quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Problemas de (co-)habitação

Quando, há vários anos, K. ficou com a casa só para si, sentiu um peso na consciência: eram cinco quartos a mais, até para alguém como ele, que precisava de espaço. Mas na altura não havia assim tanta gente com dificuldades, e a pátria, que tinha casas de sobra, não parava de as construir, era preciso vendê-las. K. permitiu-se essa comodidade extravagante e os remorsos não foram um problema muito grande, já que casas novas mais pequenas tinham rendas maiores (as pessoas até preferiam comprá-las). Mudar-se significaria quase de certeza gastar mais dinheiro.
Depois a habitação tornou-se um problema. Não a habitação: as rendas, houve uma reforma legislativa, com a qual nem discordava fundamentalmente. Ainda assim, aquilo que K. pagava em três meses passou a custar-lhe a casa num, o que alterava substancialmente as regras do seu jogo. Habitar o palacete, mesmo que decadente, sem atractividade para a anterior classe média, era agora um luxo que não podia pagar.
Antes de se mudar para a rua, K. pôs um anúncio, e durante algum tempo viveu com companhia. Mas não se habituava. A decisão de subarrendar partes da casa, para além de o ter ajudado a suportar a prestação mensal por um curto período, estava de acordo com o seu pensamento político — união de esforços, partilha de sacrifícios, coisas assim. Porém, uma coisa é encontrar virtudes teóricas em certos aspectos do comunismo, outra é viver em comunidade. Por mais que o satisfizesse acolher pessoas que os bancos tinham posto na rua, K. não se acostumava a comungar o quotidiano. De repente era como viver num hostel, desconhecidos a partilharem a louça, a cozinha e a sala de televisão, o autoclismo a soar sem que sejamos nós a puxá-lo, gente que canta no banho ou fala a dormir, tipos que arrotam ou cortam as unhas enquanto vêm as notícias de mais austeridade — o teatro impudico e repugnante da intimidade alheia. Ter reservado para si o direito de ficar na velha suite, com a sua casa de banho privativa e a sua antecâmara, não protegia K. de uma excessiva proximidade às vidas dos outros.
Por isso, até agora K. animava-se a si próprio dizendo com humor que uma das vantagens de dormir na rua era não ter de suportar gente a ressonar no quarto ao lado.

Infelizmente, há males piores, descobriu K. com desalento quando um casal de maltrapilhos particularmente roncante fez a cama de papelão nas imediações da sua. «Esperemos que sem-abrigo sejam gente a quem falte o ânimo da cópula», rogou depois K. a Ninguém, lembrando-se de que na sua curta experiência de vida em comunidade havia coisas mais intrusivas do que pessoas a ressonar.


A vida de K. (6)

1 comentário:

Margarida disse...

:)
... a tentação da escrita é lixada, não é?
Pior! A tentação diabólica da partilha!
Do auditório.
Do olhar do outro.
Lixado, isso...
eu sei.
:)
é muito bom lê-lo.
deixe-se tentar sempre.
;)