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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Santa Úrsula e os comunistas

Reza o Martirológio Romano (catálogo de santos) que Santa Úrsula (séc. IV) morreu mártir às mãos dos hunos em Colónia, na Alemanha, acompanhada de 11.000 outras virgens. A descoberta no século XII de um vasto cemitério no exterior da muralha levou a que os católicos vissem ali confirmada a lenda e logo empilharam as ossadas numa igreja de homenagem à mártir e seu séquito.

Num momento da História, descobre-se que o exagerado número de mártires pode dever-se à interpretação errada das iniciais numa inscrição antiga, que leu «onze mil virgens» onde estaria «onze mártires virgens». Exames de ADN revelam entretanto que as ossadas encontradas são anteriores, do tempo dos romanos. Nada disso demoveu os peregrinos (nem os editores dos martirológios), que continuaram a comparecer na Igreja para louvar os 11 mil crânios e as 22 mil tíbias virgens. (Parece que não estão lá tantos ossos, mas que se há-de fazer.)

Esta edificante história — contada pelo narrador de “Elizabeth Finch”, de Julian Barnes — fez-me lembrar alguns comunistas dos nossos tempos. A História e a Ciência podem ter descoberto muitas coisas sobre a Rússia e as suas virgens, mas eles, irmanando-se no grau de devoção a velhos católicos ultramontanos, hão-de ir sempre ali peregrinar com fervor — como se as ossadas dos gulags, deste século ou do outro, fossem de louvar, não de lamentar.

Algumas reacções à morte de Alexei Navalny, não obstante o defeitos que se queiram apontar ao defunto, mostram como já era bem tempo de os comunistas actualizarem o seu próprio catálogo de santos. Ou mártires.

domingo, 11 de setembro de 2022

Notícias da guerra

Do alto das minhas divisas de antigo furriel de morteiros, achei que as notícias insistentes de que a Ucrânia preparava uma ofensiva no sul só podiam traduzir duas coisas: inépcia (quem, numa guerra, mesmo na era da exposição sem filtros das redes sociais, pré-anuncia as operações militares?) ou engodo. Que o exército russo tenha mordido o isco só pode dever-se a má formação cinematográfica dos seus oficiais superiores ou à falta de espaço para pensamento estratégico num centro de comando militar sobrelotado com o ego e a obsessão do supremo comandante.
É francamente precipitado começarem a circular os memes com a cena do bunker de “A Queda”, mas se chegar a hora nem vale a pena engendrar novos diálogos.

sábado, 30 de julho de 2022

Duas no cravo. Ou na ferradura.

Eu sei que hoje, ao contrário do que aconteceu no resto da História, os leitores preferem que os escritores e os intelectuais se mantenham longe da política. Eu próprio, que não sou um intelectual e talvez nem sequer escritor, perco simpatias de cada vez que molho a pena nas tintas da guerra. É melhor ser poético ou irónico; distante, em todo o caso. Escrever sobre estados de alma ou pores-do-sol; sobre leituras serenas ou quadros bucólicos do quotidiano; fazer piadinhas. Mas o velho editorialista que há em mim não morreu e de vez em quando pede a palavra. Concedi-lhe dois parágrafos.

1. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos, além de uma tragédia assente em mentiras, foi o maior erro estratégico do Ocidente no século XXI. Num momento de boa vontade mundial, depois dos atentados de 2001, em que os EUA poderiam ter aproveitado para purgar a alma e a sua história de manipulação e cinismo, fazem exactamente o oposto, ou seja, o mesmo de sempre, mas a uma escala maior. Associando-se àquela cruzada idiota e obscena, uma parte do Ocidente, ao arrepio da opinião pública, comprometeu a credibilidade das democracias em geral. Bush, Blair, Aznar e Barroso, e todos os que tiveram responsabilidades na farsa, deveriam ter sido julgados. Ainda o poderiam ser.

2. A história sanguinária de Putin começa em 2000 (está documentada na própria imprensa russa) e ao fim de vinte e dois anos ele enceta um movimento de sinal e magnitude pelo menos semelhantes aos de Bush. E contudo os comunistas do mundo — que são em geral boas pessoas, bem-intencionadas, e estiveram na primeira linha das manifestações de 2003 — resolvem desta vez contemporizar. Não é que sejam favoráveis às atrocidades de Putin — é, suspeito, que encaram a ideologia como uma religião e a Rússia como o seu santuário. Nada que vem da pátria ou da casa de Deus é mau: quando muito, é incompreensível para o entendimento humano. Foram necessárias décadas para que muitos intelectuais e plebeus se desvinculassem do mau comunismo soviético e da sua pátria terrena. Alguns nunca o fizeram. Não podem por isso ser acusados de cederem à mística de Putin (não lhes façam essa injustiça), mas de permanecerem devotos a um paraíso artificial, embriagados sem causa. Ou casa.

domingo, 19 de junho de 2022

Entrevista com o vampiro

Mesmo que, na corrida por um lugar no Inferno, os Estados Unidos fossem à frente da Rússia, o regime de Putin, todos hão-de reconhecer, continuaria a ser candidato a um lugar no pódio, pelo que custa ver a forma obsequiosa como Oliver Stone entrevista o novo czar. Não é a cortesia e a hipocrisia diplomática a que os jornalistas por vezes se vêem obrigados se aceitam falar com alguém não recomendável; é uma cegueira e um fascínio que dão vergonha alheia. Putin é adversário dos EUA e isso para Stone é música celestial — e o interlocutor o anjo que a executa. (É certo que a entrevista foi feita há anos, mas mesmo então só um marciano confundiria Putin com um querubim.)
 
Na entrevista, que vou vendo aos pedaços com curiosidade histórica e certa morbidez, Oliver Stone tem longos momentos em que na verdade não entrevista Putin. Não falo das partes em que lhe serve de pé de microfone ou de marcador para realçar as deixas, mas dos momentos em que, sem olhar o entrevistado, faz as perguntas ao intérprete, referindo-se a Putin na terceira pessoa, como se mantivesse com o intérprete uma conversa de inconfidências. Mas nem assim, com esse filtro, com essa forma indirecta, diferida e patética de falar como se o czar não estivesse presente, como se falasse nas costas dele, nem assim Stone é capaz de fazer perguntas verdadeiramente embaraçosas. Não se lhe pedia que o fizesse pelo prazer de embaraçar, mas por sentir uma curiosidade mínima pela verdade.