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domingo, 19 de abril de 2020

Uma perturbação menor na paisagem

Está a ganhar folhas finalmente a última árvore da fila que se alinha, pela minha perspectiva de quinto andar quando sentado a ler, na base da janela. Está agora quase completa, e assim vai ficar, a paleta de verdes-primavera que do lado poente ameniza a vista da cidade. Assim vai ficar porque as folhas que completariam a paleta já não têm árvores onde nascer. A fila era antigamente parte de um L, mas um dos lados deste foi banido por mor das obras que se fizeram na escola. E logo aqui em baixo, no cul-de-sac, foi erradicado um dos elementos do belo par amoroso que dava sombra ao estacionamento e encanto à praceta, talvez porque à noite também tornava mais resguardada a erva que ali se fuma há gerações.

Se não me levantar da cadeira, se erguer apenas os olhos do livro para a vista, posso esquecer a tragédia amorosa e estética do cul-de-sac e, de vestígios humanos, ter apenas, por sobre a fila de árvores, as aldeias lá longe na encosta do Alvão, distantes o suficiente para não terem escala humana, serem uma perturbação menor na paisagem.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A imponderável beleza de um bairro comunista ao pôr-do-sol


Nas minhas deslocações pela Polónia menos turística houve um pequenino e improvável momento de êxtase estético perante um conjunto de torres de habitação do período comunista. Estranho, não é? A arquitectura comunista não costuma ser conhecida pela beleza.
As torres ficavam ao cimo de uma colina totalmente relvada e estavam debruadas por uma cintura de árvores de diferentes espécies e copas frondosas. Não eram cinzentas, as torres (não sei se por repintura pós-perestroika), mas coloridas, em tons suaves de amarelo, laranja, alguns verdes e azuis discretos, como num arrabalde lisboeta contido. O sol, a descer para o ocaso, dava ao conjunto o ar de um arco-íris sobre um parque. Pensei, recuperando a sobriedade, que os mesmos edifícios em Portugal se exibiriam na sua essencial pobreza estética, porque lhes faltaria a envolvente verde que tem o dom de amenizar o que não é belo.

O verde da vegetação e das árvores compõe muito uma cidade. Nos bairros de boa e clássica arquitectura, digamos os construídos até aos anos 50 do séc. XX, o verde foi uma parte natural do urbanismo, ninguém no seu perfeito juízo estético concebia então ruas ou pátios sem árvores e arbustos e jardins. Nos bairros desenhados e construídos no período da hecatombe arquitectónica, ou seja, do final dos anos 60 até depois da viragem do século, as sebes e os renques de árvores em meio urbano, quando plantados, tiveram ainda mais utilidade, uma utilidade evidente sobretudo a posteriori, quando a flora sobrevivente se revela a maneira mais eficaz de esconder as aberrações construídas, antepondo-lhes um filtro ou um ecrã verde.

Há países, como Portugal, onde, pela topografia e a arquitectura das suas cidades e pelo seu clima, o filtro verde tem de ser apaixonadamente plantado e intransigentemente cuidado e renovado. Outros, como a Polónia, não têm de se preocupar muito, porque a amplidão das terras assegura espaço para grandes áreas e áleas arborizadas e o clima trata de assegurar o carácter verde da paisagem, mesmo em meio urbano. Daí poder-se caminhar por alguns bairros de arquitectura comunista na Polónia sem aquela impressão pós-apocalíptica que sentimos ao caminhar em bairros semelhantes em Portugal — com os seus jardins arrancados, poeirentos e cheios de lixo, as suas filas de árvores frequentemente raquíticas, demasiado espaçadas e com grandes falhas, como dentição de marinheiros de Quinhentos, os seus arbustos ressequidos e de um amarelo de fígado mal tratado, e, metáfora suprema, as suas estacas desoladas e enfileiradas, que sobrevivem à ausência das árvores que deveriam suportar, mantendo-se como sua representação escultórica e irónica.

 A Polónia e Portugal tiveram o mesmo azar com a construção do último quartel do século XX, mas não é a mesma coisa uma torre de apartamentos comunista na Polónia, na sua colina verde e arborizada, e a mesma torre de fraca arquitectura em Portugal, no cimo de um morro despido e gretado, a que se chega por rampas saibrentas ou mal alcatroadas — e frequentemente para ver apenas cotos de árvores onde a motosserra do “progresso” chegou antes.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.