domingo, 13 de janeiro de 2013

Abateram as mimosas

Gosto de mimosas, aquela explosão de amarelo em Fevereiro. Gosto da forma como a cor nos surpreende depois de uma curva no caminho ou a seguir a uma colina. E gosto do perfume doce que viaja com o vento, anunciando-as mesmo quando não as vemos.
Nos manuais de botânica e na internet chamam-lhe Acacia Dealbata, mas parece-me que é só para a insultarem e poderem dizer coisas como «é provavelmente a espécie invasora mais agressiva em sistemas terrestres em Portugal Continental». Foi importada da Tasmânia para nobres fins ornamentais e agora querem que seja o equivalente botânico do Diabo-da-Tasmânia, pelo menos que soe tão assustadoramente.
Aqui no parque havia dois núcleos de mimosas. Um deles, entre outros benefícios, protegia-nos da presença incómoda da cidade, como o fazem noutras faixas pinheiros, carvalhos e algumas espécies ripícolas.
A extensão norte do parque (um excelente resultado do Polis, programa tantas vezes injustiçado) é na verdade um troço de caminho que acompanha o rio por cerca de um quilómetro. É a parte mais interessante do percurso, porque nos permite caminhar na cidade quase sem lhe dar pela presença. O rio ali corre num vale estreito e fundo o suficiente para que as casas e os prédios sejam esquecidos, e a sensação de afastamento é ajudada pelas vertentes arborizadas.
No entanto, paira uma ameaça sobre este retiro. Apesar da crise, o urbanismo (a verdadeira espécie invasora do continente e ilhas) reclama território virgem e abate arbóreo, como sempre faz. E se isso não fosse suficiente, a limpeza e a desmatação rotineiras que as margens vão merecendo parecem padecer de excesso de zelo. Não raro notamos uma árvore em falta, apercebemos o desaparecimento de um ou outro conjunto arbustivo que não parecia fazer mal a ninguém, descobrimos aqui e ali pequenos troncos decepados que a olho nu não revelam doença ou velhice.
Agora foi a vez das mimosas. Ali, onde elas se preparavam como todos os anos para colorir de amarelo-canário uma vertente particularmente assombrada pelo mau-gosto urbano, existe agora um vazio, e por detrás dele construções feíssimas.
Um dia, temo, deixará de fazer sentido correr ou passear no parque, porque sem vegetação será como passear nos quintais das traseiras de desconhecidos. Sem folhedo e mimosas a florir será como permanecer num despido Inverno de subúrbio à portuguesa, desordenado e feio como sempre são.
Aquele troço do rio, em ambas as margens, merecia regras de protecção e alguma reflorestação. Como isto parece pouco provável, resta esperar que o pior que dizem das mimosas seja afinal correcto: 
«A mimosa tem a capacidade (…) de se multiplicar vegetativamente a partir de caules recentemente cortados (rebentação de toiça) ou da formação de lançamentos aéreos a partir das raízes laterais, originando novos indivíduos a certa distância da planta-mãe. Produz um elevado número de sementes, facilmente dispersas por animais (p. ex. pássaros e formigas), por vezes pelo vento e pelo próprio homem; a maioria acumula-se debaixo da árvore, e mantém-se viável no solo por muitos anos (50 anos, ou mais), aguardando pelo ciclo seguinte de perturbação e regeneração.»
Perturbação e regeneração — parece-me uma boa maneira de pôr as coisas. Cumpra-se o ciclo.

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