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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A peregrinação de um caçador-recolector

Depois de meses de ausência, lá fui visitar a terra-mãe. Pelo caminho, vi, conferenciando como pombos numa praça, o maior bando de corvos com que alguma vez me cruzei, e achei isso de bom agouro. Parei o carro junto ao baldio e fui em paz até eles, mas espantaram-se às centenas e não pude estabelecer contacto, apenas desfrutar do panorama visual daquela chusma em vaivém, pousicando aqui e acolá e nas torres de iluminação de um estádio longe do Qatar.

Ao chegar, fui primeiro ao lago, um dos meus territórios de caça. A tarde findava e não queria negar à sorte a chance de me surpreender outra vez com alguma da esquiva fauna avícola que já por ali vi: corvos-marinhos, patos selvagens, a garça-real que iniciou o Villa Juliana. Passeei brevemente de mãos nas costas, místico tal monge em claustro, e lá tive um gazear, mas quando virei os olhos aos céus já não pude ter a certeza se o que os cruzava era deus, garça ou ave ainda mais rara.

Ia dizer que continuei pelas estações da minha via-sacra, mas o que evoco em cada sítio onde me detenho não tem nada de dor ou sofrimento, pelo que mais acerto se disser que peregrinei. Não com um percurso pré-definido, mas deixando-me levar pelas muitas áleas e carreiros, entregando-me ao dédalo sensual do parque romântico como ali mesmo se entrega o corpo dorido às mãos do balneoterapeuta.

Cheguei à zona sul, onde antigamente, se centrava a nossa actividade micológica e os meus olhos deitaram-se pavlovianamente a sondar os canteiros. Não procuravam os cogumelos perdidos, mas a iminência do Mistério, a emoção, o espanto que na altura me tomava nas raras vezes em que encontrava um. Julgo que por isso peregrino: não para evocar momentos, estórias, pessoas, mas para recuperar a inocência, a virgindade, a capacidade de expectativa e fascínio de quando o mundo estava por descobrir e era prometedor.

Caía uma morrinha e deitei o capuz pela cabeça. Há hoje ali bungalows e turistas neles, pelo que o meu deambular de recolector nas zonas de sombra dos canteiros pareceria decerto sinistro se algum perscrutasse a noite acabada de instalar. Isso não me demoveu. Nem sequer a possibilidade nada remota de o meu passarinhar ser confundido com voyeurismo ao cruzar, mesmo que à distância, os grandes envidraçados iluminados por dentro que expõem, se os houver, os esplendores e misérias dos cortesãos em escapadinha de fim-de-semana.

Não tendo encontrado roca ou frade, a minha atenção voltou-se depois para a flora. Os letreiros brancos que puseram defronte de algumas árvores brilham como faróis na noite e resolvi orientar a navegação por eles. Recolhi: cedro-do-atlas, faia vermelha, abeto-de-douglas, calocedro, sequoia-sempre-verde, bordo-japonês, choupo-branco, pinhão-chinês (com um belo triplo tronco), castanheiro-da-índia, carvalho-americano e o ex-libris local, o exemplar de sequoia-gigante de casca fibrosa e suave que hoje se tornou moda apalpar como em Verona se apalpam os seios de Julieta. Encostei-me a ele, mas de forma pudica.

Também recolhi, sem letreiro, vários exemplares de árvores de meródios, que noutros locais se conhecem como medronheiros e que na antiguidade me embriagavam só de lhes olhar os frutos vermelhos com vago conhecimento das suas propriedades alcoólicas (que de resto ali não se aproveitam). Ia jurar que estão iguais, mantêm a mesma leve ameaça de fruto proibido conjugada com a mesma sedução genesíaca.

Não há letreiros para todas as espécies, mas também não há alfabeto nem gramática para alguns dos exemplares sob cuja sombra me recolhia há mais de trinta anos. E se houvesse não me dariam informações curiosas e úteis sobre os seus nomes, características e proveniência, mas sobre certas propriedades inefáveis.

Andei também a respigar pelo minigolfe, descobrindo as suas velhas pistas como alicerces aztecas a despontar das ervas crescidas e das folhas de Outono. Passei pelas traseiras hoje amplas do balneário e encontrei a antiga serralharia onde quase fiz carreira depois de um curso profissional e equívoco em metalomecânica. E passei pela casa onde viviam as freiras, pensando que se aguentei sem esforço os retiros e os terços é talvez porque estava vagamente apaixonado por uma delas.

Chovia copiosamente quando terminei a peregrinação pelos lugares devotos da minha religião pessoal, mas ainda não era o Dilúvio.

domingo, 2 de outubro de 2022

Casais 1 - Woodstock

Saem sorridentes a cheirar a marijuana de uma zona que imaginei lamacenta, ele em tronco nu, t-shirt numa rodilha a pender-lhe do cinto, barbas hirsutas e rabo-de-cavalo; ela com vestido comprido e rendado de rapariga em flor, óculos redondos, gancho no cabelo e bolsa de palha ao ombro. Espreitei-lhes por cima das cabeças a ver se havia um Woodstock ali atrás, mas só vi silêncio e pó de oiro, e o vestido, reparei depois, vinha imaculado.

Tempo enredado

De um lado, muros de pedra antigos e pequenas árvores que por serem autóctones e de folhas ríspidas parecem também antigas, tudo banhado por sol e sombras de velhos fins de Verão; do outro, uma rapariga em trajes desportivos que fala para um pequeno ecrã como personagem de Espaço 1999 ou Star Trek e uma voz que lhe responde, com uma cara que não vejo, talvez do outro lado do mundo ou de um planeta distante, quem sabe. Ia dizer passado e futuro à beira-rio mas por ter invocado séries televisivas de outros fins de Verão ocorre-me que é apenas o tempo a enredar-se na sua própria fábula.

domingo, 14 de agosto de 2022

O sentimento dum acidental

Desço, como um verso de Cesário Verde, a rua em obras, tomada por vária maquinaria pesada. Observo as manobras, os trabalhadores, os outros transeuntes, ouço as ordens, as imprecações, as risadas, as conversas, vagueando neutro como um travelling ou plano-sequência. O cheiro a combustível e o arranhar das escavadoras remete-me para Álvaro de Campos, mas não me concede a euforia dele. Saio do metal e do pó e do sol com uma vaga impressão sonâmbula de ter deixado para trás a batalha de El Alamein. Quando me afundo na sombra do parque, detenho-me a olhar o céu retalhado pela trama das árvores. Fico assim um minuto, com a sensação de que cumpri nisso metade do meu dia. A outra metade cumprir-se-á no regresso, naquele mesmo local, ao crepúsculo.
Pelo meio fica a vida acidental que executo com empenho mas sem decisão, menos surfista do que despojo de naufrágio nas ondas.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Encontros imediatos de terceiro grau

Ver os abutres e os grifos no Salto del Gitano é um espectáculo fascinante mas não surpreendente, porque esperado; visitamos o sítio com esse objectivo. Um grupo de cegonhas apanhado pela visão periférica a planar à distância de um salto de trampolim no céu da minha varanda, porque raro, é disruptivo. Por uma fracção de segundo o mundo habitual é perturbado sem que fique claro se o é por uma ameaça se por um fenómeno benigno, um milagre ou uma revelação. Gosto desse sentimento que dura um tempo demasiado curto mas autoriza a hipótese de transcendência. Um sentimento que, permitindo uma fugaz intuição de possibilidades inimaginadas ou intimamente desejadas, insinua que a vida neste planeta é uma espera, uma espera por vida alienígena, um anjo anunciador ou o mistério da morte.

Ao contrário de outras regiões do país, nos locais onde vivi os meus primeiros vinte e poucos anos não havia cegonhas e quando elas começaram a aparecer foram recebidas, não apenas por mim — com absoluta propriedade, no sentido literal e metafórico —, como avis rara. Um dia segui de carro o voo de um espécime solitário enquanto as estradas e os caminhos permitiram circular e depois continuei a pé, até o perder de vista. Era dessa dimensão o meu assombro. Tenho da mesma altura uma memória que não sei se é de um incidente se de um sonho: presenças espectrais pressentidas ou vislumbradas — ouvidas, também —, grandes asas e longas pernas espreguiçando-se de madrugada na outra margem de uma pequena albufeira, a poucas dezenas de metros. Na altura pensei em cegonhas, se fosse hoje imaginaria grous. Havia whisky à mistura, pelo que pode ter sido apenas uma alucinação, no local ou no leito que lhe sucedeu. Não me importa, ficou-me essa experiência como uma possibilidade e isso é mais reconfortante ou inspirador do que milhares de experiências comprovadas que lhe sucederam.

Vivem biliões de seres humanos no mundo, mas raramente a visão central ou periférica capta um que provoque impressões similares, não apenas em mim. Partindo, abusivamente ou não, da minha experiência, concluo que há talvez desde sempre uma misantropia endémica no mundo, caso contrário não haveria tanta gente entusiasmada com a possibilidade de vida inteligente noutros planetas ou a de uma vida depois desta. Ou com a entrada de aves raras no território ordinário.

terça-feira, 14 de junho de 2022

O que há de mais perverso na insónia é que gastamos, a ruminar madrugada dentro na forma como havemos de transformar ou resistir ao mundo, a energia de que de dia necessitaríamos para empurrar ou enxotar o mundo.

sábado, 11 de junho de 2022

À luz de um candeeiro

Na noite em que meio Portugal estava na sua terapia catártica com o Dr. Cave, dormitava ele sobre o livro no parque da cidade. No parque da sua cidade.
Nem sempre faz de propósito para desacertar o passo, há extravagâncias que vão ao seu encontro. Acontece que regressava a casa do trabalho, a noite ia avançada e apetecível e ele trazia o livro. À beira rio havia bancos iluminados, gorjeios de noitibó, uma impressão de quinta agustiniana no Douro e nem uma alma no horizonte. Sentou-se a ler e, como vem padecendo de insónias, ao fim de umas páginas adormeceu.
Se passaram por lá àquela hora, não era um hermeneuta talmúdico com o estudo em atraso nem um indigente a destilar o bagaço o que viram naquele banco. Era ele. Sóbrio como um carvalho centenário, ressonando como motosserra que o derrubasse.
Há talvez maneiras piores de comprometer a dignidade.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Silly walks in the park

Vindos de duas diagonais convergentes, chegaríamos em simultâneo à bifurcação se eu não atrasasse ligeiramente o passo, menos por amabilidade do que misantropia. De modo que fui no seu encalço durante os seguintes duzentos metros, como uma sombra, porque não havia maneira de nos distanciarmos, tal a sincronia de andamentos. Na bifurcação seguinte, para fugir ao constrangimento, tomei o caminho que ele não seguira e voltámos a ser caminhantes autónomos durante dez minutos. Encontrámo-nos de novo quando os caminhos tornaram a convergir, ele chegando primeiro do que eu pela mesma margem de tempo que eu lhe concedera antes (poderíamos ter conversado sobre a grande probabilidade de os dois percursos terem exactamente a mesma distância, mas não o fizemos, claro), e lá me resignei a ser novamente sombra. As alternativas eram voltar para trás ou ficar ali especado um minuto ou dois e não me apeteciam. Na verdade, dali em diante poderia ter sido sombra no sentido de mimo, porque naquela parte do trajecto ele accionou a modalidade desportiva da sua caminhada, acompanhando os passos com sequências de movimentos vigorosos e alternados de braços e pernas, saltinhos, agachamentos, inspirações e expirações, sempre sem parar nem alterar a cadência. Abstive-me de o imitar não por aversão ao exercício físico mas porque, se fossemos dois, aquilo deixaria de ser desporto e passaria a ser uma repartição itinerante do ministério das silly walks.

Felizmente chegámos ao banco onde eu tencionava pousar a ler e o risco de uma tarde montypythoniana reduziu-se consideravelmente. Eu sentei-me e ele prosseguiu.

Para trás ficavam as sucessivas emanações musicais de que se faz a humanidade domingueira e de que eu vinha fugindo, mudando de posto sempre que alguém nas redondezas carregava no play. O último banco revelou-se bom refúgio. À minha volta uma frágil mas eficaz barreira de verde. No ar apenas o canto dos pássaros, o murmúrio quase exaurido do rio e as vozes da minha cabeça. No livro, a personagem do rapaz deixara de sofrer como antes com as extinções das espécies, o apocalipse climático e a impassibilidade humana e passara a aproveitar o tempo para se deslumbrar com o que restava da natureza e tentar transmitir esse deslumbramento. (Uma nova estratégia, menos dorida, para o mesmo objectivo de mobilização.) Eu, sem dúvida sugestionado, estava agora a sentir igual deslumbramento — e tudo foi levado a um apogeu quando o meu desconhecido compagnon de route, regressado para fazer o sentido inverso do percurso, cruzou o meu olhar com um cumprimento e o sorriso mais amável, franco e caloroso que neste século recebi. Se em algum momento o imaginara constrangido pela minha involuntária perseguição, ele encarregava-se de me mostrar o contrário.

Quando desapareceu na curva ao longe, chegou uma brisa fria e com ela a banda sonora distorcida da existência, feita de camadas sobrepostas de má música (toda a música é má quando é imposta). Vim-me embora lendo enquanto andava, para não perder a tarde, como um exegeta ambulante de escritos sagrados, arriscando tornar-me anedota como Tales de Mileto, mas notando com ironia que afinal também eu não sentia constrangimento algum com o meu próprio modo montypythoniano de me deslocar nos caminhos.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Cheirar o mundo de cima

Por vezes, para me sentir vivo, saio à varanda da cozinha, de onde, à altura de um inexpugnável quinto piso, com vistas amplas para a serra, olho o mundo e os seus habitantes como de uma torre de menagem: com a indiferença de um senhor no seu castelo.

Também saio à varanda uma vez por outra para despistar uma suspeita de Covid, sobretudo à noite, que tem sempre daquele lado um de três odores de combustão (por vezes os três): lenha a arder numa lareira, carvão a alimentar o forno da padaria e ganzas que grupos de adolescentes ali fumam há décadas. (Não são, claro, sempre os mesmos adolescentes: as gerações sucedem-se mas a falsa impressão de clandestinidade do local passa através delas como uma herança cultural de uma tribo.)

Enquanto inflo as narinas daquelas fragrâncias excluo momentaneamente um dos sintomas da doença e sei que o mundo ainda não acabou — embora possa na verdade estar para breve. Ignoro, de facto, se arde o último toro de pinheiro, a última vagoneta de carvão, o último pé de Cannabis.

domingo, 24 de outubro de 2021

The (night) swimmer

Para evitar as penosas subidas no regresso, não fui correr à beira-rio. A opção de andar às voltas no jardim público como cão atrás da cauda também tinha de ser descartada, o sítio agora fecha cedo. Lembrei-me do nadador de John Cheever e pus-me a planear uma travessia da cidade, não pelas piscinas da vizinhança, mas por jardins, pracetas e ruas arborizadas. Quando nadei rente ao cemitério ouvi barulho e pensei em coisas do imaginário popular, almas penadas uivando, xácara das bruxas dançando. Mais adiante percebi que era mesmo música, da janela do coveiro saía o fraseado baloiçante e brejeiro de concertinas em neo-desgarrada, contributos televisivos para um imaginário popular de lantejoulas. 
Cambaleei de regresso para a minha decrépita, vazia e abandonada casa.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Escrever gato por lebre

Depois do dilema arquivológico que anteriormente referi, deparei-me com outro, ainda mais habitual: o de decidir a próxima leitura.
Há poucos dias tinha saído do meu exílio social e corrido para a livraria como bêbado para a taberna, tropeçando e tudo. Passei pelas prateleiras a espreitar o ano da colheita, a origem, a chancela, as castas, mas só por degustação visual, porque já levava decidida a lista de abastecimento. Quando fui pagar, bati com o monte de livros em cima do tampo como se pousasse assertivamente o último copo de uma série bebida à melhor de cinco, encostando-me ao balcão a olhar para o taberneiro, lânguido e (provisoriamente) satisfeito. Depois de terminar Välkommen till Amerika tinha portanto a garrafeira abastecida de tentações frescas e era difícil decidir por qual começar.

A escolha recaiu, na verdade, sobre uma aquisição um pouco anterior, porque resolvi continuar no universo de Linda Boström Knausgård (a electroconvulsoterapia interessa-me e suspeito que ando necessitado dela), para contrabalançar a leitura que trago a meio em paralelo. Ultimamente vou avançando sempre em dois livros, geralmente ficção e ensaio ou história, ou, se ambos ficção, de dois géneros diferentes — sou um leitor ecléctico, talvez também bipolar, e preciso em diferentes momentos do dia de livros distintos.

De resto, esta bipolaridade reflecte-se também no que escrevo, não só aqui no blogue — sobretudo no que escrevo fora do blogue. E reflecte-se de duas maneiras: no alento com que encaro o exercício da escrita (fatalmente denunciado pelo resultado do que escrevo) e no tipo de texto que me ponho a produzir.

Este post, por exemplo, surge porque, obrigado por contrato a escrever um livro* e de momento sem ânimo para o continuar a escrever, sinto a obrigação moral de teclar, se não inspirada e furiosamente, pelo menos a um ritmo que finja produtividade de amanuense, de dactilógrafo. Com esse objectivo de ludibriar a minha consciência, podia encher, digitando de olhos fechados para relaxar o espírito, páginas e páginas de uma sucessão aleatória, ilegível, de letras, ou, fingindo pesquisar ou citar, copiando passagens da Bíblia, mas dos textos originais, em aramaico ou lá o que é e sem espaços entre palavras nem pontuação como era prática à época, iludindo-me assim com a mancha de texto, a leitura do contador de caracteres, fingindo que o mero som de teclar é prova de entrega ao trabalho, é música literária tão válida como a das frases escritas com sentido e estilo. Fingindo em suma que cumpro a minha parte do contrato.

Não escolhi nenhuma das opções anteriores. Fiquei-me antes por esta espécie de escrita automática, sem norte nem préstimo — nem musa ou forças ocultas que me comandem lobo-antunianamente a mão —, que permite contudo que o meu eu mais corruptível venda a si mesmo a ilusão de um texto pensado, necessário, honesto. De resto, como os mais sagazes dos leitores e leitoras já perceberam, não é a primeira vez que se vende aqui ginástica de dedos a fingir trabalho intelectual. Gato por lebre.

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* O contrato não inclui edição, não temam.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Barco Negro

[O trecho abaixo faz parte de um work in progress ainda à procura de rumo. Não quebro decerto nenhuma cláusula contratual ao publicá-lo.]


«Numa das digressões pelo Youtube fui parar à canção “Barco Negro”, na versão de Amália Rodrigues. Ao terceiro verso já chorava. A interpretação de Amália era perfeita, comovente, de uma beleza que tocava os sentimentos de quem a ouvia, mas o que actuava em mim, na minha sensibilidade, não eram só as suas qualidades artísticas, a estética sublime da sua voz: era a incrível semelhança com a voz da minha mãe. A forma como as notas subiam e pareciam precipitar-se para aquele brado de alma na palavra “olhos” era a da minha mãe. Nesse verso, na totalidade dele, nesse pedaço de transcendente oferecido aos mortais, que os deuses tinham encarregado algumas pitonisas de passear pelo mundo, estava um pouco da própria face de Deus, um centímetro cúbico (não sei como se exprimem as medidas de lugares com quatro ou mais dimensões) do paraíso infinito. Não eram as palavras que importavam — por mais que devêssemos admirar o poema de David Mourão-Ferreira ou o de Antônio Amábile que no Brasil o antecedeu —, o que importava não eram os sentimentos ou as emoções que as palavras transmitiam embaladas pela música, não era o lamento verbal, a catarse pela tragédia que as histórias propunham: era a própria música, os sons, as notas, a sequência delas, a percepção da fórmula divina que eles próprias representavam, cuja estrutura cósmica elas quase tocavam, por instantes adivinhavam.

«Matheus Nunes (Caco Velho, o compositor) teve essa visão, é dele o mérito, ou foi a ele que Deus confiou uma linha breve do seu próprio código genético. Mas só quando o brasileiro transmitiu a Amália a “ideia”, para evocar Platão, é que ela ganhou a sua expressão verdadeira, se revelou. Talvez o justo fosse que Amália interpretasse a letra original, lamentasse o sofrimento da Mãe Preta em vez de o da viúva do pescador, mas, que a mesma estrutura melódica, a mesma insinuação metafísica possa abraçar várias formas de dor é admirável e provavelmente significativo.

«É portanto para a minha mãe que a canção, a voz de Amália remetem, talvez porque a minha mãe é agora parte da deidade, incorporou-se a ela há uns anos. Quando Amália a gravou parecia apenas mais um momento na sua carreira, um dos brilhantes, mas era na verdade um passo num guião que alguém escrevera preventivamente para ela com outra finalidade. Prevendo-se que a minha mãe não seria gravada, que a sua voz, exprimindo-se num local e num tempo onde nem a mitologia, pagã ou católica, fazia descer deuses à Terra que se apaixonassem pela pastora que era a minha mãe e lhe dessem um sopro de celebridade, prevendo-se por isso que não integraria as listas da rádio, não andaria em digressão e não se registaria em discos ou cassetes, haveria o Universo de a imortalizar por outra via e essa via foi Amália.

«Foi para que eu chorasse ao terceiro verso e pudesse assim sentir da minha mãe mais do que a memória dela, para que pudesse ter a minha epifania além da retórica literária, que Amália recebeu de Matheus a canção e entrou num estúdio para a gravar. Sim, foi com Amália que a minha mãe aprendeu a canção, era a Amália que as pessoas a comparavam quando ela cantava no dia-a-dia anónimo da sua existência, mas isso é apenas porque houve uma dobra no espaço-tempo, uma singularidade, um ouroboros; Deus perverteu a sequência cronológica dos anos em homenagem à minha mãe, é ela a Mãe Preta que chora todas as injustiças do mundo e eu sou a mulher do pescador que diz, que sente
Eu sei meu amor
Que nem chegaste a partir
Pois tudo em meu redor
Me diz que estás sempre comigo.»

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Alvão ao final do dia

Ao final de um dia de Janeiro, o Alvão — de perfil tão bem delineado contra um céu pálido que brilha na linha do horizonte como um halo — é na sua ilharga de um azul-escuro tornado vaporoso por múltiplos farrapos de fumo que o esbatem e aparecem no ecrã da janela onde leio não como emanações das últimas queimadas do dia ou das primeiras lareiras da noite mas como reminiscências de um passado que houve, memórias de dias que foram. Na verdade, pequenas cedências do olhar à nostalgia abstracta e a um telurismo pouco sustentado em provas e factos, mera retórica do espírito.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Uma ida à varanda

Depois de cada jantar vou sacudir ritualmente a toalha de mesa à varanda da cozinha, a que tem vistas para a serra, e recebo como um benigno balde de água na cara, se tal é crível, odores de Outono: de neblina, de folhas caídas no chão molhado, de inesperadas lareiras vicinais lá em baixo. Demoro-me por ali um pouco a encher o peito de ar e por instantes o cocktail de aromas tem efeitos de gatilho proustiano, mas não se chegam a formar memórias, verdadeiras ou forjadas, de aldeias e idades felizes, porque outro sentimento se instala, com um suspiro. É que a ida à varanda é a entrada na antecâmara de uma felicidade possível e presente, a que resultaria de aceitar o convite, que por fraqueza declino, e acto contínuo me pôr a calçar umas botas, enfiar um anoraque e partir para a serra ou o que mais próximo disso tenho por aqui.
Não me demove desse impulso de libertação e prazer prometido o recolher obrigatório (saberia contorná-lo), nem afazeres nenhuns (todos adiáveis ou nem sequer dignos de atenção, fosse eu fiel a mim mesmo), mas o comodismo, a preguiça, a pusilanimidade.
Recolho ao interior com o rabo entre as pernas, agora sim proustiano de últimos dias, espírito enfezado, a evocar melancolicamente o tempo não muito antigo em que tinha o apelo da natureza como o primeiro dos mandamentos a obedecer.
Mas regresso madrugada dentro à varanda, já não para me ciliciar masoquista com o cheiro do fruto apetecido, ou como vítima de sádico que deixa fora do alcance de um cão acorrentado um osso recém-despido de carne, mas para acudir a outro chamado, o das corujas na sua hora. E então, a ouvi-las falar por sobre a cidade adormecida, soberanas da noite, procurando geolocalizar mentalmente o poiso de cada uma delas ou imaginar os seus voos se os pressinto, esqueço que estou recolhido sem causa e já não sinto nenhum estado de emergência.

sábado, 8 de agosto de 2020

A marmota no feitiço do tempo

O meu Proust vai lento (deve ser para ai a terceira vez que escrevo isto e cada vez me sabe melhor fazê-lo) e se isso me traz um pouquinho de frustração quando reparo nos livros que tenho em espera não é, ainda assim, coisa que me apoquente.
Este Verão não ficará famoso por belas viagens, mergulhos inesperados ou de aspiração infantil, copos com vista e sombra, bolas acidentalmente roubadas no green do buraco 17. Mas está a deixar a sua marca na memória, por cortesia de uma rotina que só uma época anormal, sem pressa de projectos ou destinos, permite cumprir-se todos os dias com dedicação e método.
Não são muitas as páginas que viro do meu Proust a cada jornada, é verdade, e a maioria acontece ao pequeno-almoço (as noites de folga têm sido, como sabem, de rendição perante um fascínio desportivo insuspeitado, outra anomalia deste ano incomum, como o planeta Melancholia). E é justamente nessa pequena quantidade de páginas lidas por cada rotação terrestre, nesse lento avançar para o volume seguinte, que se vai construindo uma ideia ou um significado, talvez uma esperança: deixar durar a leitura para prolongar o prazer ou para deter o tempo, para o reorganizar numa sucessão que não avança, antes repete cada dia com o mesmo interesse aparentemente diminuto do anterior. Como no filme O Feitiço do Tempo, mas sem necessidade de desenvolvimentos ou correcções.
Uma rotina para não perder o tempo.
Levantar, constatar que é Verão e o sol brilha e as sombras das árvores, onde as há, são a dádiva que equilibra tudo; desempenhar as tarefas matinais como quem progride na floresta tropical, afastando com indiferença um pouco impaciente a vegetação à esquerda e à direita, ou como quem avança em slalom entre a multidão, apartando caminho com os ombros, para chegar à clareira ou à praia ou à pequena praça esquecidas, perdidas, ignoradas, desertas, solitárias e maravilhosas. Livro sobre a mesa, em frente aos utensílios e aos víveres, tudo disposto com rigor maníaco obsessivo-compulsivo. E então, o tempo pára durante vinte minutos…

Depois é descer em estado de graça, com ar de heroinómano satisfeito, aproveitando o privilégio de ir a pé para o emprego, resistindo beatificado às ruas inclementes de sol e humanidade que antecedem a chegada ao parque, onde, sob um céu sabiamente entretecido de ramos e folhas, tem lugar uma segunda pausa de contemplação e de puro prazer de estar vivo.
No dia seguinte tudo se repete e se há alguma preocupação é a de não alterar os gestos, os movimentos, os passos, procurar que nada inflicta o rumo dos acontecimentos, na esperança vã mas feliz de que o Verão não acabe, o sol perdure (para que haja o prazer de chegar à sombra), o Proust tenha escrito setenta volumes em vez de sete, trinta dos quais dedicados às viagenzinhas de comboio de ida e volta entre Balbec e a Raspelière, passando por Doncières.
A felicidade é menos ser um Bill Murray paulatinamente apaixonado do que a marmota que repete cada dia com ambição modesta contudo sapiente e hiberna nos meses que não são Verão.

terça-feira, 14 de julho de 2020

O último baile de máscaras

Este mundo disfuncional e ameaçador da Covid-19 sugere-me, na brisa nocturna que mal perturba o calor e o avançar das horas, Melancholia, o maravilhoso filme de Lars Von Trier. E por instantes penso, olhando o céu estrelado pré-alvorada e lastimando solares que não tive, que, se vamos chocar com o nosso fatal destino, talvez pudéssemos aproveitar as contingências para um último acto elegante. Já temos as máscaras, só nos falta o espírito.

domingo, 19 de abril de 2020

Uma perturbação menor na paisagem

Está a ganhar folhas finalmente a última árvore da fila que se alinha, pela minha perspectiva de quinto andar quando sentado a ler, na base da janela. Está agora quase completa, e assim vai ficar, a paleta de verdes-primavera que do lado poente ameniza a vista da cidade. Assim vai ficar porque as folhas que completariam a paleta já não têm árvores onde nascer. A fila era antigamente parte de um L, mas um dos lados deste foi banido por mor das obras que se fizeram na escola. E logo aqui em baixo, no cul-de-sac, foi erradicado um dos elementos do belo par amoroso que dava sombra ao estacionamento e encanto à praceta, talvez porque à noite também tornava mais resguardada a erva que ali se fuma há gerações.

Se não me levantar da cadeira, se erguer apenas os olhos do livro para a vista, posso esquecer a tragédia amorosa e estética do cul-de-sac e, de vestígios humanos, ter apenas, por sobre a fila de árvores, as aldeias lá longe na encosta do Alvão, distantes o suficiente para não terem escala humana, serem uma perturbação menor na paisagem.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Paisagem com Proust

Detenho-me agora, ao olhar pela varanda, em pormenores da paisagem em que até há pouco não me demorava ou ignorava. Acontece isto não exactamente por haver mais vagar para a contemplação (ainda não encontrei essa benesse na quarentena), mas por se ter insinuado no meu espírito por instantes um sentimento de reclusão, com uma nota ou outra de ameaçada irreversibilidade, imaginários corvos pousando a sua negrura nos ramos em frente. Penso, entre o extasiado e o taciturno, que há ainda um privilégio em ter vistas tão desafogadas e amplas no lado poente da casa; que são piores as janelas que esbarram em feia arquitectura ou frontarias intrusivas (como as minhas do lado nascente) ou em cercas de prisão e piores ainda mais as vistas sem sequer janelas, como as dos condenados na solitária. Olho por isso a serra e o céu acima dela com avidez — como em certa ocasião, também num Março, deitado a espreitá-los numa viagem de ambulância, me imaginei fazendo-o pela última vez, com o mesmo grau de exagerada dramatização que me encorajava a rir de mim próprio a disfarçar o mesmo grau de plausibilidade.

Hoje, talvez por ser domingo e estar a ler Proust e as suas esperadas longas referências a paisagens, flores e sentimentos pastoris, os meus pensamentos andam muito pelos campos da minha adolescência. Na estrada que descubro para os lados de Lordelo e que nunca tinha dado conta de existir para esta varanda (também porque dantes havia mais árvores entre mim e as faldas da serra) vejo um caminho que evoca outros que em algum momento percorri ladeados de flores ou de uma paleta de verdes frescos, feliz como se pode ser na Arcádia.
É a Primavera a insinuar-se, com as suas promessas de alegria, desta vez menos verosímeis, e é o manto de benfazeja irrealidade que, na nossa memória, cobre quase tudo o que alguma vez vimos e vivemos.
Ao contrário do adolescente Proust, os rapazinhos da minha aldeia não davam passeios pós-prandiais em família; não hesitavam depois do pernil, consoante a meteorologia, entre o lado de Swann e o lado de Guermantes, excepto num raro domingo de festa ou feriado, mas então com planos menos bucólicos e certamente menos literários. Sobretudo não estavam os rapazinhos da minha aldeia, mesmo os que como eu tinham o privilégio de vaguear pelos campos, educados por um acumular de leituras e observação de telas para apreciar uma explosão de flores ou um entardecer — o pôr-do-sol, que os apanhava geralmente desprevenidos, uns a trabalhar, outros em actividades de gang inofensivo, se tinham liberdade para isso, era pouco mais do que a hora a que regressavam para o descanso os primeiros ou a que tinham de decidir os segundos se havia ou não proveito em desafiar a autoridade materna (o domínio paterno, e a consequente fúria, estava reservado para insolências mais severas).
Contudo diria que recordo os rapazinhos da minha aldeia, alguns deles, pelo menos, igualmente propensos a estacarem perante Gilberte, se o acaso os pusesse em presença dela. Imagino-os depois parados num campo (numa pausa da sementeira, uns, apoiados na enxada; numa interrupção do jogo da bola, outros, os mais privilegiados) à espera que o vento que faz ondular a vegetação lhes traga uma mensagem de Gilberte. Vejo-os sobretudo, eles que como o jovem Proust a acharam bela e não suportam a humilhação de serem ignorados ou rejeitados, capazes de facto de a ofenderem ou dela escarnecerem para que lhes dê atenção — não porque tenham mais tempo ou inspiração do que teve o narrador de Do Lado de Swann, mas porque há de todo o modo o hábito desse comportamento na genética de grupo, a que até os mais sensíveis demoram a escapar.

domingo, 8 de março de 2020

Meta-embaraço

Na mesma sessão de jogging do post anterior, um casal caminhando à minha frente e dando-se as mãos de braços estendidos, como se preocupado apenas com a transmissão aérea do vírus, ocupa toda a largura do trilho e preparo-me para o ultrapassar usando a estreita faixa de erva entre o caminho e um atoleiro. A escassos metros, o elemento masculino do casal apercebe-se da minha chegada pelas suas costas e delicadamente tenciona deixar-me passagem pelo meio dos dois, largando a mão da amada e encostando-se à esquerda, para a faixa de erva que eu planeara usar. Quer porque a inércia da corrida e a má forma já não me permitem mudar radicalmente de rumo, quer porque gosto de passar pela vida discreto, sem perturbar ou partilhar o caminho dos outros, tudo o que consigo é não atropelar o tipo alargando um pouco mais o arco da ultrapassagem pela esquerda — o que me põe a chapinhar pesadamente no lamaçal durante todos os longos segundos que levo a deixá-los para trás. Sem me voltar, ouço o ohhh culpado e embaraçado do rapaz e embaraço-me eu também por ter os pés em equilíbrio precário e sujo na lama e por o ter deixado embaraçado a ele com a minha mania de contornar todas as multidões, mesmo que de dois. Embaraço-me ainda por lhe ter, provavelmente, salpicado as calças, que ele trazia tão estimadas e esticadas. Continuo, como faço sempre, olhando em frente, como se apenas tivesse olhos para a meta — mesmo não sabendo o que seja e a que distância se encontra.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Corvos-marinhos

É claro que há temas mais importantes e urgentes para comentar, mas as minhas notas do último mês resumem-se a quatro tópicos: «corvos-marinhos», «guarda-chuva», «raspadinha», «ler no café dos freaks». Ajuda talvez esclarecer que tomo notas mais por impulso sensual do que por imperativo intelectual. Uma epifania bucólica — já para não dizer pós-prandial — faz-me abrir o bloco-de-notas do telemóvel; um achado filosófico ou uma ponderosa conclusão política sob o duche lembram-me a trabalheira que dá construir uma argumentação e, ainda que honestamente comprometido com o dever de intervir, procrastino.

Opto assim pelos corvos-marinhos, e já menos para cumprir a inspiração do que para disfarçar a inércia.

Não os havia, tanto quanto sei, corvos-marinhos, assim como não havia garças-reais, cegonhas ou esquilos, no meu próprio e privado condado de Yoknapatawpha. Nas últimas duas décadas e meia toda esta fauna começou a aparecer, como que sublinhando a penas e caudas farfalhudas os índices de desertificação do INE (a disseminação de algumas espécies percorre o caminho inverso do crescimento populacional humano).

Descobrir novas espécies no meu próprio território foi talvez o que mais próximo tive de um deslumbramento a la Jules Verne (muitos anos depois de os ter lancinantemente desejado enquanto lhe lia os livros). Pode-se sentir o maravilhamento de um Attemborough por umas horas ou uns dias quando não se conta com novidades faunísticas na zona e sobretudo quando se é razoavelmente ignorante em questões zoológicas. Comecei, creio, por pasmar de queixo erguido ao longo de escassos quilómetros da planície ribeirinha do Avelames quando vi os primeiros bichos a planar que não eram aves de rapina e, percebi então, eram cegonhas, que só conhecia vagamente de condados distantes. Poucos anos depois persegui com a discrição possível enquanto fazia jogging na Nacional 206 a cauda encurvada e ruiva de um esquilo, sem saber então que pertencia a um esquilo. Em anos mais recentes, foi a garça-real que entrou para o meu zoo, à beira Corgo, sem se mexer, simplesmente pousada, encolhendo fleumática e premonitoriamente os ombros, no tronco curvado de um pinheiro (que, by the way, já não existe, e também isto é simbólico). Demorou-me uns dias e custou-me um guia ilustrado de aves descobrir-lhe a raça, mas ficámos amigos. A mais recente descoberta (não conta, por ser mascote urbana, o furão que me invadiu a varanda do terceiro andar num mês de Agosto e me deixou umas horas a ponderar-lhe a espécie e a ameaça fofa dos dentes) foi um par de corvos-marinhos que vi há quinze dias pousado em ramos altos junto ao lago, primeiro confundindo-o, em douta peritagem, com crias crescidas de garça-real e depois, ao notar que os bichos tinham pés de pato, buscando rendido na Internet outra genealogia.

Não tem interesse nenhum para a magna questão dos populismos na Europa este pasmar com espécies avícolas no perímetro de um lago, bem sei. Mas pareceram-me adequadas, agora que com a oficialização do Brexit se retoma a época da fox hunting, umas linhas de genuína zoofilia britânica, não como comentário, mas como lamento político.