Título da Blitz: «Todos os concertos marcados para 2022 em Portugal». [Sublinhado meu]. Clica-se, percorre-se a ambiciosa lista e confirma-se que «Portugal» é ali basicamente sinónimo de Lisboa, numa inversão da metonímia usada na linguagem diplomática clássica. As listas de final do ano do Expresso e do Público (como referiu o Victor Afonso num post há dias) também usam a mesma castiça figura de retórica.
Nos tempos que correm, os jornais «nacionais» quase só têm correspondentes locais — mas em Lisboa, para poupar nas viagens e nas comunicações. Não deve por isso surpreender que o noticiário publicado seja muitas vezes de bairro, pitoresco, se não no tom, na circunscrição.
Não é que não cheguem às redacções dos jornais notícias do mundo exterior. Chegam, não estamos na Coreia do Norte ou na Idade Média. E em geral até chegam já escritas, prontas a publicar. Ou porque a Lusa coligiu umas notas e as distribuiu magnanimamente ou porque houve agências de comunicação pagas para o fazerem. De resto, a «província», se não tiver desastres, crimes ou abóboras gigantes, se não quiser encaixar-se no estereótipo de indígena novecentista que domina o imaginário paroquial das redacções (e demasiadas vezes quer), só tem estas duas formas de chegar aos noticiários: através de uma síntese apressada da Lusa, replicada automaticamente online por programas informáticos dos restantes media, ou pagando a alguém que conhece alguém numa redacção.
Mas as fatídicas listinhas que pretendem representar um todo nacional são trabalho de autor, são fruto do crivo esforçado e pessoal dos repórteres locais — de Lisboa. Que de vez em quando se metem no comboio para o Porto, sentindo-se aventureiros — e exaustos da viagem. Por isso, a não ser que o repórter perca um dia a cabeça e, saindo das rotas seguras, se atreva a um safari, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a «província» ser notícia por alguma coisa deste século.
Não é que hoje a província seja totalmente provinciana — é que Lisboa não deixou de o ser. Veja-se o que fazem as televisões: transportam a sua visão estereotipada da província para a província em programas que a procuram representar e na verdade representam sobretudo um preconceito que tem os meios de se fazer realidade. Quem inventou o pimba não foi o Emanuel — foi Lisboa.
Há muitos anos, Vasco Pulido Valente, responsável pelo correio sentimental da Kapa, respondia a um leitor que se queixava por a revista só falar do Gambrinus dizendo-lhe grosso modo que se queria que se falasse das casas de pasto da sua terra fundasse a sua própria revista. A conversa não era connosco, mas um grupo onde me incluía tomou à letra o conselho e fundou uma publicação, que até teve o seu share fora de muros. Só que, ao contrário das outras folhas paroquiais, não pretendeu ser mais do que era e assumiu-o no sobrenome: Jornal de Vilarelho. Não ficava mal aos media de Lisboa adoptarem uma vez por outra um subtítulo toponímico com a mesma honestidade.
Digo eu, que nem sequer sou regionalista.
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
Breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo
Quando comecei a ler jornais, rapidamente me interessaram os colunistas que, tanto quanto podia na altura julgar, possuíam uma de duas virtudes (preferencialmente as duas): boa prosa (inteligente, imaginativa, irreverente, culta, elegante, capaz de ironia e humor) e pensamento acutilante (perspicaz, mas também independente, livre, imparcial).
À época governava Cavaco Silva e tinham surgido o Independente e a Kapa e foi maioritariamente nessa dupla impressa que julguei ter encontrado o que me interessava. Depois Paulo Portas escancarou as suas ambições políticas, Miguel Esteves Cardoso deixou de beber como antes (e continuou a escrever ainda bem mas sobre ninharias) e os caminhos que apontaram à imprensa foram entretanto mais ou menos tropeçados por outros artífices.
Veio o tempo em que comprava dois diários e dois semanários e lia regularmente certos escribas. Os governos tendiam agora a ser socialistas e alguns colunistas (cujos nomes me abstenho de dizer por embaraço) permaneciam contra, o que, em vez de um padrão caprichoso, parecia confirmar independência de espírito.
Surgem os blogues, com uma nova direita carregada de bibliografia selecta como antes a esquerda estivera carregada de Marx e seus exegetas, Bush filho invade o Iraque contra o mundo razoável e na imprensa alguns começam a cumprir o que uns quantos vinham candidamente defendendo: o esclarecimento das opções ideológicas. José Manuel Fernandes sai do armário, o arquitecto Saraiva regressa às cavernas.
Eis que Passos Coelho herda a alegre bancarrota de Sócrates (e a não menos impudica mas mais indultada crise internacional) e, como se diz hoje dos portugueses vacinados, quis mostrar-se o melhor aluno da Europa — no caso, o melhor aluno do neo-liberalismo ou capitalismo selvagem ou o que lhe quiserem chamar (que social-democracia não é de certeza) — e o que antes (não imediatamente antes, a bem dizer) parecia colunismo imparcial revelou-se então no seu esplendoroso envolvimento e activismo ideológico: aqueles colunistas pela primeira vez não eram contra.
Os armários (e as cavernas) abrem-se de par em par, e colunistas, bloggers e alguns escritores, legitimando-se e estimulando-se mutuamente, soltam o lastro, soltam a franga, recolhem âncoras e zarpam de melena ao vento, cavalgando a onda que lhes parece a onda certa da História, como se nos oceanos só houvesse tsunamis e a Lua não tivesse um papel nas marés. Dispensam já, embora digam o contrário, o teatro da objectividade, da imparcialidade, da justiça, porque a hora é de combate, de militância, de alistamento — de engajamento, essa prática outrora lastimável nos velhos intelectuais de esquerda. Põem-se activa ou passivamente do lado de Trumps e Bolsonaros e criticam Putin apenas para disfarçar o quanto são por ele fascinados. Para facilidade de leitura, se não estão no CM, juntam-se maioritariamente no Blasfémias e no Observador — e isso temos de lhe agradecer.
À época governava Cavaco Silva e tinham surgido o Independente e a Kapa e foi maioritariamente nessa dupla impressa que julguei ter encontrado o que me interessava. Depois Paulo Portas escancarou as suas ambições políticas, Miguel Esteves Cardoso deixou de beber como antes (e continuou a escrever ainda bem mas sobre ninharias) e os caminhos que apontaram à imprensa foram entretanto mais ou menos tropeçados por outros artífices.
Veio o tempo em que comprava dois diários e dois semanários e lia regularmente certos escribas. Os governos tendiam agora a ser socialistas e alguns colunistas (cujos nomes me abstenho de dizer por embaraço) permaneciam contra, o que, em vez de um padrão caprichoso, parecia confirmar independência de espírito.
Surgem os blogues, com uma nova direita carregada de bibliografia selecta como antes a esquerda estivera carregada de Marx e seus exegetas, Bush filho invade o Iraque contra o mundo razoável e na imprensa alguns começam a cumprir o que uns quantos vinham candidamente defendendo: o esclarecimento das opções ideológicas. José Manuel Fernandes sai do armário, o arquitecto Saraiva regressa às cavernas.
Eis que Passos Coelho herda a alegre bancarrota de Sócrates (e a não menos impudica mas mais indultada crise internacional) e, como se diz hoje dos portugueses vacinados, quis mostrar-se o melhor aluno da Europa — no caso, o melhor aluno do neo-liberalismo ou capitalismo selvagem ou o que lhe quiserem chamar (que social-democracia não é de certeza) — e o que antes (não imediatamente antes, a bem dizer) parecia colunismo imparcial revelou-se então no seu esplendoroso envolvimento e activismo ideológico: aqueles colunistas pela primeira vez não eram contra.
Os armários (e as cavernas) abrem-se de par em par, e colunistas, bloggers e alguns escritores, legitimando-se e estimulando-se mutuamente, soltam o lastro, soltam a franga, recolhem âncoras e zarpam de melena ao vento, cavalgando a onda que lhes parece a onda certa da História, como se nos oceanos só houvesse tsunamis e a Lua não tivesse um papel nas marés. Dispensam já, embora digam o contrário, o teatro da objectividade, da imparcialidade, da justiça, porque a hora é de combate, de militância, de alistamento — de engajamento, essa prática outrora lastimável nos velhos intelectuais de esquerda. Põem-se activa ou passivamente do lado de Trumps e Bolsonaros e criticam Putin apenas para disfarçar o quanto são por ele fascinados. Para facilidade de leitura, se não estão no CM, juntam-se maioritariamente no Blasfémias e no Observador — e isso temos de lhe agradecer.
Mais erro, menos erro na cronologia, é esta a breve história do engajamento político na imprensa do meu tempo.
domingo, 18 de abril de 2021
O verdadeiro idiota útil
Lembram-se de João Lemos Esteves, o cronista do I e do Sol que tem dos textos mais hilariantes (involuntariamente) e mais sinistros na imprensa portuguesa? Esta investigação do Público é sobre esse lunático, mas também permite conhecer um pouco mais a extrema-direita e os populistas portugueses.
Lendo malucos como este percebemos que se certa imprensa os acolhe só pode ser, cínica e perversamente, com a dupla consciência de que são idiotas mas que são úteis a alguém. À direita anda muita gente a perder os escrúpulos, e isso talvez seja mais preocupante do que o Chega, que nunca os teve.
https://www.publico.pt/2021/04/18/politica/noticia/professor-universidade-lisboa-difama-inventa-teorias-conspiracao-1958783
Lendo malucos como este percebemos que se certa imprensa os acolhe só pode ser, cínica e perversamente, com a dupla consciência de que são idiotas mas que são úteis a alguém. À direita anda muita gente a perder os escrúpulos, e isso talvez seja mais preocupante do que o Chega, que nunca os teve.
https://www.publico.pt/2021/04/18/politica/noticia/professor-universidade-lisboa-difama-inventa-teorias-conspiracao-1958783
quinta-feira, 8 de abril de 2021
Pessoas que amam livros
Luís M. Jorge publica na última LER um conjunto de pequenos textos sobre «os seus leitores», «pessoas que amam livros» e que de alguma maneira lhe foram próximas. Um desses leitores é Vítor Rodrigues, que mantinha o blogue «Âncoras e Nefelibatas», entretanto encerrado.
Também eu fui leitor do «Âncoras e Nefelibatas» (ainda não apaguei o link ali na coluna do lado direito), blogue onde, entre outras coisas boas, se aprendia muito sobre história e literatura nórdicas. Num país onde a imprensa se interessasse por livros — ou, não se interessando, tivesse disso vergonha e procurasse pelo menos disfarçar — o Vítor Rodrigues seria um colaborador precioso. Se a ele isso lhe interessasse, claro.
Tenho felizmente a sorte de poder continuar a acompanhar o autor na sua página do Facebook.
Também eu fui leitor do «Âncoras e Nefelibatas» (ainda não apaguei o link ali na coluna do lado direito), blogue onde, entre outras coisas boas, se aprendia muito sobre história e literatura nórdicas. Num país onde a imprensa se interessasse por livros — ou, não se interessando, tivesse disso vergonha e procurasse pelo menos disfarçar — o Vítor Rodrigues seria um colaborador precioso. Se a ele isso lhe interessasse, claro.
Tenho felizmente a sorte de poder continuar a acompanhar o autor na sua página do Facebook.
domingo, 28 de março de 2021
Fade news
Antes das fake news propaladas em massa por grupos ideológicos idiotas ou mal-intencionados, havia já a figura do «assessor de comunicação», geralmente um jornalista no desemprego ou com outras ambições que aceitava um salário para, intrometendo-se na área do publicitário mas sem a mesma franqueza etimológica deste, vender um produto: uma ideia, um projecto, uma instituição, uma personalidade, um político, um sabonete.
Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.
O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.
A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.
Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.
É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.
E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.
A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.
Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.
-------
* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8
Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.
O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.
A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.
Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.
É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.
E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.
A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.
Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.
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* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Há marcianos no Sol
João Lemos Esteves, o marciano que escreve no Sol, publicou num dos seus artigos mirabolantes, misto de comédia louca e fluxo desviado a montante de uma ETAR, um rol de acusações a Pacheco Pereira.
Pacheco Pereira, que podia ter ignorado o tonto, decidiu agir de outra maneira, igualmente adequada. Listou as acusações e limitou-se a acrescentar a cada uma delas: «Falso. Prove.»
No final, disse: ou há um pedido de desculpa ou um processo em tribunal. Simples.
O alucinado retirou o artigo e pediu desculpa — tal era a força da sua argumentação e tal o valor dos «factos» que apresentava.
Podia aproveitar e pedir desculpa por todos os artigos que escreve. Não necessariamente por serem abjectos, mas por não serem suficientemente cómicos. Todos acreditamos que ele consegue ir mais longe.
P.S.: Diria que o Sol o mantém como cronista para que, por contraste, os textos do arquitecto Saraiva, pareçam fundamentados e sensatos.
https://sol.sapo.pt/artigo/721026/pedido-de-desculpa-de-joao-lemos-esteves-a-jose-pacheco-pereira
Pacheco Pereira, que podia ter ignorado o tonto, decidiu agir de outra maneira, igualmente adequada. Listou as acusações e limitou-se a acrescentar a cada uma delas: «Falso. Prove.»
No final, disse: ou há um pedido de desculpa ou um processo em tribunal. Simples.
O alucinado retirou o artigo e pediu desculpa — tal era a força da sua argumentação e tal o valor dos «factos» que apresentava.
Podia aproveitar e pedir desculpa por todos os artigos que escreve. Não necessariamente por serem abjectos, mas por não serem suficientemente cómicos. Todos acreditamos que ele consegue ir mais longe.
P.S.: Diria que o Sol o mantém como cronista para que, por contraste, os textos do arquitecto Saraiva, pareçam fundamentados e sensatos.
https://sol.sapo.pt/artigo/721026/pedido-de-desculpa-de-joao-lemos-esteves-a-jose-pacheco-pereira
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Nos fundilhos de um negrilho
O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Só tu, João Miguel Tavares
Só tu*, João Miguel Tavares, para minimizares o episódio da TVI com Mário Machado e a propósito dele aproveitares para bater nos do costume. Já não é ridículo, é patético.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
O facto de teres razão em boa parte das acusações que fazes à esquerda não te autoriza, do ponto de vista da lógica, a desvalorizar a presença do fascista Mário Machado na TVI nos termos em que ela aconteceu.
É possível, caso te tenhas esquecido, ter uma opinião sobre um assunto sem que isso anule as outras opiniões que tens sobre outros assuntos. Não tens sempre de lembrar os erros da esquerda quando outros erros se cometem (não estás a discutir futebol). E não nos esquecemos nunca da tua opinião, até porque a vais lembrar logo no dia seguinte. Não temas, ninguém ficaria a pensar que te mudaste de campo só porque um belo dia foste sensato e percebeste o perigo que há em apresentar um fascista e criminoso sem remorsos comprovados como um tipo com opiniões polémicas num espaço que quiseram vender, a posteriori, como de debate ou confronto de ideias e na verdade nem sequer teve muito disso, mas teve beijinhos e declarações de amor.
Neste caso, como em tantos outros, poderias simplesmente fazer como qualquer pessoa inteligente, culta ou apenas intuitiva e reprovares a TVI por banalizar o mal.
Achas que «ex-presidiários como Mário Machado» terão menos responsabilidade do que ministros como João Cravinho numa eventual entrada da «malta saudosa do Estado Novo» no Parlamento. (Até na tua apresentação da besta és mais moderado do que o bom senso aconselha. «Ex-presidiário»? É o máximo que te ocorre dizer?) Menorizas imprudentemente o papel activo da extrema-direita; parece que achas que é só por reacção à esquerda corrupta ou politicamente correcta que surgem, espontaneamente, os Trumps e os Bolsonaros. Não diferes assim tanto de Manuel Alegre na apreciação facciosa e egocêntrica do fenómeno. Na tua defesa extremada e distorcida da liberdade de expressão, acabas por te juntar aos neo-Chamberlaines que minimizam o perigo da extrema-direita em Portugal. E são tantos. Aderes assim, involuntariamente, bem sabemos (por outras coisas que escreves), tacticamente, à teoria dos brandos costumes.
Deixa-me que te diga uma coisa (se não deixares digo à mesma): quando um dia a «a malta saudosa do Estado Novo» entrar no Parlamento, tu terás a tua quota-parte de responsabilidade nisso, porque do alto das tribunas onde peroras tens sido francamente irresponsável na tua condescendência com o mal de direita e de extrema-direita. Ajudas à ilusão de que a corrupção e a incompetência têm cor política, que basta livrarmo-nos da esquerda para que tudo brilhe. Nisto, acabas por te aproximar de Bolsonaro, afinal.
Ainda vais a tempo de te corrigir, és novo. Basta que escrevas mais vezes como curiosamente fizeste a propósito da eleição de Bolsonaro, e que não te sintas impelido (como infelizmente também fizeste) a invocar logo a cretinice dos outros a propósito de um cretino. Não o faças sempre no mesmo artigo. Nem necessariamente no artigo seguinte, porque parece que te arrependeste do que disseste antes. Deixa que as pessoas assimilem cada cretinice por si, sem competições que resultem na desculpabilização de um só cretino que seja. Podes perfeitamente continuar a acusar a incompetência e a corrupção da esquerda (agradecemos-te isso) e não ter receio que te interpretem mal se escreveres (também com certa regularidade) que Bolsonaro, Trump e o criminoso e fascista Mário Machado são bestas que jamais deveriam ter qualquer tipo de poder numa democracia decente.
* Este «Só tu» é retórico, claro.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
A percepção da imprensa
Os jornais ditos de referência são acusados por uns de alinhamento com o Governo e por outros de serem títeres da direita.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
Este fenómeno de percepção ambígua ou ambivalente da imprensa não prova a imparcialidade dos jornais. Mas deixa patente como até parte da intelligentsia que lê jornais e os comenta se infantilizou e se relaciona com a política e a vida pública com a mesma paixão facciosa ou irracional que é estimulada no adepto de futebol.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Polígrafo
Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e
afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito
necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua
primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no
artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o
seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a
ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar
ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de
seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar
as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos,
corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes
de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer
seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e
literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas
nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
O abcesso da manhã
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Dinis
Depois de ter afirmado em editorial que «o jornalismo não vive uma crise» e de ter sido criticado por isso, o actual director do Público comentou uma notícia sobre o sucesso do novo livro de José Rodrigues dos Santos (90 mil exemplares) ironizando: «será caso para dizer que a literatura está em crise»*.
Está tudo dito sobre o novo Público.
* Alguém comentou a ironia de Dinis dizendo que «a Renova também continua a vender bem». Salva-nos o humor.
Está tudo dito sobre o novo Público.
* Alguém comentou a ironia de Dinis dizendo que «a Renova também continua a vender bem». Salva-nos o humor.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»
Li este título do Público e
achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes,
dificilmente chegarão para um único Inverno.
Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de
uma iniciativa para a promoção da leitura.
Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca
de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao
fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje
condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural
dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de
portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e
nem sequer toda a música.)
É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da
Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter
livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e
infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo
quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas
desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa,
escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social
ou anti-moderna que ler é.
O Público dá esta notícia
pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil
livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de
estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente
pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da
Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por
perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas
como a noticiada pelo Público. Mas
não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência
ou vocação pessoal — e apesar do país
em que vivem.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Malefícios da idade?
Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Crise da imprensa: os meus contributos
A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada
para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta
e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o
baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante).
A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de
entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e
social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma
reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse
drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e
transformasse em caderno diário o Ípsilon,
o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se
está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente
lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de
tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do
que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora
qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos
provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Tolentino
Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, quotidiano ilustrador do boçal caciquismo jardinista, era um exemplo do que é ser jornalista.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
LER
Durante anos, uma das minhas maiores alegrias era folhear jornais e
revistas novos ou reformulados. Gostava tanto de bons textos quanto de bom (e
novo) grafismo. Por isso não resisti à extravagância financeira de comprar a “nova”
LER. (Há leitores deste blogue que julgam ser uma boutade
o meu lamento por no último ano e picos não ter estado à altura dos cinco euros
da revista. Pois saibam que hesitei em pagar o euro extra que agora custa e me
não estava a ser pedido pela tabacaria, cujo sistema informático ainda
considerava o preço antigo. Fui honesto, alertei o funcionário — e vim todo o
caminho a chorar a minha inadequação idiossincrática ao capitalismo sem
pruridos ora vigente. Sou um cândido.)
Lá dei os seis euritos, portanto, apaziguando-me com a ideia que seria um
luxo trimestral que a troika certamente toleraria. O regresso à trimestralidade
está, de resto, também de acordo com a minha actual disponibilidade de tempo
(disputada, contudo, pela Granta, cuja
assinatura um anjo partilhou comigo).
Bem, queria era dizer que gostei bastante desta LER (estava só a ver se
adormecia os editores antes de chegar aqui, mas talvez nem fosse necessário, estão
certamente distraídos com o Mundial). Ao pegar-lhe senti o mesmo tipo de
textura, maleabilidade e excitação que sentia há trinta anos com um Disney Especial — e isto é um elogio.
Depois vou ler.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Virgulino
Há muito tempo que não compro um jornal por causa de um cronista.
Compraria um que publicasse registos diários de Ivone Mendes da Silva e António Gregório, por exemplo. Talvez prevenindo-se
contra isso, o Expresso contratou
Duarte Marques, não fosse eu assiná-lo, ou o raio.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria
O El Mundo trouxe à luz do
dia os casos Bárcenas (financiamento
ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente,
afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor,
que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em
projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o
dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico
ou cultural (as do Público Mais). São
interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores,
jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da
investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de
El Mundo, os leitores do jornal
deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais
difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das
democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em
Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia
por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes
ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo
a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.
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