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domingo, 11 de setembro de 2022

Notícias da guerra

Do alto das minhas divisas de antigo furriel de morteiros, achei que as notícias insistentes de que a Ucrânia preparava uma ofensiva no sul só podiam traduzir duas coisas: inépcia (quem, numa guerra, mesmo na era da exposição sem filtros das redes sociais, pré-anuncia as operações militares?) ou engodo. Que o exército russo tenha mordido o isco só pode dever-se a má formação cinematográfica dos seus oficiais superiores ou à falta de espaço para pensamento estratégico num centro de comando militar sobrelotado com o ego e a obsessão do supremo comandante.
É francamente precipitado começarem a circular os memes com a cena do bunker de “A Queda”, mas se chegar a hora nem vale a pena engendrar novos diálogos.

sábado, 30 de julho de 2022

Duas no cravo. Ou na ferradura.

Eu sei que hoje, ao contrário do que aconteceu no resto da História, os leitores preferem que os escritores e os intelectuais se mantenham longe da política. Eu próprio, que não sou um intelectual e talvez nem sequer escritor, perco simpatias de cada vez que molho a pena nas tintas da guerra. É melhor ser poético ou irónico; distante, em todo o caso. Escrever sobre estados de alma ou pores-do-sol; sobre leituras serenas ou quadros bucólicos do quotidiano; fazer piadinhas. Mas o velho editorialista que há em mim não morreu e de vez em quando pede a palavra. Concedi-lhe dois parágrafos.

1. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos, além de uma tragédia assente em mentiras, foi o maior erro estratégico do Ocidente no século XXI. Num momento de boa vontade mundial, depois dos atentados de 2001, em que os EUA poderiam ter aproveitado para purgar a alma e a sua história de manipulação e cinismo, fazem exactamente o oposto, ou seja, o mesmo de sempre, mas a uma escala maior. Associando-se àquela cruzada idiota e obscena, uma parte do Ocidente, ao arrepio da opinião pública, comprometeu a credibilidade das democracias em geral. Bush, Blair, Aznar e Barroso, e todos os que tiveram responsabilidades na farsa, deveriam ter sido julgados. Ainda o poderiam ser.

2. A história sanguinária de Putin começa em 2000 (está documentada na própria imprensa russa) e ao fim de vinte e dois anos ele enceta um movimento de sinal e magnitude pelo menos semelhantes aos de Bush. E contudo os comunistas do mundo — que são em geral boas pessoas, bem-intencionadas, e estiveram na primeira linha das manifestações de 2003 — resolvem desta vez contemporizar. Não é que sejam favoráveis às atrocidades de Putin — é, suspeito, que encaram a ideologia como uma religião e a Rússia como o seu santuário. Nada que vem da pátria ou da casa de Deus é mau: quando muito, é incompreensível para o entendimento humano. Foram necessárias décadas para que muitos intelectuais e plebeus se desvinculassem do mau comunismo soviético e da sua pátria terrena. Alguns nunca o fizeram. Não podem por isso ser acusados de cederem à mística de Putin (não lhes façam essa injustiça), mas de permanecerem devotos a um paraíso artificial, embriagados sem causa. Ou casa.

domingo, 19 de junho de 2022

Entrevista com o vampiro

Mesmo que, na corrida por um lugar no Inferno, os Estados Unidos fossem à frente da Rússia, o regime de Putin, todos hão-de reconhecer, continuaria a ser candidato a um lugar no pódio, pelo que custa ver a forma obsequiosa como Oliver Stone entrevista o novo czar. Não é a cortesia e a hipocrisia diplomática a que os jornalistas por vezes se vêem obrigados se aceitam falar com alguém não recomendável; é uma cegueira e um fascínio que dão vergonha alheia. Putin é adversário dos EUA e isso para Stone é música celestial — e o interlocutor o anjo que a executa. (É certo que a entrevista foi feita há anos, mas mesmo então só um marciano confundiria Putin com um querubim.)
 
Na entrevista, que vou vendo aos pedaços com curiosidade histórica e certa morbidez, Oliver Stone tem longos momentos em que na verdade não entrevista Putin. Não falo das partes em que lhe serve de pé de microfone ou de marcador para realçar as deixas, mas dos momentos em que, sem olhar o entrevistado, faz as perguntas ao intérprete, referindo-se a Putin na terceira pessoa, como se mantivesse com o intérprete uma conversa de inconfidências. Mas nem assim, com esse filtro, com essa forma indirecta, diferida e patética de falar como se o czar não estivesse presente, como se falasse nas costas dele, nem assim Stone é capaz de fazer perguntas verdadeiramente embaraçosas. Não se lhe pedia que o fizesse pelo prazer de embaraçar, mas por sentir uma curiosidade mínima pela verdade.

domingo, 15 de maio de 2022

Analogias

Ouvir Putin em pleno terceiro mês da sua blitzkrieg anunciar uma produção histórica de cereais na Rússia, a melhor colheita de sempre, remete inelutavelmente para os anúncios dos sucessos agrícolas e industriais da Rússia estalinista e da China faminta de Mao.

Em contrapartida, os briefings do porta-voz do exército russo relatando os ataques a alvos militares ucranianos com «armas de precisão» fazem lembrar as tristemente célebres «bombas inteligentes» americanas, com os seus eufemísticos e infames «danos colaterais». Que na epopeia russa nem sequer são mencionados, em todo o caso.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A farsa como história

A «loucura criminosa» de tentar defender uma cidade ou como certas farsas da história se repetem com diferentes protagonistas mas a mesma ignomínia:

«Pouco depois da queda da cidade, Hitler visitou Varsóvia. Deu uma volta pelas ruínas bombardeadas com um grupo de correspondentes estrangeiros. “Senhores”, disse-lhes, “viram por vocês mesmos a loucura criminosa que foi tentar defender esta cidade… O meu único desejo é que certos estadistas de outros países possam ter a oportunidade de ver, como vocês, o verdadeiro significado da guerra.”»

Em Metrópoles, Ben Wilson (p. 317, Edições Desassossego, Editora Saída de Emergência, 2021).

domingo, 20 de março de 2022

Não mais um neonazi para a Ucrânia

O arruaceiro e neonazi Mário Machado, arguido num processo, estava sob medidas de coacção que o obrigavam a apresentar-se quinzenalmente numa esquadra. Uma juíza considerou que podia dispensar o cavalheiro dessa obrigação para que ele pudesse ir gentilmente prestar «ajuda humanitária» para a Ucrânia. Não sei o que me comove mais, se a argúcia cívica da juíza se a sua mundivisão. Um arguido recorrente em casos de violência é dispensado de medidas de coação para, enfim, poder ir exercer a sua violência sem freios. Um neonazi é autorizado por um tribunal português a ir juntar-se às fileiras neonazis na Ucrânia, que, ainda que eleitoralmente pouco relevantes (menos deputados no parlamento do que o Chega em Portugal), são precisamente um dos argumentos do invasor Putin (e estão a ser engrossadas por «activistas humanitários» de todo o mundo). A senhora juíza terá muitos méritos e sobretudo um grande coração, mas alguém lhe devia dar umas aulas de geopolítica. E talvez recordar as de direito penal.
A não ser que a senhora juíza seja, afinal, um pouco maquiavélica e deposite mais esperança no arsenal russo ou no acaso das balas perdidas do que na justiça portuguesa.

sexta-feira, 11 de março de 2022

História da Terceira Guerra Mundial

– breve incursão pelos seus prolegómenos e eventuais impedimentos.

Se lemos desprevenidos “O Fim do Homem Soviético”, da bielorrussa Svetlana Alexievich, autora de obras polifónicas que se tecem a partir da transcrição e justaposição de múltiplos testemunhos, podemos ficar surpreendidos com a quantidade de pessoas que ali manifesta saudades do regime soviético e até repúdio pela “democracia” que lhe sucedeu (antes ainda do neoczarismo de Putin). Na década final do século XX, a boa consciência ocidental projectou os seus sentimentos a Leste e imaginou uma Rússia unanimemente grata pelo "fim da história", decretado por um voluntarioso (e americano) Fukuyama. Mas o descalabro da União Soviética significou então para uma parte dos russos uma pobreza talvez maior do que a anterior, sem lhe trazer mais liberdade. Isto porque a liberdade sem autonomia financeira é algo ilusória, e o controlo dos recursos da Rússia não chegou propriamente a estar nas mãos do povo ou de um regime que zelasse pelos seus interesses. Naquele tempo, sob o olhar do Ocidente — toldado por uma bonomia ingénua e irresponsável ou emoldurado por um sorriso complacente, quando não sugestionado pelo cinismo e o oportunismo capitalista —, uma pequena quantidade de “visionários” russos agarrou a oportunidade e agarrou às mãos-cheias os despojos da URSS, fundando com ou sem consciência disso mas sem escrúpulos a oligarquia que hoje é dona abusiva da Rússia.

Da forma como na Rússia muitos viram a História a desenrolar-se, a Perestroika (e o que lhe sucedeu) tirou-lhes o pouco dinheiro que tinham ou aquele que por momentos esperaram vir a ter. Além disso, ou sobretudo, tirou-lhes o que sobrava do prestígio e do orgulho que a vitória na Segunda Guerra Mundial lhes dera e que lhes serviu de agasalho durante a idade do gelo estalinista e a longa geada da Guerra Fria.
É fácil, por isso, se queremos arranjar argumentos para contornar o problema Putin — como há quem insista em fazê-lo —, encontrar uma analogia psicológica entre a Mãe Rússia, ferida no seu brio e escarnecida pelo Ocidente auto-proclamado “vencedor da História”, e a Alemanha humilhada pelos Aliados no Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial.

Mas compreende-se melhor a invasão da Ucrânia conhecendo também “A Rússia de Putin” (2004), da jornalista Anna Politkovskaya, um regime que é um misto de Estado mafioso e ditadura de género soviético, não um país pronto para ser conduzido ao Armagedon por um führer providencial. Politkovskaya denunciou, com abundantes argumentos, a intensa corrupção e as permanentes violações dos direitos humanos que acompanhavam as movimentações internas e externas das políticas de Putin. E, como que fornecendo-lhe o derradeiro argumento, alguém do perímetro do regime mandou disparar os cinco tiros com que ela foi executada em 2006.

Contudo, se a Rússia de Putin não é a Alemanha de Hitler, é difícil, por outro lado, escapar à Lei de Godwin quando discutimos o que observamos e ouvimos do próprio Putin. É difícil não ver nele uma versão conservada no permafrost siberiano do tipo do bigodinho. Não tendo o mesmo desempenho de histrião nas suas aparições e discursos, o frígido Putin não se revela todavia menos fanático e o seu fantasioso quadro mental e o seu ressentimento não são mais sustentados do que os da besta ariana.

Ao mesmo tempo que governa com um desprezo profundo pelos seus concidadãos (que manda prender aos milhares pelo crime de terem opinião), invoca a protecção das minorias russas ou o regresso das suas terras à Mãe Pátria como razões para anexar territórios e invadir países. Mas ao argumento hitleriano da Rússia humilhada, Putin (acolitado pelos saudosos da utopia comunista que ainda não perceberam que o comunismo na Rússia acabou há muito) junta o da Rússia “ameaçada”. A Europa Ocidental, na transição do século, conquistou de facto território outrora sob a pata da URSS e aproximou paulatinamente as suas fronteiras, e com elas as da NATO, às da Rússia. Mas a Europa não conquistou esse território militarmente, antes coquetemente, pela sedução natural dos seus atributos: uma prosperidade relativamente pacífica e livre. As nações da cintura da ex-URSS não se sentiram conquistadas no sentido bélico, mas no sentido passional. Desejavam a vida europeia e voluntariavam-se ardentemente para a viver. O verdadeiro pecado da Ucrânia não foi atentar contra o Donbas russófilo (ainda que possa ter atentado), mas não querer mais o abraço incestuoso e de urso peludo da irmã Rússia.

Este “charme” europeu, a que a linguagem castrense da política e dos media preferiu chamar soft power, por contraponto ao hard power das botas cardadas americanas, corrompeu-se, no entanto, impedindo uma versão mais benevolente do primeiro quartel do século XXI e quiçá de todo o futuro — e abrindo a porta aos argumentos putinescos —, quando alguns líderes europeus, ao arrepio da vontade dos seus próprios povos, resolveram dar cobertura ao acto caprichoso de um presidente americano que decidiu, com a mesma prepotência fútil e semelhante falsidade de argumentos, invadir o Iraque.
Aquilo que a cimeira dos Açores significou para o resto do século XXI (com mais alguns passos em falso posteriores) foi um golpe na frágil expectativa das boas intenções, senão ocidentais, pelo menos europeias. De galã desejado e honrado, o Velho Continente voltou a ser visto como um gigolô que anda à boleia e se aproveita ilegitimamente de outros países. Não admira que mesmo dentro de fronteiras muitos vejam assim validada a sua teoria (habilmente aproveitada por Putin) de que a NATO não representa a legítima defesa de um bloco de países mas uma desnecessária ameaça a uma nação apesar de tudo nobre e sobretudo depositária de uma saudosa glória.

Não será quiçá suficiente para deter os ventos de guerra, mas valerá a pena ilibar o povo europeu no tribunal da História recordando que, da mesma forma que agora se manifesta contra a invasão da Ucrânia, se manifestou então contra a Invasão do Iraque.

A Terceira Guerra Mundial, se aceitarmos o pessimismo proposto pelo título deste texto, está por enquanto adiada, à custa da Ucrânia, como a Segunda o foi à custa da Checoslováquia. Há talvez algo de chamberlainesco, de adiamento, na forma como se procura evitar o envolvimento de meios da NATO na protecção da população civil ucraniana, mas isso não é necessariamente um erro. Talvez Chamberlain precise de ser reabilitado, como de alguma maneira o tentou fazer o filme “Munique: À Beira da Guerra”, pondo-o no papel de alguém que prefere ficar mal na História e adiar a guerra para quando a Inglaterra a possa travar. É certo que a História nos diz que ele podia ter preparado a Inglaterra mais cedo, mas a História é escrita pelos vencedores e no caso da Segunda Guerra Mundial foi-o tão estritamente que o seu autor, Churchill, até recebeu o Nobel da literatura por tê-la escrito.

O adiamento que aqui se valida não é o que permita aos antagonistas da Rússia de Putin prepararem-se para a guerra (ainda que tal seja prudente), mas o que permita que os conterrâneos do neoczar o derrubem. Não vale a pena, na era nuclear, tentar perceber até que ponto um Putin acossado é igual a um Hitler acossado. Vale a pena, sim, ter a opinião do mundo e sobretudo a opinião dos russos contra o déspota que os governa. Adiemos o momento de fornecer poder balístico à Ucrânia, mas forneçamos argumentos de rebelião ao povo russo. (A munição para um sniper também serve.)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Telegrama de guerra

A Rússia de Putin está a cometer um acto vil, criminoso, indesculpável.

O revisionismo histórico de Putin faz parte do arsenal demagógico de um autocrata «clássico» — as tentativas de o compreender são mera nostalgia de quem ama a Rússia como um primeiro amor pueril, mesmo que ela seja liderada por um ogre e caminhe como um ogre.

As tentativas de «compreender» as acções da Rússia de Putin têm um equivalente óbvio e embaraçoso nas tentativas de «compreender» as acções da América de George W. Bush e as armas de destruição massiva no Iraque. É o mesmo tipo de idiotia útil voluntária por parte do mesmo tipo de indefectíveis.

O problema, evidentemente, não é haver demasiada NATO à volta da Rússia, mas haver demasiada democracia à volta da Rússia.