terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Função empática

O parque aqui da cidade vai sendo frequentado em dias de sol por imigrantes de diversas proveniências, todos com a mesma ânsia de natureza e ar livre que move os autóctones em domingos e dias feriados. Africanos, ucranianos, brasileiros, falantes de árabe. Hoje era uma família de asiáticos — crianças e um par de adultos, provavelmente chineses — a jogar badminton com alegria e risadas universais.

O pessimista em mim sussurra-me que não hão-de tardar a pronunciar-se contra isto as pálidas brigadas do ódio, encerradas nas suas páginas bafientas e sem sol do Facebook, com os seus maus fígados já incapazes da função empática.

Mas hoje havia o riso e o seu poder regenerador, quem sabe se curativo de doenças biliares.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Santa Úrsula e os comunistas

Reza o Martirológio Romano (catálogo de santos) que Santa Úrsula (séc. IV) morreu mártir às mãos dos hunos em Colónia, na Alemanha, acompanhada de 11.000 outras virgens. A descoberta no século XII de um vasto cemitério no exterior da muralha levou a que os católicos vissem ali confirmada a lenda e logo empilharam as ossadas numa igreja de homenagem à mártir e seu séquito.

Num momento da História, descobre-se que o exagerado número de mártires pode dever-se à interpretação errada das iniciais numa inscrição antiga, que leu «onze mil virgens» onde estaria «onze mártires virgens». Exames de ADN revelam entretanto que as ossadas encontradas são anteriores, do tempo dos romanos. Nada disso demoveu os peregrinos (nem os editores dos martirológios), que continuaram a comparecer na Igreja para louvar os 11 mil crânios e as 22 mil tíbias virgens. (Parece que não estão lá tantos ossos, mas que se há-de fazer.)

Esta edificante história — contada pelo narrador de “Elizabeth Finch”, de Julian Barnes — fez-me lembrar alguns comunistas dos nossos tempos. A História e a Ciência podem ter descoberto muitas coisas sobre a Rússia e as suas virgens, mas eles, irmanando-se no grau de devoção a velhos católicos ultramontanos, hão-de ir sempre ali peregrinar com fervor — como se as ossadas dos gulags, deste século ou do outro, fossem de louvar, não de lamentar.

Algumas reacções à morte de Alexei Navalny, não obstante o defeitos que se queiram apontar ao defunto, mostram como já era bem tempo de os comunistas actualizarem o seu próprio catálogo de santos. Ou mártires.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

[Alterações Climatéricas #6

E pronto, com uma, digamos, apaixonada adesão ao espírito de São Valentim encerro esta visita ao baú dos contos falhados.]


Dia de São Valentim

 

 Aquilo lembrava a história do flautista de Hamelin, só que não havia flautista, apenas os ratos que o seguiam, que também não eram ratos. Mas o abismo ficava naquela direcção, uma centena de metros à frente, e ele não conseguia deixar de pensar que era para ali mesmo que todos se dirigiam, para onde mais poderia ser?

Uma hora antes, encostara a bicicleta a um pinheiro e adentrara no bosque pouco denso, sentindo nas pernas a humidade das ervas altas, uma humidade estranha e fora de época. Queria fotografar algumas aves no seu habitat e escolheu uma rocha onde se podia sentar como numa poltrona, mesmo que o musgo que a cobria estivesse molhado e previsivelmente viesse a sentir isso nas nádegas. Não estava muito frio, de qualquer modo, e estes pequenos desconfortos animavam-no, permitiam-lhe alimentar uma certa arrogância de indivíduo rústico, maior do que a pálida faceta telúrica que na verdade tinha.

Tinha quase adormecido quando chegou o primeiro automóvel. Aquele era também um sítio de encontros amorosos furtivos, ele sabia-o, denunciado pelas marcas dos rodados na orla da clareira e os preservativos espalhados nas redondezas. O carro estacionou e ele não se sentiu incomodado. Mesmo que não o confessasse, as distracções eram bem-vindas. De boa vontade apontaria a objectiva como um paparazzo, se não tivesse medo das consequências que resultariam do confronto com um namorado particularmente encorpado e violento e mais rápido do que ele a correr.

Viu-os sair do veículo e colou-se mais à rocha. Não ainda por receio, mas para que o casal não interrompesse o que viera fazer. Lamentava não se ter antecipado e escolhido o outro lado da fraga, de onde podia ver sem ser visto. O parzinho deu logo com ele na sua posição pouco camuflada mas não pareceu importar-se. O rapaz contornou o carro, juntou-se à acompanhante e, dando-lhe a mão, partiu com ela tomando o sentido descendente da encosta, na direcção do desfiladeiro. As vistas dali eram famosas na região, embora naquele dia o céu encoberto não permitisse sonhar com pores-do-sol arrebatadores.

Nos vinte minutos seguintes, mais uma dúzia de automóveis acorreu à clareira. Os condutores tiveram o cuidado de estacionar as viaturas orientando-as para diferentes pontos cardeais e colaterais, mas não tão longe umas das outras que os seus proprietários parecessem incomodados com a presença alheia. De resto, demorando-se uns minutos no automóvel ou saindo de imediato, todos os pares se davam as mãos e tomavam o caminho do primeiro casal. E todos em algum momento notavam sem reacções a presença do fotógrafo, que já não de dava ao trabalho de disfarçar a curiosidade, embora se abstivesse de empunhar a máquina, ou pelo menos de a apontar naquela direcção.

Dezasseis carros depois, ele achou que aquilo era demais, que iria rebentar se não descobrisse que espécie de convenção de São Valentim era aquela, que atracção ou acordo levava quase duas dezenas de casais a estacionarem na mesma clareira e a escolherem um mesmo caminho na floresta.

Geralmente, os namorados evitavam demasiada proximidade neste tipo de encontros, sobretudo à luz do dia. Um carro nas imediações inibia o desejo e a maior parte deles não ia ali exactamente (ou só) para conversar. Havia, claro, o argumento do miradouro, local de encontros românticos, menos necessitados de reserva do que os rendez-vous passionais. Mas, ainda assim, ele estranhava aquela multidão, tanto mais que havia vários outros pontos na zona igualmente acessíveis e quase tão encantadores quanto aquele. O normal era que o terceiro ou quarto automóvel achasse o local demasiado concorrido e, dando meia volta, partisse em busca de maior sossego.

Guardou preventivamente a máquina na mochila e ele próprio se meteu pelo trilho entre pinheiros e fetos. Foi então que a parábola do flautista lhe pareceu mais viva e adequada: depois de uma volta para observar o miradouro a alguma distância, viu-o vazio, mas, subindo de seguida à plataforma rochosa, espreitou o fundo do desfiladeiro — onde trinta e dois corpos jaziam disformes e ensanguentados, alguns ainda de mãos dadas.

Nas copas dos pinheiros o vento aumentara de intensidade. Não restavam dúvidas de que o tempo estava a mudar.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

[Alterações Climatéricas #5]


A bela adormecida do Mosela

 

 O que havia com aldeias como Beilstein, à margem do Mosela, é que não facilitavam o checkout. Quando por fim conseguíamos deixar de adiar a partida estávamos tão bêbados que nos excedíamos na gorjeta, imbuíamo-nos de uma generosidade maior do que o nosso orçamento, com consequências severas para a vida dos meses seguintes.

Eram essencialmente de dois tipos os visitantes da aldeia: os que iam lá pelo vinho e todos os outros. Eu era um dos primeiros.

Não que ali o vinho fosse diferente do que era servido no resto do vale. O que o lugar tinha de particular era a atmosfera e a missão. Mais do que todas as localidades do Reno e do Mosela, a pequena Beilstein existia para nos servir de beber.

As terras ribeirinhas tinham no vinho o principal negócio, mas naquela ele era o único negócio. Beilstein existia enquanto houvesse gente a sentar-se nas suas esplanadas ou nas suas tabernas a pedir um copo de vinho. Se a região fosse visitada apenas por abstémios apreciadores de paisagem e castelos, Beilstein fechava as portas. Por falência e, sobretudo, honra ferida.

Era o sítio mais pitoresco que por ali se encontrava, com as mais graciosas casinhas de pedra ou de traves à vista, o rio a espraiar-se à sua frente num dos melhores momentos de todo o seu estético e serpenteante deslizar para o Reno. No conjunto — aldeia, vinhas, rio e o castelito no morro — Beilstein era o melhor postal entre Coblença e Tréveris. Isso mesmo atestavam os guias e os serviços de turismo.

Mas, insisto, a razão porque a terra sobrevivia às décadas e se renovava ano após ano não eram os filmes históricos que lá se faziam, nem as hordas que por lá passavam a caminho de Cochem (o melaço do turista) ou de outras localidades mais diversificadas. O que mantinha Beilstein na melhor das formas eram aqueles que, como eu, paravam ali como beduíno em oásis.

Como seria de esperar, esta minha opinião não era partilhada por todos. Havia quem parasse ali para bebericar um chá, uma água ou um sumo e se espreguiçasse nas esplanadas declarando ter encontrado um dos sítios mais acolhedores da sua passeata turística. Pessoas deste género, que puxavam das máquinas fotográficas e faziam o seu clichezito das casas, do rio, da margem oposta (essas mesmas fotos que abundam na Internet). Que se maravilhavam. Mas que, depois, quando chegava a hora de tomar a grande decisão, se metiam no carro ou montavam na bicicleta e subiam ou desciam para outras paragens.

Na verdade, Beilstein não se incomodava com a pusilanimidade do turista médio. Agradecia-a. Havia coisas que não se queria ver obrigada a fazer. Gostava que pela hora de jantar a triagem tivesse sido realizada e que os que se inscreviam para pernoitar fossem de boa estirpe, daqueles que começavam pela carta dos vinhos, dedicavam depois um instante a escolher qualquer coisa sólida para acompanhar e voltavam logo à carta como o crente ao livro sagrado.

A meio de uma manhã de Agosto o hóspede de Beilstein sai do seu quarto e instala-se numa das esplanadas com vista para o rio, com o sol pelas costas. Como é cedo, talvez beba um café a olhar as vinhas ou as casas da margem oposta. Ou talvez observe o trânsito que sobe e desce a marginal, os automobilistas cuidadosos e educados e as ternurentas famílias de ciclistas. Talvez simplesmente dormite, a fazer horas.

Do que certamente não está à espera é de ver chegar uma coluna de blindados (os temíveis Tiger) das Waffen SS e que, em dez minutos, os estabelecimentos da aldeia fiquem tomados pela arrogantes tropas de Hitler.

Pois bem, aconteceu-me a mim no mês passado. Tinha começado por um branco seco frio e umas azeitonas sem caroço (rejeitara o café). Abrira um livro de Antony Beevor numa das secções de imagens e pousava frequentes olhares interrogativos no relampejar do rio (não me lembro o que questionava). O branco seco, como soe acontecer no Mosela — mais do que na Bíblia —, multiplicou-se e ao quarto ou quinto copo fiquei de novo piegas, a choramingar por amores perdidos, ou coisa assim.

Sucede-me de vez em quando, emocionar-me com o vinho, e nessas alturas procurar razões para verter umas lágrimas enquanto cerro muito os olhos e faço um esgar com a boca. Creio que não se me pode censurar.

Mas naquele dia não foi de todo oportuno revelar-me tão sentimental. Um dos militares, depois de ter estacionado o seu panzer em contramão e ignorado a minha surpresa, quis saber porque chorava eu, o que temia. Naturalmente, não me interrogou porque sentisse alguma empatia (era um SS), mas porque se habituara a que as pessoas traíssem os seus segredos na presença daquele uniforme. Na sua opinião, se eu chorava era porque tinha algo a temer.

Claro que eu não tinha nada a temer e naquele momento tudo o que sentia era perplexidade. Não havia nada mais inadequado a Beilstein do que a rispidez nazi, apesar de estarmos na Alemanha. Quis perguntar-lhe qualquer coisa, pedir-lhe alguma espécie de esclarecimento, mas o tipo já tinha decidido o que fazer comigo e eu acabei por me esquecer do que lhe queria perguntar.

Fui levado para as traseiras de um estabelecimento que conhecia bem. Nunca entrara para aquela parte da casa e do que mais me lembro é de ter pensado que a adega era bem menos exuberante do que imaginava: numa vista de olhos pelas prateleiras detectei várias lacunas imperdoáveis. Como me deixaram sozinho por minutos e eu não tinha saca-rolhas, resolvi partir o gargalo de uma garrafa e beber o vinho coado pelo meu lenço de mão (ainda por usar, bem entendido). Mas essa decisão foi um erro, porque os nazis, quando regressaram para me buscar, imaginaram que tencionava usar a garrafa como arma, o que, na sua opinião, no mínimo traía a minha animosidade para com o regime.

Ao meio-dia e quarenta e cinco fui, portanto, encostado a uma parede coberta de hera (essa mesmo que se vê nas fotografias, do lado direito). Ainda assim, creio que não foi a garrafa partida a razão mais forte para aquilo. Talvez o esquadrão andasse algo entediado (afinal, há mais de sessenta anos que não se passava nada) e precisasse de se sentir útil. Por mim, teria ponderado colaborar, se eles tivessem sido delicados o suficiente para o sugerir. Mas, já o disse, eram nazis. Assim, mostrei-me incomodado e afirmei mesmo que dispensava a venda nos olhos. Até me tentei lembrar do que gritou o coronel von Stauffenberg instantes antes de ser fuzilado pela malograda Operação Valquíria. Mas não me ocorreu nada melhor do que o waiter! a que estava habituado. Waiter!, berrei eu, e foi-me servido um raro tinto. Reservado para os que vão morrer, sussurrou-me o empregado, condoído, talvez por ser um daqueles vinhos cor de sangue que ninguém gostava de verter em toalhas de linho.

Mas as armas não foram disparadas (doutra maneira eu não teria sobrevivido para contar a história). No último segundo, uma onda gigantesca percorreu o Mosela, uma espécie de tsunami fluvial com origem numa tromba-d’água violentíssima que caíra sobre o troço francês do rio, um desses fenómenos mutantes a que o clima estava agora sujeito. O pelotão de fuzilamento e eu próprio fomos levados pela enorme massa de água que transbordou do leito antes mesmo que a alguém ocorresse a famosa abertura de Cem Anos de Solidão.

Durante uns longos segundos rebolei naquela maré cheia de detritos e quando parei finalmente foi porque bati com as costas num dos tanques estacionados ao longo da estrada. A corrente continuava rápida, embora a onda tivesse passado, e as margens permaneciam afundadas numa das maiores cheias de que havia memória. Houve vários mortos e felizmente alguns deles eram nazis, incluindo o comandante, o que deixou a tropa desorientada e me permitiu pensar em movimentos evasivos.

Subi pela lagarta ao canhão de 88 milímetros como naquelas imagens famosas e efémeras da Primavera de Praga. Talvez o panzer pudesse avançar contra a corrente e levar-me ao hotel, mas eu não saberia como o pôr em andamento. Escalei, por isso, o muro da vinha e procurei chegar à aldeia pelo lado de cima da encosta.

Era uma desolação ver a praça inundada, as esplanadas arrasadas, o rés-do-chão das casas submerso e o seu interior saqueado pela violência da água. Nenhuma adega daquele sector da aldeia, o mais baixo e o mais rico, teve qualquer hipótese. Décadas de colheitas seleccionadas foram simplesmente pelo ralo, como restos de um banquete.

Pensei organizar com os sobreviventes da parte alta da aldeia alguma espécie de operação de salvamento, mergulhar nas adegas sujeitados por uma corda e recuperar aquilo que a corrente não tivesse levado. Mas fui distraído desta ideia pelos gritos insistentes de sete homenzinhos que vieram até mim e me puxaram pelas roupas. Parece que havia alguém em apuros, uma mulher que não acordara a tempo de evitar a inundação.

Há alguns anos que eu evitava mulheres em apuros. Era um mantra que recitava ao acordar e que me deixava feliz se ao chegar ao fim do dia o tivesse cumprido. Vivia para esse objectivo, um dia de cada vez, como os alcoólicos anónimos. Tinha, aliás, passado por uma dessas instituições (apenas para aprender o método). E o sucesso era tão grande que nos últimos tempos me era já difícil lembrar porque devia evitar mulheres em apuros.

Mas os anos de auto-condicionamento tinham agora de ser interrompidos, porque aqueles sete homenzinhos pequenos (creio que eram anões) não paravam de apelar ao que de mais humano havia em mim. A senhora fora subtraída ao seu quarto pela água, mas miraculosamente ficara presa nos ramos de uma das árvores que bordejavam o que era agora o rio. Vista dali, parecia um cadáver numa espécie de pira, só que os anões teimavam que não estava morta, apenas adormecida.

Mergulhei na corrente, que nesta parte em forma de baía era mais calma, e enquanto nadava fui-me perguntando por que raio não se tinha lançado à água nenhum daqueles sete minorcas.

Eram cinquenta metros até lá, pelo que tive tempo de reflectir. Talvez eu devesse ser menos complacente com os acontecimentos insólitos. Não era a primeira vez que a vida conspirava contra mim. Havia sobretudo que ter em conta as manobras de diversão, ocorrências sem vínculo aparente que não tinham outro objectivo senão desconcentrar-me. Estaria a ser vítima de mais uma dessas urdiduras?

A mulher não tinha aspecto de estar em apuros, tão plácida se apresentava naquele seu altar de ramos e detritos entrelaçados. Mas o que aconteceria quando ela despertasse? Resolvi, apesar de todos os sinais, ser menos supersticioso e mais magnânimo. Icei-me para o seu lado e encetei os procedimentos da técnica de reanimação. Encostei a minha boca à dela e…

Três semanas depois casámo-nos, como eu temia.


sábado, 10 de fevereiro de 2024

[Alterações Climatéricas #4]


Inundação

 

 Quando quase todos começaram a ficar amedrontados, ele parou com o tique nervoso que lhe fazia tremer o punho onde assentava o queixo, cotovelo sobre o joelho como o pensador de Rodin. Por alturas do pânico generalizado, sentiu alegria e podia tê-la manifestado com um pulo ou dois de adolescente se não estivesse demasiado ocupado a manter-se à tona da água.

As chuvas tinham sido anunciadas, mas ninguém pudera imaginar uma coisa daquelas. Excepto ele, que estava disponível para imaginar tudo o que lhe mantivesse a mente distraída. Imaginar era, aliás, o que lhe restava, já que o mundo real ficara reduzido aos vinte metros quadrados de uma cela colectiva, com raras saídas para o pátio da prisão.

Nunca ignorara que uma vida de prisioneiro seria dura demais para alguém como ele. Mas nem agora que pudera confirmar pessoalmente os horrores da penitenciária se arrependia do que fizera, caso por uma falha na sua rotina mental se deixasse pensar um pouco no assunto. Os colegas de cela tinham-no por pensador, alguém que cismava diariamente, que remoía os remorsos do que fizera ou os erros de planeamento que o tinham conduzido ali. Gozavam com ele por causa disso, como naturalmente gozariam a propósito de outra coisa qualquer. O quotidiano da prisão confirmava os seus piores receios e ele — tímido, frágil sob a falsa corpulência dos quilos a mais, e medroso — era a vítima perfeita de uma comunidade que vivia em tensão permanente.

Nas primeiras semanas, sonhara muitas vezes com a solitária, com formas de provocar a ira da direcção do presídio, uma ira que o conduzisse ao sossego do isolamento sem necessariamente o submeter a sovas demasiado violentas. Mas cedo descobriu que não existia tal coisa no sistema prisional. A doutrina em vigor falava de socialização, partilha, igualdade de tratamento e de deveres, participação na gestão do espaço comum e uma série de tretas do mesmo género. Tinha de se integrar ou conseguir morrer de um ataque cardíaco auto-infligido, já que todos os meios que permitissem o suicídio tinham sido cuidadosamente removidos e a vigilância era permanente, havia um Big Brother caridoso e pró-vida a zelar pelos detidos.

De modo que o Inferno para ele, que naquele dia não teve os recursos para disparar sobre si próprio ou presença de espírito suficiente para se lançar de um viaduto sobre o trânsito da cidade, começou ainda em vida, no momento em que entrou na penitenciária da comarca.

Bem, na verdade começou antes. Micaela era o demónio em carne e osso e era disto que ele não se arrependeria se se permitisse pensar no assunto: de lhe ter terminado com a raça.

Não foi uma decisão fácil nem rápida. No início nem era uma decisão, mas a centelha de uma ideia, a esperança vaga de que se alimentavam os seus dias. Começou por lhe desejar a morte. Uma morte natural — todos estavam sujeitos a achaques. Depois deixou de o repugnar que ela falecesse num acidente de carro. Ou de avião, já que gostava tanto de cruzar o Atlântico. Por fim, convenceu-se de que a saúde de Micaela era de ferro e que as tragédias se mantinham longe dela. A única fraqueza da mulher era ele próprio, como ela não se cansava de dizer.

Houve um tempo em que se enchia de orgulho de cada vez que ela dizia aquilo. Ele era a fraqueza de alguém como Micaela, nada menos do que isso. Depois tornou-se escravo dela e, numa fase seguinte, o bibelô de que ela punha e dispunha quando se sentia no apogeu da sua superioridade moral. Nos últimos tempos era a vítima da sua fúria, dos seus ciúmes (ele!), da sua paranóia.

Deu cabo de Micaela com uma marreta. Mas escolheu mal a arma, porque não tinha como a usar sobre si próprio, era demasiado pesada para ser brandida com eficácia contra a própria pessoa e contra o instinto de auto-preservação.

E agora ali estava ele.

A vida na prisão era um prolongamento da vida que ele tivera nos últimos tempos lá fora, com a agravante de que o número de torturadores tinha aumentado. Cada um dos condenados que lhe faziam companhia na cela gostava de o considerar, em diferentes momentos, confidente, cúmplice, mascote, criado, parceiro sexual ou saco de porrada. Oficiosamente, concluía ele, o sistema ou a vida ou os deuses lá em cima pediam-lhe que se deixasse abraçar pela esquizofrenia, mas ele não conseguia deixar de se manter lúcido.

Ah, não o tocarem, não lhe falarem, e ele não os ouvir nem os ver. Ah, estar na cela como no meio de uma rua movimentada de uma grande cidade, onde ninguém se conhece nem se fala e todos são anónimos. Ou no meio de um bosque impenetrável, no deserto, no cimo de uma colina remota. Fértil em crueldades, o sistema prisional acabou com a velha e clássica solitária, aquilo que lhe poderia salvar a vida.

E então a chuva foi subitamente anunciada e caiu, com força, perseverante, incansável. Foi no rádio dos guardas que ouviu o alerta. Claro que, apesar do tom histérico da protecção civil, ninguém esperava um dilúvio, e quando a água entrou às golfadas por baixo da porta, fazendo boiar a merda dos que insistiam em cagar nos cantos, os prisioneiros seus colegas mostraram os primeiros indícios de humanidade, de uma humanidade temente a Deus. Ele parou pela primeira vez com o tique nervoso que lhe fazia tremer o punho onde assentava o queixo.

Em menos de uma hora a água chegou à cintura dos detidos e, por mais que tivessem berrado, ninguém lhes abriu a porta, ninguém se preocupou com o seu destino. Não custava perceber que os guardas tinham abandonado as instalações ou subido aos pisos superiores para salvar a pele.

A inundação, nos seus primeiros momentos, aumentou o caos na cela. Todos praguejavam e se empurravam como se fosse possível encontrar naqueles vinte metros quadrados um culpado ou um salvador. Inevitavelmente, ele era o candidato que todos preferiam e foram-lhe exigidas explicações, soluções, e cada um dos outros lhe aplicou uma bofetada ou um soco como paga do seu silêncio.

Com o nível freático a atingir a altura do peito, os detidos subiram literalmente às paredes, agarrando-se onde puderam. Por uma vez em meses, o centro da cela tornava-se um local solitário e ele manteve-se ali, com uma alegria primitiva, recordando-se com prazer de todos os momentos na vida em que pôde estar só. No perímetro do compartimento, onde os outros tentavam encontrar formas de se elevar acima das águas, os gritos eram desesperados e ensurdecedores, mas a ele parecia-lhe que também o silêncio lhe fora finalmente concedido.

A água subiu mais um pouco e ele sentiu-se a ser erguido do chão; perdia o pé e ganhava um bem-estar quase esquecido. Mais ninguém ali sabia nadar, pelo que, no meio do pânico colectivo, ele era olhado com uma inveja inaugural e uma última raiva.

O pé-direito da cela media quatro metros, o que tornou longa a agonia geral e a ele lhe proporcionou minutos extra de solidão. Ninguém agora se atrevia a vir até ali ao centro para o incomodar. Estava só, o mundo em ebulição à sua volta e ele a ignorá-lo, a vogar e a rodar lentamente na superfície da água, entregando-se lentamente à maré com pequenos movimentos das mãos e das pernas.

Os primeiros prisioneiros, os que não conseguiam forma de subir até ao tecto, começavam já a afogar-se, e todos outros, ele incluído, tinham agora menos de trinta centímetros de espaço para respirar. Achou divertida a forma como alguns levantavam a cabeça, ofegantes, parecendo peixes a querer beijar o cimento do tecto. Outros, como ele, inclinavam a cabeça, o que o fez lembrar a sala de tribunal descrita por Kafka em O Processo. Mais ninguém dispunha da liberdade de movimentos que ele tinha, agarrados como estavam àquilo que lhes permitia segurar-se às paredes. Ele boiava em círculos cada vez maiores ao redor da cela, nadando de costas, para manter a boca fora da água. Não o preocupava o desfecho da catástrofe. Morria feliz e em liberdade.

 

Dois guardas de aspecto brutal, agarrando-o pelos cabelos, retiraram-lhe a cabeça da sanita, de novo entupida, e arrastaram-no pelo corredor. Iam mudá-lo de cela, para uma onde não corresse o risco de se afogar a si próprio. Lá fora ouvia-se a intempérie. «Nunca vi chover assim na minha vida», disse um dos guardas, com um tom preocupado. 


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

[Alterações Climatéricas #3]


Velas benzidas

 

 Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos dez numa mesa que mal dava para seis, mas eu lá conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.

Nessas noites de invernia e blackout, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais amolgados de alumínio da sua prateleira habitual e, se necessário, ainda usávamos o gargalo de garrafas para entalar velas extra. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do apagão. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. A cólera dela vinha ao de cima sempre que alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.

Na maior parte das vezes não aconteciam desaires daqueles, todos tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas, se calhavam de acontecer, a noite ficava ainda mais estragada, éramos obrigados a rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.

Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela de combater o mal meteorológico consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma vela benzida. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade com um desfecho dramático, tínhamos sobrevivido a todas. Mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário. Mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as infiltrações do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo lá fora tinha o tamanho de ovos.

Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim isso me parecia supérfluo, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe a toda a hora.

Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora do alcance da luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.

Sou capaz de me lembrar de algumas das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura e odor a fundo de baú, tomado de empréstimo na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e estava sempre a tentar lê-lo, à espera que me mandassem interromper a leitura, porque a comer não se lia.

Depois vinha a tempestade, a luz falhava e eu podia ficar à mesa com o livro. Nessas alturas podia. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância do meu vício estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.

A avó, no topo da mesa, tinha forte miopia e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver se quisesse, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar, e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.

 

Quando ela adoeceu numa daquelas noites sem luz, eu não tinha nada de particular em mente, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, uma surpreendente concordância entre o regime instituído pela avó cá em casa e o que narrava o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Nele aprendi que os anciães pré-históricos tinham um lugar de relevo nos grupos sociais e por isso eram frequentemente velados com tochas ao redor do corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente — ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos ilustres era rodeá-los de múltiplas chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.

Eu achava a avó importante, não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã.

Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade — mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.

Depois de a avó ter adormecido e de todos nos termos finalmente deitado, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que eu via o ancião do meu próprio clã soçobrar daquele modo, a primeira vez que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia febril ao leito perante a aflição generalizada.

A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo se revelasse incipiente e os resultados da iniciativa incertos, tendencialmente catastróficos, fatais.

A avó morreu carbonizada — mas sem testemunhas não havia pecado.

 

 


domingo, 4 de fevereiro de 2024

[Alterações Climatéricas #2]


Despedida de solteira


Estavam ali há dois dias e a mulher não sabia quando ia aquilo terminar. Eram já talvez menos de meia centena, não se conseguia ver toda a gente. Cada um tinha-se agarrado de imediato a uma das árvores jovens da avenida ou a um poste, mas muitos foram os que não o lograram e se perderam. À hora em que tudo começou, não havia muitas pessoas na rua, o que amenizara a tragédia, mas mesmo assim ela imaginava que uns duzentos transeuntes, só naquele quarteirão, tivessem simplesmente sido levados.

O vento surgiu com violência extrema no minuto que precedeu a queda da noite e a iluminação pública já não se acendeu. Quando alguns tentaram vencer o choque e tomar consciência do problema não havia luminosidade para avaliar com clareza as circunstâncias. A maior parte começou de imediato a gritar, em pânico, o que impediu durante um par de horas a comunicação e qualquer tentativa de reagirem colectivamente.

A mulher, como decerto vários dos outros, experimentou por vezes soltar-se, mas no momento em que o fazia via-se obrigada a recuar para a relativa segurança do seu apoio. Tudo acontecia como se alguém ou alguma coisa estivessem atentos aos seus movimentos e a eles se opusessem. O vento parecia acalmar quando estavam bem agarrados, mas levantava-se de novo se alguém fazia menções de arriscar uma corrida para o umbral de uma porta.

Quatro deles tinham experimentado um cordão humano através do passeio, segurando-se mutuamente pelos braços para tentarem atingir a entrada de um prédio, mas a resposta da intempérie foi terrível e dois foram arrastados pelo cimento. Nos minutos seguintes, como que em retaliação, sopraram rajadas tão fortes que todos os que estavam na rua sentiram os pés levantar-se e o corpo projectar-se na perpendicular do respectivo apoio. Era absurdo, mas dir-se-iam bandeirinhas em mastros, a drapejar a meia haste. Salvaram-se os que, apesar do desespero, tiveram o instinto e a força para se cingirem mais e não saírem a voar.

Depois foram devolvidos ao chão e no resto da noite não tiveram mais atrevimentos. Limitaram-se a envolver firmemente a árvore ou o poste que lhes coubera — colocando-se do lado do vento para não terem de confiar apenas na força dos braços — e a esperar que o fenómeno se mantivesse numa intensidade suportável.

De madrugada, com o cansaço, tinham caído de joelhos, sentando-se alguns sobre as pernas, sem deixarem de abraçar o esteio. Ninguém dormiu.

O dia amanheceu cinzento e, desoladamente, ainda ventoso. Para além dos inúmeros detritos que o vento fazia rolar pela rua ou pairar em remoinhos à altura dos rostos, não havia qualquer outro movimento. Não havia trânsito nem acções da protecção civil. A vida urbana e as operações de socorro estavam suspensas à espera que a situação mudasse.

A cidade mostrava-se esventrada, as rajadas mais fortes tinham arrancado elementos das coberturas e das fachadas dos edifícios. Viam-se árvores derrubadas e abundância de galhos no chão. Os contentores de lixo tinham sido tombados e a espaços deslizavam pelo pavimento. Havia automóveis voltados. Fora uma sorte não terem sido atingidos por nenhum objecto nos piores momentos, quando o vento soprara com ira infernal. Era, de toda a maneira, um milagre terem sobrevivido tantos.

Embora a luz do dia desse à situação um aspecto menos desesperado, todos concordavam interiormente que não estavam salvos. O ar uivava ainda de forma assustadora, revolvendo os cabelos e as roupas. A via pública parecia um rio cuja corrente transportava os despojos da tempestade.

Ao final da manhã, houve alguém mais ousado — ou alguém que desesperara. Um homem, dos que ficaram retidos no outro lado da rua, soltou-se do seu poste com um brado vitorioso e saiu a correr para o túnel do metro. Infelizmente, quando parecia prestes a agarrar-se ao gradeamento das escadas — permitindo a todos os outros, que o observavam com atenção, alimentar a esperança —, o vento levantou-se como nas vezes anteriores e de novo a rua ficou por instantes decorada com bandeirinhas humanas.

À tarde, a fome veio juntar-se aos demais incómodos: deram-se conta de que tinham saltado algumas refeições. Felizmente, por entre os habitantes do bairro, que espreitavam pelas janelas com inquietação e impotência, houve o mesmo pensamento. Alguns dos vizinhos apiedaram-se e mostraram coragem. Em diferentes momentos, quatro ou cinco portas abriram-se por breves segundos e, com um grito de alerta, garrafas de água, iogurtes líquidos, fruta e diversas embalagens de comida foram arremessadas como bolas de bowling ao encontro daqueles que tinham sido apanhados pelo temporal. A maior parte da comida perdeu-se, porque a precipitação dos lançadores e a força variável do vento a fazia passar demasiado longe do alcance. Mesmo assim, conseguiam apanhar uma ou outra peça. Por vezes, nenhuma daquelas que tinham sido lançadas pelos moradores dali, mas alguma das que vinham a rolar pela rua, resultado da generosidade de um ou outro quarteirão mais adiante.

As árvores e postes que serviam de esteio eram também aquilo que servia de escudo, sempre que o vento trazia objectos maiores capazes de ameaçar a integridade dos que ali permaneciam. Um contentor do lixo ou uma chapa de cobertura eram instrumentos mortíferos que os obrigavam a passar para o lado oposto do apoio e a perfilar-se o mais possível.

A seguir aos momentos de maior força do vento, que ocorriam sempre que alguém ponderava uma fuga, houve quem amarrasse uma das pernas (ou braço) ao poste com o cinto, para o caso de as suas forças cederem. O que acontecia frequentemente: ao longo das horas, o número dos sobreviventes tinha vindo a diminuir, num conta-gotas macabro.

De vez em quando, um corpo que se desprendia chocava violentamente com outra pessoa, agarrada à protecção seguinte, e o número de vítimas duplicava. Numa ou outra ocorrência, o infeliz que saía a rebolar da sua protecção era resgatado por um dos que se encontravam no seu percurso. Mas não por muito tempo: era mais difícil manterem-se duas pessoas no mesmo apoio e o mais fraco (ou os dois) acabava por se soltar definitivamente.

Nas proximidades da mulher havia dois homens, ninguém que ela conhecesse. Quando falavam uns com os outros, tinham de levantar a voz, para se sobreporem ao vento, que soava como música demasiado alta. Dado que a conversa implicava esforço, tentavam não falar muito e reservar a energia para a tarefa principal (permanecerem agarrados e vivos). No entanto, conversar era também uma forma de manterem alguma serenidade. A partilha amenizava o desespero.

Um dos homens era casado e lamentava nada saber da sua família, de quem contou diversos episódios amorosos e comoventes. Rezava para que tivessem chegado cedo a casa. O outro começara por se preocupar com o carro, um BMW novo em folha que não tivera tempo de meter na garagem, mas depois fora-se cingindo ao essencial, acabando verdadeiramente assustado com a ideia de morrer sem ter tempo de emendar uma ou duas coisas que fizera de muito errado na vida. A mulher queixou-se por nenhum dos vizinhos se ter lembrado de enviar bebidas alcoólicas, o que mais jeito agora lhes daria. Tentava a via do humor, ou de facto necessitava de beber. Por mais de uma vez, também se lamentou por ter ficado sem a bolsa, onde tinha o tabaco, e um dos homens, num momento mais calmo, acabou por lhe lançar um maço, com o isqueiro dentro, declarando ser aquele um bom dia para deixar de fumar.

Por volta da uma da manhã da segunda noite, enquanto tentava sem sucesso acender mais um cigarro protegendo-se do vento, a mulher declarou indiferentemente que iam morrer, provocando no grupo um silêncio grave. Depois, com algum acinte, exortou os seus companheiros de infortúnio a proferirem as suas famous last words, talvez não tivessem já muito mais tempo. Como nenhum abrisse a boca, decidiu sentar-se no chão, aborrecida e cansada, e confiar que a ninguém ocorresse provocar a ira do vento durante o resto da noite.

 

Quando abriu os olhos na manhã seguinte, despertada do torpor pela primeira claridade, descobriu que nenhum dos homens estava no seu lugar. Não havia, aliás, vivalma em toda a rua. Dir-se-ia que ninguém excepto ela sobrevivera ao fenómeno climatérico.

Era um amanhecer sereno, de um silêncio completo, sem a mínima aragem. Um amanhecer absurdo, que a fazia imaginar-se a infeliz sobrevivente de um holocausto nuclear, a última mulher na Terra. A rua deserta e juncada de lixo corroborava aquela sensação. Soltou-se do poste e tentou os primeiros passos cambaleantes. Sentia-se como na ressaca de uma noite de bebedeira. Ao longe viu um movimento e, depois de esfregar os olhos, percebeu que se tratava de um táxi, que avançava pela rua suja abrindo caminho como um blindado num campo de batalha. Instintivamente ergueu o braço.

Nesse momento, notando que usava uma pulseira que dizia «Bride», lembrou-se que era o dia do seu casamento e pareceu-lhe que de novo o vento se levantava impedindo-a de caminhar. Correu para a árvore mais próxima e vomitou, agarrada ao tronco.