quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Gradiva e o Saraiva

Segundo a TSF, Rodolfo Begonha, director-adjunto da Gradiva, afirma a propósito do livro do arquitecto Saraiva «que existem fronteiras à invasão de privacidade mas não cabe à Gradiva defini-las». «Não somos censura», terá dito. Ora, esta afirmação só faz sentido se a editora tiver um contrato com o autor que lhe assegure a publicação dos livros que ele se lembre de escrever. Caso não exista esse contrato, a publicação do livro é de facto também uma escolha da editora, não adianta tentar sacudir a água do capote.
A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Desvio de direita

Se vivêssemos num regime comunista, eu, que até aplaudo o novo imposto da gerigonça, seria irremediavelmente acusado de “desvio de direita”, e não apenas na forma tentada. A somar ao vital impulso que me afasta das multidões e não raro atira comigo para remotas paragens do Portugal profundo — onde, no leito seco de ribeiros ignotos, armo a cadeira de praia verde-fluorescente comprada nos chineses (nisso sou ortodoxo) e abro um livro pouco do agrado das massas — tenho também a desfaçatez de, em alternância, me instalar em esplanadas de velhos hotéis aristocratas (onde não armo a cadeira verde, tanto porque não preciso como porque não tenho coragem) a bebericar copos de vinho 4 ou 5 euros acima das minhas possibilidades. Individualista e ocasional burguês, eis o libelo fácil que contra mim se poderia levantar.

E contudo não é um fetiche de proprietário rural pré-25 de Abril que me leva para o campo (e, com deprimente infrequência, para um qualquer monte alentejano) nem um voyeurismo de leitor da Caras ou Hola! que me senta em esplanadas cinco estrelas. É o silêncio. O relativo silêncio da Natureza ou dos sítios caros. A Natureza, ao contrário do homem, não precisa de banda sonora permanente, ou se precisa tem o bom gosto de preferir o gorjeio afinado e harmónico dos pássaros. Os sítios caros, se antigos, têm o volume baixo e aquela discrição tradicional do dinheiro velho (ou a discrição táctica do dinheiro com consciência pesada), em tudo contrária à algaraviada novo-rica e estroina da classe média.

Estou ideologicamente comprometido com a humanidade, não duvidem, mas não ao ponto de querer partilhar transmissões desportivas ou decibéis musicais. Em qualquer eleição votarei de acordo com o bem comum — mas na hora de escolher o bar serei elitista. Pela mesma razão que prefiro a desolada e exaurida Ribeira de Angueira a qualquer higienizada e fresca piscina municipal: na primeira não posso nadar, mas na segunda não posso ler. Em paz.

Não é só a História que me afasta do comunismo: é a mania que as comunidades, mesmo as não comunistas, têm de fazer de todo o espaço público uma permanente e ruidosa Festa do Avante.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

«Mil livros para aquecer os invernos em Pitões das Júnias»

Li este título do Público e achei pouco. Mil livros ardem rápido. Mesmo numa aldeia de 150 habitantes, dificilmente chegarão para um único Inverno.

Ah, esperem, o título tem um sentido figurado. Já percebi, trata-se de uma iniciativa para a promoção da leitura.

Há uns anos, eu próprio tive o gesto romântico de doar uma biblioteca de 500 livros a uma aldeia. A diferença é que naquela época o Público tinha um suplemento literário ao fim-de-semana e falava com frequência de livros na edição diária. Hoje condescende em ter uma ou outra página sobre livros num magro suplemento cultural dominado sobretudo pela música. (A música é, para as últimas gerações de portugueses, mais ou menos intelectualizadas, o que mais conta como cultura, e nem sequer toda a música.)

É bom que se disponibilizem livros. O que a biblioteca itinerante da Gulbenkian fez pelo desenvolvimento intelectual deste país é impagável. Mas ter livros à mão num ambiente social francamente hostil à leitura pode ser, e infelizmente é demasiadas vezes, pouco mais do que uma inutilidade. Sobretudo quando a hostilidade é velada ou camuflada, não desafia, nem chega a ser hostilidade, mas desprezo, silêncio na melhor das hipóteses, indiferença, geralmente mofa, escárnio, por vezes advertência sincera contra os malefícios da actividade anti-social ou anti-moderna que ler é.

O Público dá esta notícia pelo pitoresco, o quixotesco, não por um real interesse no efeito que mil livros à solta em Pitões das Júnias possam ter. O Público tem suficiente cinismo para saber que nove ou dez metros de estantes caídas do céu pouco valem contra um país cujos media e instituições há muito deixaram de se interessar verdadeiramente pela leitura. Não é impossível que, em Pitões das Júnias ou na Baixa da Banheira, surjam leitores empenhados só porque alguém lhes deixou livros por perto. Essa hipótese basta para que continuemos a simpatizar com iniciativas como a noticiada pelo Público. Mas não ignoraremos que essas pessoas se tornarão leitoras por uma qualquer tendência ou vocação pessoal — e apesar do país em que vivem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Montes ígneos

Da única janela da minha infância que dava para a serra, víamos à noite por vezes incêndios em curso. Ficávamos encavalitados uns nos outros a olhar o clarão ou as chamas com fascínio e medo, ou talvez antes aquele “respeito” que os antigos e a vida rural nos diziam ser o sentimento certo em relação a determinados fenómenos. De dia, ou quando ainda não eram horas de deitar, víamos passar os “homens da brigada” (que hoje se chamariam sapadores florestais) na caixa de carga de camionetas muito rodadas, negros das cinzas como carvoeiros, cabisbaixos como condenados, munidos de varapaus com tiras de pneu na ponta — chuços de uma milícia mal armada contra os demónios das brasas. Eram, para a minha memória, simultaneamente uns bravos e uns rejeitados — não constava que o seu trabalho fosse alvo de cobiça.
Naquele tempo, haver incêndios significava que havia floresta, a proporção da área ardida ainda não excedia a área arborizada. Lamentava-se como uma das fatalidades da vida, simultaneamente nefasta e previsível, incómoda mas inevitável, como a seca no Verão e as inundações no Inverno. Julgo até que se lamentava mais o perigo inerente às chamas — para casas, pessoas e animais — do que a “área ardida”. Esta forma de uma outra “burocracia” como a pequena sociedade local tratava os incêndios fazia-me pensar neles como um fenómeno da Natureza e, inspirado por leituras de sagas pré-históricas, imaginava chamas a serem despertadas por raios de trovoadas que não ouvira ou efeitos ópticos de pedaços de quartzo ou de fundos de garrafas esquecidos nos montes que, inexplicavelmente, as mais das vezes só à noite faziam convergir suficientes fotões para a ignição miraculosa.
Mais tarde, quando comecei a viajar, questionei-me porque não era um braseiro permanente o tórrido Alentejo, coberto em Agosto de uma palhiça que parecia capaz de arder apenas com a fricção de corpos que frequentassem o centeio. Mas o meu imaginário nessas primeiras viagens, embora já impudente, não saíra ainda muito dos livros juvenis: o seco Alentejo não tinha trovoadas, no desértico Alentejo não havia gente para esquecer vidros nos montes.
A minha casa actual tem uma ampla varanda para outra serra, e no que vai de Agosto já vi iniciarem-se à noite mais fogos do que tenho memória que acontecia em igual período na infância. Ainda há pouco começou outro, onde meia hora antes havia apenas o dorso escuro do Alvão, há agora chamas que sobem uma crista.
Talvez seja desta outra amplitude de vistas, que cobre uma área mais vasta, com mais hectares combustivos por metro quadrado de panorama fruível. Talvez a sofreguidão dos velhos atiçadores de Satanás — que noutras alturas eu imaginava serem afugentados pelos “homens da brigada” à força de chibatadas de borracha brandidas à distância de um cabo de sachola, pouco mais — aumente com a perspectiva de se lhes terminar o alimento um destes dias (o gado é mais inquieto e ávido onde o pasto é escasso, só se permite tempo e languidez onde ele abunda). Ou, tendo em conta que o mundo já não é explicado por antigas visões belzebúticas e que o moderno comércio já não tem muito que explorar naquelas encostas, talvez simplesmente o número de tolos pirómanos de aldeia tenha aumentado na mesma proporção em que aumentaram os vários tipos de tolos nas televisões.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Agosto em Aranda

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. 

in Aranda

Agosto

O mês de Agosto de 2016 difere do mês de Agosto de 1986 e do de 1996 em não haver diferenças entre a música aos berros de carros de emigrantes e a música aos berros de carros de residentes. Prova, talvez, de que a União Europeia funcionou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Dirty, dirty Harry

Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção. Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo mal. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Punk is dead

Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer coisa sentida. 
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.

Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.

Quando voltei a vê-lo, ao longe, cumprimentado na esplanada como uma veneranda figura, com uma mistura de solenidade de igreja, fila de autógrafos e trégua de velório (nem todos são alheios ao seu legado político), já havia vários passeios entre nós. A preguiça e uma vocação para sentir piedade e perdoar a quem nos tem ofendido pouparam-nos a ambos às consequências de uma súbita fúria punk. Isso e a canícula, que seca as glândulas salivares.