sábado, 2 de julho de 2022

Dilema moral em modo Matrix

Na corrida de ontem o meu dilema foi maior e tive de pensar rápido. À minha frente na vereda por onde seguia, o chão estava pejado de formigas, tantas e numa distribuição tão densa que não havia para onde desviar o pé. Elas tinham os meios para evitar o desastre (eram formigas com asas), mas por alguma razão não estavam a socorrer-se deles. A inércia da corrida e a inércia de cinco décadas encaminhavam-me para uma carnificina, e nos segundos de que dispunha antes de passar pela concentração formigueira como duriense em lagar pensei nas hipóteses que havia. Saltitar pé ante pé nos espaços em branco não era possível, os bichinhos espalhavam-se no saibro como nós de rede de pesca ilegal. Passar por ali em pontas de ballet também não funcionaria, nem que a anatomia desta vez resolvesse colaborar: a rede era mesmo apertada. Ainda que fosse ultra-rápido a descalçar as sapatilhas, como o Neo na Matrix a desviar-se das balas, estava-me vedado, por razões de natureza pessoal, invocar dotes culturistas e saltitar apenas nas pontas dos dedões dos pés, como certos atletas fazem flexões. A única solução, concluí, pensando dentro do mesmo campo semântico onde tinha origem o meu dilema moral, era levitar. Na ponta extrema do último segundo antes de me tornar a chuva de meteoritos daquele mundo de formigas, meditei empenhadamente e, como por milagre, levitei durante umas fracções do segundo seguinte  por cima dos primeiros espécimes, a olhar para baixo com alívio e assombro e uma sensação épica cinematográfica. Depois acabou a fita ou algo perturbou o meu estado zen e os pés voltaram a cair um após o outro na cadência regular da corrida, quebrando exoesqueleto atrás de exosqueleto.
Ter-se-iam poupado mais vidas se tivesse tentado o triplo salto.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Encontros imediatos de terceiro grau

Ver os abutres e os grifos no Salto del Gitano é um espectáculo fascinante mas não surpreendente, porque esperado; visitamos o sítio com esse objectivo. Um grupo de cegonhas apanhado pela visão periférica a planar à distância de um salto de trampolim no céu da minha varanda, porque raro, é disruptivo. Por uma fracção de segundo o mundo habitual é perturbado sem que fique claro se o é por uma ameaça se por um fenómeno benigno, um milagre ou uma revelação. Gosto desse sentimento que dura um tempo demasiado curto mas autoriza a hipótese de transcendência. Um sentimento que, permitindo uma fugaz intuição de possibilidades inimaginadas ou intimamente desejadas, insinua que a vida neste planeta é uma espera, uma espera por vida alienígena, um anjo anunciador ou o mistério da morte.

Ao contrário de outras regiões do país, nos locais onde vivi os meus primeiros vinte e poucos anos não havia cegonhas e quando elas começaram a aparecer foram recebidas, não apenas por mim — com absoluta propriedade, no sentido literal e metafórico —, como avis rara. Um dia segui de carro o voo de um espécime solitário enquanto as estradas e os caminhos permitiram circular e depois continuei a pé, até o perder de vista. Era dessa dimensão o meu assombro. Tenho da mesma altura uma memória que não sei se é de um incidente se de um sonho: presenças espectrais pressentidas ou vislumbradas — ouvidas, também —, grandes asas e longas pernas espreguiçando-se de madrugada na outra margem de uma pequena albufeira, a poucas dezenas de metros. Na altura pensei em cegonhas, se fosse hoje imaginaria grous. Havia whisky à mistura, pelo que pode ter sido apenas uma alucinação, no local ou no leito que lhe sucedeu. Não me importa, ficou-me essa experiência como uma possibilidade e isso é mais reconfortante ou inspirador do que milhares de experiências comprovadas que lhe sucederam.

Vivem biliões de seres humanos no mundo, mas raramente a visão central ou periférica capta um que provoque impressões similares, não apenas em mim. Partindo, abusivamente ou não, da minha experiência, concluo que há talvez desde sempre uma misantropia endémica no mundo, caso contrário não haveria tanta gente entusiasmada com a possibilidade de vida inteligente noutros planetas ou a de uma vida depois desta. Ou com a entrada de aves raras no território ordinário.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Com o perfume das tílias em Junho, é assaz difícil refrear o impulso de plantar um parque, escavar umas ruínas, fundar uma nação, travar um duelo e, enfim, morrer de amor. Ou de tuberculose.

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição»

No trecho que transcreverei abaixo, poderão ler Mark Fisher (em 2014, creio) a constatar como a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu as artes da fruição. Reparem que Fisher falava de música e de dança em discotecas — imaginem o quão comprometida está a fruição de outras artes. Hoje ninguém senão Fisher ou os semelhantes que lhe sobreviveram (alguns dos quais são leitores redundantes ou autores igualmente improfícuos de posts como este) sequer percepciona como negativas as «exigências incessantes das comunicações digitais».

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição» é portanto um bom epitáfio colectivo. A colocar na vala comum desta era.

Aqui fica a citação:
«Há que lembrar que, segundo Berardi, estamos tão assoberbados com as exigências incessantes das comunicações digitais que nos sentimos demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição — as excitações têm de vir de modo hiperbólico, sem chatices, para que possamos voltar rapidamente a ver o e-mail ou as actualizações nas nossas redes sociais. As observações de Berardi podem oferecer-nos uma perspectiva das pressões a que tem sido sujeita a música de dança na última década. Ao passo que a tecnologia digital dos anos 80 e 90 alimentou a expectativa colectiva da pista de dança, a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu-a, conseguindo até pôr os frequentadores de discotecas a verificar os seus smartphones. (“Telephone”, de Beyoncé e Lady gaga — que coloca as duas a implorar a alguém que está a ligar que pare de as chatear para que possam dançar —, parece agora uma derradeira tentativa falhada de manter a pista de dança a salvo da intrusão comunicacional.»*

* Fantasmas da Minha Vida, 2020, pp.265 e 266, VS Editor, tradução de Vasco Gato.

domingo, 19 de junho de 2022

Entrevista com o vampiro

Mesmo que, na corrida por um lugar no Inferno, os Estados Unidos fossem à frente da Rússia, o regime de Putin, todos hão-de reconhecer, continuaria a ser candidato a um lugar no pódio, pelo que custa ver a forma obsequiosa como Oliver Stone entrevista o novo czar. Não é a cortesia e a hipocrisia diplomática a que os jornalistas por vezes se vêem obrigados se aceitam falar com alguém não recomendável; é uma cegueira e um fascínio que dão vergonha alheia. Putin é adversário dos EUA e isso para Stone é música celestial — e o interlocutor o anjo que a executa. (É certo que a entrevista foi feita há anos, mas mesmo então só um marciano confundiria Putin com um querubim.)
 
Na entrevista, que vou vendo aos pedaços com curiosidade histórica e certa morbidez, Oliver Stone tem longos momentos em que na verdade não entrevista Putin. Não falo das partes em que lhe serve de pé de microfone ou de marcador para realçar as deixas, mas dos momentos em que, sem olhar o entrevistado, faz as perguntas ao intérprete, referindo-se a Putin na terceira pessoa, como se mantivesse com o intérprete uma conversa de inconfidências. Mas nem assim, com esse filtro, com essa forma indirecta, diferida e patética de falar como se o czar não estivesse presente, como se falasse nas costas dele, nem assim Stone é capaz de fazer perguntas verdadeiramente embaraçosas. Não se lhe pedia que o fizesse pelo prazer de embaraçar, mas por sentir uma curiosidade mínima pela verdade.

terça-feira, 14 de junho de 2022

O que há de mais perverso na insónia é que gastamos, a ruminar madrugada dentro na forma como havemos de transformar ou resistir ao mundo, a energia de que de dia necessitaríamos para empurrar ou enxotar o mundo.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

À luz de um candeeiro (2)

Quis regressar ao lugar onde foi feliz. Muniu-se do livro, orientou os passos pela Lua, antecipou o prazer da leitura à luz do candeeiro, preferencialmente sem adormecer, e entregou-se ao murmúrio do rio.
Mas desta vez havia gente nos bancos, um casalinho, jovens, contentes por estarem juntos e vivos. Tão cheios de contentamento, na verdade, que ela, amazona, não parava de dar pulinhos de alegria no colo do rapaz, cabelos esvoaçantes como morcegos num festim entomófilo.
Ele desviou o percurso oportuna e silenciosamente. Parecia-lhe algo impudico perturbar com a sua presença soturna aquela inesperada alegria alheia.

sábado, 11 de junho de 2022

À luz de um candeeiro

Na noite em que meio Portugal estava na sua terapia catártica com o Dr. Cave, dormitava ele sobre o livro no parque da cidade. No parque da sua cidade.
Nem sempre faz de propósito para desacertar o passo, há extravagâncias que vão ao seu encontro. Acontece que regressava a casa do trabalho, a noite ia avançada e apetecível e ele trazia o livro. À beira rio havia bancos iluminados, gorjeios de noitibó, uma impressão de quinta agustiniana no Douro e nem uma alma no horizonte. Sentou-se a ler e, como vem padecendo de insónias, ao fim de umas páginas adormeceu.
Se passaram por lá àquela hora, não era um hermeneuta talmúdico com o estudo em atraso nem um indigente a destilar o bagaço o que viram naquele banco. Era ele. Sóbrio como um carvalho centenário, ressonando como motosserra que o derrubasse.
Há talvez maneiras piores de comprometer a dignidade.