terça-feira, 18 de dezembro de 2012

1. Correr à noite

Gosto de correr com a noite instalada. Bem, gosto de correr sempre, mas de uma forma particular quando, no Inverno, as trevas já desceram sobre a cidade. Uma parte do percurso que faço, no vale estreito do rio, não tem iluminação pública, e em noites sem nuvens e sem Lua é uma insensatez correr ali, no breu profundo. Insensatez que cometo repetidamente, sem hesitações, com uma alegria intransmissível. Por (raras) vezes encontro outras pessoas (quase vou de encontro a outras pessoas), e nessas ocasiões pigarreamos um aviso mútuo no derradeiro instante ou rimos uns para os outros da iminência de chocarmos, cúmplices anónimos, sombras sem rosto, felizes debaixo dos nossos capuzes ou dentro dos nossos gorros e da nossa insânia.
Nas noites nubladas, em particular naquelas de nuvens baixas, quase névoa, o percurso fica razoavelmente alumiado, efeito do reflexo da iluminação da cidade nas nuvens. E a noite é então ali um mundo levemente estranho, com uma luzência avermelhada, como um dia de eclipse solar, uma insónia no Árctico ou em Marte, assim surreal e acolhedor.
De todas as noites, a mais fascinante para a corrida nocturna é a de Consoada, na hora em que as pessoas se estão a instalar para a ceia e deixam as ruas desertas excepto nos largos onde ardem madeiros. Na Consoada, não se imagina que andemos na rua, que desçamos ao parque. A margem do rio é o último sítio onde somos esperados. Correr ali nessa hora é o mais próximo que se pode estar da solidão adâmica ou do isolamento pós-apocalíptico. Quem quereria isso, não é? Quem quereria experimentar uma ausência primitiva ou pós-civilizacional de seres humanos?
Na noite de Consoada, a vontade de correr lado a lado com o rio (e só com ele) digladia-se em mim com os sentimentos filiais e fraternais que a quadra me exige. E perde quase sempre — tenho isso a favor da minha humanidade. 

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