sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (1)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]

«Todas as roupas de Delfina eram de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros, convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores incertas.»

in Hotel do Norte

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