Reza o Martirológio Romano (catálogo de santos) que Santa Úrsula (séc. IV) morreu mártir às mãos dos hunos em Colónia, na Alemanha, acompanhada de 11.000 outras virgens. A descoberta no século XII de um vasto cemitério no exterior da muralha levou a que os católicos vissem ali confirmada a lenda e logo empilharam as ossadas numa igreja de homenagem à mártir e seu séquito.
Num momento da História, descobre-se que o exagerado número de mártires pode dever-se à interpretação errada das iniciais numa inscrição antiga, que leu «onze mil virgens» onde estaria «onze mártires virgens». Exames de ADN revelam entretanto que as ossadas encontradas são anteriores, do tempo dos romanos. Nada disso demoveu os peregrinos (nem os editores dos martirológios), que continuaram a comparecer na Igreja para louvar os 11 mil crânios e as 22 mil tíbias virgens. (Parece que não estão lá tantos ossos, mas que se há-de fazer.)
Esta edificante história — contada pelo narrador de “Elizabeth Finch”, de Julian Barnes — fez-me lembrar alguns comunistas dos nossos tempos. A História e a Ciência podem ter descoberto muitas coisas sobre a Rússia e as suas virgens, mas eles, irmanando-se no grau de devoção a velhos católicos ultramontanos, hão-de ir sempre ali peregrinar com fervor — como se as ossadas dos gulags, deste século ou do outro, fossem de louvar, não de lamentar.
Algumas reacções à morte de Alexei Navalny, não obstante o defeitos que se queiram apontar ao defunto, mostram como já era bem tempo de os comunistas actualizarem o seu próprio catálogo de santos. Ou mártires.
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024
domingo, 3 de janeiro de 2021
Crescei e multiplicai-vos
Na frontaria de um colégio, um painel de azulejos informa-nos que «A Virgem Maria Senhora Nossa Foi Concebida Sem Pecado Original». Parece uma daquelas mensagens de boas-vindas que indicam subtilmente o caminho da salvação.
Seriam contudo contraditórios entre si a mensagem e o local. Um estabelecimento que vive das propinas pagas pelos pais das crianças estaria condenado se os paroquianos resistissem à tentação da carne e do pecado original. Restar-lhe-ia, talvez, ampliar a fé e depositar também esperanças na lenda da cegonha.
Seriam contudo contraditórios entre si a mensagem e o local. Um estabelecimento que vive das propinas pagas pelos pais das crianças estaria condenado se os paroquianos resistissem à tentação da carne e do pecado original. Restar-lhe-ia, talvez, ampliar a fé e depositar também esperanças na lenda da cegonha.
quinta-feira, 26 de março de 2020
Ioga para seniores ou do terço à saudação ao sol
Nesta quarentena ainda não corri uma maratona na varanda, como fez Elisha Nochomovitz, mas, porque nas saídas profissionais vou geralmente fechado no carro como num escafandro e, cidadão exemplar, evitei até agora correr no parque com receio de incentivar outros, tenho vindo a submeter-me todos os dias a vinte minutos de ioga para tot…, perdão, para seniores, instado por quem comigo partilha a cela.
Não vou cometer publicamente a desfaçatez de dizer que não aprecio a modalidade (sobretudo porque já o fiz em privado) e na verdade, depois da tortura inicial, a sessão tem vindo a ser suportável, mesmo proveitosa, e abriu-me a mente para outras práticas e horizontes que até há pouco não imaginava possíveis (comecei também, por exemplo, a preparar-me para a Volta à França numa bicicleta estática). No entanto, a súbita constatação, ao acordar todas as manhãs, de que depois das abluções me irei voluntariar sorrindo para a aula online da Miss Cole Chance ainda me deprime mais do que a ideia, também subitamente concretizada, de ser agora uma personagem distópica dum filme série Z.
A contrariedade (já um pouco escusada) que se instala no meu corpo e no meu espírito recém-levantados da cama é semelhante à que me oprimia nos jantares de Maio da década de setenta, quando antecipava os quinze minutos de tortura que me eram servidos como sobremesa durante todo o tempo que durava o «mês de Maria». Consta que a Nossa Senhora, quando apareceu na trip bucólica e famélica dos três pastorinhos, penteando o cabelo e colorida como um arco-íris jaggeriano, lhes pediu «insistentemente» que rezassem o terço todos os dias. O povo português, que tem uma tara por tradições instantâneas, logo instituiu que dali em diante em Maio, mês da primeira aparição, se rezaria diariamente o terço em todas as casas católicas. Nos anos setenta a minha ainda era uma casa católica e eu uma criança a quem o 25 de Abril não trouxera a liberdade prometida. Sentava-me com os meus irmãos e irmãs numa roda ao lado da mesa da cozinha, a ver os dedos da minha mãe, que liderava a sessão, devorarem com uma lentidão desesperante as contas do terço (como um Pacman sádico ou instalado numa máquina com um processador fraquito), ganhando um pouquinho de ânimo de cada vez que ela chegava àquelas contas maiores que, como metas volantes, marcavam etapas no mantra interminável das Avé-Marias e introduziam, como falsas pausas, a variante nada refrescante do Glória-a-Deus seguido do Pai-Nosso, ansiando então pela terceira meta volante, que nos permitia iniciar com olhos silenciosos (os lábios sempre em ladainha) a contagem decrescente para a meta final, representada pela cruz como num Calvário e na verdade adiada por umas Salve-Rainhas e uns Credos também eles repetidos interminavelmente e ainda intercalados por mais três Avé-Marias (não eram consideradas suficientes as cinquenta anteriores) e — por que não? — um Pai-Nosso, até que, finalmente, com as seis crianças quase desfalecidas e a implorarem progressistas por uma lei da eutanásia infantil, mais pálidas do que as da família Adams, finalmente, dizia eu, a minha mãe enrolava o terço numa das mãos e com um sorriso talvez beatífico dava por concluída a sessão.
Não demorávamos a amar de novo a minha mãe (as crianças esquecem rápido), mas não me recordo de as agruras do terço me terem aberto o espírito como as do ioga me abrem o peito na «saudação ao Sol» que, de estores abertos, ofereço gratuitamente como artista-em-casa aos vizinhos do prédio fronteiro.
Não vou cometer publicamente a desfaçatez de dizer que não aprecio a modalidade (sobretudo porque já o fiz em privado) e na verdade, depois da tortura inicial, a sessão tem vindo a ser suportável, mesmo proveitosa, e abriu-me a mente para outras práticas e horizontes que até há pouco não imaginava possíveis (comecei também, por exemplo, a preparar-me para a Volta à França numa bicicleta estática). No entanto, a súbita constatação, ao acordar todas as manhãs, de que depois das abluções me irei voluntariar sorrindo para a aula online da Miss Cole Chance ainda me deprime mais do que a ideia, também subitamente concretizada, de ser agora uma personagem distópica dum filme série Z.
A contrariedade (já um pouco escusada) que se instala no meu corpo e no meu espírito recém-levantados da cama é semelhante à que me oprimia nos jantares de Maio da década de setenta, quando antecipava os quinze minutos de tortura que me eram servidos como sobremesa durante todo o tempo que durava o «mês de Maria». Consta que a Nossa Senhora, quando apareceu na trip bucólica e famélica dos três pastorinhos, penteando o cabelo e colorida como um arco-íris jaggeriano, lhes pediu «insistentemente» que rezassem o terço todos os dias. O povo português, que tem uma tara por tradições instantâneas, logo instituiu que dali em diante em Maio, mês da primeira aparição, se rezaria diariamente o terço em todas as casas católicas. Nos anos setenta a minha ainda era uma casa católica e eu uma criança a quem o 25 de Abril não trouxera a liberdade prometida. Sentava-me com os meus irmãos e irmãs numa roda ao lado da mesa da cozinha, a ver os dedos da minha mãe, que liderava a sessão, devorarem com uma lentidão desesperante as contas do terço (como um Pacman sádico ou instalado numa máquina com um processador fraquito), ganhando um pouquinho de ânimo de cada vez que ela chegava àquelas contas maiores que, como metas volantes, marcavam etapas no mantra interminável das Avé-Marias e introduziam, como falsas pausas, a variante nada refrescante do Glória-a-Deus seguido do Pai-Nosso, ansiando então pela terceira meta volante, que nos permitia iniciar com olhos silenciosos (os lábios sempre em ladainha) a contagem decrescente para a meta final, representada pela cruz como num Calvário e na verdade adiada por umas Salve-Rainhas e uns Credos também eles repetidos interminavelmente e ainda intercalados por mais três Avé-Marias (não eram consideradas suficientes as cinquenta anteriores) e — por que não? — um Pai-Nosso, até que, finalmente, com as seis crianças quase desfalecidas e a implorarem progressistas por uma lei da eutanásia infantil, mais pálidas do que as da família Adams, finalmente, dizia eu, a minha mãe enrolava o terço numa das mãos e com um sorriso talvez beatífico dava por concluída a sessão.
Não demorávamos a amar de novo a minha mãe (as crianças esquecem rápido), mas não me recordo de as agruras do terço me terem aberto o espírito como as do ioga me abrem o peito na «saudação ao Sol» que, de estores abertos, ofereço gratuitamente como artista-em-casa aos vizinhos do prédio fronteiro.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Para um argumentário em favor do combate às alterações climáticas
Muito dos que desprezam as alterações climáticas como uma
crendice são religiosos ou acreditam em Deus. A piada poderia ser só esta, mas eu
tenho uma proposta de desenvolvimento. Na hipótese dupla de as alterações
climáticas serem um facto e a existência de Deus também, Ele provavelmente não
ficará contente com a inércia dos humanos na preservação do Seu belo planeta.
Suponho que num contexto religioso esta passividade possa ser considerada um «pecado
por omissão». Assim, com uma probabilidade mesmo que pequena de amuo divino no
horizonte, talvez valha a pena os religiosos alargarem o campo da sua fé e os
outros fazerem a sua aposta de Pascal em relação ao clima.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
«Woodstock na Igreja»
Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares
dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na
sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas
populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa
parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.
A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para
que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do
lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas,
a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco
católica, em suma.
O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi
o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de
crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente
em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras
libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.
É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons
Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa
capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do
concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse
(googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos
quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de
Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.
Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há
séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós
esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma
estrutural estupidez e falta de gosto*.
(*Com a excepção do padre da paróquia.)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Não, não sou Charlie Hebdo
Durante uma boa parte da minha vida adulta escrevi textos críticos e
satíricos de pendor social ou político. Antes tinha feito cartoon (é verdade), primeiro como argumentista, depois, por desistência
do parceiro, também como desenhador. Não eram grande coisa, os meus cartoons, tanto no traço como no humor.
Embora aquilo me desse bastante gozo, não sei se haverá algum por que possa
sentir qualquer ponta de orgulho. Guardo parte deles na garagem, mas há mais de
uma dúzia de anos que não lhes toco. Quando o fizer, provavelmente o papel de
jornal desfaz-se-me nas mãos e não me parece triste nem injusto que isso
aconteça. Inicialmente assinava-os com pseudónimo, mais por timidez e insegurança
(ou por consciência não assumida da sua mediocridade) do que por receio de
represálias. Mas em algum momento devo ter percebido (finalmente) que,
medíocres ou não, era cobardia não assinar os desenhecos e passei a fazê-lo. O
mundo, acertadamente, não se comoveu com o gesto, a Terra não alterou a sua
órbita.
Quando passei para as colunas de opinião, em publicações próprias ou alheias, a ironia e a irrisão acentuaram-se. Ganhei os meus primeiros
inimigos para a vida, mas quase todos inimigos cordiais e até afáveis, devo
dizê-lo.
Por ocasião do III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, se não
estou em erro, escrevi para o extinto Semanário
Transmontano, onde era na altura cronista regular, um texto a ridicularizar
sarcasticamente o evento e as suas pretensões e o director resolveu publicá-lo em
letra gorda na primeira página. O jornal foi distribuído no Congresso e eu
resolvi aparecer no local, com suposta heroicidade, para dar a cara pelas
minhas palavras (ou talvez deva dizer honestamente, para recolher os louros pela boutade). De novo com justiça, a nata
transmontana ali reunida não deu pela minha presença: não houve vaias,
assobios, ameaças à integridade do escriba petulante e traidor. Só o meu
ego saiu ferido.
De resto, tirando ocasionais reacções frouxas, a minha intervenção
cívica através da crítica e da sátira pareceu-se demasiado a um passeio bucólico
pelos bosques. Só a espaços senti ter despertado algum ódio atávico, geralmente
vertido em colunitas azedas, algumas convenientemente anónimas, e apenas em
duas ocasiões as reacções ao que escrevi traziam implícitas ameaças de consequências.
Numa noite de vitória eleitoral de uma facção que eu satirizara nas minhas crónicas,
um militante mais eufórico ofereceu-me o seu olhar de pura raiva hooligan e perdigotou palavras de exemplares democraticidade e fair play (confirmando,
aliás, involuntariamente, o que eu escrevera sobre a seita, mas isso ele jamais
poderia perceber). Pela mesma época, certo figurão resolveu informar uma
audiência (não apenas privada, infelizmente para a sua honra) que os meus
escritos eram razões suficientes para ele mexer cordelinhos e conduzir-me ao desemprego.
Deve ter-se sobrestimado ou arrependido, porque continuei empregado.
É por este triste currículo que me sinto obrigado a confessar ter
sentido uma certa vergonha a acompanhar a minha comoção com a morte dos
cartoonistas e jornalistas do Charlie
Hebdo. A afirmação Je Suis Charlie
que pus como foto de perfil no Facebook é sincera na sua solidariedade, mas é
simultaneamente cabotina, equívoca. Não, não sou Charlie. Eu não tenho a bravura, a grandeza daqueles homens. Eu não
escrevo textos nem faço desenhos corajosos como os daquelas pessoas que
morreram em Paris. Eu não vivo a um passo da ameaça terrorista. As minhas actividades
e as minhas opiniões não me expõem a perigos quotidianos potencialmente fatais.
Poderia passar os dias, aqui neste canto da periferia europeia, a republicar cartoons sobre cretinos e fanáticos muçulmanos,
católicos, judeus, hindus e nacionalistas e provavelmente morrer de velhice, cirrose ou de um
AVC — não com balas ou bombas.
Mas sobretudo não sou Charlie porque com os anos tenho demasiadas vezes
cedido à inércia e à preguiça e deixado de me rir — rir ironicamente, sarcasticamente, ferozmente, acintosamente, publicamente — das pequenas iniquidades
e dos pequenos ayatollahs que neste
país também frutificam. A minha resolução de ano novo deveria ser a de voltar a
rir às gargalhadas com certa regularidade. Enquanto isso não acontecer, vou ali
trocar a foto do Facebook por uma igualmente solidária mas menos pretensiosa.sexta-feira, 13 de junho de 2014
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
terça-feira, 15 de abril de 2014
GPS
Os movimentos parecem indicar tratar-se de mais um yogi, dos que por vezes aparecem no parque, mas a orientação precisa e constante, aquela maneira de encarar um ponto (para mim) indefinido a sudeste, revela outra intenção, outra atitude. Num primeiro impulso, com certa presunção de geógrafo ou de nativo íntimo do curso do Sol em Trás-os-Montes, estou tentando a corrigir-lhe a direcção do olhar, o azimute para onde aponta o rosto. Mas depois reconheço que preciso de consultar outra vez o mapa para localizar Meca, que, na verdade, eu próprio nos últimos tempos ignoro o norte.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
sexta-feira, 14 de março de 2014
O pimba do Senhor
Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a
primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano
que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam
hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora
Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico,
aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs
letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais
louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina:
com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts
um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em
Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria
Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os
gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para,
com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e
broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer
ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear
mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas).
Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos
passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.
P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei
e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.
P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite
Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será /
O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»
sábado, 4 de janeiro de 2014
Depois da freira, os élderes e os reis
Depois da minha boa acção com a freira de ontem, tocaram-me à porta
dois simpáticos élderes (por estes dias as pessoas são todas simpáticas para
mim, coração de queijo amanteigado). Para quem não saiba, elder não é nome, é cargo, função; os rapazes da gabardina e da
gravata com ar anglo-saxónico, mesmo quando escuros de pele, são presbíteros de
um dos ramos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a IJCSUD
para os amigos. Tocarem-nos à porta para falar de Cristo é tão legítimo (ou
mais) quanto os bispos católicos terem freiras que lhes fazem as compras.
Adiante.
Eu queria ignorar os sinais, mas hoje tocaram de novo à campainha e
eram os Reis Magos. Ou alguém em seu nome. No caso, uma anciã com ar de pedinte
e voz de grafonola enferrujada. Não percebi a letra, mas a toada era vagamente
típica das janeiras. Também podia ser uma canção de embalar — a senhora
encostava-se de olhos fechados à parede, reparei enquanto espeitava pelo
olho-de-peixe. E só não dormia porque a pandeireta que abanava nas mãos não
deixava dormir ninguém, nem a própria. Cínicos dirão que se pode ser indigente
mas não tem de se ser estúpido. A senhora terá percebido nas tradições cristãs
uma forma de variar a sua abordagem à clientela piedosa. Ou então era apenas
alguém com idade suficiente para ter saudades de ir por esses quintais adentro
e, não tendo companhia para o caminho, resolveu tirar a pandeireta do prego
(sem metáforas) e aclarar sozinha a garganta. Sem sucesso, nesta última parte.
Para mim, contudo, ela faz talvez parte de um teste ou é sintomática da
forma trôpega que o altíssimo tem de abordar as pessoas. E, se foi teste, eu
falhei. Aos élderes ainda retorqui simpaticamente que compreendia o ímpeto
missionário deles (de resto, premissa cristã que os católicos não cumprem), mas
me considerava servido no que tocava à palavra de Deus. Se estivessem a fazer
entrega de hambúrgueres, talvez pudesse ficar com um para mais tarde. A ela, à
janeireira, não abri a porta, considerando cobarde e abusivamente que a caridade
da vizinha da frente representava todo o condomínio.
Deve haver uma lógica nisto. Enviesada, claro, mas sabemos que Deus
escreve direito por linhas tortas. Ou vice-versa, já não sei. Freiras,
presbíteros, reis magos… Alguém lá em cima quer falar comigo e não tem o meu
número? Falem com a NSA, caramba. Estou no Skype, se for preciso olhar nos
olhos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Blasfemando no fim do jogging
No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa
o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe
apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me
para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade
ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me
revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego)
termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim,
mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina,
que a boa acção me garantia uns pontos no ranking
celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito
blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo
automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por
que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes
freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho
da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de
velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas
criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida
freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o
seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.
Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista
Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática
freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado
que ando delas. Saravá.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deus não é um ET, bolas
Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós
nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta,
com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço
para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim»
ou «não». Acreditas ou não acreditas,
perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a
decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro
grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus
modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma
cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me
mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não
houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais
sensatos.
Entretanto vi um post a
informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal»
e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos
que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite
os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da
sua própria promessa. O post era do site
UFO Portugal e parece que as luzes não
eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim,
um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho
Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um
milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude,
disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento
extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar
com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a
oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no
meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o
verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da
alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante
e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes
literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados
com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser
diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do
Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho
um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º
apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus
continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica,
recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes
de cantores pimba brasileiros.
quarta-feira, 6 de março de 2013
A origem do mito
As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da
Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho
envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói
ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta
branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação
estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se
há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de
novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola,
se para fundar um novo culto religioso.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
A humanidade por detrás do culto
Depois do post “Mulher a rezar” revisitei, agora com atenção, os nichos
religiosos ao fundo da rampa do Calvário de que já falei algumas vezes. Passo
ali todos os dias, de carro ou a pé, mas não tinha percebido que o Cristo coroado
e flagelado não carrega a cruz (está agarrado a uma coluna) e que do outro lado
é a casa de um Santo António com o Menino ao colo, e não de uma Virgem Maria (embora
a de Fátima também esteja presente, num altar subalterno aos pés do franciscano).
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de
refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos
um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos
compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o
barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de
papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas,
vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável
onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios
ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e
os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Botões-de-punho
A Sábado traz na capa um
padre com uma elegância irrepreensível. Parece que se trata do líder do Opus
Dei. Não li a reportagem que a capa ilustra, mas presumo que não é sobre fé,
altruísmo ou bondade, não é sobre preceitos cristãos ou nobres sentimentos
humanos. É talvez sobre dinheiro e poder. Os botões de punho na camisa do
senhor padre alimentam a suspeita.
A propósito daquela peça, o gabinete de imprensa do Opus Dei emitiu um
comunicado: «O retrato do Opus Dei que a reportagem faz lembra, nalguns pontos, a caricatura que Dan Brown esboçou no livro “Código Da Vinci”. A capa da revista é, nesse sentido, sintomática.»
Talvez, talvez a reportagem padeça da síndroma de Brown, não custa
imaginar. No entanto, há questões. O que fazem aqueles botões-de-punho na
camisa do senhor padre? Foram lá postos pela revista?
Certos monárquicos, alguns industriais e muitos yuppies adoram botões-de-punho.
Padres que se querem mostrar iguais aos outros homens vestem calças de ganga,
bebem minis ou jogam à bola. Botões-de-punho não igualizam — distinguem. Distinguem
geralmente quem está do lado do dinheiro.
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