quarta-feira, 20 de maio de 2026

No prelo

No final de 2020, talvez estimulado pela experiência do confinamento, concorri a uma bolsa de criação literária. A ideia era conseguir tempo e um compromisso para escrever alguma coisa de maior fôlego, em modo de dedicação exclusiva, ou quase.

Várias coisas correram mal: a DGLAB só me conseguiu arranjar seis meses (em vez de o ano inteiro que eu ambicionava); a dedicação quase exclusiva foi, como não podia deixar de ser, uma miragem (seria preciso mais do que uma sabática para me afastar do trabalho); na ponta final do manuscrito adoeci.

Apesar de tudo, o romance — ou a versão possível do projecto inicial — ficou concluído. E na gaveta.

Os anos passaram: havia no livro — entre imperfeições — uma opção de casting que me incomodava; o conceito de reescrita, que se impunha, atirava-me para o sofá e não para a secretária; o impulso de publicar primeiro o Aranda, velho romance enjeitado, ganhou forma e depois esvaneceu-se; no seu lugar veio, e depois foi-se, a intenção de publicar uma colectânea de contos; até que, no final de 2025, um pouco por piedade, passei de novo os olhos pelo manuscrito.

Ou porque tinha bebido nesse dia ou porque os novos comprimidos que me prescreveram têm propriedades que favorecem o optimismo e a indulgência, senti de novo carinho por aquelas páginas e até encarei com um certo ânimo a ideia de reescrever algumas delas. O que fiz. Sem exageros de dedicação, claro está.

O resultado vai agora para a tipografia, numa edição que não é bem de autor, mas quase, para não comprometer muita gente.

Chama-se Salvar o Mundo, mas não promete nada.

Em breve darei mais notícias e anunciarei aqui o site onde podem fazer encomendas. Não espero outra coisa da vossa parte, de resto.