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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A peregrinação de um caçador-recolector

Depois de meses de ausência, lá fui visitar a terra-mãe. Pelo caminho, vi, conferenciando como pombos numa praça, o maior bando de corvos com que alguma vez me cruzei, e achei isso de bom agouro. Parei o carro junto ao baldio e fui em paz até eles, mas espantaram-se às centenas e não pude estabelecer contacto, apenas desfrutar do panorama visual daquela chusma em vaivém, pousicando aqui e acolá e nas torres de iluminação de um estádio longe do Qatar.

Ao chegar, fui primeiro ao lago, um dos meus territórios de caça. A tarde findava e não queria negar à sorte a chance de me surpreender outra vez com alguma da esquiva fauna avícola que já por ali vi: corvos-marinhos, patos selvagens, a garça-real que iniciou o Villa Juliana. Passeei brevemente de mãos nas costas, místico tal monge em claustro, e lá tive um gazear, mas quando virei os olhos aos céus já não pude ter a certeza se o que os cruzava era deus, garça ou ave ainda mais rara.

Ia dizer que continuei pelas estações da minha via-sacra, mas o que evoco em cada sítio onde me detenho não tem nada de dor ou sofrimento, pelo que mais acerto se disser que peregrinei. Não com um percurso pré-definido, mas deixando-me levar pelas muitas áleas e carreiros, entregando-me ao dédalo sensual do parque romântico como ali mesmo se entrega o corpo dorido às mãos do balneoterapeuta.

Cheguei à zona sul, onde antigamente, se centrava a nossa actividade micológica e os meus olhos deitaram-se pavlovianamente a sondar os canteiros. Não procuravam os cogumelos perdidos, mas a iminência do Mistério, a emoção, o espanto que na altura me tomava nas raras vezes em que encontrava um. Julgo que por isso peregrino: não para evocar momentos, estórias, pessoas, mas para recuperar a inocência, a virgindade, a capacidade de expectativa e fascínio de quando o mundo estava por descobrir e era prometedor.

Caía uma morrinha e deitei o capuz pela cabeça. Há hoje ali bungalows e turistas neles, pelo que o meu deambular de recolector nas zonas de sombra dos canteiros pareceria decerto sinistro se algum perscrutasse a noite acabada de instalar. Isso não me demoveu. Nem sequer a possibilidade nada remota de o meu passarinhar ser confundido com voyeurismo ao cruzar, mesmo que à distância, os grandes envidraçados iluminados por dentro que expõem, se os houver, os esplendores e misérias dos cortesãos em escapadinha de fim-de-semana.

Não tendo encontrado roca ou frade, a minha atenção voltou-se depois para a flora. Os letreiros brancos que puseram defronte de algumas árvores brilham como faróis na noite e resolvi orientar a navegação por eles. Recolhi: cedro-do-atlas, faia vermelha, abeto-de-douglas, calocedro, sequoia-sempre-verde, bordo-japonês, choupo-branco, pinhão-chinês (com um belo triplo tronco), castanheiro-da-índia, carvalho-americano e o ex-libris local, o exemplar de sequoia-gigante de casca fibrosa e suave que hoje se tornou moda apalpar como em Verona se apalpam os seios de Julieta. Encostei-me a ele, mas de forma pudica.

Também recolhi, sem letreiro, vários exemplares de árvores de meródios, que noutros locais se conhecem como medronheiros e que na antiguidade me embriagavam só de lhes olhar os frutos vermelhos com vago conhecimento das suas propriedades alcoólicas (que de resto ali não se aproveitam). Ia jurar que estão iguais, mantêm a mesma leve ameaça de fruto proibido conjugada com a mesma sedução genesíaca.

Não há letreiros para todas as espécies, mas também não há alfabeto nem gramática para alguns dos exemplares sob cuja sombra me recolhia há mais de trinta anos. E se houvesse não me dariam informações curiosas e úteis sobre os seus nomes, características e proveniência, mas sobre certas propriedades inefáveis.

Andei também a respigar pelo minigolfe, descobrindo as suas velhas pistas como alicerces aztecas a despontar das ervas crescidas e das folhas de Outono. Passei pelas traseiras hoje amplas do balneário e encontrei a antiga serralharia onde quase fiz carreira depois de um curso profissional e equívoco em metalomecânica. E passei pela casa onde viviam as freiras, pensando que se aguentei sem esforço os retiros e os terços é talvez porque estava vagamente apaixonado por uma delas.

Chovia copiosamente quando terminei a peregrinação pelos lugares devotos da minha religião pessoal, mas ainda não era o Dilúvio.

sábado, 27 de novembro de 2021

Preâmbulo para uma conversa a propósito da exposição “48 HORAS”


«Quando gentilmente me convidaram para participar numa conversa à volta do tema desta exposição, o meu primeiro impulso foi declinar, gentilmente, o convite. Isto porque não sou especialista em nenhum dos tópicos da exposição: a raça maronesa, o transporte de mercadorias no século dezanove, a águas das Pedras ou mesmo as Termas das Pedras.

Contudo, deram-me três argumentos para aceitar o convite: nasci e cresci nas Pedras Salgadas, sou filho de um homem que dedicou a maior parte da sua vida àquela terra — e que hoje está de certa maneira ele próprio musealizado no Pedras Experience — e um dos romances que publiquei foi em parte construído a partir de memórias e experiências das Pedras Salgadas em três épocas distintas.

Aparentemente, isto qualifica-me para estar aqui hoje. Isto e talvez o facto de, durante as minhas primeiras duas décadas de vida, ter bebido tantos litros de água das Pedras que a partir de certa altura o meu organismo deixou de tolerar qualquer bebida com gás. Sou um pouco como o Obélix: caí em pequeno dentro do caldeirão mágico da água das Pedras e deixei por isso de ter direito a bebê-la. Infelizmente, tal incidente não me deu forças sobre-humanas como ao Obélix.

Depois de aceitar o convite, pensei um pouco no tema da exposição, nesta viagem de 48 horas entre Pedras Salgadas e a Régua, e a primeira imagem que me veio à memória foi precisamente de quadrúpedes, mas de uma outra espécie animal. Nem foi bem uma imagem, mas toda uma experiência sinestésica, que incluiu visão, cheiro e, antes de tudo, som. Essa memória evocou, não o gado maronês, mas cavalos. Cavalos que faziam a mesma viagem entre a Régua e as Pedras, só que em vez de puxarem carroças tinham o privilégio de viajar de comboio. (Comboio esse, já agora, movido a cavalos-vapor, num comboio ainda a vapor.)

A lembrança que mencionei retrata um momento especial de cada ano na história de Pedras Salgadas: a temporada do Concurso Hípico, um dos muitos elementos que singularizavam aquele lugar no Verão. Os cavalos que participariam nas provas, tantos deles das forças armadas, chegavam às Pedras na sua maioria de comboio e faziam o último troço do percurso, a partir da estação, pela estrada de paralelos que passava em frente à casa onde cresci. Quando as crianças do bairro começavam a ouvir ao longe o som dos cascos ou das ferraduras no granito da calçada, ninguém as podia deter, saíam todas para a rua a ver passar o desfile. Durante largos minutos, passavam, levados pela arreata, algumas dezenas de cavalos, mais altos, esbeltos e briosos do que os animais que estávamos acostumados a ver. Largavam poios como o gado que diariamente usava aquela estrada (daí o cheiro na memória), mas até a fragrância desses poios era ou parecia-nos diferente de tudo o que estávamos habituados a cheirar. Quando aquele festival dos sentidos (visão, som e cheiro) regressava para um desfile na direcção oposta, depois de terminados os dias do Concurso Hípico, uma pequena melancolia toldava o fascínio com que saíamos à rua outra vez.

E isto, esta melancolia, remete-me para a mística nostálgica de Pedras Salgadas. Talvez todas as terras tenham os seus mitos, as suas velhas glórias, mas nem todas serão territórios de fronteira, ou melhor, pontes entre diferentes mundos sociais e diferentes tempos históricos, como as minhas Pedras Salgadas foram e continuam a ser. Naquela aldeia, hoje vila, vivíamos nos anos setenta e oitenta do século XX numa espécie de portal onde o espaço-tempo se baralhava. Era um mundo rural em volta de um território murado (o Parque das Termas) onde no Verão se respirava urbanidade, trazida pelos hóspedes dos hotéis, oriundos sobretudo de famílias da burguesia do Porto. Em simultâneo, pairava em permanência sobre aquela terra a memória do período áureo da «mais bela estância termal portuguesa», como era chamada nas primeiras décadas do século XX, quando era visitada também pela aristocracia.

A existência nas Pedras, sobretudo económica, era definida em função das suas termas, e por isso as sagas familiares eram (e são) também marcadas pela memória das Termas. As famílias que ali moravam, as sucessivas gerações, na sua maioria serviam a Empresa das Águas e as Termas, nas mais diferentes profissões. Daí que, àquilo que testemunhávamos com os nossos olhos, estivéssemos sempre a adicionar as histórias e as memórias dos mais velhos. Não tinham sido vidas fáceis, as deles, mas o glamour do Parque e dos seus hotéis de certa maneira amenizava o esforço de quem muito trabalhara para pouco ter. E o convívio de perto com figuras que pareciam saídas de romances ou filmes trazia, sobretudo a posteriori, uma pequena recompensa que se somava ao salário ou à reforma. A dureza dos tempos era de certa forma relegada pelas histórias das Termas e das Águas de que cada um se fazia contador.

A singularidade das Pedras Salgadas teve um outro momento especial no pós 25 de Abril, quando uma vaga de cosmopolitismo cobriu a povoação. Como em vários outros locais do país, os hotéis das Termas foram requisitados para acolher pessoas vindas das ex-colónias, aqueles a quem na altura se chamou «retornados». Durante esse período, mais uma vez o território rural das aldeias em volta dos muros do Parque foi posto em contacto com um universo social novo, mais exótico, que lentamente se entronizou, acrescentando mundo à sociedade local.

Foram estas distintas épocas e dinâmicas sociais que procurei retratar no romance Hotel do Norte, que foi buscar o título ao nome de uns dos hotéis que existiam nas Termas de Pedras Salgadas, entretanto demolido. No romance, como na vida real, as Termas são uma fonte permanente de mistério e investigação histórica, uma fonte de arqueologia. Quem habita ou habitou naquela terra está ou esteve imerso em história e arqueologia. Até no sentido técnico do termo, porque, a partir de certa altura, com a decadência do turismo termal e o desinteresse das sucessivas empresas concessionárias, vários edifícios e espaços das Termas ficaram acessíveis à visita e ao saque de quem por ali vivia. Inúmeras das minhas memórias e fantasias de criança têm como origem espaços e objectos concretos das Termas, retirados das suas sobrepostas camadas geológicas. Cada um dos habitantes das Pedras tem dentro de si (e alguns dentro das suas casas) o seu próprio museu, o seu próprio Pedras Experience, repleto de objectos e memorabilia.

Ainda hoje, quando visito as Pedras, visito não apenas a família (quase toda ela ligada à empresa das Águas), mas aquele mundo híbrido, composto, que continua a concentrar em si, nos vestígios que ainda restam, uma multiplicidade de tempos históricos e vivências sociais. Há, de resto, um turismo de nostalgia à volta das Pedras Salgadas, não totalmente aproveitado. Quando as empresas que vão explorando o filão da água procedem à demolição de edifícios, estão a destruir e a desbaratar um património. Todos gostavam que o turismo fosse ali plenamente reabilitado, para felicidade e benefício económico geral, mas é para mim um erro que isso se faça terraplanando o que existe, mesmo que se construam no seu lugar maravilhas. Na ausência de recuperação, os edifícios deviam pelo menos ser consolidados e mantidos como testemunhos observáveis de uma era. Roma não seria Roma sem as suas ruínas.

Termino esta evocação, mas não sem fazer uma referência à raça maronesa, que também marcou a minha época de formação nas Pedras Salgadas. A minha casa ficava entre o Parque das Termas e a casa de um lavrador. De um lado, eu tinha a sofisticação e o ócio do universo balnear; do outro, a dureza e a força telúrica do mundo rural. De um lado, citando um dos textos disponíveis na exposição, estava a obra de «homens de espírito empreendedor, de largas vistas e grandes aspirações» e, do outro, espécimes da «raça maronesa, exemplo de rusticidade, resiliência e mansidão». Essas duas influências construíram também a minha identidade cultural. Em certos dias, as minhas aventuras levavam-me a descobrir os segredos do Parque; noutros, montava em carros puxados por juntas de bois iguais aos que se vêm nas fotos da exposição — e que chiavam estridentemente na subida para o combarro onde se descarregava o milho. Houve dias ainda, há que lembrá-lo também, que apanhei bosta fresca daquelas vacas maronesas para isolar a porta do forno onde a vizinha cozia pão. E posso dizer, em abono da raça, que as broas saíam saborosas.»

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Preâmbulo para uma conversa a propósito da exposição “48 HORAS”, que documenta o transporte da água das Pedras, em carros de bois, até à estação de comboios do Peso da Régua, no final do século XIX e principio do século XX. Organização: Museu Pedras Experience | Projecto Terra Maronesa.

Galeria de Artes do Auditório Municipal do Peso da Régua, 26/11/2021



domingo, 27 de dezembro de 2020

O caso da chávena roubada

Há pouco tempo visitei clandestinamente uma casa que durante mais de quarenta anos me fascinou e, se não me trai a memória, era o último lugar “misterioso” das termas de Pedras Salgadas em que me faltava entrar.

Desde a minha infância, as Pedras têm sido esse lugar onde os edifícios fascinam enquanto habitados e fascinam mais quando vão sendo abandonados. Um lugar vivo tem o mistério do seu tempo, das pessoas diferentes de nós que enchem os compartimentos com os seus modos exóticos, enquanto um edifício devoluto tem a soma dos mistérios de todos os tempos, em camadas de pó como estratos geológicos, e o mistério maior do vazio, do insondável.

A Villa Adriana, que hoje vejo como construção simples, era moradia de eleitos, com uma arquitectura alheia à humilde tradição local, por vezes revestida de hera como nobre solar, e a promessa de um recheio elegante. O próprio facto de a casa ter nome, e um nome excêntrico, colocava-a num Olimpo inacessível ao comum dos mortais, ou pelo menos a mim.

Quando chegava o Outono e a época de frades, a minha família era das que esquadrinhavam com regularidade os canteiros do parque em busca dos cogumelos ambicionados. Em criança acompanhava o meu tio na sua missão recolectora e nas imediações da Villa Adriana o meu espírito dividia-se na expectativa de duas epifanias: a descoberta de um frade pelos meus próprios olhos, sem ajudas, e um vislumbre do interior da casa e das pessoas que nela habitavam. Não sei se alguma das coisas chegou a acontecer naquela idade.

Quando visitei a Villa Adriana fi-lo sem forçar a entrada. A porta estava apenas encostada, como se alguém aguardasse a minha visita — talvez os fantasmas das personagens fabulosas que ali habitaram e que só existiram na minha cabeça, mesmo que alguns dos seus sucedâneos humanos continuem vivos. Mas entrou comigo o adolescente que sonhava maravilhas em casas assim e por isso não resisti ao impulso atávico de trazer uma recordação.
(Os edifícios do parque foram ao longo dos anos espoliados do seu recheio, por interesses materiais ou nostálgicos, mas não me recordo de alguma vez ter participado num desses movimentos activos. Não mantive senão na mente um compartimento com memorabilia das termas.)

Provavelmente, o objecto que meti ao bolso, sorrindo para mim mesmo com condescendência, nem faria parte do inventário original da casa, já que os compartimentos albergam agora materiais de várias proveniências e sem atractivo: um stock de lâmpadas fluorescentes, por exemplo.

Na cave havia um cartaz também emoldurado com uma mensagem auto-motivante da Companhia de Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas há cinquenta anos. Nele lia-se: «A nossa expansão tem de medir-se em termos de actualidade» e, em baixo, de uma estrutura de lançamento de foguetões partiam sucessivamente três garrafas acompanhadas de uma data e um número, presumo que o total da produção nos anos indicados: 1966 (17 320 576), 1968 (23 956 895) e 1970 (31 734 749).

Numa mesinha de outro compartimento, partilhando a mesma cor azul, havia dois guias, um material e um espiritual: um User’s Guide da Hewlett Packard para um gravador de CDs e um Guia prático para o sacramento [não retive qual] com a mensagem «Suplico-vos: deixai-vos reconciliar com Deus». Talvez tenha estremecido um pouco nesse momento ao sentir no bolso o volume do meu despojo.

Na viagem de regresso, fiz um balanço da visita (os dourados na casa de banho, que há quarenta anos talvez me tivessem deslumbrado, pareceram-me agora um pouco kitsch) e satisfiz o desenhador técnico que durante anos fui, desenhando finalmente mas de cor a planta da casa. Pensei também no souvenir. Foi só então que, com novo sorriso condescendente, o achei adequado a mais do que o tamanho do bolso: afinal, uma chávena é o objecto fetiche da invocação do tempo perdido.


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P.S.: Se algum dos actuais proprietários das termas estiver a ler este post, saiba que prometo devolver a chávena, se ela fizer falta ao conjunto.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sem palavras

O meu pai e eu não éramos muito faladores nos nossos telefonemas. Os telefonemas não serviam para contar coisas, na verdade, mas para declararmos com regularidade a nossa existência mútua enquanto pai e filho. Era como tocar com as pontas dos dedos nas costas de alguém que se ama, só para assinalar a presença, o afecto. Para reconfortar. Por vezes éramos tão telegráficos que parecíamos a sentinela nas ameias ou nas trincheiras dando voz de alento ou alívio: «Tudo calmo no posto norte». (Ou sul, dependia se ligava eu ou ele.)

Nas últimas visitas que pude fazer-lhe, desejei também usar o telemóvel, como aliás tinha já sido sugerido meio a rir meio a sério pela minha irmã mais velha, porque o meu pai estava a ouvir mal e agora, com máscara e painel acrílico entre a minha boca e as orelhas dele, a conversa era de surdos. Não o fiz, não peguei no telemóvel porque isso lembrava, ainda que erradamente, uma visita à prisão, como se vê nos filmes, e tive vergonha, mas tive sobretudo receio de que a ideia acabasse por não funcionar e o constrangesse também a ele. E assim constrangíamo-nos a olhar um para o outro, ele a tentar adivinhar as palavras, eu à espera que ele tivesse a iniciativa da conversa.
Havia coisas que gostaria de lhe perguntar sobre os oitenta e seis anos da sua vida e outras que queria contar-lhe sobre os meus últimos meses, mas duvido que alguma vez o fizesse, mesmo que ainda tivéssemos tempo, que não houvesse pandemia nem surdez, porque herdei isso dele, essa tendência para o mutismo sobre a vida própria.

O meu pai, que nos últimos anos voltara a ler com regularidade como numa fase da minha infância o vira fazer, leu os três livros que publiquei, mas fomos ambos bastante incapazes de falar sobre o assunto. Imagino que o primeiro o tenha entristecido um pouco, pela linguagem a espaços desabrida e obscena do personagem principal. Ou talvez não, ele tinha já a experiência de muitos anos de ver o seu filho mais novo escrever coisas menos adequadas e até de receber queixas sobre isso. Mas também recebia elogios, suponho, o que certamente o reconfortava e estimulava a magnanimidade de que era capaz.

De resto, o meu pai tinha já hábito de bondade em relação àquilo a que a sociedade considerava ovelhas tresmalhadas, mesmo quando no discurso corrente se mostrava crítico. Lembro-me que arranjou no parque das Pedras Salgadas nos anos setenta, princípios de oitenta — quando a sua influência, conquistada pelo trabalho e pela dedicação a pessoas e instituições, lhe permitia esse poder — uma sala de ensaios a um conjunto musical liderado por uma dessas ovelhas tresmalhadas, isto numa altura em que a maconha circulava com facilidade e indignação inauditas e se dizia que andavam por ali sacos dela vindos de África. Ovelha essa a que, de resto, concedeu também posteriormente amplo apoio enquanto autarca, precisamente, suponho, porque era capaz de reconhecer o talento e tinha um certo sentimento de protector da tribo.

Era por vezes uma pessoa severa e conservadora, herança da época salazarenta em que cresceu, mas era também uma personalidade reivindicativa, tanto que pode ser visto aí pelo Youtube num vídeo do pós-vinte-e-cinco-de-abril com ar e discurso de verdadeiro sindicalista a lutar pelos direitos dos trabalhadores seus colegas. Um dia a camioneta da loja de móveis parou na nossa rua e da camioneta descarregaram os sofás verdes que haveriam de ser os únicos sofás que toda a vida houve em casa. A perplexidade começou por ser da minha mãe, com os seis filhos de roda das saias, e depois foi dele, quando chegou e se pôs a declarar coçando a cabeça que não encomendara aquilo, nunca o poderia ter feito. Após algum suspense, a informação chegou: os sofás eram um presente de um grupo de trabalhadoras de quem ele era colega e encarregado.

A sua dedicação à terra e à companhia das águas das Pedras era total, criando por vezes certos ciúmes nos filhos. Mas não se lhe pode censurar isso. A companhia das águas e a terra e a família confundem-se, são uma e a mesma coisa, mesmo para mim, que há trinta anos não vivo ali. Quando se reformou tinha para gozar meses de férias. Foi entre outras coisas padeiro, distribuidor de pão, electricista, depois de em criança ter sido groom nos hotéis do parque termal e antes de se fixar definitivamente na “empresa”, que de certa forma, e como tantos outros, sentiu como sua. Talvez haja outras homenagens na terra àquele seu cidadão dedicado que foi também, em paralelo, presidente da junta de freguesia, vereador na câmara e director do clube de futebol local, mas a que ele me mostrou só o é indirectamente: o seu testemunho num vídeo em loop no museu das termas, o “Pedras Experience”. Ele orgulhava-se, e suponho que com legitimidade, do vídeo, não sei se com a consciência de o terem musealizado junto a outros vestígios termais.

Quando acabei o nono ano, o meu pai conluiou-se com um tio dele para porem os dois filhos rapazes mais novos (os outros já trabalhavam) a estudar em Vila Real num curso com acesso directo ao mercado de trabalho ao fim de um ano lectivo. O salário do meu pai mal dava para a conta da mercearia (às vezes não dava), quanto mais para trazer filhos a estudar. Na Escola Industrial e Comercial (hoje Secundária S. Pedro), havia a opção de secretariado, ou similar, mas romântica e imbecilmente o retardado do seu filho mais novo escolheu metalomecânica, achando que a parte de mecânica seria suficiente para o pôr a construir foguetões, ambição antiga de quem só sabia sonhar com aventuras e viagens espaciais. O meu pai estranhou decerto a escolha, inesperada para filhos que começavam a exibir tendências artísticas, mas respeitou-a, ou, com pragmatismo resignado, achou-a secretamente com mais saída. No dia das matrículas deu-me dinheiro para a carreira e logo ali concluí que ele e o tio tinham feito mal as contas, os preços tinham aumentado, o dinheiro dava para o bilhete de ida e pouco mais. Na altura ainda imperava a versão severa do meu pai e não me atrevi a dizer-lhe nada. Embarquei em silêncio, matutando durante a viagem em formas de regressar. Talvez o momento não tenha sido traumatizante porque ainda era Verão, dias longos, sabia vagamente o caminho para voltar a pé, estava habituado a andar fora de casa até tarde da noite. Entregues os papéis na secretaria em Vila Real, meti os pés à estrada para o regresso, esperando passivamente uma boleia, que só apareceu no alto da Samardã, uns doze quilómetros depois. O curso saiu portanto mais caro do que os cavalheiros planearam e, no final de um ano traumático (abominei a própria Escola até ao dia em que, ironia do destino, décadas depois, vim morar num prédio ao pé dela), com estágio apalavrado na empresa das águas (onde mais?), reunimos finalmente a coragem, o meu irmão e eu, depois de dias e noites a tremer de puro pânico, para anunciar que desistíamos desse projecto de vida e pretendíamos continuar a estudar no ensino “normal”. Eu estava mais ou menos a contar com a primeira sova paterna da minha vida. Mas os tempos eram já outros e a zanga, dura, teve apenas manifestações orais, com lamentações legítimas sobre a sua impotência para nos pagar estudos e a nossa visão romântica da vida. Tínhamos prometido logo no início da conversa, por antecipação, para amenizar a fúria, que não gastaríamos dinheiro em livros ou autocarro — e cumprimos. Nos três anos seguintes estudámos pelos livros dos outros e não houve condutor na Nacional 2 entre Pedras-Vila Pouca que não nos tivesse dado boleia, num sentido ou no outro. O meu pai continuou, imagino com que sacrifício, a alimentar-nos e vestir-nos. E a amar-nos, estou certo.

Quando fui para a tropa, raramente tendo contribuído para o rendimento familiar (numa campanha de censos não consegui reunir a quantidade mínima de inquéritos para ser pago porque, já antropofóbico, tinha pavor de fazer perguntas às pessoas, e o curso de balneoterapia onde o meu pai me deixou durante uma semana de Inverno no Luso foi também sem consequência, embora com excelentes notas), quando fui para a tropa, dizia, a minha legitimidade para esperar apoio do meu pai era muito reduzida. E no entanto ele quase sempre acorria aos meus telefonemas quando lhe pedia que me fosse buscar à Régua nas sextas à noite em que conseguia ali chegar de comboio, vindo de Elvas, já sem ligações para a linha do Corgo. Nem se zangou comigo quando uma das vezes se prestou ao frete de ir à Régua já de madrugada e ali chegado não me encontrou, porque eu me deixei dormir em serviço e não dei conta que ele chegasse, nem ele me viu no meio de tanto magala verde estendido na escuridão sobre os bancos da carruagem que ao final da manhã seguinte iria até Vila Real. Não regressou de mãos a abanar porque apanhou um vizinho marinheiro com sono mais leve e ele gostava de ser útil às pessoas, mas imaginei-o zangado, com justeza, por o ter feito tolamente gastar gasolina e tempo. Contudo, foi divertido que me recebeu no dia seguinte ao almoço.

Antes de arrastar isto por uma autobiografia maçadora e inoportuna, devo dizer que a 9 de Dezembro de 2020 cessaram as respostas do posto norte. Não mais haverá telefonemas que nos assegurem mutuamente que estamos bem. Não mais haverá telefonemas a combinar almoços ao domingo. Não mais terei a oportunidade de o ver de novo aguardar-me com paciência e bondade como quando eu chegava por sistema atrasado para o ir buscar. Não mais teremos desses almoços em que também não falávamos muito mas éramos muito — devotamente, dedicadamente, afectuosamente — pai e filho. Fica um vazio terrível, maior do que o da falta de palavras (que nunca nos incomodou propriamente): o da ausência.

O cemitério onde o enterrámos anteontem numa urgência que não era nossa, nesta época terrível em que se enterram os mortos como se tivessem lepra, fica ao pé da igreja onde íamos aos domingos antes de almoço, quando ainda cumpríamos a tradição de ir à missa. Mas não é essa igreja que me fica na memória associada ao meu pai. Não é nenhuma igreja, na verdade, mas as manhãs de Inverno como a de anteontem em que optávamos por uma missa mais matutina no outro templo da terra e, regressados a casa, enquanto a minha mãe acendia o fogão a lenha e preparava industrialmente torradas para uma família de nove famintos devoradores de pão, o meu pai liderava um mantra que cantávamos em volta da mesa da cozinha, qual tribo invocando chuva, uma cantilena com letra onomatopaica que marcava o ritmo com que arrastávamos ou batíamos os pés para os aquecer. Era um momento de pura ternura paternal. Sem palavras, claro.

domingo, 15 de novembro de 2020

Trepa no Coqueiro

Dos sucessos popularizados pela mesma cantora, Carmélia Alves, o primo Fernando cantava também, numa versão mais quente do que a de Amália, Trepa no Coqueiro, uma música gingona, sensual, que lhe servia na perfeição para sublimar a sua faceta de intérprete divertido, brincalhão, irónico, irreverente, provocador, sedutor. Estou certo que ele escolhia as músicas que cantava sobretudo pela sua plasticidade, pela forma como permitiam trejeitos vocais, inflexões e falsetes. Ou talvez não precisasse de as escolher: as canções no seu cavaquinho e na sua voz ganhavam naturalmente essa tessitura voluptuosa, insinuante, «tropical» — ele era suficiente músico e artista para as submeter a andamentos pessoais e a pausas de efeito, momentos de sustinência de uma nota em falsete, vibrada, ou com trinados e requebros tiroleses. E era também genuína e suficientemente boémio para que todo o seu repertório fosse dedicado a uma marcante joie de vivre, mesmo quando as letras tratavam de tropeções na vida. 

Quando o bairro já tinha soçobrado e a sua geração migrado geográfica ou metaforicamente, ele continuava na sua missão de bardo, agora ao acordeão, em horas de estudo solitário ou de rememoração igualmente solitária, que se ouviam na rua, como em certas cidades se ouvem intemporalmente os sinos característicos de uma catedral. Faltava contudo a sua voz, até mais do que o cavaquinho: nenhum acordeão podia imitar-lhe o canto. E o canto, se se ouvisse nos últimos anos, seria já o do cisne — pelo fim de uma época de ouro, que ele prolongou pelo menos até ao fim do século, quando até num bairro como o nosso, atávico de muitas formas, era possível, muito por mão dele, experimentar o glamour hollywoodiano dos anos cinquenta.

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Trepa no Coqueirohttps://youtu.be/Dx60vsBOzZs

sábado, 14 de novembro de 2020

Sabiá na Gaiola

Certas recordações da infância chegam-me associadas de forma misteriosa a um lugar ou a uma acção. Havia uma cançoneta do repertório de êxitos de um primo do meu pai — presença quotidiana ao cavaquinho nas nossas vidas, bardo da tribo, ar e voz de galã dos anos 50 — que para sempre ficou em mim associada a uma ramada alta, que se vindimava com escadas de muitos degraus e equilíbrio frágil. É sempre essa ramada outonal que vejo quando evoco a canção, projectando mentalmente uma espécie de video-clip privado de uma era pré-Youtube. Não me recordo de alguma vez o primo Fernando ter tocado e cantado aquela canção naquele lugar, pelo que talvez tenha sido eu a cantá-la ali enquanto apanhava bagos do chão numa vindima em que também terei decifrado pela primeira vez o sentido de algum verso ou, mais provavelmente, percebido que amava de forma irremediável a melancolia ou a tristeza sob a toada alegre e juvenil da música.
A canção chama-se Sabiá na Gaiola e só agora — demasiado tarde para a formação do meu carácter — descobri que a letra tem um final redentor.

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Se alguém quiser ouvir a música: https://youtu.be/4jw88UfVsKA

sábado, 11 de julho de 2020

Proust: 10/07/1871


Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)

Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.

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*https://antonio-gregorio.tumblr.com/

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da nostalgia à alienação

Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)

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* Excepto para David Foster Wallace.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cocktails

Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre estátuas

Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.

De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.

domingo, 3 de maio de 2020

Ao serviço do ténis

[Pequeno ensaio sob hipnose]

Confluem num jogo de ténis fascínios de variada índole. Os corpos, os movimentos, a técnica e a táctica, a estética do court, das vestes e dos equipamentos, a hipnose do movimento pendular da bola. Se o jogo integra um campeonato importante no ranking internacional, a todos os outros fascínios somam-se a notoriedade dos jogadores, o design icónico e compulsório das marcas e patrocinadores presentes, o ambiente glamoroso da plateia, a etiqueta e o protocolo que rege toda a engrenagem posta em movimento para que uma partida tenha lugar.

Nas últimas noites, com o voluntarismo e a expectativa que favoreceria uma terapêutica em que se depositam esperanças, tenho aderido assiduamente à proposta de um canal de desporto, que repassa encadeados vários jogos importantes dos últimos torneios do Grand Slam. De inicio, com os olhos postos no vaivém da bola, interessava-me apenas o adormecimento magnético da mente, obter acordado, por processo menos danoso, a mesma alienação de espírito que se obtém através de drogas ou bebidas alcoólicas. Mas depois comecei a interessar-me pelos jogos que via (com uma emoção só possível porque ignorava o que tinham sido os resultados finais) e a interessar-me pelo jogo, pelo ténis em si mesmo. E mais tarde, porque estou numa fase proustiana (que rima com freudiana), invadiram o campo, fenómeno que não sei se é comum no ténis, certas evocações pubescentes.

Numa referência dos comentadores de serviço, aprendi que a prática de os apanha-bolas, quais criados de quarto, levarem aos jogadores regularmente as toalhas de rosto para estes limparem o suor entre pontos é relativamente recente na cronologia deste desporto. No entanto, talvez influenciado pela Recherche, que como sabem estou a ler, fiquei a imaginar que se trata antes de uma prática retomada, dado o jogo, enquanto modalidade organizada, ter origem no século XIX e naquela altura a classe ociosa, incluindo provavelmente a que jogava ténis, tinha decerto criados para muito mais do que apanhar-lhe as bolas perdidas, segurar-lhe o guarda-sol ou providenciar-lhe a toalha, se tal requeressem. Há, de resto, na encenação do jogo, no papel rígido e obsequioso que é distribuído aos apanha-bolas, traços que me surgiram no sono como evocativos de uma era em que os jogadores eram também decerto senhores, donos do tempo e da vontade dos criados.
Talvez não se possa dizer que os rapazes e as raparigas têm na sua azáfama actual — na diligência célere e coreografada, com etiqueta e fardamento próprios, com que atravessam o court em busca da bola perdida ou se chegam ao jogador com a tolha suada ou bolas novas nas mãos —, talvez não se possa dizer que têm no desempenho dessas suas funções uma submissão igualmente devida à diferença de classe, à condição de vassalo, até porque hão-de ser, estou seguro, voluntários, entusiastas recompensados com lembranças autografadas ou gorjetas, como os caddies no minigolfe da minha infância. Tenho aliás a certeza de que se sentem felizes por estar ali, naquele mundo — por paixão ao próprio jogo e pelo privilégio da proximidade às vedetas*, a distinção de aparecerem regularmente na televisão no seu papel secundário mas imprescindível, não raro com direito a repetição e destaque na imprensa, se o momento calha ser caricato ou comovente.
Mas há por vezes na atitude dos jogadores, na forma como devolvem a toalha ou uma bola que rejeitam para o serviço, na forma como o fazem sem sequer olharem os apanha-bolas, algo que nos meus serões hipnotizados pareceu uma reminiscência da origem elitista daquele desporto, como nos amos que à época pressupunham o serviço dos criados sem se deterem a pensar na sua existência. É certo que a concentração e o ritmo que o jogo exige aos profissionais não serão muito consentâneos com uma atenção ao que está para além dele, nem com uma gentileza que certamente existirá fora do campo. E talvez, que sei eu?, se ganhe algum tempo precioso se o jogador não tiver de ir até ao perímetro do court limpar-se na sua própria tolha.

A evocação aristocrática (no tempo de Proust operada diligentemente pela burguesia) é na verdade transversal a outros desportos e a tantos aspectos da sociedade em geral, e está presente também na forma de organizar o público nas bancadas e camarotes de Roland Garros, aliás situado nesse Bois de Boulogne tão caro às privilegiadas personagens proustianas. Por outro lado, o dress code, já progressivamente encarado por alguns tenistas, sobretudo mulheres, com um rigor inversamente proporcional à imaginação, é ainda imposto no torneio de Wimbledon, com a sua obsessão pelo branco imaculado. E as leggings femininas só recentemente foram autorizadas pela WTA a dispensar a saia.
A assistência denota também um certo prazer de desfilar as suas roupas de marca sob os chapeuzinhos uniformes patrocinados que vigorem nesse ano. E as televisões buscam na assistência as celebridades que constituem a aristocracia do ténis (antigos campeões e dirigentes), quando não a aristocracia propriamente dita, regular em Wimbledon.
O glamour do Grand Slam, particularmente nos torneios europeus, tem certas ressonâncias, para quem assiste narcotizado como eu, das corridas de cavalos de Royal Ascot**, de um casamento real ou de uma passadeira de Cannes que lhe desse para ser casual chic.

A minha atenção aos apanha-bolas não veio porém da solidariedade internacional que me exigiria a veia comunista, aliás adormecida com sucesso pela desejada terapêutica tenística — terapêutica que permitiu, no entanto, manter levemente vigilante o morgado que também me corre no sangue e que me enlevou num sonho matizado de impressões de infância. De uma infância anterior à minha, a dos meus pais e tios, neo-realista como um filme italiano, onde provocavam certa inveja os rapazes que iam servir de apanha-bolas ou caddies, à gorjeta, o ténis e o golfinho de Pedras Salgadas porque estavam tão quotidianamente próximos dos jogos e dos jogadores que ficavam de posse do segredo das regras e das técnicas (que praticavam clandestinamente após o fim das jornadas) e eram eles próprios, aos olhos dos outros, já um pouco membros dessa pequena aristocracia ou burguesia que frequentava as termas.

No meu sonho surge ainda, como em Roland Garros, essa mesma aristocracia arrumada em camarotes na primeira linha das bancadas do hipódromo das Romanas, protegida com guarda-sóis as riscas brancas e verdes ou vermelhas, o mesmo garrido de um torneio de ténis, com logótipos de marcas decerto tão antigas como a Perrier do Grand Slam francês. Em volta daquele pequeno circo termal em decadência, com acesso já ao court de ténis meio abandonado do parque termal, com a sua terra laranja faiscando sob a chapa inclemente do sol, pululava mais tarde a puberdade indígena do meu tempo, já fascinada com o glamour, com as marcas de sapatilhas e equipamentos, conhecedora de vedetas e celebridades e sabedora da gíria desportiva, dos códigos que distinguem, se não ainda os membros, os iniciados dos leigos. Não consta que nenhum deles, nenhum de nós, tenha feito carreira no ténis, no golfe ou no hipismo, mas decerto todos ficaram por estes dias de confinamento, a certas horas da madrugada, recostados no sofá e revisitando em pleno fascínio os torneios perdidos do Grand Slam.

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* Um dos momentos altos da minha adolescência ocorreu quando assistia a um concerto e subi ao palco a meio de uma música para ajudar o baixista do grupo que actuava a prender a cilha da guitarra, que se tinha soltado.
** Uma pesquisa no Google por Royal Ascot só ao fim de umas tantas imagens de chapéus e celebridades mostra cavalos.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Gira-discos

Há duas histórias que se digladiam na minha memória pelo troféu do primeiro contacto frutífero com um gira-discos. Uma delas é protagonizada por três músicas (de artistas diferentes) e a outra por todo um álbum. Falemos da primeira história (segundo a cronologia deste texto), enquanto damos tempo ao júri para tomar uma decisão.

Naqueles dias, havia alguém que arquitectava uma forma de fornecer um gira-discos para as reuniões de grupo que tínhamos ao sábado à noite em espaço abençoado pela Igreja. De toda a playlist que animava aqueles serões, e que talvez fosse vasta, duvido que alguém recorde mais do que três músicas: “Angie” (Piedras Rolantes*), “Against All Odds” (Phil Collins) e “Careless Whisper” (George Michael). Tudo começava geralmente com uns ruídos, um crepitar. Era comum: os discos tinham muito uso e não se lidava com eles com pinças. Entrava primeiro aquele som que apenas significava que havia um disco velho a rodar no prato mas que era já sugestivo, como se a música tivesse sido composta com um prelúdio misterioso. A seguir vinha a guitarra acústica, uma nota e um acorde metálicos que eram como um sinal. Os sentidos ficavam alerta e a pulsação acelerava. Depois, um Jagger da mesma idade do que vimos ontem, na era do confinamento, a cantar à guitarra numa tela quadripartida “You Can't Always Get What You Want", lamentava-se chorosamente: «Angie, Angie, when will those clouds all disappear?». Era a hora dos slows e nenhum critério estético pesava muito na selecção musical, aliás invariável. Os rapazes gostavam de “Angie” talvez pelo que ali soava aos seventies (não confessariam sucumbir às sugestões sentimentais da música) e as raparigas gostavam de George Michael. E julgo que apreciavam também a música dele, não sei. Mais tarde, por razões adicionais, talvez já só defendessem apreciar a música. Quanto a Phil Collins, permanece uma incógnita, tantas décadas passadas.

A segunda história não é mais edificante e começa numa estância termal de província no início dos anos oitenta — um melting pot frequentado por netos e netas dos tradicionais termalistas, com mais ou menos pergaminhos, emigrantes em férias (vindos de Paris no Verão e de Zurique no Natal), variegada fauna das cidades vizinhas, com rústicos e betos de várias extracções, todos dando o seu melhor a dançar nas noites da discoteca local, a mergulhar nas tardes da piscina ou a desfilar, muito século XIX mas sem charrettes, na Alameda das Nascentes — um território, em suma, pouco propício à unanimidade em questões estéticas e musicais. Em certos momentos uma corrente mais rock e máscula parecia dominar, noutros o rock fundia-se de bom grado com as mais recentes tendências da new wave, não temendo arriscar aqui e ali incursões no new romantic — e tudo era frequentemente destruído por certas preferências dançáveis da corrente menos sofisticada da pop electrónica, cujo expoente máximo viriam a ser talvez uns alemães que davam pelo nome ainda hoje nauseante de Modern Talking.
Neste caldo, um teenager em formação, instado a tomar partido, ainda que encontrasse predicados em (quase) todas as correntes, via-se por vezes obrigado à rebeldia. E, apesar de a década já estar bem entrada, deixando os setenta assentar alguma poeira, ser rebelde era por vezes tão-só depreciar (ou fingir depreciar) o bom velho rock’n’roll. Chega-se assim um ano aos Duran Duran, para gozo de muitos e embófia do próprio.

Ou talvez, e aqui é que a história entronca na verdade com o mote do texto, os Duran Duram tenham vindo de certa semana de férias de mar em que o adolescente descobriu na casa que o albergava um gira-discos e esse gira-discos deu-lhe a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, sem restrições, em plena autonomia, ou quase, um álbum completo e esse álbum calhou ser Rio, dos Duran Duran. O rapaz saiu menos bronzeado desse Verão (havia que aproveitar a oportunidade, nem que fosse preciso ir menos ao mar), mas a conhecer cada letra e linha de baixo do disco.
Ainda arriscou, na rentrée, quando a estância se esvaziava e regressava à sua normalidade rural, uns adereços e uns penteados tributários dos fab five de Birmingham, mas era preciso um certo estofo, ou cheirar recorrentemente a tinta impressa da pouco acessível revista Bravo (que tinha conhecidas propriedades inebriantes, como sabe quem a cheirou à época), para se perseverar numa excentricidade estilística daquelas, por mais perfil apolíneo que se tivesse. Também era preciso dinheiro para modistas e parceiros para fundar uma tribo que desse consistência e conforto à opção — e isso não havia, pelo que a meados de Outubro tudo voltara à mesma indefinição enfadonha do costume.

* Ver post anterior.

sábado, 10 de agosto de 2019

Sol coado


Melhor do que o sol de Verão é o sol de Verão coado. Há algo antigo nesta frase, eu sei, e não é só o adjectivo. A pintura e a literatura clássicas estão cheias de imagens idílicas de gente abrigada sob caramanchões e copas de árvores, num ócio hoje pouco cultivado, à luz de Agosto filtrada. Os nossos contemporâneos continuam a gostar de preguiça, bem entendido, mas preferem guarda-sóis ou, quando muito, a sombra exótica, escassa e disputada de palmeiras de resort. As velhinhas parreiras ou ramadas — o caramanchão dos pobres — estão em triste desuso, já poucos as cultivam e muitos dos que as herdaram abatem-nas, como o fazem às árvores, porque o folhedo suja e ensombra (ou “assombra”, ouve-se comummente) as casas. Há uma voracidade de caruncho no homem contemporâneo, é duro reconhecê-lo.

Nisto sou antigo. Anseio por sombras verdes e extasio-me com imagens e parágrafos postos à sombra bucólica de folhagens, como na ilustração que espoletou este texto. O paraíso, a existir, tem forçosamente de incluir livros, vinho e sombra estival, como na casa de campo de Patrick Melrose (apesar dos traumas).

A antiga fidalguia, mais do que a pagar indulgências, ocupou-se laboriosamente a recriar na terra o paraíso. Não havia palácio ou solar que se prezasse que não tivesse estas três coisas: adega, biblioteca e sombra frequentável, sob a forma de bosque ou de latada. (Os pobres, sem acesso a riquezas e lazer, ainda assim tentavam o seu melhor, fazendo ramadas de videiras: vinho e sombra junto a casa.) O fim do feudalismo e depois a democracia não alargaram, infelizmente, aqueles privilégios a toda a sociedade, mas isto porque a sociedade livre, dos ricos, preferiu imitar os vícios do que os ócios. Mais depressa a classe média construiu arremedos hediondos de colunatas do que moldou paciente e apaixonadamente caramanchões.

Eu, descendente longínquo e bastardo de morgado, procuro visceralmente a sombra, e, por cá, encontro-a, não por acaso, em certos recantos do Vintage do Pinhão ou por todo o lado no parque do Palace de Vidago. Ali, de livro aberto e copo na mesa, olhar espraiado por um pedaço do green ou pelas sombras das parras nos socalcos, sinto o bafo leve da eternidade, sobretudo quando a brisa é quente como  imagino que seja no Éden. Não conheço melhor terapia ou prazer do que levantar a espaços os olhos do livro e fazê-los percorrer, como mão em dorso de cavalo ou gato, as encostas de sombras anãs do Douro ou as altas e generosas sombras das árvores centenárias de Vidago.

Talvez este gosto me venha de algum piquenique na infância ou na adolescência, de estar deitado de costas, sem pressas nem obrigações nem passado, só futuro, a ver o céu através das copas das árvores. Se há momentos traumáticos na nossa fase de crescimento, outros haverá decerto que deixam marcas positivas. Ter crescido junto ao Parque das Pedras Salgadas, com toda a luz de Verão filtrada por plátanos, sequóias, cedros e mil espécies mais, há-de ter activado alguma coisa no meu ADN.

Mas ali por perto havia também a sombra dos pobres, que eu igualmente frequentava. Que casa do bairro não tinha a sua ramada, na frente ou nas traseiras? Lembro várias, mas delas só resta a memória dos momentos felizes. Na minha própria casa havia uma ramada de morangueiro ou americano, o vinho proibido, dando sombra frutada no Verão e deixando o sol passar no Inverno. (Aprende-se esta sabedoria e esta generosidade nas escolas de arquitectura?)

Cresci assim sob a influência de duas sábias culturas: a dos parques termais românticos e a das pragmáticas ramadas rurais. Sou talvez uma criatura em extinção.


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[Ilustração: La Quiete, Vittorio Giardino.]

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Whole of the Moon

Houve uma altura em que, na velha Blondie, o tema The Whole of the Moon, dos Waterboys, reabria regularmente a pista após os slows. Estávamos nos anos oitenta, para quem se sinta perdido nestas referências: as discotecas passavam slows e Waterboys.

Recordo com benigna nostalgia a voz sofrida de Mike Scott nas colunas sofríveis da Blondie, mas recordo também, como num pesadelo recorrente, a fauna que afluía à pista nesse momento, uma turba acabadinha de sair dum casting para o Thriller de Michael Jackson: trolhas espanados e estudantes pouco convincentes do secundário, betos remendados e futuros bancários e juízes obesos, todos unidos em espírito e espirituosas e locomovendo-se como protótipos de robot feliz e coruscante por ter acabado de ser inoculado com a última versão do MSDOS.

Os que tinham dançado slows retiravam-se momentaneamente para um canto, por vezes acompanhados, por vezes sós e fingindo-se sem fôlego. Mas ao segundo compasso do hino estavam de volta, de olhos semicerrados e gestos amplos como todos, como se os lamentos escoceses de Scott, mais do que canto de sereia, fossem a sineta de Pavlov.

Voltei a assistir a semelhante refluxo pavloviano vinte e tal anos depois, ao som dos Arcade Fire. Nessa altura eu já fingia olhar para a comunidade como um Lobo Antunes em dia de entrevista — cínico e maldisposto —, mas no íntimo rejubilava. Menos pelo que havia de evocação dos eighties na música catártica dos Arcade do que por constatar que ainda havia música melódica capaz de comover zombies.

Agora já nem sei porque escrevo isto, ainda nem sequer é Lua cheia. Há uma linha óbvia de continuidade entre os Waterboys e os Arcade Fire, claro, com o seu tom épico, ritmos vincados e acumulação de instrumentos e coros, mas a quem importa isso? Não aos rapazes do Ípsilon, decerto. Os Arcade Fire soçobraram cedo e os Waterboys nunca terão o exotismo de um Bonga.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um mergulho ao crepúsculo


Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água, pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse, exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo, sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…

No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras


Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular, entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram «grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras, ocupado por crianças ou adolescentes.

Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra «grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo» era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol, vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria. De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau — com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele «groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».

Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente «groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem, portanto.

Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?

Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford, no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando, exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da França?

Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou, se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle, chargé de faire les courses». Grumo, em suma.

Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente para inglês que ele tinha sido um «Brumo».

Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A insensatez da espeleologia na adolescência

Há no parque termal das Pedras Salgadas uma mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
 Logo a seguir ao portão, a mina divide-se em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão, também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos, contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
 Sobre o outro túnel, o da esquerda, não havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
 De Inverno, o terreno baixo por onde se acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não havia graffitis, beatas, garrafas, camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.   
 Houve fascínio e regozijo, naturalmente, como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por fim adiar sine die a segunda fase da expedição.
 Havia, contudo, motivos de interesse naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de luz e medir assim o comprimento do túnel.
 Dois de nós voltámos atrás com essa nova missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização do buraco.
 Demos com o buraco, depois de saltar o muro para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia, certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da direita.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O tee do 17

Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17 anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u) intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo — me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do lado de dentro.

E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo, tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na encosta do monte. Refiro-me ao tee dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de subir para a first shot, talvez por em Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem, felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos. Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.

P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.