Ontem o algoritmo mostrou-me uma garrafa de Água das Pedras com um cravo vermelho dentro. Por uma fracção de segundo senti um orgulho bacoco, por ver o nome da minha terra associado ao 25 de Abril. Logo sacudi a cabeça e substituí aquele pensamento atávico por uma racionalização do olhar: as marcas associam-se às datas festivas para se promoverem. Certamente não seria a única a fazê-lo com o 25 de Abril.
Não verbalizei esta afirmação, mas o algoritmo, como o deus católico, agora também lê os pensamentos e de imediato aquela sessão de scroll transformou-se num desfilar de marcas usando a ideia de liberdade para sugestões comerciais mais ou menos subtis: diferentes tipos de bebidas, supermercados, computadores, bancos, comida, material de escritório. Em menos de cinco minutos, sem pesquisar, surgiram-me dez imagens publicitárias que guardei no telemóvel nem sei bem para quê.
No final deste episódio, dois sentimentos antagónicos, um optimista e outro pessimista, se digladiaram em mim: se tantas empresas encontram utilidade comercial numa associação ao 25 de Abril, é porque uma larga maioria de consumidores vê a data de forma positiva. Mas, se nos lembrarmos de como o capitalismo incorpora, mastiga e regurgita as ideias políticas e as dissensões sociais, transformando-as em moda, style ou meros hábitos frívolos, percebemos que os consumidores não vão desatar a fazer revoluções e a exigir liberdade e democracia — como no Natal não se tornam verdadeiramente boas pessoas. O mais que farão será usar em Abril cravos ao peito, como em Dezembro usam barretes de Pai Natal ou chifres de rena e na Páscoa se vingam no folar de um jejum que não fizeram.
Sim, a liberdade de Abril não é uma marca registada do PCP — mas, se não houver nada de novo debaixo do Sol, corre o risco de ser uma marca registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
Mostrar mensagens com a etiqueta Esquerda/Direita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Esquerda/Direita. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Qué frô?
Ontem havia celebração e distribuíam-se cravos e um pequeno grupo de indianos (ou nepaleses ou bengalis) veio também buscar o seu e juntou-se ao povo em festa.
No 25 de Abril e na vida toda a gente humana quer frô e liberdade, por mais que isso custe aos fascistolos.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
João Miguel Tavares não é atrasado mental
No seu último artigo no ‘Público’ João Miguel Tavares indigna-se por Sérgio Sousa Pinto considerar atrasados mentais aqueles eleitores que não vêm «um perigo imediato em André Ventura, mas sim no Partido Socialista».
Diz JMT:
Nos comentários ao artigo na página de Facebook de JMT, há quem mais ou menos diga que o autor equipara os danos do governo de Sócrates aos danos do fascismo. Ele mais ou menos diz que não.
A mim parece-me evidente é que que João Miguel Tavares considera mais provável António José Seguro fazer regressar a corrupção de Sócrates do que Ventura instalar o caos moral e social de Trump à escala de Portugal. Não creio que JMT seja atrasado mental, acho só que é um dos mais activos apoiantes de Ventura e do que ele representa, sem nunca dizer, explicitamente, que o é.
Diz JMT:
«Sousa Pinto defende que a memória dos anos 1930 nos deve lembrar o que a extrema-direita é. Certíssimo. Mas… e a memória dos anos 2005 a 2011? Essa não conta? Não merece reflexão histórica?»
Depois acrescenta:
«Sérgio Sousa Pinto recua cem anos para invocar os perigos do fascismo e não consegue recuar vinte para explicar os erros do PS?»
E conclui:
«Nenhum socialista tem direito a chamar “atrasado mental” a quem desconfia mais do PS do que do Chega enquanto este trabalho de reflexão, que já leva pelo menos 15 anos de atraso, continuar por fazer.»
Nos comentários ao artigo na página de Facebook de JMT, há quem mais ou menos diga que o autor equipara os danos do governo de Sócrates aos danos do fascismo. Ele mais ou menos diz que não.
A mim parece-me evidente é que que João Miguel Tavares considera mais provável António José Seguro fazer regressar a corrupção de Sócrates do que Ventura instalar o caos moral e social de Trump à escala de Portugal. Não creio que JMT seja atrasado mental, acho só que é um dos mais activos apoiantes de Ventura e do que ele representa, sem nunca dizer, explicitamente, que o é.
domingo, 9 de outubro de 2022
Os anos 20, outra vez
Na história nacional da infâmia (esperemos que algum dia se possa fazer), encontraremos dois momentos premonitoriamente sinistros protagonizados pelo PSD. O primeiro aconteceu na noite das últimas presidenciais, quando um Rui Rio histérico celebrou mais os bons resultados de André Ventura e os maus da esquerda bloquista e comunista do que a vitória do seu correligionário. O segundo teve lugar há poucos dias, quando Montenegro pedinchou ao Presidente da Assembleia um lugar de vice-presidente para o Chega.
Repete-se a atracção fatal da direita pelo abismo da extrema-direita que geralmente antecede e prepara o fascismo. Está tudo na História, a de há um século e a que se desenrola hoje perante os nossos olhos, na Europa, nos EUA, no Brasil. Leitura aconselhada: Como Travar o Fascismo, de Paul Mason.
Repete-se a atracção fatal da direita pelo abismo da extrema-direita que geralmente antecede e prepara o fascismo. Está tudo na História, a de há um século e a que se desenrola hoje perante os nossos olhos, na Europa, nos EUA, no Brasil. Leitura aconselhada: Como Travar o Fascismo, de Paul Mason.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
Breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo
Quando comecei a ler jornais, rapidamente me interessaram os colunistas que, tanto quanto podia na altura julgar, possuíam uma de duas virtudes (preferencialmente as duas): boa prosa (inteligente, imaginativa, irreverente, culta, elegante, capaz de ironia e humor) e pensamento acutilante (perspicaz, mas também independente, livre, imparcial).
À época governava Cavaco Silva e tinham surgido o Independente e a Kapa e foi maioritariamente nessa dupla impressa que julguei ter encontrado o que me interessava. Depois Paulo Portas escancarou as suas ambições políticas, Miguel Esteves Cardoso deixou de beber como antes (e continuou a escrever ainda bem mas sobre ninharias) e os caminhos que apontaram à imprensa foram entretanto mais ou menos tropeçados por outros artífices.
Veio o tempo em que comprava dois diários e dois semanários e lia regularmente certos escribas. Os governos tendiam agora a ser socialistas e alguns colunistas (cujos nomes me abstenho de dizer por embaraço) permaneciam contra, o que, em vez de um padrão caprichoso, parecia confirmar independência de espírito.
Surgem os blogues, com uma nova direita carregada de bibliografia selecta como antes a esquerda estivera carregada de Marx e seus exegetas, Bush filho invade o Iraque contra o mundo razoável e na imprensa alguns começam a cumprir o que uns quantos vinham candidamente defendendo: o esclarecimento das opções ideológicas. José Manuel Fernandes sai do armário, o arquitecto Saraiva regressa às cavernas.
Eis que Passos Coelho herda a alegre bancarrota de Sócrates (e a não menos impudica mas mais indultada crise internacional) e, como se diz hoje dos portugueses vacinados, quis mostrar-se o melhor aluno da Europa — no caso, o melhor aluno do neo-liberalismo ou capitalismo selvagem ou o que lhe quiserem chamar (que social-democracia não é de certeza) — e o que antes (não imediatamente antes, a bem dizer) parecia colunismo imparcial revelou-se então no seu esplendoroso envolvimento e activismo ideológico: aqueles colunistas pela primeira vez não eram contra.
Os armários (e as cavernas) abrem-se de par em par, e colunistas, bloggers e alguns escritores, legitimando-se e estimulando-se mutuamente, soltam o lastro, soltam a franga, recolhem âncoras e zarpam de melena ao vento, cavalgando a onda que lhes parece a onda certa da História, como se nos oceanos só houvesse tsunamis e a Lua não tivesse um papel nas marés. Dispensam já, embora digam o contrário, o teatro da objectividade, da imparcialidade, da justiça, porque a hora é de combate, de militância, de alistamento — de engajamento, essa prática outrora lastimável nos velhos intelectuais de esquerda. Põem-se activa ou passivamente do lado de Trumps e Bolsonaros e criticam Putin apenas para disfarçar o quanto são por ele fascinados. Para facilidade de leitura, se não estão no CM, juntam-se maioritariamente no Blasfémias e no Observador — e isso temos de lhe agradecer.
À época governava Cavaco Silva e tinham surgido o Independente e a Kapa e foi maioritariamente nessa dupla impressa que julguei ter encontrado o que me interessava. Depois Paulo Portas escancarou as suas ambições políticas, Miguel Esteves Cardoso deixou de beber como antes (e continuou a escrever ainda bem mas sobre ninharias) e os caminhos que apontaram à imprensa foram entretanto mais ou menos tropeçados por outros artífices.
Veio o tempo em que comprava dois diários e dois semanários e lia regularmente certos escribas. Os governos tendiam agora a ser socialistas e alguns colunistas (cujos nomes me abstenho de dizer por embaraço) permaneciam contra, o que, em vez de um padrão caprichoso, parecia confirmar independência de espírito.
Surgem os blogues, com uma nova direita carregada de bibliografia selecta como antes a esquerda estivera carregada de Marx e seus exegetas, Bush filho invade o Iraque contra o mundo razoável e na imprensa alguns começam a cumprir o que uns quantos vinham candidamente defendendo: o esclarecimento das opções ideológicas. José Manuel Fernandes sai do armário, o arquitecto Saraiva regressa às cavernas.
Eis que Passos Coelho herda a alegre bancarrota de Sócrates (e a não menos impudica mas mais indultada crise internacional) e, como se diz hoje dos portugueses vacinados, quis mostrar-se o melhor aluno da Europa — no caso, o melhor aluno do neo-liberalismo ou capitalismo selvagem ou o que lhe quiserem chamar (que social-democracia não é de certeza) — e o que antes (não imediatamente antes, a bem dizer) parecia colunismo imparcial revelou-se então no seu esplendoroso envolvimento e activismo ideológico: aqueles colunistas pela primeira vez não eram contra.
Os armários (e as cavernas) abrem-se de par em par, e colunistas, bloggers e alguns escritores, legitimando-se e estimulando-se mutuamente, soltam o lastro, soltam a franga, recolhem âncoras e zarpam de melena ao vento, cavalgando a onda que lhes parece a onda certa da História, como se nos oceanos só houvesse tsunamis e a Lua não tivesse um papel nas marés. Dispensam já, embora digam o contrário, o teatro da objectividade, da imparcialidade, da justiça, porque a hora é de combate, de militância, de alistamento — de engajamento, essa prática outrora lastimável nos velhos intelectuais de esquerda. Põem-se activa ou passivamente do lado de Trumps e Bolsonaros e criticam Putin apenas para disfarçar o quanto são por ele fascinados. Para facilidade de leitura, se não estão no CM, juntam-se maioritariamente no Blasfémias e no Observador — e isso temos de lhe agradecer.
Mais erro, menos erro na cronologia, é esta a breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
A eloquência das cores
Parece que o cravo branco do líder do CDS pretendia significar que «o 25 de Abril não se fez só para os vermelhos». Já o cravo preto do outro é eloquente por si mesmo, apesar dos eufemismos do portador: o preto é a cor de eleição dos fascistas desde a sua fundação em Itália.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
O eleitorado de Ventura segundo Helena Matos
Um blogue de cujo nome não quero lembrar-me remete para o comentário de Helena Matos (no Observador e no Blasfémias) sobre as eleições presidenciais. Comentário que é, na verdade, um exercício de delimitação de um eleitorado para Ventura, algo a que ela chamou «o pais invisível», «um país que foi destratado nesta campanha». O bom povo, em suma. Não o povo português, todo ele — os resultados eleitorais não permitem tal generalização e as pessoas são tão variadas que até Helena Matos sabe que não pode abusar de simplismos. E além disso precisa de uma boa quantidade de portugueses não-povo para vituperar regular e terapeuticamente. Se não existisse uma esquerda (ou um centro), que vida triste não seria a de Helena?
Ainda assim, Helena encontrou o seu povo, não em Tróia como reza o mito, mas no eleitorado de Ventura, fazendo como tantos sociólogos e políticos (olhem, o próprio líder do Chega, por exemplo), que definem o grupo de estudo em função das suas interpretações.
Como qualquer cidadão português por estes dias, Helena de Esparta, estava munida de um cardápio de eleitores de Ventura e escolheu em função do seu paladar e das suas necessidades nutricionais. (Não se lhe pode censurar querer seguir a sua própria dieta, não é?) Escolheu as seguintes pessoas: «gente que vive com baixos rendimentos. Lêem poucos livros e certamente nenhum que tenha a ver com o fascismo.» Pessoas que sabem que a «noite é mesmo noite» e «isolamento é mesmo isolamento» «nesse país que fica longe». Pessoas que «não vêem as suas vidas nas notícias». Homens brancos sem curso universitário residentes em zonas rurais do midwest e estados interiores, crackers, rednecks e desempregados da rust belt… Esperem, não, isto é a interpretação de outras eleições, desculpem.
Helena não indica as suas fontes, não é fácil perceber onde encontrou os dados que lhe permitem sustentar a definição poética que encontrou, mas talvez se a pudéssemos dissecar (não podemos, moderem o entusiasmo) encontrássemos boas pistas dentro da sua própria cabeça. Percebemos, contudo, que Helena não procurou nas caixas de comentários da imprensa e nas redes sociais, onde tantos se anunciaram eleitores de Ventura. Ou, se o fez, investigou exaustivamente cada um deles e concluiu que não, aqueles não eram legítimos eleitores de Ventura. Ou se o eram, não foram votar, porque os 11,9 por cento de André Ventura nos cadernos eleitorais são pessoas de baixo rendimento esquecidas pela CMTV na noite e no isolamento. Sem acesso ao mundo moderno e à Internet, presume-se.
As suspeitas de que andavam eleitores de Ventura nas caixas de comentários do Observador e do Blasfémias — quiçá até no quadro de colaboradores de ambos os órgãos — são igualmente infundadas, garante Helena. Aquilo é gente demasiado urbana, formada, com leituras (não é nenhuma ralé, ia eu dizer). E alguns até leram livros que têm a ver com o fascismo. Estão portanto fora do belo quadro telúrico que mostra o eleitor-tipo venturesco segundo Helena.
Eu, que ao contrário de Helena, não vivo em Lisboa, mas em Trás-os-Montes, e frequento talvez mais um bocadinho do que ela o país que vive com baixos rendimentos e não vem nas notícias, julguei ter visto aqui alguns eleitores de Ventura diferentes, mas, como eram típica classe média com carro em primeira mão, avessos a impostos e declarações de rendimentos e razoavelmente xenófobos, devo ter-me enganado, claro. No país «invisível» de Helena não há disso.
https://blasfemias.net/2021/01/25/a-derrota-da-realidade-virtual/
-------
P.S.: Numa coisa a Helena Matos tem indirectamente razão: é absurdo e contraproducente insistir que todo o eleitorado de Ventura é "fascista".
Ainda assim, Helena encontrou o seu povo, não em Tróia como reza o mito, mas no eleitorado de Ventura, fazendo como tantos sociólogos e políticos (olhem, o próprio líder do Chega, por exemplo), que definem o grupo de estudo em função das suas interpretações.
Como qualquer cidadão português por estes dias, Helena de Esparta, estava munida de um cardápio de eleitores de Ventura e escolheu em função do seu paladar e das suas necessidades nutricionais. (Não se lhe pode censurar querer seguir a sua própria dieta, não é?) Escolheu as seguintes pessoas: «gente que vive com baixos rendimentos. Lêem poucos livros e certamente nenhum que tenha a ver com o fascismo.» Pessoas que sabem que a «noite é mesmo noite» e «isolamento é mesmo isolamento» «nesse país que fica longe». Pessoas que «não vêem as suas vidas nas notícias». Homens brancos sem curso universitário residentes em zonas rurais do midwest e estados interiores, crackers, rednecks e desempregados da rust belt… Esperem, não, isto é a interpretação de outras eleições, desculpem.
Helena não indica as suas fontes, não é fácil perceber onde encontrou os dados que lhe permitem sustentar a definição poética que encontrou, mas talvez se a pudéssemos dissecar (não podemos, moderem o entusiasmo) encontrássemos boas pistas dentro da sua própria cabeça. Percebemos, contudo, que Helena não procurou nas caixas de comentários da imprensa e nas redes sociais, onde tantos se anunciaram eleitores de Ventura. Ou, se o fez, investigou exaustivamente cada um deles e concluiu que não, aqueles não eram legítimos eleitores de Ventura. Ou se o eram, não foram votar, porque os 11,9 por cento de André Ventura nos cadernos eleitorais são pessoas de baixo rendimento esquecidas pela CMTV na noite e no isolamento. Sem acesso ao mundo moderno e à Internet, presume-se.
As suspeitas de que andavam eleitores de Ventura nas caixas de comentários do Observador e do Blasfémias — quiçá até no quadro de colaboradores de ambos os órgãos — são igualmente infundadas, garante Helena. Aquilo é gente demasiado urbana, formada, com leituras (não é nenhuma ralé, ia eu dizer). E alguns até leram livros que têm a ver com o fascismo. Estão portanto fora do belo quadro telúrico que mostra o eleitor-tipo venturesco segundo Helena.
Eu, que ao contrário de Helena, não vivo em Lisboa, mas em Trás-os-Montes, e frequento talvez mais um bocadinho do que ela o país que vive com baixos rendimentos e não vem nas notícias, julguei ter visto aqui alguns eleitores de Ventura diferentes, mas, como eram típica classe média com carro em primeira mão, avessos a impostos e declarações de rendimentos e razoavelmente xenófobos, devo ter-me enganado, claro. No país «invisível» de Helena não há disso.
https://blasfemias.net/2021/01/25/a-derrota-da-realidade-virtual/
P.S.: Numa coisa a Helena Matos tem indirectamente razão: é absurdo e contraproducente insistir que todo o eleitorado de Ventura é "fascista".
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Rescaldo eleitoral
A sensatez venceu largamente nestas eleições. Marcelo aumenta a sua votação (com votos da direita e da esquerda), Ana Gomes é a mulher mais votada de sempre (não é feito de desprezar, como sabemos) e o partido reles fica aquém das suas próprias expectativas. Ou seja, há menos eleitores vis ou ingénuos do que André Ventura imaginava (embora haja demasiados, sim).
O lado mais negro (não foi a descida do BE e do PCP, que recuperarão, descansem) foi simultaneamente o mais patético: o show burlesco de Rui Rio que, com a sensibilidade e a subtileza que se lhe conhecem, achou que o melhor que tinha a fazer em noite de discursos pós-eleitorais era escancarar as portas do PSD ao Chega, insistindo como um louco desesperado (contei cinco vezes, mas talvez tenham sido mais) que o partido reles era uma instituição séria e respeitável porque os comunistas do Alentejo votavam nele. Como argumento central para uma coligação não está mal.
O lado mais negro (não foi a descida do BE e do PCP, que recuperarão, descansem) foi simultaneamente o mais patético: o show burlesco de Rui Rio que, com a sensibilidade e a subtileza que se lhe conhecem, achou que o melhor que tinha a fazer em noite de discursos pós-eleitorais era escancarar as portas do PSD ao Chega, insistindo como um louco desesperado (contei cinco vezes, mas talvez tenham sido mais) que o partido reles era uma instituição séria e respeitável porque os comunistas do Alentejo votavam nele. Como argumento central para uma coligação não está mal.
Vejamos se o próprio partido, que decerto testemunhou a alucinação de Ventura na recta final da campanha, não lhe reserva algumas surpresas.
Lembremos: há menos eleitores vis ou ingénuos do que André Ventura imaginava. Passa por aqui a sua derrota.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Eleições
Quem quer dar sinais de descontentamento ou sugerir ao regime a necessidade de inflexões ideológicas, tem um leque razoável e simpático de candidatos e candidatas para o fazer, da esquerda à direita (excluindo o chegano). Nenhum deles ou delas é um Churchill? Bem, nós também não somos a Inglaterra de 1940 (nem a Inglaterra hoje é a mesma de quarenta, bem vistas as coisas…). Um eleitorado tantas vezes medíocre e absentista devia ser mais humilde nas exigências.
Em todo o caso, não julgo que estamos mal servidos. E quem se quer divertir ou está mesmo zangado até tem uma opção interessante, um candidato que sabe contar uma parábola com seixos que, essa sim, devia orgulhar um povo.
Os outros descontentes que andam à procura de um príncipe encantado, deviam ter cuidado, porque está à vista de todos que o príncipe é afinal um sapo.
Se os neurónios estiverem um pouco enferrujados e precisarem de ajuda para perceber isso, deixo aqui duas pistas, dois posts do blogue Antologia do Esquecimento.
O primeiro reúne um conjunto de perguntas que cada um deve fazer a si mesmo. Só com isso a resposta virá com a evidência de um murro nas trombas.
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/tenho-duvidas.html
O segundo apresenta uma lista dos «portugueses de bem» que fazem parte do Chega:
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/portugueses-de-bem.html
Bem sei que a preguiça é muita, mas basta ler meia dúzia de linhas de cada um dos posts. Meia dúzia de linhas do princípio, do meio ou do fim, tanto faz. Trinta segundos de atenção a cada texto são suficientes. Se depois disso ainda acharem que há algo de positivo no indivíduo e no seu partido, bem amigos, o vosso é um caso perdido, sois burros por gosto. Ou sois má rês como ele.
Os outros descontentes que andam à procura de um príncipe encantado, deviam ter cuidado, porque está à vista de todos que o príncipe é afinal um sapo.
Se os neurónios estiverem um pouco enferrujados e precisarem de ajuda para perceber isso, deixo aqui duas pistas, dois posts do blogue Antologia do Esquecimento.
O primeiro reúne um conjunto de perguntas que cada um deve fazer a si mesmo. Só com isso a resposta virá com a evidência de um murro nas trombas.
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/tenho-duvidas.html
O segundo apresenta uma lista dos «portugueses de bem» que fazem parte do Chega:
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/portugueses-de-bem.html
Bem sei que a preguiça é muita, mas basta ler meia dúzia de linhas de cada um dos posts. Meia dúzia de linhas do princípio, do meio ou do fim, tanto faz. Trinta segundos de atenção a cada texto são suficientes. Se depois disso ainda acharem que há algo de positivo no indivíduo e no seu partido, bem amigos, o vosso é um caso perdido, sois burros por gosto. Ou sois má rês como ele.
domingo, 10 de janeiro de 2021
O grande barrete
João Miguel Tavares
Trump, o Trump híbrido de Berlusconi e Mussolini que discursou no dia 6, poderia ter ele mesmo encabeçado como Moisés* a multidão depois de a ter incitado a atravessar o Mar Vermelho, podia ter sido «bravo» de acordo com os seus padrões em vez de assistir pela televisão e comentar pelo Twitter, como costuma, podia ter-se sentado com chapéu e cornos na cadeira de Nancy Pelosi, poderia ter acossado polícias renitentes ou feito selfies com polícias complacentes enquanto partia mobília, podia ter entrado na sala do Senado para proclamar ele mesmo o golpe, no que provavelmente seria seguido pelos ratos republicanos que agora saltam borda fora, Trump poderia, enfim, por uma vez ter sido consequente e ilustrativo e auto-evidente que nem assim António Barreto deixaria de ter escrito o que escreveu** e nem assim João Miguel Tavares teria deixado de saltar na cadeira de largo sorriso a aplaudir Barreto como criança a que lhe servem a sobremesa***.
E o que diz Barreto lá do fundo da sua resmunguice, do seu ressentimento ou do que lhe habita a alma? Que a culpa da invasão do Capitólio é das «esquerdas», pois claro. Ou, vá lá, de «democratas-cristãos, socialistas e sociais-democratas». Ou antes, na versão matizada, a culpa é dos «erros, defeitos e vícios» dos democratas****. Um dia em que se empolgue na indignação e no moralismo, ainda havemos de o ler a culpar a esquerda pelo pecado original de Adão e Eva, em que decerto se dispõe a acreditar.
Poderia Barreto ter-se ficado, por uma vez, como as pessoas sem segundas intenções, pela condenação da coisa em si e dos responsáveis directos por ela? Poderia, depois de ter listado retoricamente como listou uma série de atributos de Trump, afirmar inequivocamente que sim, este é Trump, em vez de dizer apenas «Tudo isto pode ser verdade» (itálico meu) e acrescentar um longo mas? Claro que podia. Mas como perder uma oportunidade de verberar o «sistema» (sem de facto falar do «sistema»)?
A lengalenga barretiana é agora antiga e não é totalmente errada. Sem esquecer nunca a culpa activa dos republicanos e dos promotores dos Trumps deste mundo (que Barreto amavelmente desvaloriza ou em que participa), é preciso considerar que as democracias têm de facto sido absurdamente complacentes com a corrupção e as desigualdades, por exemplo. Mas como mencionar isto sem falar do capitalismo, proeza que Barreto facilmente realiza?
Nas últimas décadas, com o surgimento de uma nova geração de direita, que aprendeu, nos melhores casos, pelos manuais do conservadorismo britânico e, nos piores, pelos manuais do neo-liberalismo americano, criou-se na Europa e exacerbou-se na América, com o regozijo de velhos ressentidos que aproveitaram para sair do armário, uma raiva ao «socialismo» (termo discricionariamente usado para englobar todas as esquerdas e o centro), uma raiva ao «socialismo» (que soa quase a comunismo, o comunismo estalinista) como fonte de todos os males, ao «socialismo» como demónio na Terra.
Não interessa que alguns dos principais pecados atribuídos a este «socialismo» sejam na verdade de índole não doutrinária. A corrupção e a manutenção ou agravamento das desigualdades têm sido muito democraticamente praticados pelos vários partidos que chegam a entrar em governos ou outros níveis de poder. As variações de grau da prática da corrupção devem-se mais, temo, ao contexto e às oportunidades concretas com que cada um se depara do que a subtilezas de carácter ou filiações partidárias ou doutrinárias. Contudo, esses flagelos sem pátria ou partido foram invocados com toda a lata por uma vasta multidão de opinativos mundiais (de que tivemos a nossa parte generosa) para criar o ambiente favorável à eleição de Trump e Bolsonaro pela rejeição violenta dos candidatos que se lhes opunham. Quando o mais simples bom senso dizia que, na ausência de candidatos melhores, a ter de se escolher o mal menor, haveria o eleitor que se resignar provisoriamente com a mediania ou mediocridade de Hillary ou de Haddad, eis que o mundo assiste estupefacto à farsa inimaginável de ter de tomar Trump e Bolsonaro como candidatos de fora do «sistema» capazes de combater a corrupção e as desigualdades.
Na verdade, a corrupção e as desigualdades são uma inevitabilidade do capitalismo como ele vem sendo praticado (e que poucos se atrevem a questionar sem desvio doutrinário bafiento), e são uma inevitabilidade em que, deve dizer-se, além de demasiados políticos, participa à sua escala uma boa parte da população anónima (incluindo, naturalmente, aquela mui puritana que vota em Trump, Bolsonaro ou no Doutor Sapo de Loiça).
O que estava em causa com a eleição de Trump e Bolsonaro não era, para os mais condescendentes com a dupla de ogres, esse combate, mas o cultural. Sim, ainda que encha a boca com os problemas económicos das populações rurais americanas, o que levou aquela gente a ser complacente com Trump e Bolsonaro foi a possibilidade de os ter como campeões de um combate que a maioria não queria assumir ou travar completamente às claras: a reacção a reformas sociais e culturais, à transformação da sociedade. (Um ogre é por definição um ser atávico, logo escolha certa se queremos preservar o mundo mítico que conhecemos.)
É verdade que a esquerda e o centro têm colocado um menor empenho no combate à corrupção e à pobreza do que nas causas culturais e sociais. O combate à corrupção e às desigualdades falha claramente porque, além de um raro carácter honesto e solidário, exige uma coragem muito maior: a de enfrentar o desconhecido (o que propor para mudar ou substituir o capitalismo actual?) e a de enfrentar o poder dos grandes agentes económicos. Já as reformas sociais apenas exigem enfrentar uma parte da população sem uma fracção desse poder.
Significa isto, esta pequena grande cobardia das democracias, que as reformas sociais deveriam ser postas de parte? Claro que não. Tal como é errado desprezar as dificuldades e o sentimento dos eleitores inocentes de Trump seria errado, por exemplo, desprezar os problemas ancestrais das várias minorias e desaproveitar a oportunidade de os corrigir, e de corrigir atavismos nacionais. Mas o que nos é proposto pelos que toleram Trump é que façamos essa escolha, que tomemos como problemas reais ou «sérios» os que a América rural simboliza e como meros caprichos burgueses as questões sociais ou culturais e as que afectam as minorias ou as mulheres, por exemplo. É, portanto, caracterizar a rejeição de uma parte da população como egoísmo e snobismo urbano, apelando, com uma suposta superioridade moral, à rejeição de outra parte dessa mesma população.
Percebo o receio de certo mundo conservador, e partilho do desagrado que sente, perante excessos e idiotices que à esquerda se praticam, como o fenómeno Cancel Culture e outros. Mas estes, mesmo quando graves, são equívocos, não são as causas de quem rejeita Trump e Bolsonaro.
Temos de lhes pedir, a este tipo de conservadores, que se controlem e não deixem que o medo do fim do mundo como o conhecem os empurre para uma distopia pior, que é a de um mundo que tem como supostos campeões da liberdade e da justiça bullies idiotas, corruptos, amorais e egoístas como Trump ou Bolsonaro ou eventuais plagiários indígenas.
------------------
* Imagens de António Muñoz Molina no excelente artigo de hoje no El País: https://elpais.com/opinion/2021-01-09/un-paisaje-de-trastorno.html
** https://www.publico.pt/2021/01/09/opiniao/opiniao/perceber-1945609
*** https://www.facebook.com/joaomiguel.tavares/posts/3635077483244744
**** Note-se que Barreto chega a dizer que a democracia tem «tantos ou mais defeitos» do que Trump e programas de gente como ele…
------------------
* Imagens de António Muñoz Molina no excelente artigo de hoje no El País: https://elpais.com/opinion/2021-01-09/un-paisaje-de-trastorno.html
** https://www.publico.pt/2021/01/09/opiniao/opiniao/perceber-1945609
*** https://www.facebook.com/joaomiguel.tavares/posts/3635077483244744
**** Note-se que Barreto chega a dizer que a democracia tem «tantos ou mais defeitos» do que Trump e programas de gente como ele…
domingo, 15 de novembro de 2020
Gestão de danos
O Ace Ventura, ar de tonto mas fino como um alho, veio, com descarado sentido de oportunidade e desprezo pela inteligência alheia (começando pela dos militantes do seu partido), manifestar-se, contradizendo-se, a favor do casamento gay e contra Salazar. Faz-se assim voluntariamente de pateta para aliviar o PSD dos impactos negativos do arranjinho mútuo.
Muitos cairão no isco, apontando o seu contorcionismo ideológico como demonstração de que o fascismo nele é folclore e mero oportunismo eleitoral. Mas talvez devessem ceder a um raciocínio mais humilde: o homem não tem escrúpulos nem carácter — características indispensáveis não apenas a um democrata mas a alguém que se convida para casa.
Muitos cairão no isco, apontando o seu contorcionismo ideológico como demonstração de que o fascismo nele é folclore e mero oportunismo eleitoral. Mas talvez devessem ceder a um raciocínio mais humilde: o homem não tem escrúpulos nem carácter — características indispensáveis não apenas a um democrata mas a alguém que se convida para casa.
sábado, 14 de novembro de 2020
Em resumo
Aqueles que se desculpam com o Bloco de Esquerda e o PCP para desvalorizar o acordo do PSD com o Chega estão, na verdade, a confessar, mais ou menos conscientemente, que não os incomodam a xenofobia e o fascismo latente. Ponto.
Uma vez que consideram equivalente a normalização do Chega à normalização do BE e do PCP (partidos que acham malévolos), se os preocupassem de facto a democracia e os direitos humanos não os estaríamos a ver desculpar um mal com outro, mas sim a arrepelar cabelos por agora haver três em vez de dois partidos de carácter não democrático. Mas não é isto que lhes ouvimos, pois não? E não é porque alguns deles não tenham aprendido lógica. Ponto final.
Uma vez que consideram equivalente a normalização do Chega à normalização do BE e do PCP (partidos que acham malévolos), se os preocupassem de facto a democracia e os direitos humanos não os estaríamos a ver desculpar um mal com outro, mas sim a arrepelar cabelos por agora haver três em vez de dois partidos de carácter não democrático. Mas não é isto que lhes ouvimos, pois não? E não é porque alguns deles não tenham aprendido lógica. Ponto final.
sábado, 15 de agosto de 2020
Himmler não entra
Um misantropo é capaz de compreender que não se goste de pessoas, porque ao fim e ao cabo ele próprio não as tem em grande estima. Um pessimista antropológico (ou, se quisermos, um realista que consulte as tiragens dos jornais, as audiências das televisões, as listas de livros mais vendidos e a opinião comum nas redes sociais) receia com bons motivos o advento da democracia directa e pergunta-se, como o misantropo, para quando as viagens a Marte.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
quinta-feira, 4 de junho de 2020
A morte de um afro-americano
Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.
sábado, 9 de maio de 2020
Nada de novo nas trincheiras habituais
A reacção do PCP ao cancelamento de festivais até 30 de Setembro, invocando a especificidade da Festa do Avante, é infantil.
Por outro lado, duvido que uma putativa teimosia daquele partido em concretizar a festa seja incluída com aplauso no rol dos bravos gestos de insubmissão por uma certa ala da direita que acusa o país de ter entregado demasiado facilmente a sua liberdade nesta pandemia.
Por outro lado, duvido que uma putativa teimosia daquele partido em concretizar a festa seja incluída com aplauso no rol dos bravos gestos de insubmissão por uma certa ala da direita que acusa o país de ter entregado demasiado facilmente a sua liberdade nesta pandemia.
domingo, 13 de outubro de 2019
Conservadorismo e fanatismo
O artigo que Vasco M. Barreto (blogger autor do excelente Ouriq) escreveu para o Público é um importante exercício de pedagogia — e não principalmente pelo que desvela do lado fanático de João Miguel Tavares (e, por extensão, de tantos conservadores). A sua leitura ajuda a esclarecer bastante o debate político-ideológico sobre as alterações climáticas. Resumi-lo é um exercício inadequado; leiam-no em toda a sua extensão, por favor:
https://www.publico.pt/2019/10/10/ciencia/opiniao/joao-miguel-tavares-estado-tempo-1889147Há no artigo, por outro lado, algumas ideias que são de utilidade não só no tema específico das alterações climáticas mas no debate em geral entre “progressistas” e “conservadores” (à falta de melhores definições). Cito duas passagens do mesmo ponto:
«(…) o fanatismo inegável de alguns ecologistas anima o jornalista a extremar também a sua posição (…), entrando voluntariamente num daqueles ciclos de retroacção positiva em que a certeza parece nascer do mero antagonismo e vai ficando cada vez mais desligada da evidência e da sensatez.»
«Por mera aversão epidérmica aos progressistas e à “extrema-esquerda”, os conservadores abandonaram a causa ecologista que já foi deles e deveria continuar a ser de quem estima o princípio da precaução…»
Quando comecei a ler jornais e a ter uma ideia vaga das várias tendências políticas e de pensamento na sociedade contemporânea, o conservadorismo tinha para mim um certo apelo. Havia nalguns dos seus representantes uma elegância, um bom-gosto, uma erudição, uma ironia, um cepticismo, uma moderação, uma sensatez e até uma bonomia que me pareciam louváveis. Mesmo que a parte mais activa de mim estivesse com os revolucionários, com os que pretendiam mudar coisas, achava útil aquela reserva de precaução. Décadas depois, os conservadores tornaram-se frequentemente cínicos, extremistas ou fanáticos, tomados de uma vertigem niilista tão perturbante e “imoral” quanto a de uma certa ideia popularizada de anarquia terrorista.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
Parte desta radicalização dos conservadores vem de um “messianismo” importado dos Estados Unidos que lhes concede uma impressão de pureza e superioridade próprias, em contraste com a vileza alheia, e um arrogante sentido de missão que anulam a dúvida metódica e impulsionam o gesto civilizador além-mar e corrector entre muros. Outra parte vem do mero antagonismo militante e exacerbado, que transformou a ideia de prudência em oposição activa e depois em intransigência.
A este tipo de conservadores deixou de interessar o diálogo ou o debate com forças tendencionalmente progressistas e para o seu lugar eles trouxeram uma guerra de trincheiras em que o inimigo são as franjas extremistas do lado contrário, tornadas centrais por sinédoque.
O problema é que este sector da direita tornou-se preponderante no debate público. Já não há proposta de mudança que não seja ridicularizada ou diabolizada através do método que consiste em forçar a inclusão dessa proposta no contexto das ideias mais extremistas ou por vezes tontas de movimentos radicais conotados com a esquerda. Tudo o que é progressista é assim parte de um plano para desestruturar e destruir a sociedade ou é simplesmente uma excentricidade perigosa de movimentos patetas.
Não vale a pena, neste quadro, discutir nada: pequenas coisas importantes ou fatalidades, machismo homicida e patriarcado cultural ou boçalidade gigolô, plásticos ou beatas, crescimento económico ou sobrepopulação, Trump ou Bolsonaro. Certos conservadores superiormente educados não se distinguem aqui do reaccionário atávico de rua e, quando dados ao humor, têm no cliché a mesma bengala do stand up comedian com vocação para a anedota, embora tenham um melhor domínio da língua portuguesa.
A “aversão epidérmica” que refere Vasco M. Barreto parece ocupar agora um lugar central no “pensamento” conservador. Não se trata de “seguir uma intuição”, ferramenta que não envilece o comportamento humano, mas antes de deixar que preconceitos, rancores e ódios pessoais definam o tratamento intelectual que se dará a um tema. A aversão epidérmica contamina a análise e subverte a hierarquia dos problemas, comprometendo a clarividência e a integridade daquele que se deixa dominar por ela. Foi assim que a eleição de Bolsonaro passou como um facto menor perante a corrupção do PT. É assim que Trump não enoja gente que, apesar disso, se considera respeitável.
Na trincheira conservadora, onde os combatentes andam malnutridos ou intoxicados, as leis da física e da moral já não se aplicam. Para mal do mundo.
domingo, 5 de maio de 2019
Venezuela
Nos dias que passam, em que sonho com um eremitério de livros, uma vida à margem, a política apenas me interessa na medida em que dela posso ser vítima — ou seja, preocupa-me, mas não sinto o ímpeto de a discutir de viva voz ou de me envolver em movimentos. Pessimismo resignado, talvez seja o diagnóstico. Não há como não ficar deprimido quando se vê o circo de políticos e comentadores, nos media ou nas redes sociais, reduzindo tudo a torneios, organizados em claques ou falanges como seitas ou quadrilhas.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
Soergo-me apenas para dizer que o facto de não nutrir particular simpatia por Guaidó e nenhuma pelo processo da sua ascensão não me leva de repente a olhar para Maduro e o seu detestável regime como algo a defender. Não sou neutral, mas também não sou maniqueísta.
Soergo-me para dizer o de sempre, em suma.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país
Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício
público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o
individualismo favorecidos pelo novo medium
e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo
estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta
direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade
estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com
ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do
armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai
pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que
realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou
desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram
positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem
receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate
político cresceram.
Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida
e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo
pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata
neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um
adolescente lado cowboy nesta direita
e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas,
com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso
apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de
ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e
bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias
figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam
incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição
do mundo que hoje temos.
Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do
armário, encontrou no Correio da Manhã
o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita
intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista,
um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão
que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela
o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência
quotidiana — a podridão nacional, em suma.
Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o
desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de
um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de
esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio
da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos
envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que
conheçamos o país para que o aceitemos como
é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a
imparcialidade é conveniente ao próprio statu
quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou
veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral,
ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade,
a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes
mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude
do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas,
levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação
inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista
— se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como
alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos
para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais
fervorosos na defesa não declarada de que é natural
uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de
mariquices.)
Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente
«bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer
coincidir com o leitor comum do Correio
da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns
quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição
que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa
sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que
importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o
país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está
em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes
históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor
delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor
ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.
Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística
da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais
que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é
caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a
premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual
do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e
demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)
Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de
ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos
perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos
revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e
impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece
é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta
feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.
* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais
do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção
das desigualdades.
Subscrever:
Mensagens (Atom)