segunda-feira, 26 de julho de 2021

O ténis como terapêutica efémera

Contra qualquer previsão que mentes sóbrias alguma vez pudessem levar a sério, subscrevi neste Julho a Sport TV. Sim, imaginem.
O que aconteceu foi que, assacado por males de corpo e espírito, receitei a mim mesmo o torneio de Wimbledon, que tanto quanto percebi só os canais daquela estação transmitiam.
Talvez tenha depositado esperanças, além de nos efeitos revitalizadores do fascínio desportivo, em memórias infantis e maternais de roupa branca a corar ao sol sobre a erva dos prados.
Depois reforcei a terapêutica e assisti também a jogos dos torneios de Hamburgo, Båstad, Gstaad e Umag (à sua maneira igualmente evocativos da infância, mas neste caso remetendo para imagens, menos angelicais, de calções sujos e peúgas empastadas de pó e suor).
Tudo em vão. Um tipo atinge uma espécie de equilíbrio homeopático enquanto a bola vai e vem, mas no final a vida real regressa e os vinte e cinco euros da assinatura não. Vou cancelá-la. A assinatura. 

terça-feira, 27 de abril de 2021

Escrever gato por lebre

Depois do dilema arquivológico que anteriormente referi, deparei-me com outro, ainda mais habitual: o de decidir a próxima leitura.
Há poucos dias tinha saído do meu exílio social e corrido para a livraria como bêbado para a taberna, tropeçando e tudo. Passei pelas prateleiras a espreitar o ano da colheita, a origem, a chancela, as castas, mas só por degustação visual, porque já levava decidida a lista de abastecimento. Quando fui pagar, bati com o monte de livros em cima do tampo como se pousasse assertivamente o último copo de uma série bebida à melhor de cinco, encostando-me ao balcão a olhar para o taberneiro, lânguido e (provisoriamente) satisfeito. Depois de terminar Välkommen till Amerika tinha portanto a garrafeira abastecida de tentações frescas e era difícil decidir por qual começar.

A escolha recaiu, na verdade, sobre uma aquisição um pouco anterior, porque resolvi continuar no universo de Linda Boström Knausgård (a electroconvulsoterapia interessa-me e suspeito que ando necessitado dela), para contrabalançar a leitura que trago a meio em paralelo. Ultimamente vou avançando sempre em dois livros, geralmente ficção e ensaio ou história, ou, se ambos ficção, de dois géneros diferentes — sou um leitor ecléctico, talvez também bipolar, e preciso em diferentes momentos do dia de livros distintos.

De resto, esta bipolaridade reflecte-se também no que escrevo, não só aqui no blogue — sobretudo no que escrevo fora do blogue. E reflecte-se de duas maneiras: no alento com que encaro o exercício da escrita (fatalmente denunciado pelo resultado do que escrevo) e no tipo de texto que me ponho a produzir.

Este post, por exemplo, surge porque, obrigado por contrato a escrever um livro* e de momento sem ânimo para o continuar a escrever, sinto a obrigação moral de teclar, se não inspirada e furiosamente, pelo menos a um ritmo que finja produtividade de amanuense, de dactilógrafo. Com esse objectivo de ludibriar a minha consciência, podia encher, digitando de olhos fechados para relaxar o espírito, páginas e páginas de uma sucessão aleatória, ilegível, de letras, ou, fingindo pesquisar ou citar, copiando passagens da Bíblia, mas dos textos originais, em aramaico ou lá o que é e sem espaços entre palavras nem pontuação como era prática à época, iludindo-me assim com a mancha de texto, a leitura do contador de caracteres, fingindo que o mero som de teclar é prova de entrega ao trabalho, é música literária tão válida como a das frases escritas com sentido e estilo. Fingindo em suma que cumpro a minha parte do contrato.

Não escolhi nenhuma das opções anteriores. Fiquei-me antes por esta espécie de escrita automática, sem norte nem préstimo — nem musa ou forças ocultas que me comandem lobo-antunianamente a mão —, que permite contudo que o meu eu mais corruptível venda a si mesmo a ilusão de um texto pensado, necessário, honesto. De resto, como os mais sagazes dos leitores e leitoras já perceberam, não é a primeira vez que se vende aqui ginástica de dedos a fingir trabalho intelectual. Gato por lebre.

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* O contrato não inclui edição, não temam.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

A eloquência das cores

Parece que o cravo branco do líder do CDS pretendia significar que «o 25 de Abril não se fez só para os vermelhos». Já o cravo preto do outro é eloquente por si mesmo, apesar dos eufemismos do portador: o preto é a cor de eleição dos fascistas desde a sua fundação em Itália.

domingo, 25 de abril de 2021

Dilemas morais que capturam uma mente contemporânea na hora de arrumar livros na estante

Lido com prazer e proveito o primeiro dos dois livros de Linda Boström Knausgård que encomendei* fui arrumá-lo na estante e as habituais hesitações arquivológicas foram agravadas por um dilema, digamos, ético.
O primeiro impulso foi juntar o livro aos volumes de Karl Ove Knausgård, com base em afinidades geográficas e de apelido. Achei desadequado, não tanto porque os Knausgård estão divorciados mas porque aquela arrumação poderia sugerir uma subordinação de uma a outro.
Com isto em mente, lembrei-me de o juntar aos de Siri Hustvedt, uma escritora que não usa o apelido do marido mas que foi durante muito tempo apresentada como «esposa de Paul Auster». Também não me agradou a ideia, porque seria reagir gregariamente, continuando a subordinar a individualidade e o mérito próprio da autora a questões exteriores à obra.
Tudo isto na verdade se passou numa fracção de segundo e foi insuficiente para vencer a inércia do gesto, que ia já a caminho de pousar o livro sobre o sexto volume de A Minha Luta e não se deteve.
Bem sei que ninguém das hostes siamesas do politicamente correcto e do politicamente incorrecto virá fiscalizar-me as estantes, mas não deixei de sentir algum alívio quando me apercebi que entre os Knausgård ficara afinal um outro nórdico, Knut Hamsun, cujo Fome tinha acabado de ler dias antes.

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* Bienvenidos a America, edição espanhola de Välkommen till Amerika

domingo, 18 de abril de 2021

O verdadeiro idiota útil

Lembram-se de João Lemos Esteves, o cronista do I e do Sol que tem dos textos mais hilariantes (involuntariamente) e mais sinistros na imprensa portuguesa? Esta investigação do Público é sobre esse lunático, mas também permite conhecer um pouco mais a extrema-direita e os populistas portugueses.

Lendo malucos como este percebemos que se certa imprensa os acolhe só pode ser, cínica e perversamente, com a dupla consciência de que são idiotas mas que são úteis a alguém. À direita anda muita gente a perder os escrúpulos, e isso talvez seja mais preocupante do que o Chega, que nunca os teve.

https://www.publico.pt/2021/04/18/politica/noticia/professor-universidade-lisboa-difama-inventa-teorias-conspiracao-1958783

sábado, 17 de abril de 2021

Zoo nocturno (2)

Ontem não havia ginetas no zoo, mas a certa altura uma rã (que parecia um bonsai de um animal, tão pequena que tive de pôr os óculos de leitura para me certificar de que não era uma pulga) saltou de alegria à minha frente. Bem, talvez não fosse uma rã aos pulos de alegria mas um sapo anão a fugir de pânico, não sou muito bom em taxonomia e a distinguir emoções. Mais tarde na jornada, à luz do último candeeiro da civilização, antes mesmo do coração das trevas, encontrei, acocoradas, duas jovens criaturas endémicas a dispor engenhosamente em fileiras, sobre uma superfície lisa, um pó branco, decerto para a última recreação do dia. Bem, talvez não fossem criaturas endémicas, mas espécimes exóticos fora do seu habitat natural (provenientes das ilhas britânicas, por exemplo; há-os por cá), e talvez o pó não fosse para recreação mas para adoçar o chá do desterro — não sou muito bom em taxonomia, como disse, nem em etologia.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Zoo nocturno

Durante as minhas caminhadas no parque — que agora mais do que nunca são noctívagas e portanto distraídas da humanidade e desobrigadas das suas construções sociais —, reúno para um zoológico intransmissível, apanhando-os nas malhas da minha rede neuronal, espécimes de sapos, ouriços, salamandras, insectos, corujas (estas só de ouvido), caracóis, lesmas — e ocasionais adolescentes reunidos em volta de um cigarro de erva como hienas partilhando um cadáver, a mesma disposição para a gargalhada.

Não estava preparado para juntar uma nova espécie à colecção, mas ontem fi-lo com a volúpia de um Nabokov que apanhasse uma ninfeta na sua rede de borboletas. Não falo do casalinho sentado a desoras num banco de jardim, máscara cirúrgica afivelada como numa actualização irónica mas ainda casta de um namoro de sofá. Refiro-me a uma inesperada gineta, de cauda apropriadamente farfalhuda e anelada. Vi-a a seguir a uma curva do caminho e accionei o protocolo que tenho para ocasiões semelhantes: parar para ver, aproximar-me devagar para ver melhor. Pelo seu lado, a bicha fez o que os animais selvagens sempre fazem, indiferentes ao protocolo: escapuliu-se. Procurei-a depois no mato à beira do caminho, cândida e inutilmente. Na selva estaria morto, porque, diz a internet, deveria era ter olhado para os ramos por cima da cabeça.