terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A voz grossa do cinismo político

À esquerda e à direita anda vária gente atarefada a explicar-nos como somos hipócritas ou susceptíveis ao julgar tão duramente Trump. Apresenta uma de duas razões (às vezes as duas):
— Obama, o falinhas-mansas, seguia na prática os mesmos princípios de uns EUA imperialistas; porque só nos indignamos agora com Trump?
— Trump pode não ter muito tacto, mas que importa isso se ele reformar o sistema americano, tão corrompido pelas elites e pelo politicamente correcto?
Imaginemos por instantes que a sagacidade destes branqueadores trumpianos não está profundamente arruinada. Sim, aceitemos por momentos que a política externa de Trump se limitará às convencionais linhas da "tradição imperialista americana" ou que ele e a equipa de anjos que nomeou algum dia se interessarão por mudar o sistema em favor dos cidadãos.

Não será o carácter odioso de Trump suficiente para a ele nos opormos com singular veemência? Um carácter que, ao contrário do que esperavam os que acreditavam na sua normalização, ele diariamente enfatiza com palavras, atitudes e, agora, despachos presidenciais, além dos patéticos tweets?

Que haja à direita e à esquerda gente tão propensa a aceitar, implícita ou explicitamente, um presidente assim lembra não apenas como obstinações ideológicas opostas podem convergir na mesma idiotia cúmplice, mas também que a falta de empatia com mulheres, minorias ou o outro, disfarçada com a voz grossa do cinismo político, não é um exclusivo de façanhudos americanos. Neste triste domínio, o farwest é também aqui ao lado.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Dinis

Depois de ter afirmado em editorial que «o jornalismo não vive uma crise» e de ter sido criticado por isso, o actual director do Público comentou uma notícia sobre o sucesso do novo livro de José Rodrigues dos Santos (90 mil exemplares) ironizando: «será caso para dizer que a literatura está em crise»*.
Está tudo dito sobre o novo Público.


* Alguém comentou a ironia de Dinis dizendo que «a Renova também continua a vender bem». Salva-nos o humor.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Território sagrado

Considerando que sou geneticamente (digamos assim, porque o advérbio se ajusta à semântica) alérgico a bairrismos e nacionalismos, desde cedo agradeço aos deuses do panteão terem-me dotado de uma timidez suficiente como alibi para escusa de comportamentos tribais. Estou porém, com a idade, sentimentalista que chegue para percorrer o bairro onde nasci e cresci com o mesmo ar de filho pródigo de regresso ao lar. Peregrino em lugar sagrado, os meus movimentos incorporam-se numa clássica coreografia de veneração. Deambulo com a mesma nostalgia dos exilados saudosos do berço, parando diante dos marcos físicos e territoriais da identidade comunitária com o mesmo ar de quem pondera os sucessos e insucessos do clã, de quem se preocupa com a herança ou os destinos da estirpe. Essas contas não estão no meu rosário, mas quando piso aquele chão noto, como os meus conterrâneos migrados, deserto o bairro que nunca teve porém tantas e tão habitáveis casas. Pessoas migram, pessoas morrem, pessoas adoecem e mudam-se para lares ou domicílios distantes de familiares há muito ausentes. Dir-se-ia que os que vêm construir novas moradias decidem não habitar nelas demasiado tempo, como se o território estivesse assombrado, fosse um velho cemitério indígena. E, considerando a multidão de fantasmas com que me cruzo na ausência de pessoas, é bem provável que em certas noites ou dias de nevoeiro se infiltre pelas frinchas que sempre têm as casas, mesmo as novas, um miasma que só aos habitantes originais não perturbará.
Ao contrário dos meus co-nostálgicos, raramente regresso ao bairro munido de máquina fotográfica, e nunca de uma de filmar. Sei o suficiente dos mecanismos da memória para reconhecer a utilidade do registo em pixéis de edifícios que em breve se sumirão, mas a minha visita procura menos a recolha de dados para ruminação futura, em natais no exílio ou jantares de conterrâneos, do que o êxtase do momento em si. A Internet, esse repositório babélico da humanidade, tem já suficiente espólio para exercícios mediúnicos afastados no espaço e no tempo, mas há ainda na visita física odores, sons, formas e texturas mais eficazes a descarregar e dispor a memorabilia. De resto, é o conjunto dos signos, a combinação dos elementos que permite a verdadeira experiência do regresso. Nenhuma fotografia ou filme permitirá uma imersão tão profunda no território sagrado quanto a dos sentidos excitados por uma brisa que agita ramagem das mesmas árvores e pêlos da mesma epiderme, a nossa, que coexistiram há trinta anos como agora.
Por isso volto e percorro o velho bairro como se degustasse a proustina madalena, mas menos para me candidatar ao Nobel do que para me encher de melancolia. É isso que o regresso me causa. Uma experiência emocional que, na aparência de uma tristeza provocada pela perda, pela saudade, me deixa, na verdade inebriado de indefinido, de mistério, de insondável. Não é o território físico ou o território histórico que me fazem regressar ao bairro, mas aqueloutro território sobretudo impalpável da infância e da adolescência, o território da inocência, da inconsciência, das encruzilhadas, das possibilidades, das emoções matriciais, dos múltiplos e imperscrutáveis eus.
Olhando o céu estrelado de Dezembro, enregelado logo ainda vivo, tirando o mesmo paradoxal prazer do frio e da taciturnidade, penso que as minhas deambulações pelo bairro são uma mistura de Tarkovsky e Melancholia, uma cinematografia interior de ponderação do tempo sob a ameaça do seu fim.
Depois penso que há menos riscos num jogo de sudoku.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Malícia

Descobri há pouco que o slogan da RTP2 é “Culta e Adulta”. Nestes tempos de condescendência, há que apreciar o mote — e sobretudo a provocação e a malícia.
Não é tanto o que o lema diz sobre o segundo canal da televisão pública, mas o que incita a concluir sobre todos os outros.

No final, também a RTP2 há-de ser acusada de contribuir para a vitória de Trump, Le Pen e afins. Porque ignora as angústias do público néscio e infantil.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Mosquito

Descobri hoje que o zumbido que há dois dias me trazia a suspeitar de um curto-circuito em qualquer ligação da parafernália electrónica da sala era, afinal, o insecto que a meio da semana tinha resolvido aborrecer-me marrando contra o ecrã e fazendo-me tangentes às orelhas. Fui encontrá-lo num recanto, rodopiando de pernas para o ar, versão minúscula, capotada e igualmente pertinaz de um nazi atolado na estepe. Ao contrário do que aconteceu no nosso primeiro encontro, em que sem sucesso fiz das mãos raquetes, agora ajudei-o a pôr de novo os seis pés na terra, como, humanamente, teria feito com Gregor Samsa. Daqui a pouco, se entretanto recobrar energias, há-de vir de novo ao encontro da luz e de encontro a mim. Não faz mal. Prefiro a dignidade e o risco de um combate corpo-a-corpo do que a crueldade de deixar sem auxílio um ferido de guerra. Ele certamente ter-me-ia deixado morrer de fome e sede, se calhasse ter sido eu a ficar esperneando de costas depois do match de quarta-feira. É isto que nos separa, ao mosquito e a mim, esta réstia de humanidade que me faz ter pena até de um empedernido votante de Trump ou de um colunista do Correio da Manhã.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Reflexão pós-eleitoral

Se todos lêssemos o Correio da Manhã saberíamos que o mundo é um lugar de feios, porcos e maus e escusávamos de alimentar a ilusão de que pudesse ser diferente. É isto, em suma, o que a direita tem para oferecer como reflexão pós-eleitoral.

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/as-sondagens-os-jornalistas-e-a-6442338

P.S. Não deixa de ser divertido notar que os colunistas do Correio da Manhã passam bastante tempo, não a escrever para os leitores do Correio da Manhã, mas para os que acusam de não lerem o Correio da Manhã. O que é indelicado e tonto. Indelicado para os seus interlocutores naturais (o cidadão comum, leitor do jornal) e tonto porque supostamente o alvo dos seus recados não lê o jornal onde eles os deixam. Não é bem escrever para o boneco, é o reconhecimento involuntário de quem também eles não são como o cidadão comum e as suas crónicas ali são um equívoco ou uma contradição.