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terça-feira, 9 de julho de 2024

Hawk-Eye

Hawk-Eye é um sistema computadorizado presente em vários desportos que utiliza câmaras e sensores para rastrear visualmente a bola e exibir imagens em movimento da trajectória estatisticamente mais provável. Mandou para o desemprego os juízes de linha dos Open da Austrália e dos Estados Unidos. No torneio de Wimbledon, que agora decorre e ainda emprega olhos humanos, é usado em replay para tirar teimas — tornando por isso a tarefa dos juízes de linha uma fonte de angústia perante a ameaça permanente de julgamento e fazendo-os nos dias maus invejar a sorte dos congéneres australianos e americanos.
Mas a inteligência artificial também tem problemas existenciais e pode ver-se obrigada a combater as suas próprias aflições, como registei no conto abaixo durante o Australia Open de 2023.


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A ANGÚSTIA DO HAWK-EYE ANTES DO PRIMEIRO SERVIÇO


«No seu primeiro dia no emprego, depois dos meses de estágio, Hawk-Eye estava nervoso. O caso não era para menos, tinha uma grande responsabilidade: ia ser juiz num dos maiores torneios do mundo. Na verdade, como boa máquina que era, ia desempenhar sozinho as funções de mais de meia dúzia de juízes humanos, e teria uma autoridade que ninguém disputaria. Mas isso, que o enchia de vaidade, era também a fonte da sua angústia. É que, a despeito de o regulamento do torneio não prever qualquer revogação das suas decisões — Hawk-Eye passara com distinção em todos os inúmeros testes e beneficiava daquela velha superstição humana de que os computadores não falham —, ele teria de deixar exibir nos ecrãs do estádio, de forma não vinculativa, para mero benefício das emoções do jogo, a repetição em slow motion e close up das bolas que, apesar da sua decisão soberana, dividissem opiniões quanto a terem ou não batido do lado certo da linha.

Enquanto no court se desenrolavam os rituais que habitualmente precediam os jogos, Hawk-Eye deu por si a roer os chips, como um novato. Tinha de pensar rápido, muito rápido. O que não representava nenhuma dificuldade para si, bem vistas as coisas: ele era por definição um dos processadores mais rápidos do mercado de trabalho.

Uma vez que era ele também quem estava encarregado de gerir a gravação e a reprodução de todas as imagens do jogo e tinha acesso ao enorme arquivo de jogos televisionados, treinos e testes com que o tinham amestrado para a profissão, Hawk-Eye tomou num milionésimo de segundo uma decisão pouco ética mas que deixaria todos, não só ele, descansados quanto à fiabilidade dos seus juízos. Procurou e encontrou — e quando não encontrou exactamente o que queria fez algumas montagens rápidas como um editor de efeitos especiais de cinema — arquivos com bolas que batiam em quase todos os centímetros quadrados do court, vindas de todos os ângulos possíveis e com toda a variedade de spin e velocidade que uma geração de tenistas conseguira até à data imprimir nas suas pancadas.

Quando o jogo começou Hawk-Eye estava já senhor da situação. Sabia que, se em alguma jogada ele próprio tivesse dúvidas quanto à decisão que seria obrigado a tomar num piscar de olhos, poderia exibir nos ecrãs e video walls do court uma repetição de arquivo (ou saída da mesa de montagem) que corroborasse a sua chamada.

Nem precisava de ser muito escrupuloso na mise-en-scène: por razões de gosto dos organizadores do torneio, as repetições deviam ser apresentadas com uma estética de simulação computadorizada, e, convenhamos, não há nada mais distante da realidade do que uma simulação computadorizada. De todo o modo, seria certamente necessária outra máquina como ele para detectar a fabricação, se em algum momento tivesse de recorrer a uma. Mas quanto a isso Hawk-Eye estava descansado, contava em última análise com a cumplicidade da sua tribo.»

RAA

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

A angústia do Hawk-Eye antes do primeiro serviço

No seu primeiro dia no emprego, depois dos meses de estágio, Hawk-Eye estava nervoso. O caso não era para menos, tinha uma grande responsabilidade: ia ser juiz num dos maiores torneios do mundo. Na verdade, como boa máquina que era, ia desempenhar sozinho as funções de mais de meia dúzia de juízes humanos, e teria uma autoridade que ninguém disputaria. Mas isso, que o enchia de vaidade, era também a fonte da sua angústia. É que, a despeito de o regulamento do torneio não prever qualquer revogação das suas decisões — Hawk-Eye passara com distinção em todos os inúmeros testes e beneficiava daquela velha superstição humana de que os computadores não falham —, ele teria de deixar exibir nos ecrãs do estádio, de forma não vinculativa, para mero benefício das emoções do jogo, a repetição em slow motion e close up das bolas que, apesar da sua decisão soberana, dividissem opiniões quanto a terem ou não batido do lado certo da linha.

Enquanto no court se desenrolavam os rituais que habitualmente precediam os jogos, Hawk-Eye deu por si a roer os chips, como um novato. Tinha de pensar rápido, muito rápido. O que não representava nenhuma dificuldade para si, bem vistas as coisas: ele era por definição um dos processadores mais rápidos do mercado de trabalho.

Uma vez que era ele também quem estava encarregado de gerir a gravação e a reprodução de todas as imagens do jogo e tinha acesso ao enorme arquivo de jogos televisionados, treinos e testes com que o tinham amestrado para a profissão, Hawk-Eye tomou num milionésimo de segundo uma decisão pouco ética mas que deixaria todos, não só ele, descansados quanto à fiabilidade dos seus juízos. Procurou e encontrou — e quando não encontrou exactamente o que queria fez algumas montagens rápidas como um editor de efeitos especiais de cinema — arquivos com bolas que batiam em quase todos os centímetros quadrados do court, vindas de todos os ângulos possíveis e com toda a variedade de spin e velocidade que uma geração de tenistas conseguira até à data imprimir nas suas pancadas.

Quando o jogo começou Hawk-Eye estava já senhor da situação. Sabia que, se em alguma jogada ele próprio tivesse dúvidas quanto à decisão que seria obrigado a tomar num piscar de olhos, poderia exibir nos ecrãs e video walls do court uma repetição de arquivo (ou saída da mesa de montagem) que corroborasse a sua chamada.

Nem precisava de ser muito escrupuloso na mise-en-scène: por razões de gosto dos organizadores do torneio, as repetições deviam ser apresentadas com uma estética de simulação computadorizada, e, convenhamos, não há nada mais distante da realidade do que uma simulação computadorizada. De todo o modo, seria certamente necessária outra máquina como ele para detectar a fabricação, se em algum momento tivesse de recorrer a uma. Mas quanto a isso Hawk-Eye estava descansado, contava em última análise com a cumplicidade da sua tribo. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Sportsman

Não sou apreciador da atitude de Djokovic no court. Talentos desportivos à parte, o tipo é muitas vezes irritante, na sua ridícula sobranceria ou nas posturas caprichosas. Prefiro, de longe, um Federer, um Wawrinka ou um Thiem a perderem de forma galharda do que um Djokovic a ganhar brilhantemente. Gosto de desportistas que sejam igualmente sportsman. Dentro e fora do court.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

O ténis como terapêutica efémera

Contra qualquer previsão que mentes sóbrias alguma vez pudessem levar a sério, subscrevi neste Julho a Sport TV. Sim, imaginem.
O que aconteceu foi que, assacado por males de corpo e espírito, receitei a mim mesmo o torneio de Wimbledon, que tanto quanto percebi só os canais daquela estação transmitiam.
Talvez tenha depositado esperanças, além de nos efeitos revitalizadores do fascínio desportivo, em memórias infantis e maternais de roupa branca a corar ao sol sobre a erva dos prados.
Depois reforcei a terapêutica e assisti também a jogos dos torneios de Hamburgo, Båstad, Gstaad e Umag (à sua maneira igualmente evocativos da infância, mas neste caso remetendo para imagens, menos angelicais, de calções sujos e peúgas empastadas de pó e suor).
Tudo em vão. Um tipo atinge uma espécie de equilíbrio homeopático enquanto a bola vai e vem, mas no final a vida real regressa e os vinte e cinco euros da assinatura não. Vou cancelá-la. A assinatura. 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Wawrinka, o herói trágico

O ténis teve os seus Fab Four, a que chamaram na verdade Big Four, com Federer, Nadal, Djokovic e Murray. As lesões e a baixa de forma de Andy Murray abriram duas narrativas míticas sucedentes: a redução da elite a um Big Three ou a mais controversa inclusão de Stan Wawrinka num novo Big Four. O próprio Wawrinka afirmou, e não com falsa modéstia, que não tinha a mesma consistência dos restantes.

Uma destas noites estive a ver um jogo com Wawrinka no open da Austrália e confirmei: Wawrinka é o meu tenista preferido. O tenista suíço perdeu os primeiros dois sets, recuperou como faz tantas vezes ganhando os dois seguintes, levou o quinto set ao tiebreak, que esteve a vencer por 6 a 1, e perdeu por 9 a 11.

Wawrinka é um campeão talhado para sofrer, serenamente, e muitas vezes perder. É o herói trágico por quem torço, porque só ele traz a emoção da luta, do sofrimento. Nadal ou Federer, mais campeões do que Wawrinka, são emocionalmente monótonos, porque o mais provável é que ganhem, perder seria a surpresa, é sempre a surpresa, até com o quase quarentão Federer. Se vejo um jogo de Nadal é com esperança que perca, ou seja, que haja algo emocionante num jogo seu. Torço sempre pelo adversário.

Nadal pode fascinar pela energia obsessiva e vencedora, Federer pela técnica e a graciosidade, igualmente vencedoras, mas só Wawrinka me põe incondicionalmente do seu lado, a partilhar com ele os perigos, as muitas frustrações — e a verdadeira alegria da vitória, porque rara. Ou mais rara. Assistir a um jogo dos primeiros pode ser uma experiência estética ou dar-nos o conforto de estar do lado dos grandes, dos fortes — mas Wawrinka permite-nos isso e a incógnita do resultado final, a adrenalina extra que essa expectativa segrega. Se o desporto é catarse para o público, Wawrinka oficia-a melhor do que ninguém. Wawrinka interessaria mais a Aristóteles e a Shakespeare. 

Wawrinka não é um herói de Hollywood, antecipadamente vencedor. É um herói trágico. Um herói trágico que se perde não pelo seu orgulho, como em muitos dramas gregos, mas pela sua humanidade. Não é um deus, mas um homem como nós. Um pouco melhor que nós. Um grande tenista.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

As aventuras dos sete: noites de parkour

Quando nos primeiros meses da pandemia gastei longas noites a assistir a partidas de ténis em reposição nos canais de desporto, não hesitei em escrever sobre a experiência. Nas últimas semanas dediquei um número de horas equivalente a ver no computador vídeos de um grupo de parkour e até agora só timidamente aflorei o assunto. Terei achado, à sombra de Foster Wallace, que o ténis é um bom tema para ensaios literários mas o parkour não? Serão os Storror menos nobres do que Federer?

Há algo de adolescente, divertido, irreverente e indomado nos Storror que não há no ténis profissional, por mais joviais e imaginativos que sejam os jogadores. Além disso, há uma exposição ao risco que o ténis nem sequer sugere. O pior que pode acontecer a Federer num jogo é perder uns milhares de euros — os rapazes do parkour, embora igualmente metódicos e conscienciosos no seu treino, arriscam-se com alguma frequência a perder a vida.

Há assim mais adrenalina, suspense e material para pesquisa sócio-antropológica em alguns vídeos de parkour do que numa final à melhor de cinco entre Nadal e Federer. E nem sequer há menos técnica, coreografia ou beleza de movimentos, o esplendor estético não é menor.

Será que o meu interesse nos vídeos são as proezas atléticas e desportivas? O fascínio de ver corpos ágeis e treinados em acrobacias mirabolantes, a superar obstáculos, esforços ou situações limite? Além dos vídeos dos Storror, no início da minha curiosidade espreitei filmagens de outros atletas ou grupos e as proezas, por vezes não menos espantosas, não me mantiveram cativo como a série organizada daqueles sete ingleses. Ali encontrei não apenas façanhas próprias da elite do parkour mas também formas de filmar (e montar as filmagens) que constroem uma narrativa, pequenas histórias. Os vídeos, além dos momentos de parkour propriamente dito, mostram as “personagens” nas deslocações para os locais, em convívio, interagindo com o público, em ensaios, planeamento e processos de decisão que conduzem às suas aventuras (pelo mundo fora), e tudo isto é filmado com certo interesse documental, artístico e cinematográfico. Michael Bay, no filme de acção 6 Undergound, que fui ver na Netflix como extensão das noites de parkour, aproveitou os talentos do grupo não apenas para cenas com duplos, algumas inspiradas em proezas de vídeos específicos dos Storror, mas também para a filmagem de algumas partes segundo as técnicas do grupo, inclusive empregando brevemente alguns dos seus elementos como camaramen ou consultores de movimento de câmara.

Com frequência, os vídeos não são de expedições a territórios e locais onde o parkour se alia ao fascínio e exotismo de paisagens ou skylines urbanas internacionais, mas de treinos em “spots” caseiros, nas cidades ou áreas suburbanas da Inglaterra. O meu interesse não diminui. Uma parte do meu encantamento permanece viva, porque nestes vídeos entre viagens ou entre grandes desafios continuam em cena os caracteres dos sete.

Poderia dizer-se, sem falhar tudo, que aqueles vídeos protagonizados e filmados por pós-adolescentes e divulgados semanalmente despertam a nostalgia de livros de aventuras como Os Cinco e Os Sete ou séries televisivas como Os Pequenos VagabundosVerão Azul. No post que anteriormente escrevi sobre este tema, contei que um dos atletas do grupo lia Tarzan, o que é quase uma tautologia e remete como se de propósito para o espírito daquelas aventuras.

Mas como responder a acusações de um certo voyeurismo neste interesse pelas peripécias, diálogos, interacções e exibições dos sete de Horsham se não invocando a defesa de que é um interesse partilhado por milhões de seguidores no Youtube e, no meu caso, matizado por uma alegada e para aqui muito útil vocação literária?

Nos outros canais de Youtube que nos últimos anos dei por mim a seguir (Porta dos Fundos e Walk Off The Earth), o lado humano e social dos intervenientes tornou-se a certa altura tão importante quanto os próprios vídeos com os sketches (no primeiro caso) ou as músicas (no segundo). A consciência deste potencial interesse por parte dos seus seguidores fez com que o Porta dos Fundos tivesse criado canais paralelos com making ofs, erros de gravação, entrevistas e conversas entre os participantes nos vídeos, de um lado e outro da câmara. Os melhores fãs daquela produtora acompanhavam assim não apenas os sketches cómicos semanais mas também um pouco do dia-a-dia daquele grupo de pessoas.

Da mesma forma, os Walk Off The Earth (WOTE) — que me interessaram menos pelas músicas originais que compunham do que pelas versões que faziam de temas de outros artistas, os vídeos engenhosos que encenavam e filmavam e a versatilidade técnica na música e nas filmagens — disponibilizavam também making ofs, conversas e imagens de bastidores que mostravam os seus elementos na intimidade da vida em grupo.

O fenómeno dos reality shows não será alheio a esta ideia generalizada de que as pessoas, para além da sua arte, interessam aos espectadores, e os artistas destes canais, como os concorrentes do Big Brother, ainda que exibindo muito menos da sua intimidade, moldam decerto a personalidade a ser visionada. Por isso, ao mesmo tempo que me forço a acreditar que há nos rapazes do Storror algo de especial, dou por mim às vezes a duvidar metodicamente da permanente joie de vivre, da disciplina, da serenidade, da inocência, da candura, da cordialidade, da gentileza que exibem sempre nos seus vídeos. Tanto mais que pelo menos um deles tem cara e ar de clássico rufia irlandês e os outros exibem a espaços expressões de uma malícia menos infantil.

Se agissem como um gangue, comportamento que na minha ignorância caluniosa inicialmente esperava ver num grupo de parkour, é pouco provável que os seguisse. Tenho os meus momentos de imersão no bas-fond da Internet, contudo, em prejuízo da pesquisa literária mas talvez em benefício do meu cadastro online e da minha sanidade mental, não adopto rotinas quando há violência ou estupidez envolvida.

Nos Storror, como nos membros do Porta dos Fundos e dos WOTE, julgo por vezes apanhar traços de uma geração e de uma nacionalidade, de um grupo ou classe social. Observo a “vida selvagem” online usando a mesma curiosidade literária que me faz escutar as conversas dos outros no café. Mas seria enveredar por eufemismos ou equívocos escusados proclamar que é esse o principal motivo para voltar regularmente aos vídeos. Como aconteceu com o ténis, há também associada a este hábito uma necessidade de alienação, de entretenimento. Com os Storror talvez prossiga afinal o gosto adolescente de viver aventuras por interpostas personagens.

O que é certo é que por vezes já não sei se nestas incursões pelo Youtube estou a desempenhar a minha função ambiciosa no observatório da humanidade se a acompanhar com periodicidade regular um grupo de personagens de ficção. Recordo no entanto que, quando a 31 de Dezembro de 2018 soube que o Beard Guy, um dos músicos/personagens dos WOTE, tinha morrido subitamente, experimentei uma comoção genuína.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Roland Garros ou como nada ficou igual depois da pandemia

Está aí Roland Garros e eu, que para esta rentrée me tinha comprometido com tanta coisa séria, só anelo por ver cada um dos jogos de todas as rondas do torneio de Paris. Têm razão os negacionistas: o confinamento lavou-nos o cérebro, sequestrou-nos o espírito, inventou a procrastinação.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Profissão de fé

Não costumo, senão por raros descuidos, trazer para o blogue assuntos profissionais. Não porque menospreze o que faço para ganhar a vida ou porque me dedique com ligeireza à profissão (por atavismo, não o saberia fazer mesmo que fosse açougueiro, au pair ou pintor de marinas), mas porque aprecio que não se contaminem mutuamente um emprego apesar de tudo (e dos anos) circunstancial e uma vocação mais antiga, idiossincrática e inelutável que em parte se cumpre justamente nesta plataforma online.

Esclareço já, todavia, para poupar entusiasmos e equívocos, que a vocação que se cumpre no blogue é agora sobretudo a do disparate gratuito. Uma consulta ao índice (e aos dicionários) revelará que o que se trata aqui — não por conveniência ou decisão mas como pura fatalidade — é de procrastinar, tergiversar. Escrever espontaneamente, sem fundamento (e sem honorários!) sobre qualquer coisa excepto a que importaria. Ténis é só o exemplo mais recente.

Invocar Bartleby é coisa pedante, mas algures dentro de mim habita um tipo que, perante as inquietações e as grandes questões do nosso tempo, que deveriam ser assunto neste blogue, e perante a tentativa do novo grande romance português, está permanentemente a dizer: «I would prefer not to». E lá sai, ao invés de reflexões ponderosas ou literatura original, mais um disparate sobre homens em calções e mulheres em minissaia atrás de bolas amarelas.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Ténis em Tempelhof

Depois do Adria Tour, que consagrou (e internou) Djokovid, também a Alemanha teve o seu torneio de exibição, jogado em duas partes e dois pisos: relva e asfalto. A primeira parte decorreu previsivelmente no relvado de Frau Steffi Graf e a segunda, após um mal entendido que ninguém quis desfazer, teve lugar num aeroporto. Poderia ter sido nos autódromos de Nürburgring ou Hockenheimring, mas alguém interpretou de forma ainda mais particular o conceito de «piso rápido» e a escolha acabou por ser Tempelhof (Tegel e Schönefeld não estavam disponíveis).
Os jogos decorreram num hangar, é certo, porque a Alemanha é bastante chuvosa mas não tão eficiente ou perdulária que pudesse cobrir um court na pista central (mesmo que desactivada) num prazo tão curto e por motivo tão efémero.
Tratando-se de um torneio em tempo de pandemia, condicionou-se o número de espectadores e o número de juízes de linha. Dos primeiros permitiram-se duas centenas no «estádio»; dos segundos, nenhum. O árbitro de cadeira foi coadjuvado por um sistema de karaoke ou de video game, não deu para perceber bem. Talvez houvesse nos bastidores juízes de linha sentados em frente a ecrãs, com camisas e chinelas havaianas, a gritar em off para o roufenho sistema de som do hangar, mas o mais provável, num tempo de distância social e inteligência artificial, é terem encarregado um computador desse serviço, deixando-o seleccionar vozes irritantes da Play Station para os brados de «out» e «fault».
O resultado foi que se criou num hangar de Berlim o ambiente tropical do Open da Austrália, com as vocalises técnicas a lembrarem a ruidosa fauna avícola de Melbourne (como se Hitchcock estivesse responsável por assinalar cada erro, forçado ou não forçado).
Se Nadal tivesse ido a Berlim, ficaria decerto incomodado com a banda sonora (evocativa do último Grand Slam perdido) e sobretudo com a provocante ideia de dispensarem os apanha-bolas de tratar das tolhas dos tenistas. Teria, em todo o caso, um avião à porta para sair sem dar satisfações a ninguém.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Põe mais erva nisso

Nos últimos dias transmitiram-se pela primeira vez na temporada jogos em relva, ficando assim a Eurosport livre da acusação de preconceito anti-vegan. Contudo, o piso estava tão gasto, com tão pouca relva e tanta terra à vista na zona dos serviços, junto à linha, que, num leve despertar entre sets, suspeitei por instantes estar a ver futebol e estranhei, a bola, em primeiro lugar, mas sobretudo não se lançar o guarda-redes com as mãos ambas para a apanhar.

sábado, 11 de julho de 2020

Análise da final de 2019 do Open dos Estados Unidos

Ontem repetiram a final épica do Open dos Estados Unidos entre Nadal e Medvedev. Espreitei outra vez os pontos finais só para ver a raiva e o olhar maníaco de Nadal perante a possibilidade de perder o jogo, frente a um Medvedev quase zen, por comparação.

Quando vi pela primeira vez esta final já sabia o suficiente de ténis para perceber que não tinha um favorito. O que é raro. Geralmente torço pelo mais fraco, desde que mostre talento, empenho e seja gentil. (Quando joga Federer é por ele que torço sem hesitar, ainda mais nesta fase da carreira, em que já soma frequentemente aquela primeira condição às três habituais virtudes.)

Nadal é a opção óbvia dos comentadores e dos fãs quando se perguntam entre si quem é o favorito — logo, não é a minha. Também porque me incomoda o seu ar caprichoso, de vítima, de injustiçado quando as coisas não lhe correm bem, perplexo por a realidade nem sempre obedecer ao seu reinado, para o qual o treinaram como príncipe predestinado.
Medvedev é frequentemente ainda mais parvo, talvez porque não há muito que deixou de ser adolescente, mas naquela final de 2019, durante o tempo a que assisti, estava a portar-se com uma nobreza e um estoicismo comoventes. Juro que na primeira vez em que vi o jogo quase lhe dei o meu apoio.

Federer — que foi apanha-bolas, dizem-me, e talvez por isso —, é o mais aristocrata dos jogadores, não no sentido snob e glamoroso, mas na consciência serena da sua superioridade, que lhe permite distinguir-se pela cortesia e não se deixar perturbar por ocasionais infortúnios. Se fosse personagem de Proust, era um Guermantes, pelo lado da duquesa.

Ora, neste déjà vu, os meus olhos, não por tédio, focaram-se de novo nos apanha-bolas, na sua postura à beira do court. Lembraram-me os pedintes que vi pela primeira vez em Praga há mais de uma década, ajoelhados e inclinados para a frente, apoiando-se nos cotovelos com as mãos em prece ou estendidas no solo. Uma postura de desespero ou fervor religioso que visa comover ainda mais os transeuntes, tocá-los pela mostra de abnegação, pela dimensão espiritual.
Talvez os apanha-bolas nos Estados Unidos queiram demonstrar igual fervor no exercício da suas tarefas, dar provas de total entrega. Ou talvez tenha sido só uma ideia palerma da organização, assente numa qualquer noção errada de motricidade e aerodinâmica. Se o objectivo fosse ter os apanha-bolas prontos a saltar para o court como se impulsionados por mola que se solta, talvez pudessem ter-lhes dito que bastava ou melhor se adequava um só joelho no chão e lhes pudessem instalar uns blocos de partida como os que se colocam nas pistas dos sprinters. Assim, sem rigor técnico e com alusões místicas, sugerem, mesmo que apenas por nescidade, a subalternização, a servidão a que os moços e as moças devem sujeitar-se, quais criados de quarto, como referi no primeiro post desta série.

A rapidez dos apanha-bolas é importante para não interromper o ritmo do jogo, defende-se. Mas talvez, nesse caso, e para evitar más interpretações, devessem contratar galgos, e juntarem aos habituais gritos dos juízes de linha a vocalização «busca, busca». Havia mais vezes bolas novas, é provável, mas isso os jogadores se calhar até agradeciam.

De resto, a excessiva disponibilidade sugerida pela forma como se apresentam ou são apresentados os apanha-bolas pode levar à rudeza dos jogadores, como no célebre episódio de Fernando Verdasco, que pôs em debate a continuação dos apanha-bolas também como porta-toalhas (toalheiros vitesse, charriots de competição).

Aqui convém esclarecer que, quando Federer se manifestou contra a proposta de os apanha-bolas deixarem de entregar toalhas aos jogadores, não estava a ser snob ou desleal, mas a ser cortês — com Nadal. «A ideia de os apanha-bolas nos ajudarem com essa função da toalha», disse Federer, «é tornar o jogo mais rápido. Se eles deixarem de nos dar as toalhas vai perder-se muito tempo. Há jogadores que suam mais e assim vão perder mais tempo.» Ou seja, há jogadores que vão ter ainda mais penalizações nos serviços, não é Nadal?

Proust: 10/07/1871


Se a pneumonia não tivesse dado cabo dele, Marcel Proust seria hoje uma curiosidade de feira com 149 anos. Tendo morrido quando lhe competia, ficou apenas como uma curiosidade literária: o tipo que escreveu 3.500 desnecessárias páginas. (Noto que teria garantido um lugar no Guiness em qualquer dos casos.)

Só reparei na data, atrasado, porque o excelente António Gregório a referiu no Coração Acordeão*. O mesmo António, autor de duas obras imperdíveis (O Condómino e Documentário), forneceu-me também uma capa para a temporada. As leitoras e os leitores entenderão que sob esta imagem se reúnem os três tópicos que mais me ocupam desde Março, mais casaco, menos casaco.

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*https://antonio-gregorio.tumblr.com/

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Da nostalgia à alienação

Devo considerar uma feliz coincidência ter-me atirado à obra magna de Marcel Proust na mesma altura em que comecei a ver com regularidade jogos de ténis?
O termo «feliz» soa-me no contexto em que vivemos inconveniente, impróprio. Como se perante as dificuldades de tantos e um futuro que se anuncia deprimente eu alardeasse uma isenção ou privilégio burgueses.
Já aqui expliquei que o ténis me surgiu como uma terapia e o Proust como uma oportunidade. O primeiro porque, precisamente, os tempos difíceis e deprimentes pediam narcóticos; o segundo porque o enclausuramento e a inactividade sugerem leituras longas.
Há porém, de facto, uma relação feliz entre o ténis e Em Busca do Tempo Perdido. Ela assenta, não nas referências (meramente circunstancias) ao desporto na obra, nem numa inexistente sugestão literária no jogo*, mas na elegância e na jovialidade que partilham, misto de Arcádia e Olimpo, infelizmente acessíveis apenas a uns poucos.
Mas o que encontro de verdadeiramente feliz na conjugação astral destes dois itens, ténis e Recherche, nem é a mera evocação permanente desse território quase mítico das Pedras Salgadas (que muitos outros assuntos também operam em mim), onde alguns jogavam ténis e tinham uma existência inefável de aristocrata, e sim a oportunidade que me fornecem de sintetizar, com verosimilhança, um mundo alternativo em que na verdade não vivi.
Se viram a série Dark, sabem que um acontecimento pode criar mundos paralelos ou simultâneos, de resto preconizados pela física quântica em geral e pela zoologia de Schrödinger em particular.
Avançar de madrugada para mais uma prova de Roland Garros ainda a digerir umas páginas de Proust é esse acontecimento que faz com que, quando adormeço, regresse às Pedras — mas não àquela terra onde eu era basicamente néscio e sobretudo teso. Alimentada a Proust e ténis, a minha nostalgia sonâmbula não é menos eufórica ou fanática do que a que ilustrei no post anterior — mas passou a ser mais criativa e inimputável. Já não se trata de ter saudades de ser adolescente nas Pedras dos anos oitenta, mas de reinventar as Pedras, os anos oitenta — e o adolescente.
(Ia dizer que se trata, em certos momentos, de frequentar Balbec sem nenhum juiz de cadeira por perto, mas isso é afinal demasiado próximo da realidade.)

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* Excepto para David Foster Wallace.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ténis e tontarias

Isto da pandemia tem as suas vantagens. Ao diminuir-nos as distracções fora de casa, aumenta as possibilidades de ler, escrever e desenvolver obsessões patetas. Noto que tenho cumprido com certo denodo estas três premissas: teimo no Proust, escrevi posts numa cadência que há muito não tinha — e boa parte deles foi uma abordagem insistente e tonta a algo que nunca me tinha interessado muito, o ténis.

Se alguém por hipótese improvável e insanidade temporária quiser ler o conjunto de enfiada, basta descer a coluna da direita e clicar na etiqueta «Ténis». (Não clique na etiqueta «Tontarias», porque lhe aparecem demasiados posts. «Tontarias» é, literalmente e por larga maioria, a etiqueta que mais classifica o que escrevo no blogue, não sei se por uma soma patológica de momentos de modéstia excessiva se por inescapável honestidade.)

domingo, 5 de julho de 2020

A persistente tradição de guardar bolas para o segundo serviço

A Eurosport e eu já estamos na fase de repetir jogos, pelo que chegou a altura de acabar com a Covid-19 ou, pronto, de adquirir direitos de retransmissão de outros torneios. Wimbledon, por exemplo, nunca aparece na grelha. Consequência do Brexit? Preconceito anti-vegan?

Seja como for, nesta altura já trocava uma partida do Grand Slam por um qualquer joguito não visto, nem que fosse do Estoril Open.

A fraca consolação de rever jogos reside no ensejo de repararmos (ainda mais) em aspectos não desportivos da modalidade, alguns bem intrigantes. O vestuário, por exemplo, é no ténis tema inesgotável. Podemos ter em relação a ele, particularmente o feminino — e consoante o espectro dos nossos interesses (ou o grau da nossa depravação) —, uma abordagem apenas curiosa, fashion geek ou voyeur. No limite da perversão, a julgar por algumas pesquisas no Google e tendências pornográficas dos anos 80, um jogo de ténis feminino pode corresponder, em termos de batimentos cardíacos do espectador, a um filme erótico.

Quando tentei perceber por que não é vulgar as tenistas usarem calções com bolsos — preocupado exclusivamente com aquilo que me parecia uma dificuldade: o armazenamento de bolas suplentes na hora do serviço —, deparei-me com explicações em várias línguas sobre a forma como os vestidos justos e as saias curtas permitem às mulheres manterem a sua feminilidade enquanto disputam torneios de milhões. A conquista suada de troféus e de cheques com muitos zeros parece, segundo algumas análises, coisa intrinsecamente vil e masculina, pelo que se uma senhora tem de condescender nesse desiderato deve, pelo menos, fingir que está na praia. Na praia dos glamorosos anos 50.

Não quero que este post pareça alinhar na sugestão de que são as mulheres, as mulheres tenistas, que mais se preocupam em erotizar a sua imagem enquanto dão pancadas na bola. Nem tenho, por outro lado, ao contrário de certas organizações e tradições do ténis, nenhum dress code ou moral a recomendar a ninguém (muito menos a pessoas que jamais lerão este blogue). Mas temo que a saia curta dominante, com folhos ou sem eles, seja um compromisso entre jogadoras, instituições e expectativas sociais, um compromisso para que, focando-se o mundo nas suas coxas, elas sejam deixadas em paz e concentradas apenas nos seus jogos. Porque sempre que alguma jogadora introduziu mudanças no outfit ou simplesmente tirou e voltou a vestir a sua t-shirt num canto do court (o que até mereceu aplauso entusiástico da, neste ponto igualitária, falange voyeur), levou, como há pouco Alize Cornet, com o dedo em riste da moral tenística.

Suspeito por isso que a tradição da minissaia no ténis, como a do decote nos trajes femininos dos séculos dezoito e dezanove, permite sobretudo aos cavalheiros fingirem-se — em simultâneo ou alternadamente, como convier — sensualistas e castos.

Considerando que a anatomia feminina não difere da masculina em tal grau que obrigue a formas diferentes de armazenar bolas suplementares, e considerando também que a não abolição do hábito de se guardarem bolas para o segundo serviço (quando os apanha-bolas se tornaram tão ágeis) não trai vício masculino, não seria expectável, dada a diversidade humana, ver-se mais marcas a desenhar calções femininos com bolsos — e homens a enfiarem bolas na lycra por baixo dos calções? Ou das minissaias?

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Cocktails

Criado entre dois mundos — um, rural, cheio de frugalidade e essencialismo, a que tinha acesso fácil e quotidiano, e outro, o glamoroso das estâncias balneares de águas terapêuticas, com os seus hotéis cheios de hóspedes finos e bebidas sofisticadas que só conhecia de ver beber —, nunca fui um tipo de cocktails e guardei pouca memória dos que bebi. Ontem, contudo, mandei vir um, que me trouxeram não sei se condimentado se decorado com funcho e um raminho de outra planta com um cacho de pequenas flores bem aromáticas, que se encostavam ao nariz a cada gole, insuflando-o de odores. Tive então um momento rechercheano, e porém o que me veio à memória não foram tardes de ténis ou bailes no casino, mas as jarras que havia sempre lá por casa. Não regurgitei, mas tive de pousar o copo para me dar uma pausa e explicar ao cérebro que não era água de jarras o que estava a beber.
Dominado, interroguei-me se afinal não tinha havido na minha criação, além de certa rudeza de pobre que permanece, cocktails sem eu saber.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Ténis: a jornada de ontem

A jornada de ontem, em Melbourne, incluiu um jogo entre Wawrinka e Zverev e outro com Nadal e Thiem. No primeiro, um Wawrinka a perder por 2 sets a 1 e em perigosa desvantagem no quarto set reserva ainda uma parte da sua energia para pedir desculpa a um apanha-bolas por lhe ter enviado deficientemente uma bola perdida e para, a meio da preparação de um serviço, responder com simpatia «it’s not gonna be easy…» ao público que lhe diz «you can do it».
No ténis, não há como não gostar dos suíços, mesmo quando perdem.

No seu jogo, Nadal irrita-se, como de costume, com uma advertência do árbitro por exceder o tempo do serviço, faz gestos e caretas à multidão que não se cala imediatamente quando vai servir e, ficamos de repente à espera, prepara-se para mandar vir com os pássaros que sobrevoam estridentemente o estádio.
(Vou agora ver o resto do jogo esperando que perca.)

Talvez para desanuviar o ambiente, ou para dar provas de uma atenção especial ao pormenor, o comentador desta partida faz erudita e inesperadamente notar que o DJ em funções é um verdadeiro patriota: só passa Men at Work, INXS, AC/DC e Bee Gees. (Fui ver, os Gibbs viveram parte dos anos sessenta na Austrália, quem diria.)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Os três tês de um prelúdio para a crise: ténis, tempo (perdido) e Titanic


Os meses de quarentena e desconfinamento, que afortunadamente, ao contrário de muitos, vivo como uma espécie de prelúdio para a crise, têm-me servido sobretudo para ler o Proust que com método vinha adiando para a reforma e para ver ténis como nunca imaginei ver desporto nenhum, acumulando quantidades insensatas de partidas, glossário e bisbilhotice temática.

Se sobreviver para resumir este período e este estado de espírito, talvez possa invocar retrospectivamente uma entrada de diário não escrita que imite, na sua aparente inconsciência ou indiferença, a de Kafka a 2 de Agosto de 1914: «Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.»

Mas, na verdade, tendo em conta o ambiente glamoroso e festivo por onde se passeia o narrador da Recherche e em que disputam os jogos as maiores vedetas do ténis, o meu estado de espírito, não substancialmente diferente, é mais bem descrito como o de um passageiro do Titanic que, informado do iceberg mas resignado ao embate, procura não desperdiçar nenhuma dança e certamente nenhum cocktail.

De resto, o relato no diário, se o puder escrever ainda que postumamente, acabará por ser o mesmo. Porque, mais tarde, na falta de um deus ex-machina, o passageiro, do Titanic ou do Lusitânia (perdão, é forçoso distinguir as guerras: da Lusitânia), vai sem dúvida nadar. Isto na melhor das hipóteses. Ió.


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* Se preferirem uma versão menos sombria e houellebecquiana deste 2020, aproveitem a Mínima Luz e mantenham-se à tona com outros três tês, Três Tristes Tigres: https://youtu.be/XL4i9X0wC18

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Os tiques de Nadal

Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.

domingo, 31 de maio de 2020

Ténis nostálgico (e perigoso)


As noitadas de ténis no Eurosport são agora dedicadas a finais históricas. Ontem jogavam, como pela primeira vez, Andre Agassi e Jim Courier. Ganharia este último.
Segundo o comentador de serviço, Agassi estava a correr mais na fase final «apesar do equipamento espampanante». («Mas não tão espampanante quanto o ano passado, em tons de rosa.») Deduzi que, se tivesse jogado de rosa, Agassi teria perdido por maior diferença. Ou teria corrido ainda mais, não sei, não sou especialista em ténis.

A imagem quadrada e de fraca qualidade da transmissão e o equipamento «espampanante» de Agassi, somado ao seu penteado, conseguia transportar-nos para a época, ressaca dos anos oitenta, e no final do jogo desiludiu que o canal não tivesse reposto o filme A Lagoa Azul, um dos desportos favoritos dos adolescentes de então, protagonizado pela que viria a ser brevemente mulher de Agassi.

Reparei, já não me lembrava, que o juiz de rede (é assim que se chama?) estava literalmente sentado junto à rede, inclinando-se sobre ela e tocando-a para melhor a sentir nos momentos dos serviços, como o rapaz carinhoso do filme Free Willy, lançado dois anos depois desta final.

Lembrando jogos mais recentes — certas raquetadas de Nadal, por exemplo —, temo que se o lugar do juiz de rede ainda fosse aquela cadeirinha à beira da carreira de tiro alguém tinha de lhe arranjar um capacete e um colete à prova de balas, para não ser vítima de fogo cruzado quando certos serviços ou pontos são defendidos com balázios de fora para dentro do campo, contornando a rede. De início pensei que essa função tinha justamente sido alterada com a primeira baixa — a segurança no desporto, como nas casas roubadas, costuma ser melhorada após os danos colaterais —, mas depois lembrei-me que é apenas mais um caso de máquinas a substituírem a força laboral humana. Se o capitalismo filmasse hoje o Free Willy, Jesse, o rapaz sensível, seria substituído, como o juiz de rede, por um sensor electrónico.