«Falar em rever a constituição é antidemocrático? Não há nada que ele [Ventura] defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos. Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?»
Estas três frases são um condensado da argumentação pró-Ventura nestas eleições. E são indistintamente proferidas por apoiantes ingénuos e militantes manipuladores, sendo os primeiros geralmente vítimas intelectuais dos segundos.
Desmontemos as frases para elucidação de uns e denúncia de outros.
«Falar em rever a constituição é antidemocrático?» Não, não é. Mas querer revê-la para a tornar não democrática é. E é isto que está em causa: os objectivos concretos do Ventrulha, já por ele enunciados em diferentes momentos, e não um exercício abstracto ou retórico de mero debate filosófico.
«Não há nada que ele defenda que não se pratique em países desenvolvidos e democráticos.» Mentira. Muitas das coisas que ele defende e afirma, se postas em prática, transformam democracias em regimes iliberais, como a Hungria e os Estados Unidos de hoje, regimes que ele publicamente admira.
«Um homem de 40 anos que sempre viveu em liberdade vai tentar tirar isso ao próprio povo?» Esta é mesmo para rir. Por definição, os tiranos estimam muito a sua própria liberdade e proíbem-na aos seus povos. Trump, que Ventura elogia, viveu os seus quase oitenta anos em democracia e isso não o está a impedir de instalar um regime autoritário (ou mesmo fascista) no seu próprio país.
Em suma, para se fazerem respeitar intelectualmente, os seguidores “distraídos” de Ventura deviam instruir-se — e, consequentemente, mudar de campo. Os seguidores esclarecidos, se deixarem de ser dissimulados, mostram pelo menos coerência — mas respeito não têm como ganhar. Não pode ter respeito quem propaga ódio e venera escroques.
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