Havia na minha adolescência uma única estátua, discretamente plantada à direita da escadaria que da Avenida das Nascentes sobe para o Casino, no parque termal. Ali se postava uma figura em bronze vagamente churchilliana, com o seu fato de três peças, chapéu na cabeça, corrente de relógio e charuto. Sabíamos-lhe o nome (estava escrito na legenda), mas ignorávamos quase tudo sobre o homem: J. M. Lopes de Oliveira, capitalista (na acepção antiga), co-proprietário da Companhia das Águas de Pedras Salgadas, responsável por uma das fases de expansão da estância (desígnio alcançado com lucro, ou decerto não haveria homenagem dos seus pares).
Não me lembro que vandalizássemos grave ou duradouramente a estátua, tanto porque nos escasseavam ideologia e motivação como porque éramos produto de uma educação em parte baseada no respeito, devido a praticamente tudo, merecesse-o ou não. Mas o volumoso Oliveira, de proporções generosas só um pouco ampliadas pela escala da estátua, não se livrou de uma ou outra intervenção artística efémera, que consistia em enfiar-lhe entre os dedos ou em quaisquer interstícios do bronze sobras vegetais do exuberante espólio botânico do parque ou restos das noitadas na discoteca do Casino. Nunca ocorreu a ninguém, que me lembre, sobretudo talvez porque felizmente dava demasiado trabalho, ir a casa procurar uma lata de tinta que assegurasse maior longevidade à expressão artística e desse às autoridades de então a oportunidade de se revelarem magnânimas ou sinistras — dependendo do sentido com que afirmassem que o vandalismo se combate com limpeza.
Mas, por outro lado, em instantâneos registados em película ou apenas na lembrança, gerações inteiras de nativos e visitantes posaram encostadas ao fotogénico Oliveira, tantas vezes, temo bem, fazendo figuras que lhe não honravam a memória.
De todo o modo, não sendo Lopes de Oliveira que se saiba uma figura odiosa, é justo que a sua estátua tenha sobrevivido incólume no habitual semi-anonimato, livre de um revanchismo injustificado. Ainda que isso não lhe garanta a eternidade, porque, desenganem-se, os atentados ao património e à memória histórica não resultam sempre do niilismo delinquente ou a da fúria social: ali o vandalismo tem sido sobretudo cometido pelo desinteresse ou pela acção demolidora dos capitalistas que sucederam ao homem de bronze.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Os tiques de Nadal
Se os comentadores de ténis — em momentos de tédio do jogo ou porque a crónica de costumes os estimula mais do que as incumbências do ofício — podem fazer digressões sobre a vida social e privada dos tenistas, talvez um comentador de sofá como eu, ainda que de tarimba recente (passe o oxímoro), possa falar sobre os tiques e idiossincrasias de Nadal.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
Já antes tinha mencionado a tara entretanto resolvida do tenista espanhol por calções compridos, mas também reparei, nisto sem a ajuda dos comentadores, que no court Rafael prefere amiúde camisolas sem mangas — o que o poupa ao esforço permanente de puxar com dois dedos pela costura as mangas para os ombros, como fazem outros tenistas menos inteligentes a gerir as disponibilidades energéticas e como fazemos todos em dias de calor tão insuportável que já nem nos preocupa a imitação de gigolô. Do mesmo modo, decerto por iguais razões de leveza e liberdade de movimentos, Nadal opta sempre, aqui sem concessões, por t-shirts sem golas — ao contrário de Federer, que, com o seu belo corte de cabelo, o seu ar beatífico, as combinações de cores janotas e os seus pólos, não raro parece um beto que por distracção ou exibicionismo invadiu o ringue.
Mas as idiossincrasias de Nadal que mais perturbam — os tiques físicos — propõem sérias análises psicológicas e comoventes preocupações humanas, de resto já desenvolvidas na Internet por sociólogos e psicólogos, críticos da forma como foram geridas a formação e a carreira de Rafa e voluntários latentes para uma operação clandestina de resgate do tenista.
A lista de curiosidades comportamentais de Nadal, que eu notasse, inclui o alinhamento rigoroso das garrafas de água no chão em frente ao banco, a frequente «puxada» ou «ajeitada na cueca» (para utilizar jargão técnico brasileiro) e uma espécie de sinal da cruz de autor mas igualmente mecânico que o tenista faz sempre antes de servir, como carrasco que se benze antes de brandir o machado (a imagem não é desajustada, se lhe conhecermos o cadastro desportivo).
Meros rituais de concentração? Tiques nervosos? Transtorno obsessivo-compulsivo? Síndroma de Tourette? (Não esquecer os vocalises com que Rafa acompanha as pancadas, sons que parecem adicionar aos tiques físicos a condição vocal insuficiente mas necessária para este último diagnóstico.)
Se os tiques de Nadal forem apenas rituais, talvez outros desportistas menos bem sucedidos, que se benzem ao entrar em campo com arabescos convencionais e maçadores, possam inspirar-se neste recordista para desenvolver gesticulação anímica personalizada e original, tornando assim os canais Eurosport em repositórios de silly walks & gestures, numa justa homenagem à equipa que melhor entendeu o desporto e a vida.
Tratando-se, pelo contrário, de sintomas de perturbação mental, bem, não temos de nos preocupar: o rapaz já juntou dinheiro suficiente para a medicação. E é bonito ver que o ténis não discrimina, integra. Mesmo que muitos adversários certamente preferissem que pelo menos neste caso a modalidade mantivesse uma tradição mais segregadora.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
«Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido»
Vi esta citação de Bruno Vieira Amaral e preparei-me para sacar a pistola porque, depois de tanto ler livros e entrevistas de autores, a mim parecem-me é simplesmente estúpidas todas as afirmações prescritivas ou restritivas sobre a artesania da escrita.
Mas depois, caros facebookianos, porque não se deve reagir apenas a títulos, fui ler a frase no seu contexto e percebi que aquilo era o autor a falar sobre si mesmo e não uma daquelas regras «universais» em que muitos escritores são useiros e vezeiros a extrair do próprio umbigo.
------------------
(Entrevista aqui: https://oquedizestu.blog/2020/06/03/bruno-vieira-amaral-comecar-um-livro-pelo-titulo-parece-me-simplesmente-estupido/)
Mas depois, caros facebookianos, porque não se deve reagir apenas a títulos, fui ler a frase no seu contexto e percebi que aquilo era o autor a falar sobre si mesmo e não uma daquelas regras «universais» em que muitos escritores são useiros e vezeiros a extrair do próprio umbigo.
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(Entrevista aqui: https://oquedizestu.blog/2020/06/03/bruno-vieira-amaral-comecar-um-livro-pelo-titulo-parece-me-simplesmente-estupido/)
quinta-feira, 4 de junho de 2020
A morte de um afro-americano
Uma forma sofisticada de racismo, que utiliza o álibi do combate ao «politicamente correcto», afirma que a designação «afro-americano» é segregacionista, porque divide uma população que é toda «americana». Pretende quem tal propõe que, ao auto-designarem-se de afro-americanos, os negros dos Estados Unidos cultivam a sua própria guetização.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.
O argumento é irrefutável: sabemos bem que, se não fosse a obsessão dos negros pela sua origem histórica ninguém na América usaria já designações como «black» e muito menos «nigger» — termos que só persistem, residualmente, como reacção aos excessos identitários (ou à hiper-correcção linguística do «marxismo cultural») e que são absolutamente inócuos, sem peso histórico ou conotação étnica, referindo-se apenas a americanos especialmente morenos.
Ter alguém algum dia proposto uma designação alternativa a «black», evocando assim de forma dispensável divisões e antagonismos há muito esquecidos na população americana, foi justamente o que reavivou certos movimentos racistas que de outra maneira continuariam apenas a ser guildas de bons americanos tementes a deus.
Temos enfim de concluir, assimilando toda esta sabedoria do comentário facebookiano, que George Floyd não morreu de um joelho no pescoço: soçobrou ao peso auto-infligido da sua já desnecessária afro-americanidade e asfixiou-se ao engolir a novilíngua politicamente correcta.
domingo, 31 de maio de 2020
Ténis nostálgico (e perigoso)
As noitadas de ténis no Eurosport são agora dedicadas a finais históricas. Ontem jogavam, como pela primeira vez, Andre Agassi e Jim Courier. Ganharia este último.
Segundo o comentador de serviço, Agassi estava a correr mais na fase final «apesar do equipamento espampanante». («Mas não tão espampanante quanto o ano passado, em tons de rosa.») Deduzi que, se tivesse jogado de rosa, Agassi teria perdido por maior diferença. Ou teria corrido ainda mais, não sei, não sou especialista em ténis.
A imagem quadrada e de fraca qualidade da transmissão e o equipamento «espampanante» de Agassi, somado ao seu penteado, conseguia transportar-nos para a época, ressaca dos anos oitenta, e no final do jogo desiludiu que o canal não tivesse reposto o filme A Lagoa Azul, um dos desportos favoritos dos adolescentes de então, protagonizado pela que viria a ser brevemente mulher de Agassi.
Reparei, já não me lembrava, que o juiz de rede (é assim que se chama?) estava literalmente sentado junto à rede, inclinando-se sobre ela e tocando-a para melhor a sentir nos momentos dos serviços, como o rapaz carinhoso do filme Free Willy, lançado dois anos depois desta final.
Lembrando jogos mais recentes — certas raquetadas de Nadal, por exemplo —, temo que se o lugar do juiz de rede ainda fosse aquela cadeirinha à beira da carreira de tiro alguém tinha de lhe arranjar um capacete e um colete à prova de balas, para não ser vítima de fogo cruzado quando certos serviços ou pontos são defendidos com balázios de fora para dentro do campo, contornando a rede. De início pensei que essa função tinha justamente sido alterada com a primeira baixa — a segurança no desporto, como nas casas roubadas, costuma ser melhorada após os danos colaterais —, mas depois lembrei-me que é apenas mais um caso de máquinas a substituírem a força laboral humana. Se o capitalismo filmasse hoje o Free Willy, Jesse, o rapaz sensível, seria substituído, como o juiz de rede, por um sensor electrónico.
Itálicos
O grande escritor Mário de Carvalho pergunta: «Não haverá por aí alguém que convença o FB de que os itálicos fazem muita falta?»
Se me coubesse responder, diria: dificilmente.
Ao contrário dos blogues, que transpuseram para a Internet uma tradição que, independentemente dos objectivos e conseguimentos individuais, tem raízes literárias, ou pelo menos ilustradas, o Facebook é o sucesso de certa forma inesperado do lado fútil, meramente hormonal, da adolescência. Ter-se entretanto transformado numa eficiente plataforma global de comunicação que, além da original e inesgotável tribo da acne, acolhe uma grande variedade de instituições mais ou menos graves e uma quantidade não negligenciável de intelectuais e escritores não comove o tipo de inteligência pueril definido pela «marca» Zuckerberg.
O Facebook tem orgulho nas suas origens imberbes e patetas e mais depressa acrescentará novos emoticons indistinguíveis, redundantes, deselegantes, semanticamente infantis ou retrógrados do que aceitará o itálico, um recurso ortográfico e linguístico que decerto considera «antiquado», «elitista» e talvez demasiado «adulto» ou subtil — e que não entende nem quer entender.
Do ponto de vista tecnológico, a introdução de uma ferramenta que permitisse formatar palavras em itálico no Facebook seria já há dez anos de uma simplicidade que poria a bocejar qualquer um dos centos de programadores a quem a empresa poderia ordenar o serviço. É portanto evidente que a indisponibilidade de tal recurso resulta da indiferença, de uma indiferença opcional, intencional, programática, caprichosa. É o adolescente apalermado e agora todo-poderoso Zuckerberg a dizer ao mundo que ele dita as regras da comunicação, à imagem e semelhança da sua fatuidade. Como se nunca tivesse saído daquela linha de partida atávica que costuma pôr lado a lado os teenagers em competições balísticas municiadas a partir das glândulas reprodutoras ou da bexiga.
Se me coubesse responder, diria: dificilmente.
Ao contrário dos blogues, que transpuseram para a Internet uma tradição que, independentemente dos objectivos e conseguimentos individuais, tem raízes literárias, ou pelo menos ilustradas, o Facebook é o sucesso de certa forma inesperado do lado fútil, meramente hormonal, da adolescência. Ter-se entretanto transformado numa eficiente plataforma global de comunicação que, além da original e inesgotável tribo da acne, acolhe uma grande variedade de instituições mais ou menos graves e uma quantidade não negligenciável de intelectuais e escritores não comove o tipo de inteligência pueril definido pela «marca» Zuckerberg.
O Facebook tem orgulho nas suas origens imberbes e patetas e mais depressa acrescentará novos emoticons indistinguíveis, redundantes, deselegantes, semanticamente infantis ou retrógrados do que aceitará o itálico, um recurso ortográfico e linguístico que decerto considera «antiquado», «elitista» e talvez demasiado «adulto» ou subtil — e que não entende nem quer entender.
Do ponto de vista tecnológico, a introdução de uma ferramenta que permitisse formatar palavras em itálico no Facebook seria já há dez anos de uma simplicidade que poria a bocejar qualquer um dos centos de programadores a quem a empresa poderia ordenar o serviço. É portanto evidente que a indisponibilidade de tal recurso resulta da indiferença, de uma indiferença opcional, intencional, programática, caprichosa. É o adolescente apalermado e agora todo-poderoso Zuckerberg a dizer ao mundo que ele dita as regras da comunicação, à imagem e semelhança da sua fatuidade. Como se nunca tivesse saído daquela linha de partida atávica que costuma pôr lado a lado os teenagers em competições balísticas municiadas a partir das glândulas reprodutoras ou da bexiga.
sábado, 30 de maio de 2020
O calcanhar de Aquiles de Pacheco
O ódio antigo de Pacheco Pereira à cultura contemporânea, que amalgama de forma voluntariamente ignorante e preconceituosa, é incompreensível e desolador em alguém estimável como ele.
O blogue Ouriq explica por que é infame o artigo que Pacheco escreveu hoje no Público:
Ouriq:
https://ouriquense.blogs.sapo.pt/tiro-aos-artistas-em-tempos-de-crise-924308
Artigo de Pacheco Pereira:
https://www.publico.pt/2020/05/30/opiniao/opiniao/ignorados-invisiveis-1918665
O blogue Ouriq explica por que é infame o artigo que Pacheco escreveu hoje no Público:
«Os ignorantes filistinos e alguns dos muito cultos sofisticados que se dedicam à preservação do património cultural têm um ódio de estimação comum: os artistas contemporâneos. Os primeiros acham que a arte só deve vingar se tiver valor comercial e os segundos imaginam-na como um passatempo de aristocrata ou burguês endinheirado. Há uma regra que me parece muito válida: sempre que pessoas com características opostas estão de acordo relativamente a um tema que não é consensual, detectámos um caso complexo. A crónica de hoje de Pacheco Pereira é infame porque se percebe que o seu principal interesse não é ajudar os feirantes mas atacar os artistas, esses subsídiodependentes. Fazê-lo num momento de crise profunda, que se anuncia prolongada, e quando o ministério da cultura está nas mãos de alguém incapaz e sem peso político, foi uma verdadeira sacanice. Foi também bastante estúpido, porque muitos artistas contemporâneos dão trabalho a pessoas — penso nos roadies dos cantores, por exemplo — que, pela actividade precária, itinerante e sazonal, e ainda o desprestígio social, são tão "ignorados" e tão "invisíveis" como os feirantes que o cronista usa para atacar os artistas. "Mau trabalho", Pacheco, muito mau trabalho.»
Ouriq:
https://ouriquense.blogs.sapo.pt/tiro-aos-artistas-em-tempos-de-crise-924308
Artigo de Pacheco Pereira:
https://www.publico.pt/2020/05/30/opiniao/opiniao/ignorados-invisiveis-1918665
Tempo Contado
Isto também não me vai granjear simpatias, mas que hei-de fazer: visitar o blogue Tempo Contado é há muito um exercício de mera tristeza.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
À luz antiga dos raios catóditos
As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)
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