sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Polígrafo

Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos, corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O melhor da direita liberal ou conservadora contra o Bozo

É reconfortante ver que à direita há quem tenha decência. Este texto de David Dinis diz o óbvio ululante sobre Bolsonaro e em simultâneo lembra-nos como no Observador, e em certas facções da direita dita conservadora, reina o mais puro fanatismo.

https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/

Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.

Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:

https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/conservador-nos-tempos-de-colera?ref=Opini%C3%A3o_outros

Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
«Um espaço político como o da direita das liberdades não pode resignar-se à apresentação de populistas como Bolsonaro ou Orban, lamento. Tem obrigação de saber canalizar as frustrações, as ansiedades, o desespero, para um projeto positivo, integrador, mobilizador.»
O próprio João Miguel Tavares escreveu já dois textos impecáveis, mas depois voltou ao de sempre, com a velha e de momento inútil lengalenga da 'esquerda criadora de monstros' — o que nos põe a pensar se os artigos anteriores não foram apenas para alívio de consciência e registo histórico:

https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282

https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417

https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683


E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:

https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001

Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
Aos Bozos desta vida. E aos seus apoiantes, a maioria ruidosa que finalmente tem oportunidade de saltar das caixas de comentários para a vida e o poder. Heil!


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor

Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o texto offline, fica como as focas no parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.

Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a escrever.

As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns que de facto reflictam o mundo actual.