terça-feira, 24 de maio de 2022

Passageiro

Não sendo propriamente um trotamundos, já dei, não sem remorsos, um bom contributo para o apocalipse climático. Entrei tarde no primeiro avião, mas a minha pegada foi entretanto impressa em duas dezenas de países de três continentes, em alguns com recidiva. Continuo a odiar os preparativos de uma viagem, mas conforta-me a ideia de ler ou dormir no avião. E sobretudo a de observar a vida selvagem nos aeroportos. Custa-me sair, mas depois de partir sinto-me bem em trânsito, imerso em anonimato. Já fiz viagens em que, a pensar nas longas escalas e noites insones, guardei espaço na mochila para um colchão de ar. Preparo-me como os fotógrafos da National Geographic, camuflado de turista e assegurando conforto no posto de observação.

Na penúltima viagem de regresso, num dia invernoso de Fevereiro, o avião fez três tentativas de aterragem em Pedras Rubras, como nos vídeos de «extreme aborted landings» do Youtube, e foi parar à Portela para recuperar o fôlego (e combustível) antes da derradeira tentativa, uma hora mais tarde. Metade dos passageiros, benzendo-se, saltou fora em Lisboa mal foi dada a oportunidade, como ratos num naufrágio, e uma boa parte dos restantes ficou a ponderar se era boa altura para poupar o bilhete, o tempo e os incómodos extra do comboio ou do autocarro alternativos. À minha frente, ainda o avião manobrava depois de aterrar, um cavalheiro agarrara-se ao telemóvel para alterar a reserva do carro de aluguer do Porto para Lisboa e nas pausas da conversa com a agência arregimentava passageiros como um pastor evangélico, não para dividir despesas, mas para salvar vidas. Num momento em que falava do modelo e classe do veículo achei que ia pedir à voz do outro lado da linha para trocar a reserva para um minibus, tal o afã de resgatar almas à sua volta. Ainda olhou para mim, mas, vendo-me afocinhado no livro, com ar de quem não vai a lado nenhum, grato por umas horas mais de leitura, percebeu que eu não tinha como ser salvo e tentou converter o passageiro ao meu lado. Que declinou — apenas, julgo, porque tinha de me fazer levantar para poder sair do seu lugar.

Não são as milhas acumuladas que fazem de mim um Passageiro Zen, mas os anos de vida que me deixam por vezes sem apego à terra.
Tenho terminado os dias com esta música. Já pensei começá-los, mas pode ser perigoso. Para o mundo.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

É para oferecer?

A menina, nova na casa mas a querer mostrar simpatia e aptidão (ou simplesmente entediada por não haver muita gente), oferece saltitante ajuda enquanto o cliente espreita as estantes dos livros. Ele agradece, mas dispensa.
Minutos mais tarde o cliente vai à caixa pagar e ela atrás do vidro pergunta com diligência, quase ternura e um automatismo já adquirido:
— É para oferecer?
— Não — responde o cliente com a deixa de sempre, um mantra que recitou já a uma legião de salários mínimos antes dela —, é mesmo para ler.
Ela ri-se, divertida, quase agradecida pelo entretenimento.
— Podia querer oferecer a alguém — insiste depois, sorrindo afável, cúmplice, mostrando pessoalmente como a sua pergunta é naturalíssima, não apenas uma das chaves da etiqueta equívoca que lhe transmitiram na formação.
O cliente deixa-se contagiar com o espírito sociável e tendente à boa disposição da menina da caixa e, contra o seu hábito, prolonga a conversa, num tom que se finge sério mas trai na dinâmica dos músculos faciais uma certa jocosidade, e com isso sobretudo esconde a descrença, a falta de ilusões, a derrota:
— E por que não parte antes do princípio de que os clientes compram os livros para si mesmos, para ler? Afinal isto é uma livraria e não uma loja de lembranças.
Ela quase se desmancha a rir, contida apenas pelo instinto recente mas já activo de que está num emprego.
— Uma loja de lembranças — repete, ainda mais divertida, mas não com auto-ironia ou com uma ironia dirigida à loja que a emprega. Achou o cliente excêntrico e engraçado, é só isso. — Uma loja de lembranças — continua, com o dia já ganho quanto a fenómenos, enquanto a impressora imprime o talão —, essa foi mesmo boa.

domingo, 15 de maio de 2022

Analogias

Ouvir Putin em pleno terceiro mês da sua blitzkrieg anunciar uma produção histórica de cereais na Rússia, a melhor colheita de sempre, remete inelutavelmente para os anúncios dos sucessos agrícolas e industriais da Rússia estalinista e da China faminta de Mao.

Em contrapartida, os briefings do porta-voz do exército russo relatando os ataques a alvos militares ucranianos com «armas de precisão» fazem lembrar as tristemente célebres «bombas inteligentes» americanas, com os seus eufemísticos e infames «danos colaterais». Que na epopeia russa nem sequer são mencionados, em todo o caso.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A farsa como história

A «loucura criminosa» de tentar defender uma cidade ou como certas farsas da história se repetem com diferentes protagonistas mas a mesma ignomínia:

«Pouco depois da queda da cidade, Hitler visitou Varsóvia. Deu uma volta pelas ruínas bombardeadas com um grupo de correspondentes estrangeiros. “Senhores”, disse-lhes, “viram por vocês mesmos a loucura criminosa que foi tentar defender esta cidade… O meu único desejo é que certos estadistas de outros países possam ter a oportunidade de ver, como vocês, o verdadeiro significado da guerra.”»

Em Metrópoles, Ben Wilson (p. 317, Edições Desassossego, Editora Saída de Emergência, 2021).

segunda-feira, 2 de maio de 2022

«Se eu fosse rei de Lisboa...»

Em Janeiro de 2016, o alemão Sven Helbig («um dos mais promissores compositores da cena clássica moderna», numa referência da RTP2, que hoje passou um dos seus espectáculos) apresentou o álbum ‘Pocket Symphonies’ no Teatro de Vila Real. Seis anos depois, em Março de 2022, veio a Lisboa apresentar o novo disco, ‘Skills’. A nota de imprensa que divulgava esta última apresentação, claro, afirmava: Sven Helbig «dá primeiro concerto em Portugal» e «estreia-se nos palcos portugueses».

«Se eu fosse rei de Lisboa, depressa governaria todo o mundo», disse o imperador Carlos V. «De notar que ele disse ‘Lisboa’, e não ‘Portugal’», acrescenta Ben Wilson em Metrópoles, no capítulo que dedica à capital portuguesa.
A frase de Carlos V já não representa uma realidade material, mas sem dúvida ainda traduz um quadro psicológico (ou patológico), já não de conquista mas de uma certa nostalgia reflexa ou senil do império.

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P.S. A propósito, e porque devo talvez ir lembrando estas coisas, a banda The Last Internationale, cujo vigoroso e deliciosamente marxista hino ‘Workers of the World - Unite!’ usei aqui para celebrar o Dia do Trabalhador, também actuou no TVR, em 2012.

terça-feira, 29 de março de 2022

Ridendo castigat mores

Ridendo castigat mores. Talvez esta fosse uma boa divisa para os humoristas. «Rindo, castiga os costumes» ou «castiga os costumes rindo». Mas podia ser também uma bússola, um instrumento de orientação. Não apenas uma ferramenta para definir o método (rir, ou zombar) e a intenção (castigar, censurar, desmascarar, ridicularizar), mas ainda, o que é mais importante, o âmbito, o alvo: isto é, os «costumes»; ou seja, os hábitos, as práticas, os modos de proceder, ser ou estar.

Dentro deste espírito, é mais interessante e útil gozar com as palavras e as acções de Trump do que com o seu cabelo. Mas não é ilegítimo gozar com a trunfa trumpista, porque tudo naquela cabeça é opção do portador, ele não nasceu com tal molhelha nem ela lhe cresceu por determinação genética. O mesmo se aplica ao revestimento capilar de Boris Johnson: aquele despenteado não é um azar do destino, uma inaudita tendência para atrair golpes de vento, mas algo com assinatura e gosto pessoal. Já gozar com Marques Mendes por ser baixinho ou ridicularizar Santos Silva por ser careca são piadas preguiçosas e sobretudo inúteis, visto não tocarem em nada por que eles sejam responsáveis, nada que traduza o seu ideário ou o seu modus faciendi. Ninguém decide ser baixinho ou escolhe deixar cair o cabelo (rapá-lo é outro assunto). Ninguém cultiva uma determinada estatura como estilo pessoal, assim como ninguém, excepto os franciscanos e um ou outro freak, é glabro no cocuruto para afirmação de uma personalidade, uma atitude ou uma ideia. A herança não é um mérito e a herança genética não é uma culpa.
O que as pessoas fazem com as suas características físicas naturais, sim, pode entrar no âmbito da divisa ridendo castigat mores, mas apenas ser portador delas não devia ser espoleta de humorista. Sobretudo quando padecer de determinada característica física é já um castigo para a pessoa.

Dito isto, o riso não tem de ser meramente utilitário, e uma piada preguiçosa, sem imaginação, inútil, de mau gosto ou insensível não é justificação para a violência (caso contrário muitos shows de stand up comedy teriam forçosamente de ser ringues de boxe). O castigo para uma má piada, se tiver de haver algum, não é um tabefe, mas uma expressão glacial e um silêncio sepulcral. Uma audiência fleumática é o pesadelo de um humorista e seria justo que alguns a tivessem. 
O que não é justo é silenciar alguém à estalada.