sábado, 29 de agosto de 2020
Admirável mundo velho
Se o meu mural de Facebook fosse uma amostra do país, seríamos maioritariamente uma nação de leitores e, apesar de algumas divergências saudáveis para o genoma, uma nação com sensibilidade e bom gosto. Fosse eu um génio na cibernética como sou noutras áreas desconhecidas da humanidade e sabotaria o algoritmo para por um dia, por mera derrisão, partilhar urbi et orbi este admirável mundo velho que tão promissoramente viceja no meu quintal.
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Tosse e epifania na música clássica
As procrastinações de ontem alicerçaram-se em música sinfónica, depois de ver «os principais epidemiologistas da Alemanha» afirmarem que lotações completas em concertos de música clássica são seguras já que o público destes espectáculos é «disciplinado, não fala e geralmente segue as regras». Por mera irrisão, lembrei-me de um conto de Julian Barnes* onde o protagonista, assistindo a um concerto no Royal Festival Hall, concorda totalmente com o sugerido e aduz argumentos importantes:
A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.
Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)
Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.
O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.
Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.
E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)
Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.
-----
* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.
«Como eu disse o público era normal. Oitenta por cento saíra dos hospitais da cidade com alta temporária; a bilheteira dera prioridade às alas de pneumologia e otorrinolaringologia. Reserve agora para arranjar um lugar melhor, se tiver uma tosse de 95 decibéis.»
«O allegro da abertura correu bastante bem: dois ou três espirros, um caso sério de muco compacto a meio do balcão, que quase necessitou de intervenção cirúrgica, um relógio digital e uma quantidade razoável de virar de páginas do programa.»
A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.
Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)
Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.
O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.
Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.
E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)
Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.
-----
* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
O fim da tosse
Ainda a pensar na notícia do post anterior sobre o fim da tosse, ocorreu-me que se Julian Barnes fosse alemão não teria podido escrever, sem risco de inverosimilhança ou de um desmentido pelos principais epidemiologistas do país, a (deliciosa) página 106 do seu A Mesa Limão. Deutsche husten nicht!
(clique para ampliar)
Germany’s leading epidemiologists claim full audiences at classical concerts is safe
Mas só se não tossirem durante os andamentos.Carta de motivação
Ponderando uma candidatura a uma bolsa de criação literária, detenho-me no item «carta de motivação» e concluo que uma sinceridade simples, sem nuances, me excluiria: um ano sem trabalhar. O enredo e a ficção começam, portanto, logo com o primeiro documento da candidatura.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Marcos miliários
(™ A viver acima das possibilidades desde 1968)
Gostaria que a minha vida, pelo menos a da última década, fosse contada em slides da série «™ A viver acima das possibilidades desde 1968». Não tenho na verdade publicado muitas fotos dessas, mas as poucas que publiquei permitem-me preencher os vazios entre elas e (re)construir uma boa narrativa para os meus dias idos. Se me focar suficientemente naqueles momentos em que o espaço/tempo se organizou em volta de livros, paisagem e vinho poderei considerar com propriedade e alívio ter tido uma vida feliz.
O «sítio formoso» desta foto, para roubar uma expressão que o qualificou, só levemente tangeu essa condição de marco miliário araujiano, e não é local onde muito facilmente possa demorar-me horas a ler e a bebericar. Mas tem simultaneamente a estética e a veemência de um deles e não me admirarei se, com a febre que há-de tomar-me, vier a empenhar alguma coisa, seguindo a divisa da casa, para ali virar páginas e copos. Na absoluta impossibilidade disso, posso bem, não seria a primeira vez, penhorar um enredo que me permita igualmente frequentá-lo com regularidade terapêutica, ainda que por pretensa via literária.
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Para uma semiótica do pessimismo antropológico
Há uma subtil mas significativa contradição naqueles pessimistas antropológicos que exigem governantes sem defeito. Alguns protegem-se perante si mesmos da incoerência tornando-se facciosos, especialistas em fabricar semânticas diferentes para governantes de sinal contrário.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.
sábado, 15 de agosto de 2020
Himmler não entra
Um misantropo é capaz de compreender que não se goste de pessoas, porque ao fim e ao cabo ele próprio não as tem em grande estima. Um pessimista antropológico (ou, se quisermos, um realista que consulte as tiragens dos jornais, as audiências das televisões, as listas de livros mais vendidos e a opinião comum nas redes sociais) receia com bons motivos o advento da democracia directa e pergunta-se, como o misantropo, para quando as viagens a Marte.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
Mas um pessimista antropológico apenas advoga formas de governo que não caiam na ilusão de Rousseau, que tenham em conta o egoísmo e a intrínseca ruindade humana. E um misantropo, a não ser que tenha perdido qualquer réstia de empatia, foge da sociedade, não integra einsatzgruppen.
Quem reúna as qualidades acima e um módico de inteligência jamais compreenderá a perversão que é alguém antipatizar com um grupo específico de pessoas; jamais entenderá que se deteste pessoas, não por atacado, mas com base em características étnicas, sexuais ou simpatias políticas.
Para se chegar ao desvio psicológico da aversão selectiva não basta ser misantropo ou pessimista antropológico. É preciso ter enveredado pelos caminhos do preconceito, do sectarismo, da xenofobia e do racismo. Que implicam interacção, e de um tipo ainda mais desprezível.
Como não estou aqui para aliviar consciências, devo dizer àqueles dos meus amigos que se estão a deixar dominar por este páthos, confundidos na década e no século, que façam o favor de fechar a porta à saída. No exclusivo clube dos misantropos e pessimistas antropológicos não aceitamos transtornos de personalidade. Isso é lá no Observador e parece que no PSD.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Nos fundilhos de um negrilho
O fácies severo de Torga foi por estes dias esculpido na raiz sobrante do negrilho que ele amava. A ideia, decerto bem-intencionada como tantas no Inferno, é desajustada, caricatural, kitsch, até cruel, mas cheia de zeitgeist. Nenhuma iniciativa que procurasse laboriosa mas ingenuamente seduzir leitores para a obra do escritor teria maior atenção dos media do que este coelho sacado da cartola. Não há uma alma que vá ler uma linha de Torga à conta disto, mas os quinze minutos (segundos, na verdade, e bem efémeros) de fama televisiva, registados pelas equipas de reportagem com a mesma sagacidade jornalística com que antes se registavam os fenómenos do Entroncamento, já ninguém os rouba. A arte pode desprezar a ideia, mas o espírito da época promulgou-a.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Torga não é um dos meus autores de eleição (operou sobre um mundo que conheço uma mitificação que por mim dispensava), mas tendo a gostar daqueles que mantêm relações empáticas com árvores e teria apreciado, por razões literárias e botânicas, mesmo que póstumas, que quem pensou em fundir o autor com a árvore amada tivesse sabido manter a coisa no domínio da ars poetica, ao invés de enveredar por uma literalidade de moto-serra.
Custa-me, de resto, esta referência pejorativa à ferramenta do escultor, porque, sendo testemunha antiga do seu talento, temo que ele seja a terceira vítima neste caso. Não há-de ser fácil sobreviver num país onde as encomendas de arte pública se limitam geralmente a pedir abóboras gigantes fotogénicas para o imaginário pueril colectivo e a imprensa da especialidade fenomenológica.
Bem-aventurados os pobres de espírito
Quando pensamos que Hollywood toma o seu público por néscio, temos de nos lembrar da sofisticação das legendagens em português:
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
— Did she knew him?
— Probably biblically.
Tradução:
— Ela conheceu-o?
— Provavelmente na horizontal.
A banda sonora das vidas deles
1) Mais irritante do que uma festa de adolescentes a perturbar a noite é a música que se ouve nessa festa. Quer dizer, há toda uma multidão de compositores decentes na actualidade, mas apontem-me uma festa de teenagers com boa música e eu próprio visto alguma roupa nestas noites de ananases e vou até lá.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
2) Antigamente transportar música pelas ruas era uma coisa um pouco tropical: os tugas eram muito nórdicos, há trinta anos, ou demasiado preguiçosos para andarem com um leitor de cassetes às costas. Hoje os telemóveis são leves e espaçosos e a juventude perdeu infelizmente a timidez: é comum cruzarmo-nos com grupos ou casalitos e o lastro indesejado da sua banda sonora. Não é um espectáculo agradável de ouvir, menos pelos decibéis do que pelo que a música nos diz do gosto daquelas vidas.
3) Nos anos oitenta e noventa invejávamos por vezes, mas negávamo-lo sempre, a descontracção (chamávamos-lhe só exibicionismo) com que a primeira geração de portugueses nascidos na França circulava nas ruas de Agosto a ouvir música foleira nos seus auto-rádios. Éramos um país de tribos estético-musicais e se alguma coisa unia as tribos (dos góticos aos betos) não eram os romanos (não foi assim há tanto tempo) mas o desprezo pela banda sonora dos emigrantes. Talvez houvesse um certo chauvinismo nisso, mas não se pode dizer que havia mau gosto.
Entretanto, talvez imbuídas de um sentido de missão ou justiça histórica, as cassetes daqueles auto-rádios parisienses tomaram conta da pátria, transmudadas no hip hop da baixa da banheira e no funk da rocinha que se ouve nos carros e nos smartphones da tribo única em que aparentemente o Portugal sub-20 de hoje se transformou, a julgar pelo que chega à minha varanda.
4) Pior experiência estética do que ver adolescentes passear a sua música pelas ruas é imaginá-los daqui a trinta anos a ouvi-la emocionados, saudosistas, em noites solitárias e nostálgicas. Grossy!
5) Diz-se que todas as épocas tendem a desprezar o gosto da anterior e sobretudo o da seguinte e que isso faz parte de um «conflito de gerações». Mas nós amávamos os hippies e não quisemos mal aos Linkin Park. De resto, não há um conflito quando só uma das partes agride os ouvidos da outra.
(Imaginem a cacofonia se houvesse de facto um conflito, com todas as gerações a dispensarem a civilidade dos phones ou o Youtube em recato e a martelarem furiosamente a céu aberto a banda sonora das suas vidas. O Inferno é a audição ao vivo e simultânea da lista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de todos os tempos. E o último círculo desse Inferno é aquele em que a lista da Rolling Stone inclui, por condescendência, a playlist dos putos meus vizinhos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

