo capitalista permite todas as formas de moralismo excepto o questionamento da sua própria validade moral.

domingo, 10 de janeiro de 2021

O grande barrete

João Miguel Tavares 

Trump, o Trump híbrido de Berlusconi e Mussolini que discursou no dia 6, poderia ter ele mesmo encabeçado como Moisés* a multidão depois de a ter incitado a atravessar o Mar Vermelho, podia ter sido «bravo» de acordo com os seus padrões em vez de assistir pela televisão e comentar pelo Twitter, como costuma, podia ter-se sentado com chapéu e cornos na cadeira de Nancy Pelosi, poderia ter acossado polícias renitentes ou feito selfies com polícias complacentes enquanto partia mobília, podia ter entrado na sala do Senado para proclamar ele mesmo o golpe, no que provavelmente seria seguido pelos ratos republicanos que agora saltam borda fora, Trump poderia, enfim, por uma vez ter sido consequente e ilustrativo e auto-evidente que nem assim António Barreto deixaria de ter escrito o que escreveu** e nem assim João Miguel Tavares teria deixado de saltar na cadeira de largo sorriso a aplaudir Barreto como criança a que lhe servem a sobremesa***.

E o que diz Barreto lá do fundo da sua resmunguice, do seu ressentimento ou do que lhe habita a alma? Que a culpa da invasão do Capitólio é das «esquerdas», pois claro. Ou, vá lá, de «democratas-cristãos, socialistas e sociais-democratas». Ou antes, na versão matizada, a culpa é dos «erros, defeitos e vícios» dos democratas****. Um dia em que se empolgue na indignação e no moralismo, ainda havemos de o ler a culpar a esquerda pelo pecado original de Adão e Eva, em que decerto se dispõe a acreditar.

Poderia Barreto ter-se ficado, por uma vez, como as pessoas sem segundas intenções, pela condenação da coisa em si e dos responsáveis directos por ela? Poderia, depois de ter listado retoricamente como listou uma série de atributos de Trump, afirmar inequivocamente que sim, este é Trump, em vez de dizer apenas «Tudo isto pode ser verdade» (itálico meu) e acrescentar um longo mas? Claro que podia. Mas como perder uma oportunidade de verberar o «sistema» (sem de facto falar do «sistema»)?

A lengalenga barretiana é agora antiga e não é totalmente errada. Sem esquecer nunca a culpa activa dos republicanos e dos promotores dos Trumps deste mundo (que Barreto amavelmente desvaloriza ou em que participa), é preciso considerar que as democracias têm de facto sido absurdamente complacentes com a corrupção e as desigualdades, por exemplo. Mas como mencionar isto sem falar do capitalismo, proeza que Barreto facilmente realiza?

Nas últimas décadas, com o surgimento de uma nova geração de direita, que aprendeu, nos melhores casos, pelos manuais do conservadorismo britânico e, nos piores, pelos manuais do neo-liberalismo americano, criou-se na Europa e exacerbou-se na América, com o regozijo de velhos ressentidos que aproveitaram para sair do armário, uma raiva ao «socialismo» (termo discricionariamente usado para englobar todas as esquerdas e o centro), uma raiva ao «socialismo» (que soa quase a comunismo, o comunismo estalinista) como fonte de todos os males, ao «socialismo» como demónio na Terra.
Não interessa que alguns dos principais pecados atribuídos a este «socialismo» sejam na verdade de índole não doutrinária. A corrupção e a manutenção ou agravamento das desigualdades têm sido muito democraticamente praticados pelos vários partidos que chegam a entrar em governos ou outros níveis de poder. As variações de grau da prática da corrupção devem-se mais, temo, ao contexto e às oportunidades concretas com que cada um se depara do que a subtilezas de carácter ou filiações partidárias ou doutrinárias. Contudo, esses flagelos sem pátria ou partido foram invocados com toda a lata por uma vasta multidão de opinativos mundiais (de que tivemos a nossa parte generosa) para criar o ambiente favorável à eleição de Trump e Bolsonaro pela rejeição violenta dos candidatos que se lhes opunham. Quando o mais simples bom senso dizia que, na ausência de candidatos melhores, a ter de se escolher o mal menor, haveria o eleitor que se resignar provisoriamente com a mediania ou mediocridade de Hillary ou de Haddad, eis que o mundo assiste estupefacto à farsa inimaginável de ter de tomar Trump e Bolsonaro como candidatos de fora do «sistema» capazes de combater a corrupção e as desigualdades.

Na verdade, a corrupção e as desigualdades são uma inevitabilidade do capitalismo como ele vem sendo praticado (e que poucos se atrevem a questionar sem desvio doutrinário bafiento), e são uma inevitabilidade em que, deve dizer-se, além de demasiados políticos, participa à sua escala uma boa parte da população anónima (incluindo, naturalmente, aquela mui puritana que vota em Trump, Bolsonaro ou no Doutor Sapo de Loiça).

O que estava em causa com a eleição de Trump e Bolsonaro não era, para os mais condescendentes com a dupla de ogres, esse combate, mas o cultural. Sim, ainda que encha a boca com os problemas económicos das populações rurais americanas, o que levou aquela gente a ser complacente com Trump e Bolsonaro foi a possibilidade de os ter como campeões de um combate que a maioria não queria assumir ou travar completamente às claras: a reacção a reformas sociais e culturais, à transformação da sociedade. (Um ogre é por definição um ser atávico, logo escolha certa se queremos preservar o mundo mítico que conhecemos.)

É verdade que a esquerda e o centro têm colocado um menor empenho no combate à corrupção e à pobreza do que nas causas culturais e sociais. O combate à corrupção e às desigualdades falha claramente porque, além de um raro carácter honesto e solidário, exige uma coragem muito maior: a de enfrentar o desconhecido (o que propor para mudar ou substituir o capitalismo actual?) e a de enfrentar o poder dos grandes agentes económicos. Já as reformas sociais apenas exigem enfrentar uma parte da população sem uma fracção desse poder.

Significa isto, esta pequena grande cobardia das democracias, que as reformas sociais deveriam ser postas de parte? Claro que não. Tal como é errado desprezar as dificuldades e o sentimento dos eleitores inocentes de Trump seria errado, por exemplo, desprezar os problemas ancestrais das várias minorias e desaproveitar a oportunidade de os corrigir, e de corrigir atavismos nacionais. Mas o que nos é proposto pelos que toleram Trump é que façamos essa escolha, que tomemos como problemas reais ou «sérios» os que a América rural simboliza e como meros caprichos burgueses as questões sociais ou culturais e as que afectam as minorias ou as mulheres, por exemplo. É, portanto, caracterizar a rejeição de uma parte da população como egoísmo e snobismo urbano, apelando, com uma suposta superioridade moral, à rejeição de outra parte dessa mesma população.

Percebo o receio de certo mundo conservador, e partilho do desagrado que sente, perante excessos e idiotices que à esquerda se praticam, como o fenómeno Cancel Culture e outros. Mas estes, mesmo quando graves, são equívocos, não são as causas de quem rejeita Trump e Bolsonaro.

Temos de lhes pedir, a este tipo de conservadores, que se controlem e não deixem que o medo do fim do mundo como o conhecem os empurre para uma distopia pior, que é a de um mundo que tem como supostos campeões da liberdade e da justiça bullies idiotas, corruptos, amorais e egoístas como Trump ou Bolsonaro ou eventuais plagiários indígenas.

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* Imagens de António Muñoz Molina no excelente artigo de hoje no El País: https://elpais.com/opinion/2021-01-09/un-paisaje-de-trastorno.html
** https://www.publico.pt/2021/01/09/opiniao/opiniao/perceber-1945609
*** https://www.facebook.com/joaomiguel.tavares/posts/3635077483244744
**** Note-se que Barreto chega a dizer que a democracia tem «tantos ou mais defeitos» do que Trump e programas de gente como ele…

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Alegria primitiva

Sinto quando por acaso descubro uma capa com o logótipo da revista LER, como agora aconteceu, a mesma alegria primitiva que sentia na infância se no horizonte havia uma revista da Disney (que raramente ou nunca pude comprar) ou, mais tarde, algo da Marvel (que já comprava com alguma frequência, preferindo investir nesses álbuns o dinheiro que outros gastariam para comer).

Na crise de há dez anos, deixei de comprar a LER, pela primeira vez pondo outros interesses e necessidades à frente de um prazer intelectual ou estético. Quando depois recuperei algum do poder de compra tinha-lhe perdido o hábito. Não deixei de sentir o entusiasmo de a comprar de novo com assiduidade e a excitação de a folhear, mas a verdade é que raramente a voltei a ler de capa a contracapa, e não posso em rigor culpar a revista. E também não posso dizer que tenha assimilado o sentimento de culpa que o neo-liberalismo tentou, com certo sucesso, incutir nas pessoas que prezam o ócio e não o pretendem substituir por um qualquer patético impulso de empreender seja o que for do ponto de vista económico; mas não pude escapar ao vórtice de ter uma profissão e de, ainda mais do que antes, por mera fatalidade, ter de lhe dedicar a maior parte da energia.

Agora, que não acabei de me pôr de pé, vem aí outra crise económica e, como há uma década, porque atraio os ricochetes que as pequenas potestades usam para infligir a sua parte de danos, hei-de certamente bater nela como numa parede, como tantos já estão a bater (estamos fadados a isso porque este capitalismo não morre mais depressa do que o feudalismo que o inspira e tem mais candidatos a baronetes investidos em cães-de-guarda). Mas entretanto, nestas semanas de quarentena, voltei a sentir aquela alegria de poder ir para um canto — quotidianamente e não apenas nas boas abertas — com as minhas leituras de puro fascínio sem que o mundo, económico ou social, e os tiranetes que nos castram pudessem fazer alguma coisa quanto a isso.

Se a crise passar, se lhe sobreviver de alguma maneira, hei-de desta vez perseverar na LER (considerando que a revista se continue a publicar, que o «novo normal» não se limite neste campo a ser a radicalização niilista da normalidade medíocre em que vivíamos). No final disto, as minhas prioridades serão, de novo, estão já a ser, as da infância e da adolescência — uma ânsia de alegria primitiva, essencial.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Observando (online) a vida selvagem

Tenho no blogue uma rubrica, algo descontinuada, que se dedica a pequenas observações da vida selvagem. Hoje, com a fauna confinada ao lar, esta prática zoológica está mais condicionada mas não é menos possível. A bicheza está agora, mais do que nunca, com maior ou menor empenho, investida no papel de concorrente de um Big Brother universal. Na impossibilidade de conviver como habitualmente, passa o tempo a mostrar nas redes sociais os cantos da casa, a estante cheia de bibelôs, o bar, a mesa posta e pós-prandial, os comensais, o sofá, os pijamas, produz vídeos de tolices mais ou menos encenadas e já falta pouco, se ainda falta, para alguém começar um directo de um coito mal disfarçado sob o edredão (pontapés e murros já deve ter havido bastantes, mas quem os dá geralmente não filma e a mera notícia deles está de momento a aguardar uma solução estatística). Não tarda, as televisões, que agora têm as equipas de reportagem confinadas como antes já tinham os escrúpulos, encontrarão no Instagram os conteúdos das suas grelhas futuras, com júbilo dos felizes contemplados.

A idade da Internet e das redes sociais fez-nos desaproveitar colectivamente a oportunidade que antes, numa época não muito remota, tantos desejavam: a de uma desculpa para ficar em casa a ler horas a fio, sem remorsos. Perde-se a oportunidade porque se perdeu antes o hábito, a curiosidade, o desejo. A pergunta «que livro levaria para uma ilha deserta» ficou de repente sem resposta, porque já só a uma minoria ocorre nesta nova era levar livros seja para onde for, incluindo para uma quarentena — embora ninguém se esqueça do telemóvel, vá para onde vá. Selfies e stories com palmeira, areal e mar seriam a ocupação mais provável do habitante único da tal ilha mítica ou retórica.

Mas em certos casos os remorsos persistem, porque há uma dimensão moral neste capitalismo absurdo do crescimento infinito que pune as peças da engrenagem que deixem de rodar como previsto, mesmo que a avaria ou a paragem da máquina não sejam culpa delas. Passam assim alguns a quarentena a dar voltas à cabeça para encontrar formas de serem úteis à economia, quando a maior utilidade, própria e social, por razões sanitárias e cívicas, para o presente e para o futuro, seria, precisamente, ficar em casa — a ler.

sábado, 11 de abril de 2020

Da bola de cotão ao comunismo

Na casa onde morava há duas décadas tinha bolas de cotão que tratava pelo nome, tal a intimidade e a antiguidade do nosso mútuo conhecimento. Na verdade, na altura li ou ouvi esta piada num livro ou numa soap opera e recorria a ela com frequência para dar um certo glamour decadente ao que era apenas desmazelo e preguiça. Hoje, nesta distopia súbita mas demorada ou sem retorno, continuo a pagar à pessoa que me limpa o apartamento, embora seja eu quem agora lida com o pó, os detergentes e a esfregona. Faço-o, o pagamento, por solidariedade, mas talvez também por gratidão mais ou menos consciente por ter tido nesta última década e meia alguém que, com diligência, a troco de uma verba que não era nenhuma fortuna, me deixava a casa habitável. E também com esperança de que alimentar uma certa normalidade seja a forma de garantir essa normalidade no futuro, de garantir que se isto passar ainda haja do outro lado, na outra pessoa, ânimo para me limpar a casa — um fio de Ariadne para sair do labirinto e continuar de casa asseada.

A normalidade na nossa vida depende da normalidade na vida dos outros, da sua sobrevivência, desde logo, e da sobrevivência da sua disponibilidade para tarefas que complementam as nossas e fazem a nossa vida mais confortável. Tendo em conta a crise económica violenta que nos anunciam para o fim da quarentena (vamos da pandemia ao pandemónio), diria que a normalidade das nossas vidas, a normalidade essencial das nossas vidas, passará por reinventar o capitalismo tornando-o mais solidário e redistributivo. Mas isto talvez seja só o comunista que há em mim a vir ao de cima enquanto vejo lá fora, na rua deserta, os homens do lixo a recolher o que produz um bairro confinado ao sofá.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A melancolia de um misantropo

Paul Mason, no seu livro optimista sobre a humanidade e a inteligência artificial, diz, grosseiramente resumindo, que a superação deste capitalismo em furibunda crise de existência passa pela cooperação. Eu se fosse um deus seria um em que o Nick Cave de “Into My Arms” poderia acreditar. A minha vontade divina é ter sempre, em todas as ocasiões e circunstâncias, a coragem de ficar a um canto a ler e a espreitar a humanidade sem nunca intervir. A crença que consubstancio, menos ambiciosa ou mais utópica, é que já estaria bem se as pessoas não se atropelassem umas às outras.

Mas talvez haja também nisto uma forma de cooperação. Um misantropo é ainda um contribuinte para o bem comum, porque, tirando os casos extremos de eremitas, faquires e artistas da fome, come e bebe com apetite e paga as suas despesas e impostos com menos desagrado do que a maioria dos industriais e empreendedores a quem o capitalismo reza pela salvação. Uma sociedade de misantropos assim seria talvez pouco animada pelos padrões actuais de irrequietude e chinfrineira, de interacção símia, mas estaria, por natureza, muito mais preparada para assinar um pacto de não-agressão. Estaria, sem cinismo, muito mais preparada para retomar um ideal de União Europeia, a melhor das Uniões Europeias, uma em que cobriria o continente uma espécie de melancolia escandinava, com tudo o que ela traz de produtivo, bem-estar social e favorecimento da leitura.

Mas para que a melancolia de um misantropo seja para ele fonte de felicidade suponho que faça falta uma humanidade em tonta correria, a voltear no seu habitat urbano com afã de traça em candeeiro. O misantropo é feliz por contraste. Desdenha a humanidade mas precisa dela para se recordar de como os seus dias poderiam ser piores se tivessem um propósito social.

sábado, 13 de janeiro de 2018

FNAT

Na despedida, o presidente da TAP diz que os últimos 17 anos foram para si muito «enriquecedores». Não é o único, felizmente, a sentir-se realizado em Portugal. Francisco de Lacerda, António Mexia e umas dezenas mais também têm tido carreiras agradavelmente estimulantes e recompensadoras.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Bancos e cadeiras

Uma agência do banco Millennium está a livrar-se do mobiliário, não sei se porque o banco faliu (não tenho visto notícias) ou se porque estão em processo de lavagem de cara, como os bancos costumam fazer com frequência. O mobiliário está em óptimo estado, e no entanto está a ser carregado para uma camioneta de caixa aberta — em dia de chuva. Não é provável, portanto, que se destine a reaproveitamento. Já se sabe: os contribuintes pagam os problemas financeiros que os bancos arranjam, pagam os salários e prémios milionários dos gestores bancários (mesmo dos que falham clamorosamente na gestão e nunca devolvem os prémios) — podem, por isso, naturalmente, pagar a redecoração dos bancos.
Imagino que os acólitos do sistema financeiro também tenham uma boa justificação para este comportamento. Têm sempre. No Titanic talvez tenha havido quem defendesse que o ângulo de inclinação do convés não era um sintoma, mas uma característica da embarcação que no final revelava os seus benefícios para todos (banho grátis, por exemplo).
A mim dava-me jeito uma daquelas cadeiras, mas suponho que qualquer lixeira a céu aberto é mais bem vista e tem mais crédito do que eu junto dos bancos.