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segunda-feira, 29 de abril de 2024

O corso

A curiosidade antropológica e a consequente observação da vida selvagem são requisitos do exercício literário. Por isso não é inusitado que um escritor se ponha a observar um cortejo académico se tropeça num.
E o que vê o nosso escritor? Uma espécie de orquestra do Titanic, multiplicada tantas vezes quantos os carros do cortejo, a executar nas vésperas do naufrágio colectivo um repertório pouco exigente.
Nas galeras dos camiões dança-se, ou melhor, bebe-se como nos loucos anos vinte do século passado, com uma sofreguidão que se confunde com a alegria, o alívio e a urgência de quem escapa a uma guerra e deseja ignorar a próxima — ou apenas passar ao lado das convulsões do mundo.
Visualmente, dir-se-ia um sucedâneo de Carnaval brasileiro, com alegria — ao menos isso — mas sem brilho nem propósito, como se uma borrasca tivesse levado os adereços e os trajes e apenas sobrassem as pessoas, encharcadas, aturdidas, de cabelos escorridos.
A caravana é composta de carros em geral sem intenção alegórica, a não ser a involuntária e nada lisonjeira que remete para espécimes numa jaula de circo ambulante, exibidos aos transeuntes em pleno processo de embriaguez como numa aula de biologia se exibem, para estudo, processos biológicos ou corpos dissecados.
Os ornamentos dos carros resumem-se quase sempre a faixas com os nomes dos cursos — como etiquetas de laboratório — ou a balões coloridos, decalcados de um aniversário infantil. Nada de palavras de ordem, reclamações, exigências, propostas, denúncias, caricaturas, provocações, ou sequer humor — se descontarmos uma piada forçada e inofensiva sobre dinossauros e veterinária ou a tentativa bizarra mas sobretudo fútil (com certa lógica, afinal) de lograr acrónimos fundido Barbie e Ken com finalistas e engenheiros.
Tal como a imaginação falha por absentismo, a mítica (ou talvez apenas lendária) irreverência juvenil parece esgotar-se nesse frouxo desafio à moral que representa embebedar-se em público — para o que, na verdade, o cortejo é afinal redundante, se considerarmos todas as fases da vida académica.
Por momentos assoma uma breve ousadia, sintomaticamente no mais pequeno dos camiões: um curso, que o nosso escritor não identifica, evoca os 50 anos do 25 de Abril, com fotos de Salgueiro Maia e Zeca Afonso e as paredes alegoricamente cobertas de jornais (jornais!).
Mas a normalidade académica é retomada de imediato, antes que se criem ideias erradas sobre o desfile. O carro seguinte, de novo um poderoso semi-trailer, projecta a sua música como se quisesse ser ouvido em Marte — e a população é convidada a partilhar as fantasias de pornochachada de Quim Barreiros com os peitos da cabritinha. É o carro do curso de Educação Básica a encerrar com pedagogia e bons augúrios o cortejo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

De boas famílias e brasonados

Eis António Pinto Pereira, figurão entre o sinistro e o patético, que se diz militante do PSD mas é apaixonadíssimo pelo Chega, a caracterizar a elite chegana: «Ontem estive no jantar do Chega de final de ano legislativo em Cascais. Vi ali 300 pessoas educadas, de boas famílias, gente de direita, brasonados, antigos alunos do Colégio Militar, católicos, muitas crianças, antigos alunos meus, gente de princípios, convicções e valores!!»

Pergunto-me que espécie de tontos servis são todos os pés-rapados sem brasão que vêem na quadrilha do Dr. Sapo de Loiça a salvação do povo...

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Uma dessas influencers do TikTok que os media vêm anunciando esta Páscoa (talvez não por acaso) como Cristos surgidos para assegurar vida eterna à literatura, anunciava numa reportagem, não a ressurreição do discernimento, mas uma série de livros que escolhia pela capa. Decerto porque tantos jornalistas são pueris tiktokers (passe o pleonasmo) disfarçados com carteira de imprensa, ninguém teve a piedade de explicar à influenciadora que, fora do mundo de fancaria onde publica os seus vídeos, os leitores não escolhem livros pela capa. Mas rejeitam por esse método muitos — incluindo, não vale a pena sermos indulgentes, os abençoados pela estante dela.
Há dias vi na livraria uma dessas obras que o TikTok transforma em bestsellers.
Depois fui procurar livros.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

O homem das entregas

É um domingo soalheiro de Inverno e os casais passeiam, cão pela trela e, nalguns casos, pequena mochila ao ombro, talvez com a câmara dos instantâneos de Fevereiro ou outros instrumentos necessários a um passeio soalheiro de domingo de Inverno.
Também o homem das entregas da Glovo passeia ao sol, companheira ao lado, cão pela trela e — porque não pode dar-se ao luxo de jantar fora à sexta nem de perder um serviço ao domingo — saco amarelo ao ombro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

De pequenino é que se torce o pepino

Não faço de propósito, juro. Estas coisas vêm ter comigo. Hoje a banda sonora era o êxito estival “Nós pimba” e ouvia-se, não na piscina — onde já nos vêm habituando à grande música intemporal —, mas nos relvados que bordejam o castelo onde sirvo.

Um rebanho de crianças, dessas que, num campo de férias, envergam cedo camisolas e bonés uniformizados, era orientado por um rapazola de barba que tinha instalado um par de colunas potentes à sombra de uma árvore. Não sei se a intenção da música era lúdica ou pedagógica — e creio que o monitor não saberia distinguir a primeira da segunda.

Já o vi noutra ocasião (ele ou um homólogo) pastorear o grupo de infantes como na universidade se conduzem os caloiros: filinha disciplinada à força de berraria viril e, nos momentos felizes, entoação colectiva da velha melodia militar que a Robbialac celebrizou.

Não se pode dizer, talvez, que havia proselitismo consciente na sua opção musical de hoje — ainda que juntar crianças e versos pimba debaixo de uma mesma sombra pareça a ilustração viva do ditado «de pequenino se torce o pepino» na sua acepção onanista. Quim Barreiros era capaz de escrever, se ainda não o fez, uma epopeia com este tema.

Mas serei benévolo. Não é justo, ainda que tentador, invocar a versão soft porn do ditado; o que testemunhei não era, enfim, uma aula de aeróbica masturbatória (seria caso para chamar os pais de Famalicão). O que está em causa é um entendimento alegórico tradicional: «tal como os pepinos, é necessário moldar as crianças o mais cedo possível». O voluntarioso rapaz-monitor limitava-se a fazer pela educação estética das crianças o que a sociedade vem fazendo há muitos anos de forma empenhada. Toda a festa de massas da família portuguesa, mesmo quando o mote ou o alvo são as crianças, decorre hoje quase sempre sob a égide e a cascata sonora da música e da poética pimba. Que crianças de tenra idade sejam entretidas com lírica brejeira e não raro misógina já só é obsceno num plano teórico em desuso. Isto não tira o sono a nenhum casal Mesquita Guimarães.

Para me confortar, mantive-me no domínio das alegorias brejeiras imaginando que o miúdo que por iniciativa pessoal saiu do grupo para baixar as calças atrás de uma árvore, mais do que a uma necessidade fisiológica, acorria a uma vontade de subversão. Pôs-se de cócoras não como o público perante os gurus do zeitgeist mas para uma declaração sobre a oferta musical do monitor.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Mudança de sistema

O movimento para substituir o capitalismo começará quando o trabalho for dessacralizado. Dois guarda-sóis ao lado, gregamente estendida na espreguiçadeira, uma teórica da mudança faz um primeiro ensaio: «Trabalho? Que palavra feia!»

sexta-feira, 24 de junho de 2022

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição»

No trecho que transcreverei abaixo, poderão ler Mark Fisher (em 2014, creio) a constatar como a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu as artes da fruição. Reparem que Fisher falava de música e de dança em discotecas — imaginem o quão comprometida está a fruição de outras artes. Hoje ninguém senão Fisher ou os semelhantes que lhe sobreviveram (alguns dos quais são leitores redundantes ou autores igualmente improfícuos de posts como este) sequer percepciona como negativas as «exigências incessantes das comunicações digitais».

«Demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição» é portanto um bom epitáfio colectivo. A colocar na vala comum desta era.

Aqui fica a citação:
«Há que lembrar que, segundo Berardi, estamos tão assoberbados com as exigências incessantes das comunicações digitais que nos sentimos demasiado ocupados para embarcar nas artes da fruição — as excitações têm de vir de modo hiperbólico, sem chatices, para que possamos voltar rapidamente a ver o e-mail ou as actualizações nas nossas redes sociais. As observações de Berardi podem oferecer-nos uma perspectiva das pressões a que tem sido sujeita a música de dança na última década. Ao passo que a tecnologia digital dos anos 80 e 90 alimentou a expectativa colectiva da pista de dança, a tecnologia comunicacional do século XXI comprometeu-a, conseguindo até pôr os frequentadores de discotecas a verificar os seus smartphones. (“Telephone”, de Beyoncé e Lady gaga — que coloca as duas a implorar a alguém que está a ligar que pare de as chatear para que possam dançar —, parece agora uma derradeira tentativa falhada de manter a pista de dança a salvo da intrusão comunicacional.»*

* Fantasmas da Minha Vida, 2020, pp.265 e 266, VS Editor, tradução de Vasco Gato.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Pensar e agir fora da caixa de supermercado

(A propósito de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa?, de Mark Fisher)

O que há de escusado ou até patético em enfiar um melão ou um cacho de bananas dentro de um dos sacos de fina película plástica transparente que os supermercados disponibilizam em abundância aos seus clientes é menos perturbador do que o que revela da existência pavloviana que o capitalismo reserva às pessoas. O apocalipse ambiental é uma realidade ao virar da esquina; os muitos loucos ou fanáticos religiosos que durante décadas ostentaram cartazes a dizer «O fim do mundo está próximo» tinham provavelmente razão, apenas não foram suficientemente perspicazes ou precisos quanto às causas.
E contudo o problema é muito menos o uso desnecessário, desmesurado e nefasto de sacos de plástico para enfiar artigos que deles não necessitam do que a longa cadeia de gestos irreflectidos onde ele se insere.

As secções de fruta e hortaliças apresentam dispensadores de sacos em lugares estratégicos e o cliente dirige-se-lhes mecanicamente, sem se questionar, numa coreografia de gestos pré-determinados. A mesma coreografia que o pôs sem hesitações, com uma eficácia comportamental que poucas campanhas estatais logram obter, a pesar a sua própria fruta e a registar as suas próprias compras, ignorando que isso é sintoma de uma de duas formas de automatização levadas a cabo pelas empresas para reduzir os custos com trabalhadores e aumentar lucros: a automatização tecnológica e a automatização do cliente. Ambas as formas de automatização se inserem na recusa paradoxal da promessa com cem anos de que o futuro e a robotização nos libertariam do trabalho, nos devolveriam o tempo. O que acontece é o contrário: a evolução tecnológica não nos reduziu a semana laboral (nem nos aliviou da chantagem moral inerente à suposta realização do homem pelo trabalho — «Arbeit macht frei», não é?) e fez-nos entregar gratuita e voluntariamente tempo e serviços às empresas que investiram em tecnologia.

As considerações anteriores surgem-me após a leitura de Realismo Capitalista: Não Haverá Alternativa? (2009), de Mark Fisher. Diz o autor, e todos o sabemos já, que «as alterações climáticas e a ameaça do esgotamento dos recursos estão a ser, mais do que recalcadas, incorporadas na publicidade e no marketing». Contudo, isso não significa que o capitalismo actual tencione, de forma alguma, fazer o que quer que seja quanto ao problema. É só uma demonstração da sua «plasticidade» (no sentido de maleabilidade). Segundo Fisher, uma das características principais do realismo capitalista (o suposto «realismo» é o artifício intelectual a que o capitalismo recorre para que o consideremos insubstituível, inevitável) é a sua capacidade de condicionar «os horizontes do pensável e, por isso, do possível». Precavido, o capitalismo não ignora os problemas e não hesita em subordinar-se «a uma realidade infinitamente plástica, capaz de se reconfigurar a qualquer momento». Mas fá-lo para garantir que as «zonas culturais» alternativas ou independentes «não designam algo exterior à cultura dominante; ao invés, são estilos, os verdadeiros estilos principais, aliás, no seio da cultura dominante».

Em rigor, ao contrário dos autoritarismos históricos, o capitalismo aceita que as mais diversas entidades, concretas ou abstractas, sugiram às pessoas o que fazer e como se comportar perante novas tendências e desafios — mas apenas se desse comportamento resultar a manutenção ou o reforço do statu quo económico e social. Com efeito, o capitalismo apressa-se frequentemente a ser pioneiro na «aceitação» dos novos tópicos, mas estabelece de imediato os limites da discussão, fingindo-se «realista».

Com uma estrutura funcional muito próxima da de uma religião ou de um estalinismo de aparência amigável, o realismo capitalista tem os seus dogmas e, claro, os seus zelotas. São eles que estabelecem que «dizer às pessoas como perder peso ou como decorar a casa é aceitável; mas reivindicar qualquer tipo de progresso cultural é ser opressivo e elitista» (p. 108). Sem o saber, ecoei esta frase de Fisher em dois textos, de 2011 e 2014, respectivamente. No primeiro*, observei como a direita neoliberal, fingindo recusar todas as formas de proselitismo televisivo (ou seja, de opressão elitista), foi na verdade permitindo um doutrinamento de massas não menos opressivo e particularmente imbecilizante. No segundo **, levei mais longe o raciocínio para sugerir que o Estado, assustado com a mera e impensável possibilidade de promover qualquer forma de elitismo cultural, se deixou sequestrar por uma ideia falsa de liberdade ou democracia, conducente na prática a uma mediocracia (na acepção pejorativa). Exactamente porque o realismo capitalista permite todas as formas de moralismo excepto o questionamento da sua própria validade moral.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Telegrama de guerra

A Rússia de Putin está a cometer um acto vil, criminoso, indesculpável.

O revisionismo histórico de Putin faz parte do arsenal demagógico de um autocrata «clássico» — as tentativas de o compreender são mera nostalgia de quem ama a Rússia como um primeiro amor pueril, mesmo que ela seja liderada por um ogre e caminhe como um ogre.

As tentativas de «compreender» as acções da Rússia de Putin têm um equivalente óbvio e embaraçoso nas tentativas de «compreender» as acções da América de George W. Bush e as armas de destruição massiva no Iraque. É o mesmo tipo de idiotia útil voluntária por parte do mesmo tipo de indefectíveis.

O problema, evidentemente, não é haver demasiada NATO à volta da Rússia, mas haver demasiada democracia à volta da Rússia.

domingo, 28 de novembro de 2021

Identidade

Estive uma hora e picos numa conversa onde a voz (o timbre, a pronúncia, a expressão) de um dos interlocutores me era profundamente familiar, mas não conseguia perceber porquê. Estudei o rosto da pessoa diversas vezes, todos os pormenores que a máscara e a boina deixavam ver dele, mas não encontrei ali nada de reconhecível. Estudei-lhe a compleição, e parecia apenas comum, anónima. De resto, ele tinha dito a certa altura que era (genericamente, percebo agora) de uma terra onde eu não conheço ninguém e pus ali de parte as inquirições mentais. Fiquei-me apenas pela ideia de que a voz (e a linguagem corporal, na verdade) me fazia lembrar alguém, de eras passadas da minha vida ou possivelmente da TV ou do cinema.

Depois das despedidas, já eu encerrara o assunto, um amigo que tinha estado em cogitações semelhantes mas a propósito do nome da pessoa, fez-me perguntas que levaram a associações e, em dois ou três passos como num silogismo, cheguei à conclusão: era o T. de S.!

Camuflados por máscaras, cãs e décadas, estivéramos longo tempo numa farsa mal ensaiada, a fingir que dizíamos coisas novas para o outro, com uma cortesia de estranhos, quando podíamos ter estado a perguntarmo-nos mutuamente pela vida e a família, a rirmo-nos outra vez do que já lá vai e a reconfirmar esta ou aquela recordação que se nos turvou ou se vai perdendo.

Teria isto acontecido sem máscaras, ou envelhecer é esta coisa, sermos portadores de uma voz que pertenceu a outra pessoa, podermos ser vistos pelos outros como alguém sem ligações ao indivíduo que fomos?

Pergunto-me se ele passou pela mesma dúvida ou se nunca a teve e sustentou a farsa por uma questão de urbanidade, de resposta proporcional à minha frieza misantropa ou snob. Ter-me-á reconhecido e achado afectado ou está agora a registar no seu diário frases ponderosas ou absurdas como as minhas sobre o passar do tempo e esta coisa estranha que é a vida e nós nela?

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

"Olhò Toino Escadeirado"

Liguei a televisão para ver a final do English Open entre John Higgins e Neil Robertson e durante a sessão passei pelos canais da RTP. No primeiro, num programa chamado “O Pimba É Nosso”, Quim Barreiros e uma senhora cujo nome não fixei discordavam sobre a possibilidade de trocarem mutuamente de gaitas. No segundo, num festival chamado FNAC Live Lisboa 2021, tocava um grupo cuja estética visual e musical me fez recordar gloriosos bailes no pós-25 de Abril com grupos como o 25.ª Hora. Ainda fiquei à espera de ouvir a então omnipresente “Nho Antone Escaderode” que a todos soava como “Olhò Toino Escadeirado”, mas o programa, ainda que a noite da RTP parecesse uma viagem no tempo e uma visita à barraca das cassetes de feira, não aceitava discos pedidos telepaticamente, e por isso, depois de ver como a classe média urbana do século XXI se encontrou com os foliões de um Carnaval de sociedade recreativa dos anos setenta, numa espécie de vitória de Pirro do proletariado, lá me resignei a ir ver como Higgins perdia.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Problemas do teatro em Portugal

Raramente falo aqui de assuntos da minha área profissional, mas desta vez reincido, por mera irritação. O encenador Jorge Silva Melo (que também aprecio, já agora) tem-se queixado com frequência das curtas digressões dos espectáculos em Portugal, e isso é triste, de facto. Mas o lamento vem de quem em simultâneo assinala que, de Agosto até à data, andou por onze teatros (onze!). Não é assim tão pouco, acreditem. Talvez por isso o foco desse post do encenador, que podia apenas ter celebrado o feito, se virasse para outra questão: a magna desfaçatez de «apenas» quatro directores (que identifica) desses onze teatros terem ido falar com a companhia (ou com ele, não sei bem). «Vergonha», «falta de respeito» foram os expectáveis (e talvez esperados) comentários ao post.

Ora, eu pensava que o respeito se manifestava de muitas maneiras possíveis e que as hierarquias e embaixadas diplomáticas se reservavam para rituais protocolares. Há alguma falta de dignidade em ser uma companhia acolhida por empenhados técnicos e produtores — e pelo público de uma cidade? Está o director de um teatro, para além das suas específicas funções profissionais, imbuído de alguma dignidade que os seus colegas na equipa não tenham?

Já lá vai o tempo em que a chegada à província de uma companhia ou de uma diva de Lisboa era acolhida pelas autoridades civis, eclesiásticas e a fanfarra dos bombeiros, se não houvesse regimento militar nas proximidades. Os verdadeiros problemas do teatro em Portugal são mais prosaicos e contemporâneos.

sábado, 30 de outubro de 2021

«O tempo da tirania dos programadores»

A meio de uma conversa com interesse para quem tem curiosidade pelo mundo das artes performativas em Portugal o coreógrafo Paulo Ribeiro, que aprecio, disse uma frase que o JN, não escapando ao zeitgeist, usou como título da entrevista: «Vivemos o tempo da tirania dos programadores». A dramatização excessiva do tópico, o impulso para criar um sound bite, é, portanto, do jornal. Imagino que a expressão não pretendesse lançar um anátema sobre todo um conjunto de pessoas com circunstâncias, trabalho e sensibilidades diferentes, mas a frase feita título junta-se a outras afirmações igualmente negligentes que a espaços são proferidas na esfera pública, como aquela de igual teor que num célebre programa de televisão a meio do ano passado uniu figuras tão improváveis como Maria do Céu Guerra e Álvaro Covões, com a aparente aquiescência de Graça Fonseca. Merece por isso uma reflexão.

Lê-se na entrevista que os programadores, quiçá «insensíveis», são uns tiranos porque na sua maioria «não respondem», deixam que as ideias se vão «desmembrando na sucessão dos pequenos poderes» (de que vivem reféns, pode presumir-se) e «cometem o erro da voragem» da descoberta de novos talentos. É curioso que em geral os novos talentos, quando têm a sorte de ser entrevistados, se queixam da escassez de oportunidades — e é com estas e outras peças que um programador tenta quotidianamente montar um puzzle. Porque um programador, quando empenhado no seu ofício, tende a ser um laborioso montador de puzzles, de quebra-cabeças constituídos por peças abundantes e multiformes, irrequietas, nem sempre facilmente discerníveis e que não raro se atraem e repelem de moto próprio.

De acordo com um texto da Espaço Público, associação profissional de programadores, o programador cultural é um «mediador» que trabalha «no cruzamento das esferas cultural, social, estético-criativa, comunicacional, económica e política» e opera a dois níveis ou assume duas funções: «como canal entre o campo da produção artística e o da recepção cultural (os públicos) e como facilitador ou intérprete nas relações entre as comunidades artísticas e as entidades tutelares dos espaços ou projectos».

Na verdade, a minha opinião é que um programador é alguém sobretudo condenado à frustração. Não é um frustrado, como na literatura se diz sarcasticamente que um crítico é um escritor frustrado. Alguns programadores desenvolveram em algum momento eles próprios experiências criativas ou artísticas, mas a sua frustração não vem projectada de um putativo fracasso dessas experiências. A frustração vem da inerente, inexorável, inevitável incapacidade de se dar por satisfeito e de satisfazer plenamente os outros com o seu trabalho. Não é apenas a impossibilidade notória de fazer a quadratura do círculo quanto a acolher os interesses dos diferentes artistas e públicos, é sobretudo a frustração, mais dolorosa, de não ter recursos, calendário e por vezes público suficientes para produzir um ciclo de programação capaz de reunir todas as ideias e propostas que a dado momento transbordam da sua carteira de projectos a considerar.

É que, independentemente do que pensa o país mediático e o público absentista, e do que pensam os criadores uns dos outros, Portugal (que também tem muitas estruturas de criação supérfluas ou medíocres e quem exija veementemente um lugar para elas), Portugal tem nas mais diversas áreas artísticas uma boa quantidade de criadores de talento e com projectos merecedores de palco — mas não há um único espaço de programação que seja capaz de apresentar todas as propostas merecedoras dele. Quando alguém se queixa de que os programadores «não respondem», esquece-se certamente desta realidade e do esforço desmesurado que é exigido a um programador para corresponder a todas as solicitações.

Programar é, é claro, seleccionar, mas é também, portanto, ter de lidar com a mágoa de deixar de fora. Programar é mais sobre incluir do que excluir — a exclusão não é algo a que um programador se dedique, muito menos por sadismo, travessura ou tédio. Um programador, quando entusiasmado com a função, não ocupa o seu insuficiente tempo a decidir quem fica de fora, mas (com uma alegria que não afasta a insatisfação e a tristeza pelo que se perde) a escolher (nas circunstâncias e com os meios que são os seus) quem entra. E o contentamento pelo que consegue incluir no programa é breve, porque logo regressa a melancolia de saber que o seu é um trabalho de Sísifo e que nem sequer consegue rolar o raio da pedra até meio da encosta.

Dada a aparente impossibilidade de os programadores deixarem de parecer «tiranos» aos olhos de quem não é programado — aos olhos de quem, no seu próprio momento de frustração, é por vezes incapaz de uma visão holística do panorama artístico —, o que fazer? Derrubar o «tirano»? É uma hipótese que perversamente me atrai, devo dizer. Mas parece pouco sensata. De uma forma ou outra, a polis há-de seleccionar, escolher. Não o fazer, é entregar ao acaso as decisões, ou, coisa ainda mais arriscada, é entregar as decisões a outras formas de tirania, porventura mais viciosas ou ainda mais exclusivas, menos preocupadas em garantir possibilidades de escolha ao público. A busca do graal da imparcialidade (que no fim da jornada resulta, na verdade, no acriticismo e na aleatoriedade) seria talvez obtida substituindo-se nos espaços culturais a figura do programador pela do recepcionista, um digno amanuense como os que, nos consultórios, atendem os telefones e respondem aos e-mails, preenchendo os buracos da agenda por ordem de chegada dos pedidos de marcação. Claro que desta forma, como sabe quem passa pela experiência de marcar consultas no SNS, cada artista, como cada cidadão, arriscar-se-ia igualmente a ter de esperar meses ou anos pela sua vez de ser atendido — e em geral sem a alternativa de um sector privado. E a quem atribuir nessa altura culpas pelo infortúnio? Ao amanuense? Ao sistema? À vida, talvez.

Abdicar tão-só da mediação, como descobrimos dolorosamente com a desvalorização do papel da imprensa no mundo actual, não é a fórmula mágica que cria mais espaço para a qualidade.


P.S.: Sei que outros experimentam sentimento idêntico, mas este não é um texto corporativo, apenas a expressão, de resto desnecessária e vã, de um homem e as suas circunstâncias.

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A entrevista do JN:
https://www.jn.pt/artes/paulo-ribeiro-vivemos-o-tempo-da-tirania-dos-programadores-14220416.html?fbclid=IwAR2FCzVCPfwPqTpLcPeXJ0nIPstWXb56rG4vn3HMRKCYcJQnUR6Aoc_elkM

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Salvar a Europa. E o Mundo.

Com o blogue praticamente parado desde Abril, sinto o peso da responsabilidade na hora de tentar escrever um novo post — e por isso adio sempre esse momento. É um pouco como a humanidade reage a cada novo relatório sobre as alterações climáticas: compreende a responsabilidade que tem em mãos — e adia a década de fazer alguma coisa quanto ao assunto.

O parágrafo anterior forneceu-me em todo o caso o ânimo para arrancar finalmente com um post — e o enquadramento para falar do que na verdade queria falar no post que venho adiando. Que é sobre um livro que à sua maneira (sendo um romance) faz alertas como os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas circunscrevendo-se à Europa e aos malefícios, não das inalações de tabaco, mas do turismo.

Grand Hotel Europa, do holandês residente em Itália Ilja Leonard Pfeijffer, é, como o próprio autor discretamente o apresenta num vídeo para os portugueses, um «grande romance sobre identidade europeia, nostalgia e turismo». Nas suas páginas lemos o que já sabíamos: que os europeus estão a esvaziar de habitantes e a destruir as suas cidades históricas, transformando-as em parques temáticos para turista, sobretudo chinês, ver. Contudo, ao contrário do que acontece com os relatórios do IPCC, não saímos deprimidos das páginas de Grand Hotel Europa, mas satisfeitos, divertidos — e, temo bem, cheios de vontade de nos juntarmos às hordas de vândalos que, visitando-o, destroem o velho e charmoso império europeu. Não houve um dia, nestes meses em que me tentei reconciliar com a vida recordando com prazer o livro, que não me dirigisse com nostalgia e bravura ao armário onde guardo os trolleys e as mochilas — infelizmente sem consequências, saindo dele a apertar de novo frouxamente o robe como uma personagem de Thomas Bernhard, sem que dessa visita ao centro doméstico de logística de viagem resultasse, enfim, um leve aumento da minha pegada ecológica e uns milímetros a mais no ritmo de submersão de Veneza.

No tempo que passou entretanto também queria falar de Grand Hotel Europa porque o narrador desse romance falhado como prevenção do turismo tem muita coisa em comum com o Lúcio do meu romance Os Idiotas: é sarcástico, cheio de si, auto-sabotador e romanticamente tonto como ele. Um é a decadência em pessoa, o outro esmera-se com extravagância no vestir (com alfinete na gravata que lhe circum-navega a barriga e tudo), mas há passagens inteiras de Grand Hotel Europa que poderiam ter sido escritas pelo mesmo tipo que escreveu Os Idiotas. E vice-versa. Com diferenças substanciais nos resultados financeiros, todavia.

Se ganhei uma grande simpatia pelo romance de Ilja Leonard Pfeijffer, ao ponto de vir aqui sugerir a sua leitura, não foi porque achasse que ele escreveu A Montanha Mágica do século XXI, mas porque senti, ainda assim, a alegria dupla de uma literatura contemporânea estimulante e divertida. E porque na altura em que o li também eu andava a escrever um romance com personagens tão conscientes do seu tempo (este) que queriam salvar coisas. No caso, o mundo. Salvar o Mundo. Nada mau como ambição, heim? Já tenho o título, só me falta publicar nos classificados o tradicional anúncio: «Cavalheiro bem-intencionado e sem preconceitos ou posses procura editor/a para relação temporária mas apaixonada de trabalho.»

domingo, 18 de abril de 2021

O verdadeiro idiota útil

Lembram-se de João Lemos Esteves, o cronista do I e do Sol que tem dos textos mais hilariantes (involuntariamente) e mais sinistros na imprensa portuguesa? Esta investigação do Público é sobre esse lunático, mas também permite conhecer um pouco mais a extrema-direita e os populistas portugueses.

Lendo malucos como este percebemos que se certa imprensa os acolhe só pode ser, cínica e perversamente, com a dupla consciência de que são idiotas mas que são úteis a alguém. À direita anda muita gente a perder os escrúpulos, e isso talvez seja mais preocupante do que o Chega, que nunca os teve.

https://www.publico.pt/2021/04/18/politica/noticia/professor-universidade-lisboa-difama-inventa-teorias-conspiracao-1958783

domingo, 28 de março de 2021

Fade news

Antes das fake news propaladas em massa por grupos ideológicos idiotas ou mal-intencionados, havia já a figura do «assessor de comunicação», geralmente um jornalista no desemprego ou com outras ambições que aceitava um salário para, intrometendo-se na área do publicitário mas sem a mesma franqueza etimológica deste, vender um produto: uma ideia, um projecto, uma instituição, uma personalidade, um político, um sabonete.

Em algum momento — antes até da época em que os jornalistas passaram a ser substituídos por estagiários mal pagos e mal formados —, a carreira de assessor de comunicação deixou de ter a realidade em grande conta e a energia antes gasta a dar clareza e eficácia às mensagens passou a ser empregue em golpes criativos. O saber foi substituído pela invenção e o substantivo pelo adjectivo, o eufemismo ou a hipérbole. Uma nota de imprensa sobre a actividade necessária mas banal de uma empresa ou repartição passou a ser emitida com liberdade literária ou empolgamento de prosa poética, por vezes descolando tanto da realidade que em catálogos mais escrupulosos leva, compreensivelmente, a etiqueta de ficção especulativa ou científica.

O mais eficaz dos assessores de comunicação é hoje aquele que tem os contactos certos na imprensa. Mas a consciência, improvável, de que a sua força vem das relações sociais e não da sua eloquência ou do seu estilo é insuficiente para que o assessor desista da aspiração antiga de ser um domador de linguagem. Não se resignando a entregar a mensagem e receber o respectivo e honesto salário de mensageiro, o assessor obriga-se, em horas esforçadas, queimando desnecessariamente as pestanas, sutor ultra crepidam, a «tratar» a informação, não raro distorcendo a mensagem. E ao ver mais tarde o sucesso que deve à sua agenda de contactos confunde-o de novo com o sucesso do seu artesanato, confunde o acesso aos meios com o domínio dos modos, e persiste. Por isso, informação que podia só ser amplamente difundida é não raro também amplamente deformada.

A corrente filosófica e o movimento intelectual que fundiram o assessor com o publicitário e a comunicação com a propaganda medraram também nas redacções dos media. Não apenas pela antiga, tradicional promiscuidade entre as duas profissões, mas porque passou a haver também universidades e a sua necessidade vital de expelir bacharéis da comunicação como quem expele caroços de cerejas.

Colocado num órgão de imprensa ou num gabinete de comunicação, o recém-formado vem cheio de vontade e cheio de hipérboles. A sua energia excessiva de caloiro (e as redacções tendem a encher-se deles, porque o jornalista tarimbado custa dinheiro) não concebe notícias ou comunicados sóbrios e factuais, meramente informativos. Há que dar a interpretação do mensageiro e há que introduzir emoção onde ela não existe ou é dispensável. Um lead deixa assim de ser um resumo eloquente dos elementos principais da informação para ser um slogan que vive por si próprio, com frequência perdendo a sua relação hierárquica ou semântica com a informação original. E a um título não lhe basta ser o «elemento de identificação que indica e chama a atenção para a matéria de que trata o texto»: tem de ser um apelo ou uma acusação, o cabeçalho de um manifesto ou de um libelo.

É útil aqui lembrar que o soundbite não foi inventado por políticos, mas por profissionais da comunicação.

E os profissionais da comunicação adaptam-se bem, como baratas no pós-apocalipse, a todos os ambientes, da redacção clássica à moderna sala de spin doctors, e são hoje por isso intermutáveis. Quando instalados num gabinete de comunicação, gostam de escrever como jornalistas, forjando a mensagem como uma notícia. Quando deixados à solta numa redacção, aceitam sem embaraços, antes com o alívio, a notícia que lhes chega pré-escrita pelos seus irmãos siameses, apondo-lhe simplesmente, com despudor ou apenas tédio de amanuense, a sua assinatura de jornalistas ou o carimbo do órgão que os emprega — certos, com razão, de que a sociedade já nem diferencia um comunicado ou uma opinião de uma notícia.

A comunicação que passa pelas mãos de assessores e jornalistas vocacionados para o impacto pode falhar tudo — nomes, factos, argumentos, ideias, raciocínios — desde que cumpra uma ou mais destas funções: agitar, perturbar, deslumbrar, indignar, seduzir, incomodar, emocionar. Peças deste tipo de comunicação, «caracterizadas pela predominância de situações violentas e sentimentos exagerados», antigamente subiam aos palcos e levavam o nome honesto de «melodrama». Donde não é errado concluir que estes assessores ou jornalistas seriam mais rigorosamente tributados pelas Finanças como dramaturgos.

Deve preocupar-se quem procura difundir uma mensagem através de profissionais da comunicação, porque arrisca-se a um dilema ontológico ou jurídico. O sujeito da notícia, nas mãos deles, é personagem de ficção, com discurso, pensamento e por vezes biografia inventados. Com uma frequência perturbadora, o sujeito depois de noticiado já não é um cidadão real — é um fantasma ou um apátrida. Depois de descobrir aquilo em que a sua mensagem e ele próprio se transformaram, o sujeito olha-se shakespeareanamente ao espelho duvidando de que exista — e é detido pelo SEF por não conseguir provar a sua cidadania.

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* Banda sonora: https://youtu.be/p-QqRewb7V8

sábado, 20 de março de 2021

«O politicamente incorrecto tornou-se a suprema manifestação do politicamente correcto.»

Independentemente do que concluamos sobre a polémica que envolveu a tradução para holandês da obra da poetisa Amanda Gorman, mas vendo a forma como uma vasta brigada muito segura de si aproveita para dar automaticamente sentenças definitivas a propósito de tudo e de nada, há pertinência em ler o pequeno texto de António Guerreiro que transcrevo abaixo. Além da frase que retirei para título (que constata aquilo que é já evidente para muitos de nós), destaco uma outra passagem que me parece caracterizar muito bem a forma como agem os que laboriosa e pateticamente se dedicam a fazer do politicamente incorrecto o novo politicamente correcto: «reacção das pessoas presumidamente inteligentes às atitudes das pessoas obviamente estúpidas».

«Contra a onda de indignações e exclamações que se ergueram publicamente por causa do episódio da tradução, em neerlandês, do poema de Amanda Gorman, lido pela autora na cerimónia da tomada posse de Joe Biden, como presidente dos Estados Unidos, Daniel Blaufuks aplica-se a ver a questão de outro modo que tem os seus riscos, mas tem a grande vantagem e inteligência de colocar as questões noutro patamar que não é o da reacção das pessoas presumidamente inteligentes às atitudes das pessoas obviamente estúpidas. A partir desta dicotomia, não há discussão, não há razão crítica, há apenas interjeições públicas transformadas em discurso. Ora, as coisas são muito mais complicadas. É o que mostra Daniel Blaufuks neste artigo que, para além disso, tem o efeito de tornar visível uma reversibilidade: o politicamente incorrecto tornou-se a suprema manifestação do politicamente correcto. E vice-versa.»

O texto de Guerreiro, que pode ser encontrado aqui: https://www.publico.pt/2021/03/19/culturaipsilon/cronica/bemvindos-poetas-1954756

e é sobre este texto de Daniel Blaufuks: https://www.publico.pt/2021/03/16/culturaipsilon/noticia/tentativa-va-equilibrar-desequilibrio-1954503

O texto original da polémica encontra-se aqui: https://www.volkskrant.nl/columns-opinie/opinie-een-witte-vertaler-voor-poezie-van-amanda-gorman-onbegrijpelijk~bf128ae4/?referrer=https%3A%2F%2Fwww.publico.pt%2F

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Eleições

Quem quer dar sinais de descontentamento ou sugerir ao regime a necessidade de inflexões ideológicas, tem um leque razoável e simpático de candidatos e candidatas para o fazer, da esquerda à direita (excluindo o chegano). Nenhum deles ou delas é um Churchill? Bem, nós também não somos a Inglaterra de 1940 (nem a Inglaterra hoje é a mesma de quarenta, bem vistas as coisas…). Um eleitorado tantas vezes medíocre e absentista devia ser mais humilde nas exigências.

Em todo o caso, não julgo que estamos mal servidos. E quem se quer divertir ou está mesmo zangado até tem uma opção interessante, um candidato que sabe contar uma parábola com seixos que, essa sim, devia orgulhar um povo.

Os outros descontentes que andam à procura de um príncipe encantado, deviam ter cuidado, porque está à vista de todos que o príncipe é afinal um sapo.

Se os neurónios estiverem um pouco enferrujados e precisarem de ajuda para perceber isso, deixo aqui duas pistas, dois posts do blogue Antologia do Esquecimento.

O primeiro reúne um conjunto de perguntas que cada um deve fazer a si mesmo. Só com isso a resposta virá com a evidência de um murro nas trombas.
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/tenho-duvidas.html

O segundo apresenta uma lista dos «portugueses de bem» que fazem parte do Chega:
https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2021/01/portugueses-de-bem.html

Bem sei que a preguiça é muita, mas basta ler meia dúzia de linhas de cada um dos posts. Meia dúzia de linhas do princípio, do meio ou do fim, tanto faz. Trinta segundos de atenção a cada texto são suficientes. Se depois disso ainda acharem que há algo de positivo no indivíduo e no seu partido, bem amigos, o vosso é um caso perdido, sois burros por gosto. Ou sois má rês como ele.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«A condição humana pode ser muito cínica»

«A condição humana pode ser muito cínica. Existem pessoas que têm medo de mudanças evidentes e rápidas, que detestam o feminismo, a transformação social, a queda de certas hierarquias, e querem vê-las restabelecidas.»
A citação é de Anne Applebaum e resume indirectamente a simpatia pelo Chega.

Sim, há os trolls que saíram das caixas de comentários dos jornais para a luz do dia e concordam com as boçalidades do líder. Sim, há pessoas no geral estimáveis mas zangadas com a vida e a política e que se iludem com as mentiras de um paladino de fancaria que uma criança é capaz de detectar. Mas os mais perigosos são os cínicos, para quem os fins justificam os meios. Para esses, André Ventura é o idiota útil, o testa-de-ferro, o magarefe que trata do trabalho sujo. Eles ficam a aguardar para colher os despojos.

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A entrevista de Anne Applebaum pode ser lida aqui:
https://brasil.elpais.com/brasil/2021/01/07/eps/1610037420_550433.html