terça-feira, 30 de abril de 2013
Cortinas de fumo
No que toca a direita fanática, o blogue Blasfémias, de José Manuel Fernandes, Helena Matos, Carlos Abreu Amorim e eminências afins, é outra louça. Ali, mesmo que não haja cortinas de fumo, assobia-se frequentemente para o lado. No caso Relvas, já não havia vigarista em Portugal que não se escandalizasse com o ex-ministro quando no blogue se começou, timidamente, a achar indigna a presença do homem no Governo. Agora tenho espreitado, mas ainda não vi uma pálida reacção ao affaire Rogoff. Vi, como de costume, muitas anedotas sobre o PS (e achei bem), mas isso talvez sejam afinal cortinas de fumo.
Tavares, Reinhart e Rogoff
Não voltei a ler artigos de João Miguel Tavares, essa irritante representação do neoliberalismo tuga e da direita economicamente fanática, mas tenho curiosidade. Tenho curiosidade porque entretanto Kenneth Rogoff, o ás da economia que os neoliberais elegeram como papa (ou branca cortina de fumo, não sei bem), veio dizer num artigo no The New York Times que, afinal, defende desde há muito o perdão parcial das dívidas de países da periferia. Também disse que ele e Carmen Reinhart (que co-assina o artigo) sempre aconselharam que se evitasse a retirada demasiado rápida dos estímulos orçamentais à economia. Disse isto e mais umas coisas que deitam por terra a cientificidade de Gaspar, Tavares e C.ª e provavelmente merecerão de João Miguel insultos que ele em geral reserva à esquerda.
É claro que o diz-que-sempre-disse de Rogoff é a sua tentativa de se demitir de pai de uma austeridade cega que entretanto falhou. E é um diz-que-sempre-disse carente de comprovação cronológica. Mas, ainda que estas sejam na realidade afirmações pós-fracasso, prognósticos de fim de jogo, não deixam de ser uma posição interessante que nos põe expectantes quanto à reacção de discípulos beatos como João Miguel Tavares. Será que o cronista do Público vai descobrir um tijolo ainda maior do que This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly para nos arremessar? Ou é desta que desiste do bullying e modera a ferocidade de zelota do templo?
P.S. Sobre este assunto, leia-se este texto de um blogue da New Yorker.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
3. (Ainda o João Miguel Tavares)
Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).
2. Prestidigitadores
O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da
austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de
autoridade.
No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela
impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a
Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas
gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo
artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito
nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o
verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a
economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica
geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como
primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do
prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011),
mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a
economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que
perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart &
Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita
ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas
deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da
esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo
sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais
achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.
1. O argumento do tijolo
João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No
seu artigo desta terça-feira no Público
pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um
erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff,
frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou
Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o
jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas
não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth
in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas
de This Time Is Different — Eight
Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela
avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».
Ora, isto parece mais bullying
do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas
palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres
sobre o adversário para o calar.
A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro
de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez
de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões
alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação
fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.
João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade
do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Agora a cultura será efervescente
«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma
de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao
sonho de uma menina.
Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser
apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a
estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem
imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.
A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos
os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é
aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos
de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A
apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise»,
mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos
que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível,
directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não
acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».
Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no
fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece
um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora
que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa
que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto
púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?
P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a
cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa»
implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo
segundo os padrões de um público “efervescente”.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Ghostwriting
Depois de muitos anos a escrever para a gaveta a horas mortas, como o
fantasma do bloco de apartamentos onde vivia, decidiu que chegara a altura de
começar a ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Publicou um anúncio no
jornal. Dizia: «Escritor inédito procura assinatura mediática para livro. Sigilo
garantido.»
Na acepção de ghostwriting que
a sua aversão a escrever os livros dos outros assim inaugurava, não eram as celebridades
que procuravam competentes escritores-fantasma, mas escritores espectrais que
procuravam nomes corpóreos aos olhos de editores e público. Os mercenários da
escrita eram substituídos por mercenários da Parker ou da Montblanc dispostos
a vender o seu autógrafo. Havia nisto um claro benefício para os leitores, afirmou
desassombradamente alguma (rara) crítica.
Subscrever:
Comentários (Atom)