sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A fina linha

A China respondeu a certas inferências do meu post de ontem (e de outros em que falei de televisão). Segundo o Público, o «entretenimento de “mau gosto” está a desaparecer velozmente da televisão chinesa». Claro que a China não espera que isso aconteça voluntariamente, por decisão sensata dos directores de canais, intervenção escrupulosa da entidade reguladora, ou exigência criteriosa dos telespectadores. A China é um país autoritário, toma medidas. (Como aliás propunha, não exactamente quanto ao entretenimento, certo grupo de trabalho reunido pelo governo português.)
Mas também é claro que a China toma por entretenimento de mau gosto programas que classifica de «golpes estratégicos para ocidentalizar e dividir o nosso país». E impõe em sua substituição outros que «promovam as virtudes tradicionais e os valores fundamentais socialistas». Se se tivesse ficado pelo banimento dos reality shows, sem considerandos de ordem geopolítica nem sucedâneos proselitistas, os leitores do Canhões corriam o risco de lerem aqui amanhã um hino ao Império do Meio — e debandariam de vez, considerando irreversível a demência do artilheiro.

Qualquer intervenção do Estado nas televisões, nos jornais, nas editoras, nos teatros ou nos cinemas está sempre a um passo curto de ser um erro. A linha que separa o intervencionismo do paternalismo, do proselitismo ou da pura manipulação é fina, muito fina. A informação, a cultura, as ideias, a arte devem ser deixadas em paz, se o objectivo é ter uma sociedade democrática, livre, emancipada, plural, intelectualmente desenvolvida. No entanto, a realidade faz-nos suspeitar que deixar as instituições trabalhar livremente não garante todas as boas conquistas do mundo ocidental, não garante a sua perduração. Suponho que não precisamos de ser todos pessimistas para concluirmos que há um afunilamento do espaço público, uma tendência para a uniformização, uma simplificação que amputa, reduz a diversidade, elimina a exigência e o escrúpulo. Se tomarmos o exemplo das televisões, somos forçados a concluir que a liberdade de acção não assegura a qualidade do serviço, mesmo que falemos apenas de entretenimento. Teríamos de aplicar critérios muito estreitos e pouco exigentes, deixando de fora imensas manifestações da inteligência e do espírito humanos e da sua variedade se quiséssemos considerar que sim, que as grelhas actuais reflectem uma sociedade interessante. E é preciso ter em conta que, apesar da Internet e do cabo, o espaço público continua a ser em grande parte formatado pelos canais de televisão em sinal aberto, com todas as consequências que isso tem no próprio desempenho social e económico do país.

Terá, então, o Estado de intervir, a exemplo da China, erradicando programas de mau gosto e decretando grelhas correctas, seja qual for o critério? Não creio. A linha é fina, mas não deve ser cruzada. Diria que ao Estado compete talvez assegurar que a complexidade do jogo social não se reduz, que não se eliminam variáveis nem jogadores, que o espaço público é mesmo público e diverso, ou seja, passível de ser frequentado e influenciado por todos. Ao Estado compete assegurar que não se constroem guetos à margem da manada hegemónica. Que não se cria um canal 2 para alívio de consciências e álibi do fartar vilanagem nos restantes três canais, que há no gueto critérios de elevação do intelecto e dignidade do espírito que não se aplicam ao resto. Como se faz isto? Não perguntem a Hu Jintao.

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