segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Saído do nevoeiro

O termómetro ameaça com zero graus. A neblina começa por sitiar a cidade barrando os flancos poente e nascente e depois sobe dos rios e encobre as ruas. Ele entra no estabelecimento para fugir do frio nocturno — percebe-se ao cabo de uns segundos —, mas as suas roupas, as suas barbas e o seu cabelo (negros) não estão suficientemente desalinhados para que o classifiquemos sem dúvidas como um sem-abrigo. Ou, como é mais usado por aqui, um «bêbado».
Varre o interior com um olhar que não implora nem acusa e senta-se numa das duas mesas livres à entrada, debaixo do plasma que transmite o jogo da noite. De mãos nos bolsos do casaco, fixa o tampo de fórmica e recolhe-se como um monge que meditasse e aguardasse digna e pacientemente a distribuição do caldo. Por acção da temperatura agradável da sala o seu corpo amolece, inclina-se, a cabeça vai descendo de encontro à mesa. Não como se cabeceasse à lareira: é um movimento lento mas contínuo, sem recuos ou estremeções. Os taxistas e outros habitués do café vão fazendo no intervalo das jogadas apostas sobre se chegará a bater ou não com o nariz na mesa. Não lhes ocorrem outras ideias sobre a personagem que saiu do nevoeiro. Apenas a chalaça indiscreta, sobranceira, pueril. O empregado que passa dá uma palmada na mesa para o acordar e avisar que a mesa faz falta.
De súbito, um cliente avança de uma posição discreta no balcão e com modos suaves pergunta-lhe se quer uma sopa. Ele não reage com indignação ressentida, fermentada a álcool, nem fica humildemente agradecido. Estremunha um pouco e depois informa em voz baixa, neutra, que preferia um prato de batatas fritas. Os taxistas mantêm um olho indeciso no plasma e outro nas barbas do Rasputine. O cliente anui com naturalidade, batatas fritas é uma opção nutricional como outra qualquer.
Daquele momento em diante, o homem saído do nevoeiro é também um cliente, mesmo que a expensas de outrem, e o empregado age em consonância. Abandona os modos paternalistas e censórios, traz-lhe uma toalha de papel, talheres e guardanapo. Parece até afectuoso, talvez contagiado pelo gesto do cliente anónimo, que entretanto retomou sem considerandos o seu lugar na linha que do balcão assiste ao Estoril-Benfica.
Mais alguém se sentiu contagiado ou achou que faltava naquela mesa acompanhamento líquido e uma taça de vinho tinto é servida, sem gracejos nem moralismos. O das barbas come as batatas e bebe o vinho. Não procura colocar o copo a jeito de um encore, ainda que decerto lhe não caísse mal. No fim, limpa-se minuciosamente com o guardanapo e, sem palavras nem emoções aparentes, mendigo de passagem ou incógnito Rei Artur regressado da Cruzadas, volta com dorida fleuma para o nevoeiro de onde saiu.

Estranhamente, cá dentro ninguém fica a discutir a lata do indigente ou a identidade do nobre, e não sei se deva atribuir isso ao nevoeiro se a mais um golo do Benfica.

Les beaux esprits se rencontrent?

Foto: Mikhail Klimentyev, AP

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (5)

Autocarros

Na verdade, não posso censurar a senhora do casaco de peles que protagoniza a entrada anterior deste diário. O meu próprio rabo está longe de apreciar a ideia de se fazer transportar em autocarro. Desde que há vinte anos, durante quinze meses, fui cliente demasiado assíduo das rodoviárias nacionais, ganhei uma profunda aversão a essa forma de viajar, embora lhe reconheça as virtudes ecológicas. Na altura era um assalariado do Exército, e os vinte e cinco contos que recebia não davam para passagens de avião (que também não estavam disponíveis, de qualquer modo).
Quando se é militar, dorme-se em qualquer lado e em qualquer posição, diz a lenda, mas eu era um militar pouco convicto e o meu sono era demasiado leve e cheio de pesadelos. As viagens à sexta e ao domingo eram para mim horas de tortura, incluindo a tortura do sono. Tanto que ficar de serviço ao fim-de-semana significava um alívio que estupidamente não reconhecia. O Exército obrigava-me a fazer muitas coisas, mas não a ir a casa nas folgas. E até me dava de comer se eu decidisse passar o sábado e o domingo no quartel. Mas eu achava que gastar metade do tempo em viagens horríveis e à espera de ligações ferroviárias e rodoviárias que demoravam eternidades me faria esquecer as agruras da vida militar. Não fazia. Fazia-me enjoar e estourar o pré em cerveja (e bifanas, nas raras vezes que sobrava dinheiro para comida).

De maneira que andei duas décadas a fugir de autocarros. (Não ganhei a mesma aversão ao comboio, talvez porque só os autocarros me davam aquele vago mas garantido enjoo, que permanecia horas depois da viagem.) Quando há três ou quatro anos uma viagem para o Vietname implicava ir na Rede de Expressos até Madrid, não fiquei triste por o motorista se ter esquecido de nós numa deserta paragem do Alentejo à meia-noite. Parecia-me até haver uma certa lógica naquilo. Eu não gostava de autocarros; eles retribuíam a animosidade deixando-me apeado. Tendo em consequência viajado de carro, com todas as despesas pagas, incluindo o parque de estacionamento durante quinze dias em Madrid-Barajas, senti-me a enganar a empresa transportadora. Não era só a estupefacção por uma empresa nacional assumir de pronto e voluntariamente um erro e decidir em tempo útil medidas práticas e compensatórias para o cliente apeado; era uma sensação de culpa, como se eu tivesse planeado aquilo tudo para conseguir fazer com que a viagem de carro fosse uma inevitabilidade paga pela Rede de Expressos.

De lá para cá, mérito da troika e do Governo, tenho recorrido ao autocarro mais vezes do que as que desejaria — terminando sempre com o mesmo velho enjoo. Animo-me contando as páginas que leio em cada viagem e que não leria se viajasse de carro. Ou pensando na investigação antropológica e literária que oito ou nove horas em autocarros permitem.
Permitem alguma, reconheço. (Mas não tão confortável quanto viajar o mesmo número de horas ou o dobro num autocarro no Vietname; ali as viaturas de longo curso possuem uma espécie de beliches que nos permitem dormir mais ou menos estendidos, se ultrapassarmos a crise claustrofóbica, e acordar com dores no pescoço ou nas pernas — em vez de embrulhados do estômago.)

Na penúltima viagem que fiz para atravessar a nossa bem-amada pátria, saiu-me um tipo que passou a primeira hora a agradecer aos estudantes universitários que connosco viajavam (e ele não conhecia pessoalmente) o sucesso da sua carreira. Devia-lhes a eles o crescente número de contratos e a recente notoriedade de que desfrutava. Vestia um fato comprado nos chineses, com uma gravata fina de cabedal, e, com os seus trinta anos e figura franzina, usava um bigodinho de actor porno. Era um cantor pimba — os estudantes sabem onde está o talento.
As restantes sete horas, o do fato passou-as a negociar sexo pelo telefone. Não me entendam mal: o engate estava consumado, percebeu-se logo na primeira chamada. O que acontecia era que a rede (dele ou dela) estava fraca e a ligação estava sempre a cair. Também tinha havido um arrufo qualquer e eles tinham de passar por todo o processo de acusações, amuos, chantagens, ameaças, declarações e beijinhos repenicados antes de tratarem do negócio pendente. Como a chamada caía sempre que as coisas pareciam avançar e eles tinham tempo (o cantor não ia a lado nenhum antes de chegar a Bragança e ela também parecia estar com tempo e disposição implicante), de cada vez que o telefone dele repetia um hit foleiro (talvez o último sucesso do dono como toque personalizado) as coisas voltavam ao início. Foi preciso chegarmos a Penacova para que o tipo começasse finalmente a soletrar o que pretendia dela. E o que pretendia era S. E. X. O. Assim mesmo, soletrado. Ésse, é, xis, ó. Cinco vezes soletrado, tantas quanto as que a chamada caiu entre Penacova e Castro D’Aire. Ou nos estava a tomar a todos que o ouvíamos ali no autocarro por parvos incapazes de decifrar o seu acrónimo ou aquilo era já uma forma de sexo tântrico à distância. Deve ter tido o seu orgasmo por alturas de Bigorne porque adormeceu como um anjo e até Vila Real não se olhe ouviu mais um pio. Finalmente. Juro que alguns de nós tinham estado a pensar fazer uma colecta para o mandar às putas numa das paragens.

Hoje a viagem começou com um rapaz de óculos e sete anos, um saco carregado de Angry Birds, um telemóvel com jogos dos mesmos bichos e som de flippers e uma inesgotável tendência para falar. Mal me sento num autocarro, enfio as trombas no jornal ou no livro para evitar pendurar numa orelha o letreiro roubado no hotel: do not disturb. Se não trago um desses comigo, escrevo numa folha A4: «Este passageiro dispensa conversas, obrigado». Por vezes basta-me mostrar a cara que Deus me deu. Com o puto nenhum dos três métodos deu resultado. Devia estar a necessitar de mais dioptrias. A minha sorte foi que a avó, do outro lado da coxia, estava profundamente empenhada no seu papel educacional e respondia por mim às indagações do puto, antes que eu tivesse de lhe mostrar uma outra espécie de angry bird. A nossa conversa resumiu-se assim ao que se segue:

Puto: — Sabes o que eu gostava de ser quando for grande?
Eu: — …
Puto: — Aposto que não sabes.
Eu: — …
Puto: — Vou-te dizer: lambe-botas.
Avó: — Não sejas tolo.
Eu: — Excelente escolha.

O futuro lambe-botas não se coibiu, todavia, de me contar que o Natal não tinha corrido lá assim muito bem no que se referia a presentes. Tinham roubado a carteira ao pai em Espanha, com todos os cartões de crédito, e ele não conseguiu substituí-los em tempo útil. Estive para lhe perguntar, com um sadismo vingativo, se não tinha já idade para deixar de acreditar no Pai Natal e em histórias daquelas, mas depois ocorreu-me que o pai do puto tinha sido sensato ao resistir a contar a verdade sobre o Gaspar. Aos sete anos devemos ser poupados à merda do Homem-do-Saco, mesmo que sejamos uns chatos do caraças.

O resto daquela etapa da viagem foi pacífico, o puto finalmente desistiu de mim e azucrinou apenas a avó.

Puto: — Avó, viste o Star Wars?
Avó: — Não, não vi.
Puto: — Não viste A Guerra nas Estrelas?!...
Avó: — Ah, esse vi.
Puto: — E quem conheces da Guerra na Estrelas?
Avó: — O Mr. Spock.
Puto: — O Mr. Spock?!...
Avó: — Sim, um senhor com as orelhas muito grandes.
Puto: — Estás xexé?!...

***
Avó: — Quando tiveres uma namorada contas-me?
Puto: — Eu tenho uma namorada.
Avó: — Ai sim? E como se chama?
Puto: — Frankenzilla.
Avó: — Estás xexé?!...

Antes de Viseu, noite cerrada, o autocarro para subitamente junto a um café no meio de nenhures. O motorista informa, autoritário: «Dois minutos», e o passageiro começa de imediato a abrir a braguilha na sua correria para o quarto de banho. Regressa a apertar o cinto e com ar de duplo alívio. Tinha conseguido. No prazo.  
A meu lado, o passageiro que bebera uma das três cervejas que trazia no saco, com um gesto contrariado desistiu das restantes. Decerto pensou que se lhe tocasse a ele pedir uma paragem não prevista dois minutos seriam insuficientes.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (4)

São dois casais à mesa do almoço. Vão rilhando azeitonas e listando destinos de viagens. Singapura, China, Rússia, Vietname, Brasil, Dinamarca... Existe um país no mundo? Eles estiveram lá. É uma competição, mas como são amigos e o almoço é o último do ano, os ânimos estão pacificados. Contentam-se em ser montras de si mesmos, da sua vaidade, e quase não há discórdia ou contestação sobre a beleza de um destino ou a qualidade de um hotel defendidas pelo outro casal. Têm outros processos: sim, concedem que a coisa mencionada é excelente; mas, se lhes permitem, não podem deixar de assinalar uma outra excelência a poucos quarteirões dali. Ou na cidade ao lado. E aproveitam para introduzir um novo país.
Na Índia, a mulher do casaco de peles conseguiu cruzar toda a nação sem ter de usar uma casa de banho que não fosse a higienizada de um hotel ou restaurante incluídos no roteiro, tal o planeamento e a eficácia da agência de viagens. Louva tanto a empresa e insiste tanto no feito que ficamos com a ideia de que a agência de viagens lhe teria proporcionado um penico de ouro, se uma necessidade súbita a acometesse entre Varanasi e Jaipur.
Já na Finlândia, aliás um país de novos ricos, as coisas não correram tão bem. A senhora não gosta de viajar de autocarro, fica-lhe a doer horrivelmente o rabo. Por isso tinha-se mostrado um pouco horrorizada com a viagem de horas que a amiga disse ter feito entre Helsínquia e S. Petersburgo. Ela também andou de autocarro na Finlândia, mas num percurso mais pequeno, claro. O que não impediu que as coisas corressem mal. Houve uma avaria e ela e o marido ficaram duas horas inteiras à espera que a reparassem. Não enviaram um autocarro novo, fizeram-nos esperar no local, vejam lá vocês. Definitivamente, a Finlândia foi uma das piores viagens da sua vida. Paisinho cinzento e detestável. 

A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.

Diário de fim-de-ano (3)

Falando em horas extra, o mesmo monge-fantasma poderia já agora descer à Rua Infantaria 15 pelas sete da tarde que teria trabalho a fazer. As badaladas de um sino, quando coincidentes com a hora de fecho seja do que for, têm nos portugueses o mesmo efeito automático da sineta de Pavlov, e os espécimes em estudo nem sempre são aqui cães, ou sequer funcionários públicos. A mesma urgência de partir, a mesma antipatia e a mesma estupidez podem ocorrer em estabelecimentos privados. O visitante pode ser igualmente instado a despachar-se por um proprietário particular, e se quiser pagar as suas compras depois da sétima badalada pode receber como resposta a informação de que o multibanco já está desligado, sem que lhe seja proposta uma forma alternativa de pagamento. “Já fechámos, já passa das sete” (sim, já quase não se ouve o eco da última badalada), e isso justifica a expressão sobranceira, vingativa, vitoriosa da dona da loja de artesanato. Os turistas entreolham-se, desolados, intrigados, e deixam a mercadoria sobre o balcão, partindo convictos de que a senhora terá outras fontes de rendimento. De qualquer modo, como a loja até tem produtos de interesse e paira uma certa frustração no ar, os turistas partem também desejando cruzar-se com o monge que, descendo do Convento a chocalhar os ossos, virá por justiça transformar as noites da lojista num pesadelo.

Diário de fim-de-ano (2)

Já em Tomar conseguimos chegar ao centro histórico e ao Convento de Cristo sem necessidade de tomar grande contacto com a boçalidade urbanística do século XX. Ela existe, acompanha-nos ao longo das estradas, pressentimo-la a sitiar a cidade velha, na outra margem do Nabão, como uma horda de bárbaros às portas da urbe; vemo-la das muralhas do castelo, se por má sorte o nevoeiro levanta um pouco do véu.  Mas por enquanto, neste lado do rio, parece existir uma relativamente sã convivência entre os velhos muros e os modernas aspirações plebeias. Ao contrário de outras cidades portuguesas, o centro histórico de Tomar, tanto quanto se pode concluir numa visita curta, está razoavelmente vivo, tem comércio, serviços, gente.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (1)

Assombrações

Não sei se D. Afonso, Conde de Ourém, era um desses nobres que juraram manter-se devotos dos costumes e das tradições até à morte ou se tinha ambição maior e tencionava depois do decesso permanecer em espirito a assombrar os vindouros, como é apanágio dos seus primos escoceses. Se teve isto na ideia, falhou: não consta nem no Correio da Manhã que Ourém seja uma terra assombrada. Não por antepassados tão distantes, pelo menos.
Ourém, ou antes, a Vila Nova de Ourém é uma terra feia que deve causar lancinantes dores de alma a um espírito vaidoso como o de D. Afonso. Alguém que em vida construiu um paço tão elegante e distinto como aquele que (ainda) se ergue na colina, com vistas bucólicas sobre a Serra de Aire e envolvência, deve certamente sofrer horrores com aquilo que no século XX fizeram com o vale e com a paisagem que podia admirar da sua moradia.
Um tipo até pode achar ridícula essa coisa de morrer e transformar-se numa alma penada que passa o resto da eternidade em camisa de dormir a arrastar correntes pelas assoalhadas do castelo, mas quando em vida se constroem umas torres catitas como as do Paço de Ourém dificilmente se resiste à tradição de infernizar a posteridade, se a posteridade tratou de conspurcar o território que um dia foi o nosso condado.
Não simpatizo com a monarquia, mas simpatizo com nobres suficientemente snobs e rabugentos para se darem ao trabalho de permanecer uns séculos por perto da coutada a zelar por ela — ou a assombrá-la em havendo boas razões para isso.
Vila Nova de Ourém — que ao deixar cair em 1991 o “Vila Nova” na verdade usurpou o nome da medieval e bonita povoação na colina do castelo — é uma daquelas cidades onde de bom grado deixaria à solta o meu amigo Dinamite com umas dúzias de velas do explosivo homónimo. Mas como a actividade bombista é injustamente proibida em Portugal, deveria a junta de turismo da região mandar construir uma variante rodoviária que levasse os visitantes ao castelo e ao paço sem cruzar a cidade no vale. Toda a sinaléctica deveria ignorar a existência da Vila Nova. Os próprios mapas nacionais, se o país se estimasse, não teriam qualquer referência à Vila Nova de Ourém. Da existência de Vila Nova de Ourém saberiam os seus impotentes ou cúmplices habitantes e mais ninguém. O mundo deveria ser poupado a uma terra que prefere hastear a bandeira do município na assustadora sede nova que recentemente construiu em vez da restaurar a antiga e simpática que lhe fica ao lado. Vila Nova de Ourém não merece o património da colina nem o nome que indevidamente usa. Merece que algum herdeiro de bom gosto e honra invoque numa noite de lua cheia o vaidoso Conde D. Afonso e que este desça do castelo ao vale com fúria demolidora, cuspindo napalm pelas ventas.
E quem diz Ourém diz meio país.