quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Como experimentar na Terra a gravidade da Lua

Por estes dias descobriram hipotética vida em Vénus* e eu descobri como experimentar na Terra a fraca atracção da gravidade lunar. Aconteceu depois de pousar no lobby do hotel uma mochila de vinte quilos e uma mala de quase trinta que carregava por encomenda entre aeroportos e estações. Alijada a carga junto ao sofá de couro gretado da recepção, os passos finais que me separavam do balcão de check-in dei-os aos pulos, entre soalho e candeeiros de tecto, como Armstrong a tirar selfies na Lua em 1969, com igual involuntariedade e a mesma alegria pioneira.

-----------
* Tirando o primeiro episódio da saga Alien, «hipotética vida» é tudo o que temos obtido da exploração espacial até à data.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Cavalheirismo de última geração

A zaragata juvenil da madrugada tem início quando, no seio de um grupo de pândegos, um tipo começa a bravejar com uma rapariga, insultando-a. Como ela se afasta com duas ou três pessoas mas hesita em ir embora e responde à distância e à letra, o tom dele passa a ser de ameaça e tem lugar então a habitual dança de avanços e recuos, contida por outros elementos do grupo. A certa altura da altercação, talvez querendo mostrar galhardamente que não bate em senhoras mas demasiado irado para deixar passar o caso, o vociferante recorre a uma fórmula indirecta, em que deposita as esperanças simultâneas de se vingar e ser ilibado de falta de cavalheirismo: «Eu fodo-te, pá. Vais levar nesses cornos de duas ou três gajas, podes contar com isso.»

Talvez o amigo que a seguir lhe fez uma placagem tecnicamente perfeita, quando, já livre de peias morais ou cuidados de género, o touro enraivecido resolveu investir a todo o galope contra um dos acompanhantes da sua inimiga — um tipo impávido, silencioso e com ar um pouco efeminado, que ouviu sem se mexer o anúncio «Mas tu vais levar já!» —, talvez esse amigo ágil e moderador lhe tivesse dito  que o cavalheiro, ao optar para a sua vingança diferida por um número plural de instrumentos, vulgo interpostas gajas, não se livraria de uma acusação de cobardia, porque a contenda terminou por ali.

sábado, 29 de agosto de 2020

Admirável mundo velho

Se o meu mural de Facebook fosse uma amostra do país, seríamos maioritariamente uma nação de leitores e, apesar de algumas divergências saudáveis para o genoma, uma nação com sensibilidade e bom gosto. Fosse eu um génio na cibernética como sou noutras áreas desconhecidas da humanidade e sabotaria o algoritmo para por um dia, por mera derrisão, partilhar urbi et orbi este admirável mundo velho que tão promissoramente viceja no meu quintal.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Tosse e epifania na música clássica

As procrastinações de ontem alicerçaram-se em música sinfónica, depois de ver «os principais epidemiologistas da Alemanha» afirmarem que lotações completas em concertos de música clássica são seguras já que o público destes espectáculos é «disciplinado, não fala e geralmente segue as regras». Por mera irrisão, lembrei-me de um conto de Julian Barnes* onde o protagonista, assistindo a um concerto no Royal Festival Hall, concorda totalmente com o sugerido e aduz argumentos importantes:

«Como eu disse o público era normal. Oitenta por cento saíra dos hospitais da cidade com alta temporária; a bilheteira dera prioridade às alas de pneumologia e otorrinolaringologia. Reserve agora para arranjar um lugar melhor, se tiver uma tosse de 95 decibéis.»
«O allegro da abertura correu bastante bem: dois ou três espirros, um caso sério de muco compacto a meio do balcão, que quase necessitou de intervenção cirúrgica, um relógio digital e uma quantidade razoável de virar de páginas do programa.»

A tosse na música clássica é uma piada gasta, mas continua a incomodar gerações sucessivas de músicos (da secção de cordas, particularmente) e melómanos. É que, postos perante a necessidade de silêncio e atenção durante certo tempo, muitos seres humanos são impelidos por uma biologia atávica a limpar as vias respiratórias com recurso a uma «expiração brusca com convulsão ruidosa do peito ou da garganta». Ao contrário do que seria legítimo pensar, não o fazem como libertação e preparação para a música, mas antes sucessivamente, como acompanhamento percussivo não solicitado dos andamentos e com tendência para falhar o tempo.

Mas pior do que um público que tosse é uma sala sem tosse porque sem público. Talvez a pensar nisto, na mesma Londres de Julian Barnes mas no final do século XIX, levaram-se os promenades, concertos em parques com público deambulante, para teatros, onde, num ambiente informal, a audiência podia comer, beber ou fumar. E tossir, supõe-se. Isto porque um empresário achou que haveria gradualmente, a partir do relaxamento popular, de criar um público para a música clássica. (A obsessão pela criação forçosa de públicos é tão antiga como a democracia, o único sistema político que concede à plebe emancipada o direito de rejeitar e desdenhar o que antes eram privilégios invejados de ricos e poderosos.)

Os proms depois de se tornarem populares fizeram-se prestigiantes, ao construírem, via BBC, uma tradição no Royal Albert Hall. Prestigiantes não no sentido de elitistas, mas porque concederam à tentação facilitista a possibilidade de invocar, sem que sempre o perceba totalmente, um precedente nobre.

O défice de público competente (por competente não se entenda um público apto a controlar a tosse — se fosse assim, os programas do Royal Festival Hall mencionados pela personagem de Julian Barnes não precisavam de incluir uma informação, «que raia vagamente a advertência, sobre telemóveis ou o uso de lenço em caso de tosse» —, mas um público capaz de estar relativamente sossegado na cadeira por um razoável período de tempo), o défice de público competente, dizia, ou apetente, inspirou outras formas de tentar criar audiências para a música clássica. Uma delas, muito comum, gerada pela mesma vocação propedêutica e não raro equívoca para descontrair o público, é a de não tocar música clássica, mas sucedâneos. Música de grandes êxitos do cinema, peças de musicais da Broadway, tudo o que possa ser interpretado por vários naipes subaproveitados. Ou, vá lá, umas zarzuelas e umas polkas. Música para animar a audiência, enfim, como pernas síncronas na ginástica aquática.

Por isso, as hipóteses de coincidirem num mesmo espaço orquestras, público e repertório clássico são frequentemente reduzidas pela perversão do próprio desejo de ter público.

E no entanto talvez valesse a pena confiar mais no potencial da música clássica para chegar ao peito dos desafinados. O meu pessimismo antropológico é neste assunto matizado pela memória de uma epifania. Não posso subestimar a capacidade de deslumbramento e enamoramento dos ignorantes, porque isso seria negar a minha própria natureza, a minha própria história. Que é uma história de convergência dos três ingredientes atrás mencionados na província distante dos anos oitenta portugueses. Ali percebi pela primeira vez o impacto que uma orquestra, com todo o seu poder de som, em toda a sua diversidade tímbrica, com toda a complexidade de uma harmonia rigorosamente disciplinada mas leve, fluida, a tocar ao vivo música clássica pode ter no espírito em formação de um adolescente. (Pude também perceber em simultâneo a sedução que fraques e vestidos, se elegantes, podem operar num olhar juvenil.)

Não calhará a todos a felicidade de ter essa experiência inaugural num casino romântico, ainda que decadente, do início do século XX, como este adolescente teve, mas suspeito que a epifania vem mais da descoberta da música, do prazer e das sensações que ela oferece a um espírito de repente aberto, do que do local onde ela se faz ouvir.

-----
* ”Vigilância”, em A Mesa Limão.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O fim da tosse

Ainda a pensar na notícia do post anterior sobre o fim da tosse, ocorreu-me que se Julian Barnes fosse alemão não teria podido escrever, sem risco de inverosimilhança ou de um desmentido pelos principais epidemiologistas do país, a (deliciosa) página 106 do seu A Mesa Limão. Deutsche husten nicht! 

(clique para ampliar)

Germany’s leading epidemiologists claim full audiences at classical concerts is safe

Mas só se não tossirem durante os andamentos.

Carta de motivação

Ponderando uma candidatura a uma bolsa de criação literária, detenho-me no item «carta de motivação» e concluo que uma sinceridade simples, sem nuances, me excluiria: um ano sem trabalhar. O enredo e a ficção começam, portanto, logo com o primeiro documento da candidatura.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Marcos miliários

(™ A viver acima das possibilidades desde 1968)

Já devo ter dito isto (às vezes repito-me), que certos textos, porventura dos mais importantes, são escritos como evocação de uma experiência, que pode ou não ter acontecido. É como a fotografia de um sítio especial que se põe no blogue ou no Facebook, menos para que os outros a vejam do que para que nós próprios a voltemos a ver quando for imperativo (considerando que além de mim haja outras pessoas a fazer isto).
Gostaria que a minha vida, pelo menos a da última década, fosse contada em slides da série «™ A viver acima das possibilidades desde 1968». Não tenho na verdade publicado muitas fotos dessas, mas as poucas que publiquei permitem-me preencher os vazios entre elas e (re)construir uma boa narrativa para os meus dias idos. Se me focar suficientemente naqueles momentos em que o espaço/tempo se organizou em volta de livros, paisagem e vinho poderei considerar com propriedade e alívio ter tido uma vida feliz.
O «sítio formoso» desta foto, para roubar uma expressão que o qualificou, só levemente tangeu essa condição de marco miliário araujiano, e não é local onde muito facilmente possa demorar-me horas a ler e a bebericar. Mas tem simultaneamente a estética e a veemência de um deles e não me admirarei se, com a febre que há-de tomar-me, vier a empenhar alguma coisa, seguindo a divisa da casa, para ali virar páginas e copos. Na absoluta impossibilidade disso, posso bem, não seria a primeira vez, penhorar um enredo que me permita igualmente frequentá-lo com regularidade terapêutica, ainda que por pretensa via literária.
Comprei hoje a LER para constatar, não sem tristeza, que vinha amputada das morigerações siamesas de Francisco José Viegas e Bruno Vieira Amaral. Pensei reclamar mas contive-me e, pelo contrário, talvez até por um estranho sentimento de orfandade, trouxe também Uma Ida ao Motel.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Para uma semiótica do pessimismo antropológico

Há uma subtil mas significativa contradição naqueles pessimistas antropológicos que exigem governantes sem defeito. Alguns protegem-se perante si mesmos da incoerência tornando-se facciosos, especialistas em fabricar semânticas diferentes para governantes de sinal contrário.
Levada a um extremo, ou associada a uma menos subtil mas raramente admitida defesa do privilégio sobre todos os outros assuntos políticos, esta antinomia faz eleger Trumps e Bolsonaros sem dar notícia da intrínseca fractura no racionalismo do mundo. Ou, pelo contrário, considerando-a o corolário mais que perfeito da cosmogonia pessimista. Os seres desta última espécie designam-se como masoquistas ou cínicos, consoante a posição na tabela social.