quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Planos de vida

K. tem um objectivo de vida: acumular suficientes livros para a meia-idade (não conta ter velhice, diz que a vida não está para luxos desses). K. acredita que, nas noites ao relento, os livros dão melhor forragem do que os jornais, é preciso saber escolhê-los volumosos e de capas maleáveis. Há um livro que K. procura mais do que todos: A Guerra do Fogo. É uma demanda com razões afectivas, mas com um sentido prático, se se podem colocar as coisas assim. Em novo, K. leu grande parte do livro de J.-H. Rosny numa noite de tempestade à luz da vela e o que recorda são camadas sobrepostas de prazer: a leitura saborosa, a luz intimista, o calor aconchegante do fogão a lenha, o frio e a chuva e o vento na rua a lembrarem como é bom (e suficiente) ter abrigo e lume. Não lhe serve qualquer edição. K. precisa de uma antiga, com páginas amarelas e o cheiro certo, aquele que possa só por si evocar a história de uma infância feliz. K. acha que vai precisar desse género de sortilégios quando as noites forem mesmo frias e não houver luz para ler, ou ele não esteja com disposição para isso — K. imagina que não há muita disposição para ler quando se é um sem-abrigo. É esta a vantagem do livro impresso, pensa ironicamente, se não o podemos ler, continuamos a poder cheirá-lo e ter assim o nosso lume e a nossa noite aconchegada. (Façam isso com o kindle e o seu cheiro neo-liberal a máquina de calcular made in China, diz K., um pouco agastado.)

A vida de K. (1)

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