terça-feira, 3 de junho de 2014

Janela

A casa onde vivi a infância só tinha uma janela pequena para a rua. Era ali que às vezes nos juntávamos quatro ou cinco dos irmãos, alguns empoleirados numa cadeira, para observar o mundo e as estrelas. No Verão havia o fascínio dos incêndios na serra em frente, e de Inverno o exame minucioso das mesmas encostas à procura de auspícios de neve. Era uma janela paciente, estava disponível se era dia de aborrecer a olhar a cortina de chuva ou se descia a banda numa manhã de Agosto em peditório para a festa. Desenhávamos-lhe nos vidros, à noite, no vapor da respiração ou na geada de Dezembro, caveiras sorridentes cujo efeito dramatizávamos apagando a luz do quarto e deixando que o candeeiro da rua as retroiluminasse e projectasse na parede ou no soalho.
Em certa ocasião, ainda os satélites não tinham rotas que cruzassem o bairro, julgámos detectar movimento numa luz celeste. Já sabíamos distinguir pelo bruxulear estrelas de planetas, mas aquele discretíssimo avançar no firmamento era algo diferente; podia ser, porque não?, um ovni. Mas era um ovni tão lento e circunspecto que apenas sabíamos que se movia aferindo ao longo da noite a distância à linha de cume da serra. Não porque perdêssemos a paciência, mas porque havia outros afazeres, revezávamo-nos na vigilância, e quem regressava ao posto depois de ter ido à cozinha percebia melhor do que os outros o avanço da nave alienígena. Estava claramente mais distante da serra depois de cada ausência.
Hoje é difícil acreditar que coubessem naquela janela tão pequena — além das estações do ano e da fenomenologia meteoro-teratológica, além das grandes tempestades e dos monstros mais assustadores — excitantes visitantes de Vénus com a sua sofisticada tecnologia. Mas cabiam. A revolução coperniciana só tinha roubado movimento ao Sol e a mais nenhum corpo celeste, incluindo os que não identificávamos. Nenhuma lei da física nos impedia de sonhar, e a exiguidade de uma janela não tornava pequena a ambição.
Se agora não conseguimos conceber como se ajustavam e fervilhavam ali tantas cabeças não é porque a janela tenha minguado, é apenas porque as nossas cabeças cresceram na razão inversa da nossa imaginação.

3 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Deve ser uma coisa boa de recordar, as cabecitas dos manos procurando pontos de luz na noite escura.

Um texto muito bonito e que deve ter sido gostoso de escrever.

Ia dar-lhe os parabéns mas recuei. Às tantas ainda achava este comentário completamente pimba.

Um Jeito Manso disse...

Deve ser uma coisa boa de recordar, as cabecitas dos manos procurando pontos de luz na noite escura.

Um texto muito bonito e que deve ter sido gostoso de escrever.

Ia dar-lhe os parabéns mas recuei. Às tantas ainda achava este comentário completamente pimba.

Rui Ângelo Araújo disse...

:)