quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bronzeadores em África

Há muitos anos, uma trovoada providencial queimou a televisão lá de casa e desde então a caixa mágica só me enfeitiça em ocasional restaurante ou café, se não levar comigo um jornal ou companhia. Hoje, por qualquer distúrbio na ordem universal ou distracção do estalajadeiro, a coisa sintonizou-se por momentos na RTP2. Não me dei logo conta de que era a RTP2, mas a publicidade, os programas anunciados e o documentário que entretanto se iniciou pareciam assunto de outro planeta, não de um onde reina essa pouco inventiva invenção do demo que dá pelo nome de televisão generalista. Imaginei um canal do cabo, mas teria de ser um pouco esquizofrénico, dada a diversidade das propostas. (Imagino os canais de cabo temáticos, mas posso estar enganado.)
Depois passou uma publicidade institucional e percebi que era de facto a 2 (ok, também houve um separador que a anunciou). Estava numa mesa distante e não a vi em pormenor, mas a publicidade era sobre civismo, comportamentos censuráveis em diferentes circunstâncias, toques de telemóveis inoportunos, deselegantes, coisas assim. Ignoro se passa também no canal 1, mas desconfio que não. Seria contra a lógica nacional. O civismo implica sensibilidade, respeito, aceitação do outro e da diferença. É matéria de minorias, portanto, conclui a lógica nacional. Logo, passa na 2. Se fosse algo relacionado com estupidez de massas, sim, teria direito ao canal principal e a horário nobre. Se promovesse o uso polifónico do telemóvel no cinema, no teatro e na sala de aulas, sim, passaria frequentemente na RTP1. Mas como fala de valores, como tem uma mensagem que, se decifrada, pode ofender o povo do prime time (pelo retrato implícito), o melhor é passar na 2, onde a entendem e aprovam. Nem que isso equivalha a vender bronzeadores em África. A lógica nacional é assim, redundante e pusilânime. Capaz de conceber uma campanha de promoção do civismo, mas receosa de a passar no canal onde ela faria falta. (Ainda a acusariam de querer educar o povo.)

Talvez eu esteja enganado e a campanha passe nos dois canais. A lógica nacional por vezes distrai-se. 

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