Estou tranquilamente a viver acima das minhas posses no Vintage do Pinhão quando em baixo, junto ao rio, passa um grupo de rapazes levando música no telemóvel em volume que há trinta anos apenas se conseguia carregando ao ombro um armário estereofónico. A música também é herdeira do mesmo género rap sem causa ou gangsta rap ou quejando. Passam lentos e exasperantes como uma procissão, ou como o soprador de folhas de árvores nas madrugadas urbanas e insones de Outono, antes que consiga retomar a leitura e a vida silenciosa de rico.
Mais tarde, regressava já a casa e à classe média baixa, vi-os a caminhar enfileirados na berma da estrada e esfreguei vingativamente o volante. Quando os alcancei, abri a janela do carro e atirei-lhes para cima, ufana e estentórea, uma ária da ópera que ia a ouvir.
Confio que lhes tenha doído.
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segunda-feira, 2 de outubro de 2023
terça-feira, 4 de outubro de 2022
"Hungry like the Wolf"
O enredo do filme, uma reconstituição histórica, passa-se em 1979/1980 e na banda sonora ouve-se em dois momentos a canção “Hungry Like the Wolf”, dos Duran Duran, lançada apenas em 1982. Uma imprecisão de somenos, a banda sonora não é parte dos factos. E havia decerto maneiras menos agradáveis de falhar o rigor histórico.
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
Regressando às coisas sérias
«Se a sua vida tem uma música ela passa na M80», diz o slogan. Ora, a minha vida tem muitas músicas, algumas delas embaraçosas, mas de todas as vezes que nesta silly season dei o benefício da dúvida à estação não ouvi nada que se aproximasse da minha discoteca vital.
Diria que há um esforço (bem sucedido) de privar a rádio de qualquer elemento distintivo que a possa associar aos anos 80. O que ali se ouve não tem era; não porque é intemporal, mas porque é incaracterístico, de uma mediocridade sensaborona que atravessa os tempos.
Diria que há um esforço (bem sucedido) de privar a rádio de qualquer elemento distintivo que a possa associar aos anos 80. O que ali se ouve não tem era; não porque é intemporal, mas porque é incaracterístico, de uma mediocridade sensaborona que atravessa os tempos.
quarta-feira, 24 de agosto de 2022
De pequenino é que se torce o pepino
Não faço de propósito, juro. Estas coisas vêm ter comigo. Hoje a banda sonora era o êxito estival “Nós pimba” e ouvia-se, não na piscina — onde já nos vêm habituando à grande música intemporal —, mas nos relvados que bordejam o castelo onde sirvo.
Um rebanho de crianças, dessas que, num campo de férias, envergam cedo camisolas e bonés uniformizados, era orientado por um rapazola de barba que tinha instalado um par de colunas potentes à sombra de uma árvore. Não sei se a intenção da música era lúdica ou pedagógica — e creio que o monitor não saberia distinguir a primeira da segunda.
Já o vi noutra ocasião (ele ou um homólogo) pastorear o grupo de infantes como na universidade se conduzem os caloiros: filinha disciplinada à força de berraria viril e, nos momentos felizes, entoação colectiva da velha melodia militar que a Robbialac celebrizou.
Não se pode dizer, talvez, que havia proselitismo consciente na sua opção musical de hoje — ainda que juntar crianças e versos pimba debaixo de uma mesma sombra pareça a ilustração viva do ditado «de pequenino se torce o pepino» na sua acepção onanista. Quim Barreiros era capaz de escrever, se ainda não o fez, uma epopeia com este tema.
Mas serei benévolo. Não é justo, ainda que tentador, invocar a versão soft porn do ditado; o que testemunhei não era, enfim, uma aula de aeróbica masturbatória (seria caso para chamar os pais de Famalicão). O que está em causa é um entendimento alegórico tradicional: «tal como os pepinos, é necessário moldar as crianças o mais cedo possível». O voluntarioso rapaz-monitor limitava-se a fazer pela educação estética das crianças o que a sociedade vem fazendo há muitos anos de forma empenhada. Toda a festa de massas da família portuguesa, mesmo quando o mote ou o alvo são as crianças, decorre hoje quase sempre sob a égide e a cascata sonora da música e da poética pimba. Que crianças de tenra idade sejam entretidas com lírica brejeira e não raro misógina já só é obsceno num plano teórico em desuso. Isto não tira o sono a nenhum casal Mesquita Guimarães.
Para me confortar, mantive-me no domínio das alegorias brejeiras imaginando que o miúdo que por iniciativa pessoal saiu do grupo para baixar as calças atrás de uma árvore, mais do que a uma necessidade fisiológica, acorria a uma vontade de subversão. Pôs-se de cócoras não como o público perante os gurus do zeitgeist mas para uma declaração sobre a oferta musical do monitor.
Um rebanho de crianças, dessas que, num campo de férias, envergam cedo camisolas e bonés uniformizados, era orientado por um rapazola de barba que tinha instalado um par de colunas potentes à sombra de uma árvore. Não sei se a intenção da música era lúdica ou pedagógica — e creio que o monitor não saberia distinguir a primeira da segunda.
Já o vi noutra ocasião (ele ou um homólogo) pastorear o grupo de infantes como na universidade se conduzem os caloiros: filinha disciplinada à força de berraria viril e, nos momentos felizes, entoação colectiva da velha melodia militar que a Robbialac celebrizou.
Não se pode dizer, talvez, que havia proselitismo consciente na sua opção musical de hoje — ainda que juntar crianças e versos pimba debaixo de uma mesma sombra pareça a ilustração viva do ditado «de pequenino se torce o pepino» na sua acepção onanista. Quim Barreiros era capaz de escrever, se ainda não o fez, uma epopeia com este tema.
Mas serei benévolo. Não é justo, ainda que tentador, invocar a versão soft porn do ditado; o que testemunhei não era, enfim, uma aula de aeróbica masturbatória (seria caso para chamar os pais de Famalicão). O que está em causa é um entendimento alegórico tradicional: «tal como os pepinos, é necessário moldar as crianças o mais cedo possível». O voluntarioso rapaz-monitor limitava-se a fazer pela educação estética das crianças o que a sociedade vem fazendo há muitos anos de forma empenhada. Toda a festa de massas da família portuguesa, mesmo quando o mote ou o alvo são as crianças, decorre hoje quase sempre sob a égide e a cascata sonora da música e da poética pimba. Que crianças de tenra idade sejam entretidas com lírica brejeira e não raro misógina já só é obsceno num plano teórico em desuso. Isto não tira o sono a nenhum casal Mesquita Guimarães.
Para me confortar, mantive-me no domínio das alegorias brejeiras imaginando que o miúdo que por iniciativa pessoal saiu do grupo para baixar as calças atrás de uma árvore, mais do que a uma necessidade fisiológica, acorria a uma vontade de subversão. Pôs-se de cócoras não como o público perante os gurus do zeitgeist mas para uma declaração sobre a oferta musical do monitor.
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
Baile frustrado de Verão
Na piscina sou recebido pelas músicas “Baile de Verão” e “A Bela Portuguesa”, de José Malhoa e Marante, esses dois vultos da música nacional. Pensei: «lá sintonizaram na M80, raios!»
Uma vez que, considerada a hora, não tinha alternativa se queria dar um mergulho, dispus-me ao estoicismo: procurei dentro de mim a capacidade de conviver com tal banda sonora. As 700 e tal páginas de Fernando Aramburu seriam uma boa camada de isolamento acústico, mas nem precisava disso, não faltavam na minha memória exemplos de como era possível ser feliz apesar daquela música. Ou até com a ajuda daquela música (e de umas cervejas, é certo), presente já na segunda metade dos arraiais a que fui na vida. Tive então por instantes o meu momento “Querido mês de Agosto” e, trajado para o banho, dispus-me a experimentar uns passos de dança na plataforma da piscina. Não na modalidade que implicaria fazer a ronda das moças em biquíni para conseguir par, mas antes naquela que o dispensa — a alternativa dos bêbados de aldeia, habituados a recusas divertidas ou enojadas mas nem por isso desmobilizados.
Tinha já esticado um braço, levado a mão direita ao coração, erguido os ombros e fechado os olhos na pose apropriada, com o típico sorriso sonhador (e ébrio) nos lábios, quando a música mudou para um registo mais clássico da M80: “Johnny B. Goode”, na versão de Peter Tosh, a iniciar um set de reggae que evocava as discotecas ao domingo à tarde.
O melhoramento da sonoplastia não impediu, porém, que me sentisse como se tivessem atirado comigo à água fria. Depois disso, só me restava ler para disfarçar o despeito.
Uma vez que, considerada a hora, não tinha alternativa se queria dar um mergulho, dispus-me ao estoicismo: procurei dentro de mim a capacidade de conviver com tal banda sonora. As 700 e tal páginas de Fernando Aramburu seriam uma boa camada de isolamento acústico, mas nem precisava disso, não faltavam na minha memória exemplos de como era possível ser feliz apesar daquela música. Ou até com a ajuda daquela música (e de umas cervejas, é certo), presente já na segunda metade dos arraiais a que fui na vida. Tive então por instantes o meu momento “Querido mês de Agosto” e, trajado para o banho, dispus-me a experimentar uns passos de dança na plataforma da piscina. Não na modalidade que implicaria fazer a ronda das moças em biquíni para conseguir par, mas antes naquela que o dispensa — a alternativa dos bêbados de aldeia, habituados a recusas divertidas ou enojadas mas nem por isso desmobilizados.
Tinha já esticado um braço, levado a mão direita ao coração, erguido os ombros e fechado os olhos na pose apropriada, com o típico sorriso sonhador (e ébrio) nos lábios, quando a música mudou para um registo mais clássico da M80: “Johnny B. Goode”, na versão de Peter Tosh, a iniciar um set de reggae que evocava as discotecas ao domingo à tarde.
O melhoramento da sonoplastia não impediu, porém, que me sentisse como se tivessem atirado comigo à água fria. Depois disso, só me restava ler para disfarçar o despeito.
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
Anos 80 ultrajados
E agora os verdadeiros problemas do nosso tempo.
Já uma vez aqui escrevi que as emissões da M80 se parecem com uma colectânea de hits reunidos às três pancadas numa cassete de feira. Sei que há muito quem diga que os anos 80, com a sua própria e gloriosa variação de uma estética visual barroca, foram a pior década na música pop, mas uma rádio supostamente nostálgica daquela época poderia esforçar-se um pouco mais por não dar tanta razão aos críticos. Consegui-lo-ia, se tentasse.
Ouvindo hoje as vozes dos pivots e DJs da estação, ocorreu-me que são gente que não viveu os anos 80, muitos talvez ainda nem sequer estavam vivos nos anos 80, e por isso, não sendo manifestamente praticantes de arqueologia melómana, o que conhecem daquela era são os hits das colectâneas de feira. Decerto entram no ar imediatamente após uma sessão de formação que consiste em simular uma visita à feira de Carcavelos nos anos 80. É que nem as discotecas de província na época — embora a certa altura da noite lá passassem, sob vaias, o seu single dos Modern Talking ou da Samantha Fox (mas só em Agosto, para agradar a uma facção de emigrantes de visita à terra, e é que nesse mês as discotecas tinham também de rivalizar com os arraiais populares, que, de resto, ofereciam muitas vezes um alinhamento mais interessante do que oferece hoje a M80) —, nem as discotecas, dizia eu, tinham uma selecção musical tão deplorável.
A M80 é, portanto, uma rádio sacrílega. Tenta disfarçar — mal, cada vez pior — que é uma rádio pimba. Podia tentar disfarçar com música deste século — pelo menos não blasfemava.
Já uma vez aqui escrevi que as emissões da M80 se parecem com uma colectânea de hits reunidos às três pancadas numa cassete de feira. Sei que há muito quem diga que os anos 80, com a sua própria e gloriosa variação de uma estética visual barroca, foram a pior década na música pop, mas uma rádio supostamente nostálgica daquela época poderia esforçar-se um pouco mais por não dar tanta razão aos críticos. Consegui-lo-ia, se tentasse.
Ouvindo hoje as vozes dos pivots e DJs da estação, ocorreu-me que são gente que não viveu os anos 80, muitos talvez ainda nem sequer estavam vivos nos anos 80, e por isso, não sendo manifestamente praticantes de arqueologia melómana, o que conhecem daquela era são os hits das colectâneas de feira. Decerto entram no ar imediatamente após uma sessão de formação que consiste em simular uma visita à feira de Carcavelos nos anos 80. É que nem as discotecas de província na época — embora a certa altura da noite lá passassem, sob vaias, o seu single dos Modern Talking ou da Samantha Fox (mas só em Agosto, para agradar a uma facção de emigrantes de visita à terra, e é que nesse mês as discotecas tinham também de rivalizar com os arraiais populares, que, de resto, ofereciam muitas vezes um alinhamento mais interessante do que oferece hoje a M80) —, nem as discotecas, dizia eu, tinham uma selecção musical tão deplorável.
A M80 é, portanto, uma rádio sacrílega. Tenta disfarçar — mal, cada vez pior — que é uma rádio pimba. Podia tentar disfarçar com música deste século — pelo menos não blasfemava.
sexta-feira, 11 de março de 2022
Get back
Quando nasci, os Beatles estavam a acabar, e, quando aprendi a tocar viola e sonhei com outros as minhas primeiras bandas, a música deles ainda vigorava por todo o lado mas simultaneamente pertencia já ao Olimpo e os quatro de Liverpool eram como deuses gregos, inalcançáveis, insondáveis. Quando, a mim e aos que tocavam comigo, nos veio parar às mãos um livro com as letras e os acordes de centenas de canções dos Beatles, usámo-lo como certos religiosos sinceros e ávidos de Mistério usam a Bíblia: com profunda devoção, sentindo a latência do Divino, acreditando estar ali, naquelas páginas, o segredo da Vida. Paul, George e Ringo ainda por cá andavam a fazer música, a gravar videoclipes e a dar concertos, mas isolados não exerciam um décimo da atracção que continuava a exercer o quarteto, claramente maior do que a soma das partes. Dei pouca atenção às carreiras a solo dos ex-Beatles, não exactamente porque a música deles fosse despida de interesse, mas talvez, penso agora, porque elas os humanizavam, faziam-nos descer do pedestal, tornavam-nos mais próximos, e talvez isso me causasse um certo ressentimento, uma certa mágoa perversa: os deuses não existem na mesma dimensão dos humanos e, se os Beatles tinham acabado, talvez os seus elementos não devessem ter sobrevivido e continuado a fazer música. O lugar deles era o do mito e por isso deviam ter-se esvanecido antes de eu crescer e compreender o mundo. Não necessariamente à força da bala, como John Lennon, mas tornando-se de um modo indolor abstractos, imateriais como a palavra “Beatles”.
Há poucos anos vi numa qualquer cidade da Europa um cartaz gigante a anunciar um concerto de Paul McCartney e nem por um momento senti o impulso de comprar um bilhete. Em contrapartida, Peter Jackson desencantou horas de filmagens dos dias de criação de “Let it Be”, os Últimos Dias da Criação (é adequado dizê-lo em maiúsculas dignitárias, a um tempo genesíacas e escatológicas), e montou o documentário “Get Back” — e as minhas noites nunca mais foram as mesmas. Lázaro regressou dos mortos e eu tornei-me um morto-vivo. Noite após noite, o YouTube apanha-me nas suas garras com excertos do documentário, que se encadeiam uns nos outros e me prendem horas a fio. O inimaginável aconteceu, aquilo que na minha adolescência tanto tinha desejado, sabendo ser impossível (ver os Beatles na intimidade, na intimidade do processo criativo), está agora ao alcance de um clique, integra a rede como qualquer outra das banalidades contemporâneas com que o algoritmo procura controlar-me os dias. Mas, ao contrário das outras fontes de vício, ao contrário dos vídeos dos eighties que a espaços também me fazem gastar tempo, não vejo “Get Back” imbuído de nostalgia geracional. Não só porque a minha não é exactamente a geração dos Beatles, mas sobretudo porque ver John Paul George & Ringo a interagir e a criar é como ter de súbito acesso aos aposentos privados dos deuses, mas não através dos textos duvidosos de Homero ou Ovídio, antes como se a máquina do tempo tivesse acabado de ser inventada e com essa invenção se revertesse a outra, a dos deuses, tornando-a realidade, facto; como se os deuses deixassem de ser mitos e passassem a ser verdades testemunháveis — mantendo-se a sua existência, contudo, num adequado plano sobre-humano. É com puro fascínio que vejo e revejo em “Get Back” as canções a surgirem, meros esboços, indícios do que depois foram obras-primas e marcos miliários na minha formação pessoal. É com pura comoção beatífica que vejo os quatro de Liverpool no processo de criação, com acertos e desacertos, arrufos, por vezes indiferença, sobranceria ou desdém injusto uns pelos outros, mas de súbito empolgados e sintonizados, fecundos, no rooftop de “Get Back” como no topo do mundo, criadores do próprio mundo que lhes sobreviveu, o meu mundo.
Pensando bem, suponho que é afinal também com nostalgia que vejo os pedaços de “Get Back”, mas nostalgia de um outro tipo, uma nostalgia de outros acontecimentos, que não foram indiferentes à pré-existência dos Beatles mas não se lhes referem. Naquelas horas de “Get Back” vejo também o adolescente que fui, a ânsia de criar canções, de fazer arranjos para músicas que só nós víamos como possibilidades, escrever letras que pudessem encontrar a canção que de certeza havia de lhes corresponder. Em “Get Back” vejo as jam sessions intermináveis e incipientes, que raramente davam alguma obra que valesse a pena para alguém que não os que ali estávamos a tocar, mas que em cada minuto que duravam pareciam aproximar-nos de alguma coisa mais do que a vida terrena, pouco original, quase banal que vivíamos. É como se “Get Back”, ao invés de lembrar a inveja que justamente estávamos condenados a ter, redima aos meus olhos o que tinha dado como tempo perdido. Não porque tenha resultado muita coisa de que me orgulhar daqueles anos em que o meu papel era sobretudo cabotino, mas porque me lembra o sentimento de transcendência que eles me proporcionaram.
Há poucos anos vi numa qualquer cidade da Europa um cartaz gigante a anunciar um concerto de Paul McCartney e nem por um momento senti o impulso de comprar um bilhete. Em contrapartida, Peter Jackson desencantou horas de filmagens dos dias de criação de “Let it Be”, os Últimos Dias da Criação (é adequado dizê-lo em maiúsculas dignitárias, a um tempo genesíacas e escatológicas), e montou o documentário “Get Back” — e as minhas noites nunca mais foram as mesmas. Lázaro regressou dos mortos e eu tornei-me um morto-vivo. Noite após noite, o YouTube apanha-me nas suas garras com excertos do documentário, que se encadeiam uns nos outros e me prendem horas a fio. O inimaginável aconteceu, aquilo que na minha adolescência tanto tinha desejado, sabendo ser impossível (ver os Beatles na intimidade, na intimidade do processo criativo), está agora ao alcance de um clique, integra a rede como qualquer outra das banalidades contemporâneas com que o algoritmo procura controlar-me os dias. Mas, ao contrário das outras fontes de vício, ao contrário dos vídeos dos eighties que a espaços também me fazem gastar tempo, não vejo “Get Back” imbuído de nostalgia geracional. Não só porque a minha não é exactamente a geração dos Beatles, mas sobretudo porque ver John Paul George & Ringo a interagir e a criar é como ter de súbito acesso aos aposentos privados dos deuses, mas não através dos textos duvidosos de Homero ou Ovídio, antes como se a máquina do tempo tivesse acabado de ser inventada e com essa invenção se revertesse a outra, a dos deuses, tornando-a realidade, facto; como se os deuses deixassem de ser mitos e passassem a ser verdades testemunháveis — mantendo-se a sua existência, contudo, num adequado plano sobre-humano. É com puro fascínio que vejo e revejo em “Get Back” as canções a surgirem, meros esboços, indícios do que depois foram obras-primas e marcos miliários na minha formação pessoal. É com pura comoção beatífica que vejo os quatro de Liverpool no processo de criação, com acertos e desacertos, arrufos, por vezes indiferença, sobranceria ou desdém injusto uns pelos outros, mas de súbito empolgados e sintonizados, fecundos, no rooftop de “Get Back” como no topo do mundo, criadores do próprio mundo que lhes sobreviveu, o meu mundo.
Pensando bem, suponho que é afinal também com nostalgia que vejo os pedaços de “Get Back”, mas nostalgia de um outro tipo, uma nostalgia de outros acontecimentos, que não foram indiferentes à pré-existência dos Beatles mas não se lhes referem. Naquelas horas de “Get Back” vejo também o adolescente que fui, a ânsia de criar canções, de fazer arranjos para músicas que só nós víamos como possibilidades, escrever letras que pudessem encontrar a canção que de certeza havia de lhes corresponder. Em “Get Back” vejo as jam sessions intermináveis e incipientes, que raramente davam alguma obra que valesse a pena para alguém que não os que ali estávamos a tocar, mas que em cada minuto que duravam pareciam aproximar-nos de alguma coisa mais do que a vida terrena, pouco original, quase banal que vivíamos. É como se “Get Back”, ao invés de lembrar a inveja que justamente estávamos condenados a ter, redima aos meus olhos o que tinha dado como tempo perdido. Não porque tenha resultado muita coisa de que me orgulhar daqueles anos em que o meu papel era sobretudo cabotino, mas porque me lembra o sentimento de transcendência que eles me proporcionaram.
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Memorabilia
Da revista Bravo, escrita numa língua que não entendíamos mas que ilustrava algo que intuíamos, com o cheiro singular das páginas da revista Bravo, tipograficamente diferente do cheiro de tudo o que se imprimia em Portugal, respeitável ou furtivo, um poster dos U2 antes da queda, outro dos Bon Jovi (para haver nisto alguma coisa de que ter vergonha), um fio de utilidade esquecida pendurado de um prego, adereço esquecido ou falhado, por baixo uma cama de ferro e outra de madeira, duas camas desirmanadas que ainda há pouco eram duas camas para quatro irmãos, uma cabeceira de cama onde bem se vê que faltam barras verticais de ferro por onde se escapa a imaginação, uma parede que é um palimpsesto familiar, tribal, estratos geológicos de tinta e eras descascando, um quadro sobrante de outra geração com uma nesga de mar vista através das dunas (rimando com GNR, 1985, e férias em Setembro sem dinheiro), uma paisagem nevada da Suíça que não se vê na imagem como tantas outras coisas que não se vêem na imagem e no entanto estão lá, um verde-escuro na parede a escurecer inapelável e redundantemente com manchas da humidade e do tempo, uma coberta de cama florida que ainda aguentará uns Invernos a inteiriçar-se com a geada que entra pelas frinchas sem perder pétalas, uma fronha de almofada que irá na bagagem das primeiras mudanças (e duas fronhas das outras, que, miseráveis, nos largarão na primeira oportunidade), entre as camas uma mesinha de cabeceira e sobre ela um leitor de cassetes, uma cassete com os nossos primeiros sucessos e um livro, quem diria, sobre a barra do fundo da cama de madeira todo o guarda-roupa de um dos dois (travel light), as camas e os pés que marcam o ritmo assentes num soalho ventilado, nós da madeira já sem nós, buracos por onde espreitam da cave, boquiabertos (de pasmo, de fome, de raiva), os futuros brilhantes por consumar, duas guitarras, emprestadas, pois claro, por mecenas generosos, em que, com a ânsia de começar e de chegar, perdemos a pele dos dedos e deixámos marcas de sangue, duas guitarras onde rigorosos trabalhos arqueológicos ou de medicina-legal também encontrarão suor e lágrimas, suor e lágrimas e tudo isto e nós os dois, espelhados, a olhar o destino de frente ou a enfrentá-lo de olhos fechados, tu e eu, penteados e tudo no ponto — a ensaiar para o Live Aid.
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
"Olhò Toino Escadeirado"
Liguei a televisão para ver a final do English Open entre John Higgins e Neil Robertson e durante a sessão passei pelos canais da RTP. No primeiro, num programa chamado “O Pimba É Nosso”, Quim Barreiros e uma senhora cujo nome não fixei discordavam sobre a possibilidade de trocarem mutuamente de gaitas. No segundo, num festival chamado FNAC Live Lisboa 2021, tocava um grupo cuja estética visual e musical me fez recordar gloriosos bailes no pós-25 de Abril com grupos como o 25.ª Hora. Ainda fiquei à espera de ouvir a então omnipresente “Nho Antone Escaderode” que a todos soava como “Olhò Toino Escadeirado”, mas o programa, ainda que a noite da RTP parecesse uma viagem no tempo e uma visita à barraca das cassetes de feira, não aceitava discos pedidos telepaticamente, e por isso, depois de ver como a classe média urbana do século XXI se encontrou com os foliões de um Carnaval de sociedade recreativa dos anos setenta, numa espécie de vitória de Pirro do proletariado, lá me resignei a ir ver como Higgins perdia.
sábado, 6 de novembro de 2021
Anjos nada tronchos
Vejo alguns vídeos do novo disco de Caetano Veloso e ocorre-me que há neles uma certa afinidade com vídeos dos dois últimos álbuns de David Bowie, The Next Day e Blackstar. Não me tomem por agoirento ou mórbido, não falo de pressentimentos ou presságios. O que eu vejo, pelo contrário, é dois génios a quem a idade ou a fragilidade não impedem o ímpeto criativo e inovador, não impedem, enfim, a criação de obras geniais. Dois génios que também não temem expor as marcas do tempo ou da fragilidade, no rosto ou na voz ou nos gestos dos videoclips, antes os adicionam ao material com que moldam a obra, como o elemento que ali se ajusta para conseguir uma nova e bela harmonia na soma das partes. Génios que não se limitam a viver o seu tempo e os tempos, mas antes marcam o tempo, com a forma como absorvem e fundem influências e digerem o zeitgeist, sintetizando algo novo e contundente.
Os discos de David Bowie soam noir e a espaços o de Caetano também, mas, sendo brasileiro, ele encontra sempre lugar para o samba, mesmo numa música como “Anjos Tronchos” (nem que seja por dois ou três preciosos e significativos segundos — aos 2´57´´).
Os discos de David Bowie soam noir e a espaços o de Caetano também, mas, sendo brasileiro, ele encontra sempre lugar para o samba, mesmo numa música como “Anjos Tronchos” (nem que seja por dois ou três preciosos e significativos segundos — aos 2´57´´).
quarta-feira, 17 de março de 2021
Rapaziada do nosso tempo
Uma destas noites perdi-me a ver, com certa comoção, um documentário sobre a gravação da música e lançamento do disco ‘Do They Know It's Christmas?’ (de que aliás já tinha visto parte há alguns anos). A comoção não me vinha da qualidade da música ou da campanha humanitária que ela servia, mas de estar a ver aquilo (também com embaraço, como quando vemos fotografias do nosso cabelo antigo) como se assistisse à projecção numa parede caiada de um episódio de família ou entre amigos filmado em Super 8.
A música e os artistas dos anos 80 não são uma página (boa ou má) na história da arte mundial: são uma memória pessoal (e intransmissível, temo bem) de quem era adolescente naquela década. Não há ali vedetas, mas rapaziada do nosso tempo, com quem partilhámos umas aventuras. Só o dinheiro que eles ganharam não é também nosso. Incompreensivelmente.
A música e os artistas dos anos 80 não são uma página (boa ou má) na história da arte mundial: são uma memória pessoal (e intransmissível, temo bem) de quem era adolescente naquela década. Não há ali vedetas, mas rapaziada do nosso tempo, com quem partilhámos umas aventuras. Só o dinheiro que eles ganharam não é também nosso. Incompreensivelmente.
domingo, 15 de novembro de 2020
Trepa no Coqueiro
Dos sucessos popularizados pela mesma cantora, Carmélia Alves, o primo Fernando cantava também, numa versão mais quente do que a de Amália, Trepa no Coqueiro, uma música gingona, sensual, que lhe servia na perfeição para sublimar a sua faceta de intérprete divertido, brincalhão, irónico, irreverente, provocador, sedutor. Estou certo que ele escolhia as músicas que cantava sobretudo pela sua plasticidade, pela forma como permitiam trejeitos vocais, inflexões e falsetes. Ou talvez não precisasse de as escolher: as canções no seu cavaquinho e na sua voz ganhavam naturalmente essa tessitura voluptuosa, insinuante, «tropical» — ele era suficiente músico e artista para as submeter a andamentos pessoais e a pausas de efeito, momentos de sustinência de uma nota em falsete, vibrada, ou com trinados e requebros tiroleses. E era também genuína e suficientemente boémio para que todo o seu repertório fosse dedicado a uma marcante joie de vivre, mesmo quando as letras tratavam de tropeções na vida.
Quando o bairro já tinha soçobrado e a sua geração migrado geográfica ou metaforicamente, ele continuava na sua missão de bardo, agora ao acordeão, em horas de estudo solitário ou de rememoração igualmente solitária, que se ouviam na rua, como em certas cidades se ouvem intemporalmente os sinos característicos de uma catedral. Faltava contudo a sua voz, até mais do que o cavaquinho: nenhum acordeão podia imitar-lhe o canto. E o canto, se se ouvisse nos últimos anos, seria já o do cisne — pelo fim de uma época de ouro, que ele prolongou pelo menos até ao fim do século, quando até num bairro como o nosso, atávico de muitas formas, era possível, muito por mão dele, experimentar o glamour hollywoodiano dos anos cinquenta.
Quando o bairro já tinha soçobrado e a sua geração migrado geográfica ou metaforicamente, ele continuava na sua missão de bardo, agora ao acordeão, em horas de estudo solitário ou de rememoração igualmente solitária, que se ouviam na rua, como em certas cidades se ouvem intemporalmente os sinos característicos de uma catedral. Faltava contudo a sua voz, até mais do que o cavaquinho: nenhum acordeão podia imitar-lhe o canto. E o canto, se se ouvisse nos últimos anos, seria já o do cisne — pelo fim de uma época de ouro, que ele prolongou pelo menos até ao fim do século, quando até num bairro como o nosso, atávico de muitas formas, era possível, muito por mão dele, experimentar o glamour hollywoodiano dos anos cinquenta.
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Trepa no Coqueiro: https://youtu.be/Dx60vsBOzZs
sábado, 14 de novembro de 2020
Sabiá na Gaiola
Certas recordações da infância chegam-me associadas de forma misteriosa a um lugar ou a uma acção. Havia uma cançoneta do repertório de êxitos de um primo do meu pai — presença quotidiana ao cavaquinho nas nossas vidas, bardo da tribo, ar e voz de galã dos anos 50 — que para sempre ficou em mim associada a uma ramada alta, que se vindimava com escadas de muitos degraus e equilíbrio frágil. É sempre essa ramada outonal que vejo quando evoco a canção, projectando mentalmente uma espécie de video-clip privado de uma era pré-Youtube. Não me recordo de alguma vez o primo Fernando ter tocado e cantado aquela canção naquele lugar, pelo que talvez tenha sido eu a cantá-la ali enquanto apanhava bagos do chão numa vindima em que também terei decifrado pela primeira vez o sentido de algum verso ou, mais provavelmente, percebido que amava de forma irremediável a melancolia ou a tristeza sob a toada alegre e juvenil da música.
A canção chama-se Sabiá na Gaiola e só agora — demasiado tarde para a formação do meu carácter — descobri que a letra tem um final redentor.
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Se alguém quiser ouvir a música: https://youtu.be/4jw88UfVsKA
A canção chama-se Sabiá na Gaiola e só agora — demasiado tarde para a formação do meu carácter — descobri que a letra tem um final redentor.
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Se alguém quiser ouvir a música: https://youtu.be/4jw88UfVsKA
domingo, 25 de outubro de 2020
Hop off
Enquanto passo por um grupo de teenagers clandestinos num drink de final de tarde e sou por momentos sequestrado por uma nuvem de hip hop com rimas geradas pelo algoritmo da Empresa na Hora, tenho um pensamento típico de adulto antigo e pergunto-me onde irá parar o gosto musical desta juventude. A cena poderia ter ocorrido com adultos da minha idade a ouvir música de adolescentes da idade deles em qualquer década do século XX e até aos dias de hoje, mas, talvez também muito tipicamente, senti que desta vez é que era verdade, agora é que o gosto degenerara mesmo.
A música para crianças exaspera; suponho que é preciso ser pai delas para a ouvir deliciadamente, ou pelo menos suportá-la, ou disfarçar o melhor que se pode. A música de adolescentes é, pelo seu lado, frequentemente banda sonora de órfãos: nenhum pai com sensibilidade estética está disposto a assumir a paternidade de criaturas com tão mau uso de orelhas. Os adolescentes são indivíduos dependentes mas anseiam desesperadamente por autonomia, por romper as teias familiares, e talvez por isso a sua jukebox, instrumental na sublevação, se esforce por ser áspera a ouvidos adultos. Com este hip hop de rimas bacocas e samplers pirosos a sensação que fica é que de um modo geral se esforça pouco, embora consiga muito.
A música para crianças exaspera; suponho que é preciso ser pai delas para a ouvir deliciadamente, ou pelo menos suportá-la, ou disfarçar o melhor que se pode. A música de adolescentes é, pelo seu lado, frequentemente banda sonora de órfãos: nenhum pai com sensibilidade estética está disposto a assumir a paternidade de criaturas com tão mau uso de orelhas. Os adolescentes são indivíduos dependentes mas anseiam desesperadamente por autonomia, por romper as teias familiares, e talvez por isso a sua jukebox, instrumental na sublevação, se esforce por ser áspera a ouvidos adultos. Com este hip hop de rimas bacocas e samplers pirosos a sensação que fica é que de um modo geral se esforça pouco, embora consiga muito.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Radio Ga Ga ou as ferramentas futuristas ao serviço da nostalgia nos anos 80
Quando ouvi pela primeira vez, na rádio, a canção «Radio Ga Ga» não pensei que fosse dos Queen e se me apaixonei por ela foi inicialmente pelo lado «futurista» dos arranjos — o que era uma grande ironia, julgo que involuntária, para uma canção que queria homenagear uma rádio em risco de ser ultrapassada pela televisão e o vídeo.
De resto, eu sentia ao ouvir a canção, com um misto de melancolia e excitação, um certo anacronismo, um certo atavismo (não totalmente entendidos), não só pela sugestão da música mas porque ouvia rádio tanto por prazer e necessidade como porque não tinha a alternativa que as tecnologias davam a muita gente em volta: gira-discos, aparelhagens de alta-fidelidade, leitores de cassetes, walkmans. Ouvia a rádio com um sentimento de clandestinidade, não por vergonha de o fazer, mas por vergonha de saber que era a única forma que tinha de ouvir música e, para compensar com fervor heróico um ego ferido, evocando as contingências da guerra, como agente em missão no estrangeiro sem outra maneira de estabelecer contacto com a pátria.
«Video Killed the Radio Star», dos Buggles, evoca o mesmo «problema» de transição da mesma forma irónica, reforçando o argumento de que podemos servir-nos das ferramentas do futuro para matar saudades do passado. A ironia (ou a crueldade) é aliás maior porque o video clip desta música terá sido o primeiro a passar na MTV.
«Echo Beach», que invoco apenas por capricho ou por sugestão de uma linha de baixo, faz um trio estética e sensualmente produtivo com as duas canções anteriores, embora nesta a nostalgia seja apenas a do Verão passado, tornado simbólico.
A nostalgia, a par da melancolia (de que é indissociável), é um estado de espírito tão propício à criação artística que nos servimos do passado, distante ou próximo, apenas como barro para moldar a obra que queremos legar ao futuro. Ou porque reviver o passado em Brideshead é frequentemente a única forma de sermos felizes no presente onde temos residência oficial.
Marcel Proust, se tivesse nascido num bairro operário da Londres dos anos oitenta do século XX, talvez tivesse armado o cabelo (e o bigode) com laca e gravado com sintetizadores uma obra conceptual em sete álbuns sobre os efeitos da passagem do tempo. (Se tivesse nascido no West End, como lhe era mais próprio, talvez tivesse sido apenas um simpatizante dos Iron Maiden. Da Iron Lady, quero dizer.)
De resto, eu sentia ao ouvir a canção, com um misto de melancolia e excitação, um certo anacronismo, um certo atavismo (não totalmente entendidos), não só pela sugestão da música mas porque ouvia rádio tanto por prazer e necessidade como porque não tinha a alternativa que as tecnologias davam a muita gente em volta: gira-discos, aparelhagens de alta-fidelidade, leitores de cassetes, walkmans. Ouvia a rádio com um sentimento de clandestinidade, não por vergonha de o fazer, mas por vergonha de saber que era a única forma que tinha de ouvir música e, para compensar com fervor heróico um ego ferido, evocando as contingências da guerra, como agente em missão no estrangeiro sem outra maneira de estabelecer contacto com a pátria.
«Video Killed the Radio Star», dos Buggles, evoca o mesmo «problema» de transição da mesma forma irónica, reforçando o argumento de que podemos servir-nos das ferramentas do futuro para matar saudades do passado. A ironia (ou a crueldade) é aliás maior porque o video clip desta música terá sido o primeiro a passar na MTV.
«Echo Beach», que invoco apenas por capricho ou por sugestão de uma linha de baixo, faz um trio estética e sensualmente produtivo com as duas canções anteriores, embora nesta a nostalgia seja apenas a do Verão passado, tornado simbólico.
A nostalgia, a par da melancolia (de que é indissociável), é um estado de espírito tão propício à criação artística que nos servimos do passado, distante ou próximo, apenas como barro para moldar a obra que queremos legar ao futuro. Ou porque reviver o passado em Brideshead é frequentemente a única forma de sermos felizes no presente onde temos residência oficial.
Marcel Proust, se tivesse nascido num bairro operário da Londres dos anos oitenta do século XX, talvez tivesse armado o cabelo (e o bigode) com laca e gravado com sintetizadores uma obra conceptual em sete álbuns sobre os efeitos da passagem do tempo. (Se tivesse nascido no West End, como lhe era mais próprio, talvez tivesse sido apenas um simpatizante dos Iron Maiden. Da Iron Lady, quero dizer.)
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Tosse e epifania na música clássica
As procrastinações de ontem alicerçaram-se em música sinfónica, depois de ver «os principais epidemiologistas da Alemanha» afirmarem que lotações completas em concertos de música clássica são seguras já que o público destes espectáculos é «disciplinado, não fala e geralmente segue as regras». Por mera irrisão, lembrei-me de um conto de Julian Barnes* onde o protagonista, assistindo a um concerto no Royal Festival Hall, concorda totalmente com o sugerido e aduz argumentos importantes:
A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.
Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)
Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.
O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.
Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.
E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)
Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.
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* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.
«Como eu disse o público era normal. Oitenta por cento saíra dos hospitais da cidade com alta temporária; a bilheteira dera prioridade às alas de pneumologia e otorrinolaringologia. Reserve agora para arranjar um lugar melhor, se tiver uma tosse de 95 decibéis.»
«O allegro da abertura correu bastante bem: dois ou três espirros, um caso sério de muco compacto a meio do balcão, que quase necessitou de intervenção cirúrgica, um relógio digital e uma quantidade razoável de virar de páginas do programa.»
A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.
Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)
Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.
O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.
Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.
E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)
Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.
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* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Germany’s leading epidemiologists claim full audiences at classical concerts is safe
Mas só se não tossirem durante os andamentos.quarta-feira, 12 de agosto de 2020
A banda sonora das vidas deles
1) Mais irritante do que uma festa de adolescentes a perturbar a noite é a música que se ouve nessa festa. Quer dizer, há toda uma multidão de compositores decentes na actualidade, mas apontem-me uma festa de teenagers com boa música e eu próprio visto alguma roupa nestas noites de ananases e vou até lá.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
terça-feira, 7 de julho de 2020
A Flock of Seagulls
A nostalgia é um péssimo juiz. Age exactamente como o trauma, mas em sentido oposto. A pessoa traumatizada repelirá, odiará, desprezará ou temerá, com fobia ou pânico, tudo o que tenha uma relação com a causa do seu trauma. Os nostálgicos, pelo seu lado, acham maravilhosa qualquer coisa que evoque um passado onde tenham estado ou a que se sintam ligados, mesmo que tangencialmente.
Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.
Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.
Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.
Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.
Na verdade, está errada ou desactualizada nos dicionários a definição de nostalgia. No mundo de hoje, a nostalgia manifesta-se em público menos como «um estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém» e mais como um estado eufórico ou mesmo fanático suscitado por uma referência que possa ser vagamente autobiográfica.
Uma cena neo-realista, originalmente pretendendo ser denúncia, ainda que poética, de algo mau, é hoje partilhada com saudades, corações e vivas. Onde os autores viram miséria, dureza e injustiça os modernos vêem um tempo de inocência, viço e alegria. O éden, nada menos. Se proposto agora, o estoicismo é absurdo e insuportável, desumano; se retratado a preto e branco ou em Polaroid, é um pedaço de espaço/tempo de onde gostaríamos de nunca ter saído e a que pagaríamos para voltar. Ponham uma foto antiga de uma cidade ou de uma rua no Facebook e verão que ninguém repara nas dificuldades e dramas que a imagem, mesmo sem intenção, provavelmente documenta: todos a identificarão com a Arcádia perdida. Onde sabem, mas esqueceram, que nunca estiveram.
Esta reflexão, original, ocorreu-me quando o Youtube, a propósito de não sei o quê, me propôs ouvir “I Ran”, dos A Flock Of Seagulls. Nem sequer era uma música do meu top vinte de então, mas obediente pus o vídeo a tocar, em loop, e quando finalmente sai do estado nostálgico e reactivei o cérebro vi-me, de cima e com desprezo, como naquelas experiências pós-morte, como uma velhinha radiante perante um daguerreótipo de uma procissão do Corpo de Deus onde já só a custo se adivinham os tapetes de flores em calçadas há muito desaparecidas e onde ela, de resto, só andou descalça, miserável, pisando bosta.
Talvez os algoritmos tenham sido criados para substituir deuses velhos e cruéis e forneçam à meia-idade da minha geração memorabilia dos oitenta como a charada que a Esfinge propôs a Édipo — com a expectativa plausível de nos devorar.
terça-feira, 30 de junho de 2020
Covers
Lá pelos primeiros oitenta, a adolescência da minha terra carpia amores ao som de melodias dos setenta. Não porque a década oitava do século fosse pouco baladeira ou fracassasse muito ao tentar sê-lo (os corações feridos têm, de resto, na sua ânsia por xaropes milagrentos, ouvidos generosos). Acontecia apenas que as modas (na acepção musical como nas outras) demoravam o seu tempo a chegar aos lares onde se carpia. Lá em casa, por exemplo, numa prova de que a imagem se desloca mais rápido do que o som, já andávamos todos muito new-romanticamente a descolorar de dia o cabelo com água oxigenada e ainda ouvíamos à noite “Love Hurts”, musiquinha guinchada pelos Nazareth e o seu vocalista com voz de gaita-de-foles (instrumento que ele também tocava, informa a Wikipedia). Mais tarde viríamos a descobrir, com pena, que a canção nem era deles, mas dos Everly Brothers. Digo com pena não porque tivéssemos alguma coisa de princípio contra covers, mas porque se havia música melhor para carpir amores do que a da década de setenta era a da década de sessenta: alguns traumas sentimentais poderiam ter sido evitados se em vez da versão hard rock tivéssemos ouvido a gravação rock’n’roll. Aliás, pela mesma altura já estava a ter excelentes efeitos curativos, como notório avanço medicinal do célebre método oitocentista da sangria, outra canção dos sessenta que nos arrancava com frequência lágrimas dolorosas mas necessárias, a “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers — de quem invejávamos sobretudo, do fundo do coração (e dos pulmões), o volteio que ouvíamos perto do primeiro minuto da cassete* e que mais ninguém (nem eles) conseguiu depois imitar (e foram muitos os que tentaram).
Mais tarde ainda (tipo, agora) descobrimos que também não foram os manos Righteous a escrever a “Unchained Melody”, mas um casal broa-de-mel chamado Felice and Boudleaux Bryant, cuja versão, depois de ver a fotografia dos autores, não procurei por mero preconceito já traído atrás nesta frase.
Certos hits são como palimpsestos ou sítios arqueológicos: mexemos neles com uma escova de dentes de dureza média ou mesmo suave e encontramos algo por baixo. A experiência pode ser frustrante se descobrimos durante a escovagem que certos deuses do nosso panteão padecem do vício ignominioso de cançonetistas como Marco Paulo ou Tony Carreira. É então que nos faz bem ouvir alguém tão velho e sapiente como Johnny Cash numa cover, por exemplo, de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode. Se um ancião da country pode pegar numa música de uma banda industrial da Inglaterra... Esperem, chegaram mais informações: diz que os DM escreveram a canção inspirando-se em Elvis Presley. Além do mais, a música soa bastante americana...
Mais tarde ainda (tipo, agora) descobrimos que também não foram os manos Righteous a escrever a “Unchained Melody”, mas um casal broa-de-mel chamado Felice and Boudleaux Bryant, cuja versão, depois de ver a fotografia dos autores, não procurei por mero preconceito já traído atrás nesta frase.
Certos hits são como palimpsestos ou sítios arqueológicos: mexemos neles com uma escova de dentes de dureza média ou mesmo suave e encontramos algo por baixo. A experiência pode ser frustrante se descobrimos durante a escovagem que certos deuses do nosso panteão padecem do vício ignominioso de cançonetistas como Marco Paulo ou Tony Carreira. É então que nos faz bem ouvir alguém tão velho e sapiente como Johnny Cash numa cover, por exemplo, de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode. Se um ancião da country pode pegar numa música de uma banda industrial da Inglaterra... Esperem, chegaram mais informações: diz que os DM escreveram a canção inspirando-se em Elvis Presley. Além do mais, a música soa bastante americana...
Adiante. Se somos capazes de ouvir com gosto pessoas de gerações e tribos distintas cantar a mesma melodia, talvez a arte não resida apenas na criação mas igualmente, ou em proporção justa, na interpretação. Como não amar “Smells Like Teen Spirit” por Tori Amos? Música desses Nirvana que cantaram Bowie em “The Man Who Sold The World”. Mutatis mutandis, o que nos importava a nós, há um século, se quando a Kim Wilde cantava “You Keep Me Hangin’ On” estava a fazer uma cover das Supremes? (Ok, aqui talvez não fosse exactamente a mesma coisa. Ou só essa coisa.)
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* Por «primeiro minuto da cassete» entenda-se o primeiro minuto deste vídeo: https://youtu.be/qiiyq2xrSI0
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* Por «primeiro minuto da cassete» entenda-se o primeiro minuto deste vídeo: https://youtu.be/qiiyq2xrSI0
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