terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O espantalho

Fez a sua aparição numa curva da A24, na zona de Viseu. Empoleirou-se na laje de betão que serve de telhado a um barraco de apoio à agricultura — o terreno à margem da estrada é produtivo e é cultivado. O espantalho alçou-se ali, presume-se, para afastar a passarada. No entanto, há dois anos que ele fita é o trânsito, saúda-o. Na primeira passagem, a sua antropomorfia talvez assustasse o condutor desprevenido, mas com a repetição da viagem criava-se uma empatia. O espantalho era simpático, talvez até para os irmãos pássaros, um seguidor de Francisco de Assis. Provavelmente não era um espantalho, mas um totem místico, o padroeiro dos motoristas — não se vêem marcas de acidentes naquela curva.
Há meia dúzia de meses, arranjou companhia. Foi agradável vê-lo partilhar o horizonte com alguém da sua espécie, o mesmo ar négligé, a mesma forma original de combinar peças de roupa, a mesma barriguita de palha. Talvez o novo indivíduo seja uma senhora-espantalho, e, nesse caso, podemos imaginá-los por vezes a fazerem gazeta à função protectora e a olharem o pôr-do-sol nos montes (ou no mar, a imaginação não tem limites). Alguém deveria subir ali e colocar o braço de um sobre o ombro de outro.
Na verdade, talvez o tenham feito já, num fim de tarde auspicioso ou numa noite de lua cheia: na passada quinta-feira foi detectado um terceiro espantalho no mesmo telhado. A condução atenta não permitiu discernir pormenores, mas não custa aventar que se trata de descendência; o período de gestação de um espantalhinho não tem necessariamente de ser de nove meses.
Em pouco tempo, a curva da A24 ganhou uma tríade protectora, como dita o Livro. Passa-se ali e adquire-se um sorriso instantâneo — o sorriso que nos tinha sido tirado ao cruzar o pórtico das portagens, instituídas na mesma quinta-feira.
Viajar no interior do país pode ter ficado mais caro, mas há felizmente alguém que zela pelo bom humor dos viajantes, se o Governo não tem vocação para isso. 

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