sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")

Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô, que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita gente no shopping à espera de falar com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando ela vai lá.) Os pais se calhar ainda estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como acontece sempre que vão os dois ao shopping. Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?

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