Porque escolhem sentar-se ali, num lugar de estacionamento vago, mesmo
numa noite fria como a de ontem? Que fascínio pelo lugar improvável, segurando
os cigarros com sorrisos mútuos, sorvendo o fumo com evidente prazer? Não são
adolescentes que necessitem de sair de casa para esconder o vício recente ou
que sintam a ânsia de o exibir ao trânsito, em desafio. Embora haja algo de
desafio nelas, uma certa cumplicidade que nos deixa ostensivamente de fora
enquanto estacionamos o carro.
Vestem roupas do género das que se podem encontrar na Sport Zone, na
secção de ar livre (montanha, trekking,
essas coisas). Talvez tenham acabado de chegar de uma caminhada e fumem um cigarro
revigorador antes de subirem para jantar. Talvez uma delas esteja de partida
para uma semana de trabalho fora e o cigarro seja a forma de se despedirem. Ou
terá chegado e aquilo é o reencontro? Riem por terem os maridos em cima, na
cozinha, a prepararem o jantar? Ou são elas um casal e esta é apenas uma das
muitas formas que têm de estarem bem uma com a outra?
Não lhes vou perguntar — mas não porque o pudor se imponha. É que não
preciso de respostas. Preciso de cenas daquelas, portas abertas à indagação e
ao devaneio. À intrusão. É esse o meu vício.
Bom dia,
ResponderEliminarJá que pediu...
Olhe, meu Caro Rui Ângelo Araújo, que para quem se insurge com o efeito tenebroso que um piropo mais impróprio pode causar numa mulher, tratá-las por 'tipas'...
Eu, que sou mulher e já ouvi piropos impróprios (como todas as mulheres devem ter ouvido) tenho que confessar que talvez me firam quase tanto os ouvidos como se ouvisse referirem-se a mim como 'tipa'.
Sei que é a forma informal e corrente que os homens usam frequentemente para se referirem a mulheres que não conhecem; sei, também, que é a forma como uma mulher se refere a outra a quem deseja marcar com o selo da vulgaridade; mas, ainda assim, soa-me mal.
Claro que o seu texto desmente que o uso da expressão signifique alguma menos consideração. Mas, até nisso, não estou absolutamente, absolutamente segura. Vestissem elas um vestuário mais clássico e não SportZone e estivessem numa livraria em vez de estarem sentadas num lancil, e tratá-las-ia também por 'tipas'?
E é isto. Nada de grave, apenas um apontamento insignificante (já sabe que as mulheres são dadas a isto, a fazerem 'uma cena' por insignificâncias). Mas, ainda assim, aqui fica.
Não fique aborrecido... até porque, se estou agora aqui, é porque me desafiou a protestar. Além disso, já sabe, acho que você é um tipo que escreve muito bem.
;)
Bom dia, Rui Ângelo Araújo!
Olá.
ResponderEliminarObrigado pelo comentário. É bom percebermos quando erramos.
Foi uma má escolha de palavra, mas não com essa intenção nem traindo esse desdém.
A primeira ideia era usar um termo que deixasse a idade um pouco indefinida durante algum tempo. Indivíduas? Gajas? Hesitei e não encontrei melhor do que tipas. Senhoras ou raparigas não dava. (Mas depois acabei por pôr “mulheres” no título, pelo que poderia ter avançado logo com a palavra. Aselhice, portanto.)
Quanto à SportZone: eu próprio tenho os meus momentos “coronel tapioca” e sou um tipo frequentemente dressed by Jumbo. Sim, teriam continuado a ser tipas se as tivesse encontrado na livraria a mexer nervosamente no maço de tabaco (não se pode fumar, ali). Houve uma intenção subtil (talvez subtil demais) ao referir os trajes, mas não com um juízo implícito.
Aborrecido? Não. Agradecido, sempre.