quinta-feira, 11 de julho de 2019

Maria de Fátima Bonifácio traída

Maria de Fátima Bonifácio é uma senhora assaz preconceituosa e muito ressentida da perda de privilégios familiares, de classe e raciais. Em geral, a sua prosa, mesmo quando pretensamente académica, limita-se a dissertar com vileza e fel na perspectiva do trauma pessoal. Não foi o seu mais recente artigo que desvelou isto. Para quem nunca a tenha lido ou tenha memória curta, há todo um arquivo no Público de lamentáveis redacções afins, apenas por vezes mais vestidinhas de casaco de malha, como adequado à brisa e ao pensamento solarengos. É por isso patético que João Miguel Tavares ou José Manuel Fernandes, entre outros, venham fingir aborrecer-se (mais um do que o outro) com as torpezas da amiga, que ainda assim desculpam (mais um do que o outro). Salvo distracção minha, a senhora Bonifácio não inaugurou agora uma nova linha de pensamento, ainda que possa ter-se desbocado um pouco mais. Por isso, estes senhores, que mereciam tabefes por admirarem tal musa, merecem agora chicotadas por lhe serem desleais. Podemos tolerar que a nossa direita tenha tolos e tolas como pensadores, mas é imperdoável que se revele hipócrita.
Entretanto, coitada da senhora dona Maria de Fátima: acostumada a palmadinhas nas costas, percebeu da pior maneira ter chegado à idade das velhas tias da corte, incentivadas a dizerem de tudo nos saraus de família, mas apelidadas de inconvenientes ou xexés quando dizem o mesmo perante um público menos caseiro.



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Terminado mais um livrito — outro que há-de ficar na gaveta ou, havendo sorte e merecimento, ver-se editado piedosamente por uma das pequenas chancelas que gostam do risco e do prejuízo —, pronto o livrito, dizia, há que manter viva a ilusão de que isto, esta insistência, faz algum sentido. Escrever por mera estratégia de sobrevivência mental, é o que é. Em todo o caso, rei morto, rei posto. Opus 6, abertura:

domingo, 5 de maio de 2019

Venezuela

Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.

Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.

sábado, 4 de maio de 2019

Dança contemporânea

Quando hoje penso em problemas de expressão já não é o romance, abordado no post anterior, que me ocupa a mente, mas por exemplo a dança contemporânea, que representa um problema, se quisermos, já não tanto de semântica mas de evolução de um género artístico. No binómio «dança contemporânea», o significado de dança é alterado ou matizado pelo adjectivo que lhe sucede, mas de uma maneira que uma parte das pessoas, os leigos, não capta na sua totalidade.
«Contemporânea» não é apenas uma referência epocal, denota uma abertura de sentido e de propósito, uma complexificação da expressividade. Designa uma peça híbrida, herdeira do espírito experimental e disruptivo do modernismo. Os praticantes ou conhecedores do género estão totalmente conscientes do desconcerto ou da singularidade da dança contemporânea, assimilaram a linguagem artística. Mas o meio artístico não fez acompanhar a evolução da disciplina de uma evolução da designação e, por isso, quando se procura captar novos públicos, num país com uma tradição alheia ao ensino artístico, não deveria admirar que, de todos os significados que o Priberam dá para dança, algumas pessoas escolham o oitavo, «trapalhada», para referir a singular dança que se põe em palco.
A designação é tanto mais causa de equívocos quanto a dança contemporânea, na verdade, segue várias tendências e se apresenta mais ou menos dançada, mais ou menos teatral ou performática (outro termo bicudo), mais ou menos tendente para a plasticidade estática da pintura ou da escultura, com maior ou menor influência do ballet e de outras danças como as africanas ou o japonês butô, incorporando ou não a tentação acrobática do circo e da ginástica, com maior ou menor contaminação de expressões coevas como a street dance, o hip hop ou até da estética pop da MTV.
Percebe-se que, perante esta diversidade, seja mais confortável entender que dança contemporânea é simplesmente a dança que se faz hoje e deixar que resida no conhecimento que se tem do coreógrafo ou da companhia e da sua linguagem a elucidação do tipo de espectáculo que se pode ver. O que implica uma curiosidade, digamos, activa, cumulativa e perseverante por parte do espectador.
Se considerarmos a influência determinante da coreógrafa Pina Bausch, talvez pudéssemos retirar do nome da sua companhia, herdeiro da dança expressionista alemã do início do século XX, uma primeira sugestão de nome para uma parte da dança que se faz hoje, de resto frequentemente usado na Europa. Tanztheater, ainda que insuficiente, parece bastante adequado para uma boa parte dos casos. Mas a sonoridade de uma eventual tradução portuguesa não é a mais atraente, a língua não parece talhada como a alemã para criar palavras-conceito, e a eufonia de balleteatro, como na companhia do Porto, pode para muitos insinuar um lado demasiado clássico da dança.

Contudo, talvez o caminho passe menos por inventar um termo designativo, que será sempre insuficientemente abrangente, do que por ensinar às próximas gerações, de um ponto de vista histórico e artístico, que a dança contemporânea não é um problema mas apenas uma questão de linguagem e de expressão.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Romance ou o significado das palavras

Durante muitos anos, a palavra «romance» pareceu-me inadequada para definir o género de livros que define. Isto porque, no meu mundo cultural, romance começou por significar apenas «relação amorosa», e na fase inicial de leitor interessava-me tudo menos ler histórias de amor, que imaginava sempre melosas, fúteis e cheias de clichés como as das fotonovelas. Talvez tivesse nisto um papel a imposição cultural que tradicionalmente ditava uma dupla separação por géneros: as fotonovelas e as histórias de amor eram para raparigas; os rapazes, se liam, liam histórias de cowboys e de aventuras.

Mesmo depois de ter passado a conhecer a origem e a amplitude semântica da palavra, raramente me referia a um livro como um romance, ainda meio receoso (e portanto inseguro de mim mesmo) de ser mal interpretado, com vergonha de ser falsamente apanhado a ler e a falar de historietas para corações sonhadores. É que romance não abrangia sequer coisas como Romeu e Julieta, que tinham todo o peso da História e da tragédia clássica a protegê-las de uma percepção meramente lamechas ou sentimental. Era algo abaixo disso (e uma coisa machista): romances eram livros escritos apenas para entreter pré-nubentes e casadas iludidas que ainda sonhavam com príncipes encantados e beijos ternurentos a toda a hora. O Velho que lia Romances de Amor era assim um título que incluía um pleonasmo grosseiro e que, por isso, desagradava duplamente. «Romances de amor» parecia a ênfase sádica ou sarcástica de um autor cansado dos seus leitores piegas. Era nestas águas preconceituosas que vogava o meu pensamento.

E não vogava sozinho. Fora dos livros e dos jornais que lia, o meu mundo não estava ciente da etimologia em geral. As palavras tinham em regra apenas um significado, não se consideravam subtilezas como o contexto. Eu gostava de pensar que era assim porque o conhecimento não estava muito disseminado, primeiro por paternalismo do Estado Novo, depois por negligência (ou conveniência) da democracia e, finalmente, por uma consciente opção de ignorância por parte das próprias pessoas.

Imaginava então, incapaz de ver para além do meu mundo, que não se podiam ignorar as limitações semânticas do povo. Se queríamos comunicar, ser entendidos, devíamos escolher as palavras. Se estávamos a ler Guerra e Paz não devíamos dizer que estávamos a ler um romance, para não diminuir o génio de Tolstoi. Para quem lia, A Montanha Mágica poderia ser um romance, mas para os leigos era preciso usar palavras que não só afastassem a ideia de história de amor como a de livro de fantasia, dado o sentido aparente do título. Ansiava, sem o saber, por uma campanha de dinamização cultural do MFA destinada a resolver o equívoco de termos como romance. O que teria sido uma manobra romântica dos militares, para evocar outra palavra semiologicamente ambígua.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Livros e séries televisivas

A pentalogia de Edward St Aubyn e a teatralogia de Elena Ferrante que elogiei no post anterior deram séries de televisão. Vi críticas positivas e negativas e depois disso vi as séries. Com prazer.
Acho que nunca tinha pensado no assunto mas parece-me que as séries da HBO e da Netflix desempenham hoje, para uma vasta franja da classe média — a mais letrada, ou talvez apenas a mais urbana e por vezes a mais hipster — o mesmo papel que desempenhavam as novelas brasileiras quando a televisão se disseminou pelo país. Gabriela, O Casarão e Escrava Isaura eram o Game of Thrones de que toda a gente falava na segunda metade dos anos setenta, depois de famílias inteiras (em regra três gerações de humanos e várias de gatos) terem passado uma hora da noite anterior em frente a um ecrã ridiculamente pequeno e com poucos pixéis.
Na altura, pelo menos na minha parte do país, não havia assim tantas televisões e as antenas estavam sempre a dessintonizar-se, pelo que era frequente vizinhos juntarem-se nas casas uns dos outros para não perderem um capítulo. O início dos episódios vinha geralmente acompanhado de um berro alegre de alguém: o alerta de um muezim laico a congregar a família espalhada pelos cantos da casa. Por vezes, se o aparelho tinha um volume generoso, bastava como chamamento a música do genérico, uma melodia de Hamelin que toda a gente reconhecia e cantarolava de ouvido.
Se a dada altura no enredo das novelas alguma coisa de mais hilariante ou dramático acontecia, as conversas nacionais do dia seguinte mencionavam-na obrigatoriamente, de norte a sul, da mercearia de aldeia ao bar do Ritz, e o último episódio de cada uma das séries não gerava menos zunzum de que por estes dias a batalha final do já referido Game of Thrones.
Alguns dos actuais espectadores não gostarão da analogia, avessos a tudo o que seja antiquado ou pareça cafona, mas, se de lhes fosse dada a possibilidade de estudarem com irónica distância o seu comportamento, descobririam que são mesmo descendentes daqueles seres hirsutos (lembro que estávamos nos anos setenta) que se amontoavam em frente aos raios catódicos como Neandertais fascinados pelo fogo — e que, como eles, não passam sem ficção.

Francisco José Viegas escreveu na LER em 2018 que, embora o mercado editorial da ficção esteja em baixa, a ficção não está em crise, a julgar pelos investimentos da Netflix. Talvez porque, pelo menos desde Altamira, a ficção faz parte da estratégia de sobrevivência dos genes humanos. Suspeito que não se trata apenas de ocupar o tempo na caverna ou de inventar explicações para a trovoada, mas talvez de transcender a mais ou menos limitada experiência do mundo que cabe a cada indivíduo.

Outro dado interessante referido por Viegas naquele editorial é que «os filmes produzidos a partir de livros têm cerca de 30% de maior êxito do que os de argumentos originais». Somos assim testemunhas raras da estatística enquanto apologia dos livros. Mas o que está aqui implícito? Que o livro tende a garantir a qualidade dos filmes ou das séries, e que portanto os espectadores preferem qualidade? Ou que o livro ainda é uma mais-valia no que concerne à notoriedade e, consequentemente, ao êxito? Em ambos os casos, a estatística estaria a ser lisonjeira para os livros, se não pela indicação de que o que é literário é melhor e é preferido, pela revelação optimista de que a sociedade ainda dá importância aos livros.

Não sei se a aura mítica da trilogia de novelas brasileiras inaugurais da televisão portuguesa — as melhores jamais apresentadas, tendemos a dizer — se deve à habitual nostalgia que nos provoca o vivido em idades anteriores, se a uma tradição cultural ou a uma fisiologia mental que valorizam o pioneiro ou inédito em detrimento do sucedâneo, ou se, como seria conveniente à literatura, ao facto de terem sido realizadas a partir de romances (pelo menos duas delas).

Sei que vi as séries Patrick Melrose e A Amiga Genial com gosto, mesmo já tendo lido os livros, como vi outras que foram realizadas a partir de argumentos originais. E sei ainda que, em todo o caso, nenhuma destas experiências se sobrepôs à experiência de ler os livros, de ler livros. Talvez porque há geralmente nos livros mais espaço e estímulo para a mente do usuário, para a sua imaginação, e, mesmo que a afirmação pareça pomposa, isso o aproxima mais dos mecanismos do inefável, do grande mistério por detrás do Universo e da Vida.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Eppur si muove: alguns polípticos

Apesar das negras profecias em auto-realização mencionadas no post anterior, continua a haver, por entre toda a futilidade impressa, um número muito simpático de edições que nos salvam os dias.
Ainda há pouco tempo era fácil encontrar, por exemplo, numa mesma livraria, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, na nova tradução de Pedro Tamen, e os cinco* de A Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, a quem chamaram o Proust escandinavo ou o Proust do século XXI.
Alguns dos profetas do fim da literatura virão naturalmente defender que é já uma infâmia mencionar aquelas duas obras numa mesma frase quanto mais falar de Proust a propósito do norueguês.
A questão sobre se é legítimo invocar o autor de Em Busca do Tempo Perdido a propósito dos livros de Knausgård é um pouco ociosa, tanto mais que, depois de Proust, todo o exercício retrospectivo em literatura se tornou de uma forma ou doutra proustiano. De resto, a legitimidade a debater em A Minha Luta é mais do domínio da ética social do que da literatura. O valor literário de Knausgård é evidente para quem o leia sem juízos prévios. Eu discutiria antes a necessidade, para mim escusada, de o seu políptico ter sido editado como puramente autobiográfico. Não pelo que o autor conta da sua vida, mas pelo que expõe da de alguns familiares ou conhecidos.
Em literatura é válida a suspeita de que todo o livro tem algo de autobiográfico. Mas a tecelagem que a ficção elabora com o material biográfico resulta numa coisa nova, que foca o interesse do leitor, em termos de narrativa, no construído e não no factual, na obra de arte como um universo próprio, singular, que não depende do nosso para ser, embora possa ter dependido dele para nascer.
Não impede isto que um livro de ficção seja em simultâneo um fresco de uma época ou de uma cultura, de uma geração ou de uma geografia. Não lemos a distopia 1984 sem pensar no estalinismo (ou nos próximos totalitarismos). Os volumes de Knausgård dispensavam o rótulo de autobiográficos-sem-filtros para serem boa literatura. Talvez vendessem menos numa primeira fase, sem a polémica (a que se somou a do título), mas não teriam menos interesse. E deixariam um leitor como eu menos constrangido.
De dois outros polípticos admiráveis que a literatura contemporânea produziu se pode igualmente dizer que são em maior ou menor grau autobiográficos, num caso com a ajuda do próprio autor, no outro apenas conjecturando isso, como quase sempre podemos fazer se não tivermos nada melhor em que ocupar a mente. Refiro-me à série sobre Patrick Melrose, de Edward St Aubyn, e à tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante.
Os livros de St Aubyn são apresentados como semi-autobiográficos e isso é suficiente para nos proteger de remorsos quanto a um voyeurismo descarado, porque é suficiente para proteger a privacidade das pessoas que se relacionaram com o autor: nada, a não ser as declarações de Edward, nos autoriza a escolher que partes são factuais e que partes são pura invenção. Na incerteza criada pelo prefixo semi acolhe-se a intimidade das pessoas que inspiraram as personagens.
No caso de Ferrante, li poucas referências a que se trate de material autobiográfico e, em todo o caso, tal é supérfluo, uma vez que a autora permanece oficialmente desconhecida. Por outro lado, as especulações mais acreditadas sobre a identidade de Ferrante referem-se a pessoas biograficamente diferentes das protagonistas da tetralogia.
Mas se falei em autobiografia a propósito de A Amiga Genial foi apenas para poder integrar a obra neste texto, porque não são o detalhe intimista e o forte carisma com que Lila e Lenù foram desenhadas que nos permitem declará-las pessoas vivas, embora nos permitam integrá-las na galeria de grandes personagens da literatura universal.
O que têm em comum estes três polípticos, oriundos de diferentes geografias e tradições, adoptando diferentes formas narrativas e estilísticas, é a qualidade literária. Nenhum deles dispensa a leitura de Proust, Waugh, Dickens ou Goethe, para citar genealogias possíveis, mas só no sentido em que é uma pena um leitor não ter uma visão alargada e retrospectiva do cânone literário, porque qualquer deles tem lugar nesse mesmo cânone por mérito próprio. 


* Em Portugal falta editar o sexto volume.