quarta-feira, 29 de abril de 2026

Liberdade, marca registada

Ontem o algoritmo mostrou-me uma garrafa de Água das Pedras com um cravo vermelho dentro. Por uma fracção de segundo senti um orgulho bacoco, por ver o nome da minha terra associado ao 25 de Abril. Logo sacudi a cabeça e substituí aquele pensamento atávico por uma racionalização do olhar: as marcas associam-se às datas festivas para se promoverem. Certamente não seria a única a fazê-lo com o 25 de Abril.
Não verbalizei esta afirmação, mas o algoritmo, como o deus católico, agora também lê os pensamentos e de imediato aquela sessão de scroll transformou-se num desfilar de marcas usando a ideia de liberdade para sugestões comerciais mais ou menos subtis: diferentes tipos de bebidas, supermercados, computadores, bancos, comida, material de escritório. Em menos de cinco minutos, sem pesquisar, surgiram-me dez imagens publicitárias que guardei no telemóvel nem sei bem para quê.
No final deste episódio, dois sentimentos antagónicos, um optimista e outro pessimista, se digladiaram em mim: se tantas empresas encontram utilidade comercial numa associação ao 25 de Abril, é porque uma larga maioria de consumidores vê a data de forma positiva. Mas, se nos lembrarmos de como o capitalismo incorpora, mastiga e regurgita as ideias políticas e as dissensões sociais, transformando-as em moda, style ou meros hábitos frívolos, percebemos que os consumidores não vão desatar a fazer revoluções e a exigir liberdade e democracia — como no Natal não se tornam verdadeiramente boas pessoas. O mais que farão será usar em Abril cravos ao peito, como em Dezembro usam barretes de Pai Natal ou chifres de rena e na Páscoa se vingam no folar de um jejum que não fizeram.
Sim, a liberdade de Abril não é uma marca registada do PCP — mas, se não houver nada de novo debaixo do Sol, corre o risco de ser uma marca registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

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