Ao meu monte de Verão vem cada domingo um soldado da GNR auxiliar as
pessoas que tenham hora marcada. Não, não se trata de substituir o cassetete
pela senha numerada, trocar a ronda pela banqueta de tabelião. O que se passa é
que o militar complementa o pré exercendo de bruxo ao fim-de-semana. E a mim
dá-me pena ver todas aquelas pessoas a aguardar vez. Dá-me pena porque, tirando
o meu alpendre, não há muitas sombras por aqui. Elas têm de esperar nos carros,
encolhendo-os sob os ramos de escassas oliveiras, enquanto lá dentro, no
gabinete do místico, é lida a sorte do cidadão que as antecede. Imagino o
nervosismo, a dúvida, a angústia, a raiva daqueles que, chegando em últimos, esperam
na estrada ganhar vez na próxima oliveira livre. Depois disso tudo é fácil: não
importa o futuro se se tem a oportunidade de o aguardar à sombra.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Diário de férias (7)
Aprecio o gregarismo dos outros — na medida em que isso liberta espaço
na praia. Na Praia Grande, as pessoas tendem a amontoar-se nas zonas dos dois
acessos principais, a largas centenas de metros um do outro, libertando uma
grande faixa intermédia para os de nós que não se importam de andar um pouco ou
pretendem ficar nus. É bonito ver a humanidade assim dividida: as massas a disputar
um lugar ao sol no seu reduzido pedaço de areia e a gente que caminha e/ou se
despe a partilhar harmoniosa e folgadamente uma grande quantidade de
território.
Visto do mar, de onde as pessoas nos parecem insectos, dir-se-ia que
alguém despejou nos extremos da Praia Grande uma boa quantidade de qualquer
coisa, qualquer coisa que só a entomologia, um estudo apurado da natureza dos
insectos poderá determinar.
***
***
Quando era novo costumava passar o dia ao sol e em consequência era o “preto”
da família. Agora corro poucos riscos de ter um grande bronze. Não me entendam
mal: sei um pouco de estar de papo para o ar sem fazer nada (J), mas na praia isso não
é possível, a não ser que não nos importemos com escaldões e melanomas. Quando
nos importamos, se não passarmos o tempo a ajustar o guarda-sol (ou a ajustar
nossa carcaça em função dele), estaremos certamente ocupados (e besuntados) a
repor a camada de protector solar. Ora, isso não é a minha ideia de não fazer
nada.
É por esta e outras razões que hoje sou um homem das sombras.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
À sombra de uma azinheira
Férias devia ser o estado natural do Homem. Nenhuma sociedade, nenhum
partido que não tenha este objectivo último merece o meu respeito. O trabalho é
uma digna forma de se chegar às férias, mas apenas isso. A sra. Merkel e os
calvinistas do PSD/CDS devem ser instrumentais e depois expulsos. Concordemos
com eles, mas só transitoriamente. O grande desígnio nacional deve ser tornarmo-nos
brasileiros. No mínimo, mudarmo-nos para o Brasil no Inverno. De resto, a
filosofia ocorre em duas circunstâncias: clima grego ou clima teutónico. Alentejo
para os sábios, Alemanha para os neuróticos e intrincados sucedâneos. Sejamos
genuínos.
Diário de férias (6)
Numa ocasião, pedi que cancelassem o meu pedido e abandonei de seguida um
restaurante onde alguém mudou a televisão de canal sem consultar os comensais.
Foi um gesto de indignação e protesto genericamente legítimo, mas no meu caso
de certo modo exagerado, de uma grandiloquência desnecessária. Eu era cliente
diário da casa e, ainda que naquela noite estivesse de olhos na TV, quase
sempre lia um jornal ou um livro enquanto comia. Quero dizer, ninguém estava à
espera que de entre os clientes fosse eu
a importar-me com o canal que o estabelecimento sintonizava.
Tinham passado de um programa informativo para um jogo de futebol — e naquela
época eu era suficientemente cândido e voluntarioso para me tentar opor ao
fascismo da bola, à ditadura das massas simpatizantes.
Entretanto soçobrei ao pessimismo, ao cinismo, procuro não ser
proselitista. O que não facilita a vida, diga-se. Tentarmos ser livres
passivamente poupa-nos a discussões inúteis, ao embaraço e à maçada de sermos
sempre reivindicativos e queixosos, audivelmente, iradamente — mas reduz-nos as
opções. Por vezes, deixa-nos mesmo sem opções na hora de sair, dado o carácter
eminentemente ademocrático, ferozmente contra soluções alternativas, da
sociedade de massas. Observemos os carneiros ali no campo: para onde vai um vão
todos. So much for human superiority.
Contudo, há ainda em mim uma nostalgia bombista. Não que alguma vez o tivesse
sido. Infelizmente nunca tive essa coragem e essa eloquência. É uma nostalgia
do tempo em que aspirava a uma grande carreira na arte da, digamos,
argumentação.
Sexta-feira demo-nos ao trabalho de fazer uns quilómetros para jantar em
nenhures, fiados em sugestão de gente amiga. Boa comida em conta. Lá chegados, desilusão:
numa província onde a boa arquitectura tradicional sobrevive e em muitos casos
domina, sai-nos uma vivenda de dois pisos que tanto ficaria mal em Trás-os-Montes como no Minho. No
Alentejo fica péssima. Desilusão: o famoso prato (nada de transcendental) tem
de se encomendar com antecedência. Desilusão: já nem sequer há batatas
gratinadas. Comemos uma enorme costeleta (não fosse a Senhora da Graça de Padrões junto a
terra de mineiros) e estava bastante boa — mas também perto do meu alpendre de
Verão há onde se comam boas costeletas.
A nostalgia bombista acometeu-me no momento em que de repente a sintonia
da televisão (sim, O Pereira é um desses estabelecimentos que têm televisão)
foi mudada para, adivinharam, um jogo de futebol. Na sala de jantar estávamos
nós e uma família interessada na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. No
bar, com o comando na mão apontado a outro ecrã, estava o dono da casa.
Mudar para um jogo de futebol é o que se espera de um bom português e o
acto, a atenção, o sentido de oportunidade, tudo isso é aplaudido em coro pela
pátria — munida de bandeirinhas chinesas e essa vuvuzela a que chamam garganta. Ao sr. Pereira
jamais teria corrido estar a ser indelicado, deselegante, desrespeitador da sua
clientela. Consigo mesmo imaginá-lo enfastiado, ou talvez até pressuroso, a
procurar um jogo de futebol, não para ele, mas para nos servir de extra, como quem cumpre um dever
ou vai mais além e mostra generosidade.
Tanta generosidade aqueceu-me o espírito, como o Vesúvio antes de cuspir
sobre Pompeia. No entanto, em vez de fazer um favor à arquitectura e simultaneamente
vingar todos os que gostam de batatas gratinadas — implodindo O Pereira —, saí ordeiramente, portuguesmente,
pagando a conta. O protesto, clamoroso, ficou apenas na recusa de deixar
gorjeta — penalizando a única pessoa que esboçou desagrado perante a bruteza de macho luso do patrão, a empregada.
Rememorando agora o jantar na sombra do meu alpendre, quando o momento
me parece tão distante quanto em geral me parece a humanidade, a minha complacência
foi por instantes substituída pelo remorso. Ah, que saudades de ter sido cândido,
voluntarioso — e bombista.
sábado, 28 de julho de 2012
Diário de férias (5)
Nem mesmo na paisagem topograficamente benévola do Alentejo as ondas
rádio logram chegar a todo o lado. Com os quilómetros na estrada perde-se por
vezes a sintonia da estação que se está a ouvir em prol de um veículo de regionalismo.
Sabemos que estamos a ouvir uma rádio local pela música pitoresca ou foleira, pelo
sotaque não lisboeta mas mimético dos
apresentadores ou pela publicidade, também ela uma irritante imitação de
irritantes fórmulas. Geralmente processamos esta informação em dois segundos e,
se não nos toma um impulso antropológico, os dedos mexem-se rápido na busca de
uma sintonia mais favorável. Nunca garantida, mesmo que captemos claras e
intensas todas as frequências da urbe.
Há um vago sentimento de invasão de privacidade quando na rádio local
ouvimos certos programas de conversas com os ouvintes. A familiaridade entre
locutor e audiência e a particularidade dos assuntos deixam-nos à porta, ligeiramente
ruborizados ou soltando gargalhadinhas, travessas ou complacentes.
Na noite de quinta-feira falava o Dr. X — voz suave, tímida, de
seminário ou sacristia, com nuances pedagógicas de psicólogo hertziano em turno
de noite —, não contraditoriamente rodeado de risadas femininas. Estas eram simultaneamente
domésticas e provocadoras, hesitando entre o à-vontade da sala de estar e a
cumplicidade do recreio ou a excitação transgressora do território novo. O
telefonema era de uma senhora, provavelmente amiga ou conhecida das que estavam
no estúdio. Antes de desligar, passou ao marido, que tinha uma pergunta a
fazer. Ouviu-se o chamamento e o marido veio de lá de dentro, a voz jovial em
crescendo enquanto passava do corredor para a sala ou para a cozinha. Ele
queria saber se o auditório já tinha a resposta para a adivinha da semana.
Percebeu-se que o fazia semanalmente, telefonar a propor uma adivinha — um
colaborador voluntarista, certamente não assalariado, dos media locais. A pergunta tinha sido para todo o auditório («Qual é
a primeira coisa que um homem faz ao levantar-se de manhã?»), mas as senhoras
em estúdio — talvez de um grémio cantante, etnográfico — tomaram conta dela. E
durante o resto do programa, dez, quinze minutos, o locutor, um Júlio Machado
Vaz ou Carlos Amaral Dias da planície branca, viu-se afastado do microfone. Lamentavelmente,
já que as tentativas de resposta das senhoras — o burburinho, os apartes, a
perda de pudor, o refustedo — eram claramente matéria excitante para um
qualquer discípulo de Freud.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Diário de férias (4)
O dia correu sob o signo da calvície. De manhã, em A Informação*, o puto perguntou: «Papá?
Tu és calvinista? Foste sempre calvinista? Como é que ficaste calvinista?» O
pai tentava trabalhar: «Tu queres dizer calvo,
Marco. Vai brincar para o meio do trânsito.»
O meu velho de Verão, talvez reagindo a um estímulo semelhante ao de Marco
perante um tipo enfronhado num livro, deu uns bons-dias traquinas do seu lado
do muro, mostrando pela primeira vez uma careca suada e alvacenta onde pousou
depois uma boina em padrão de xadrez. Como o troco não foi famoso pela
generosidade, ele saiu a resmungar para outro lado, creio que em busca da sua pobre
Maria da Conceição.
O passeio da tarde tinha vaga esperança em abetardas ou grous. Não se flana
no Alentejo como no Chiado se se alimenta uma mínima paixão de ornitologista.
Vai-se atento às bermas e às ondulações da paisagem, às linhas de electricidade
e aos postes telefónicos. Pára-se sempre que uma sombra não parece
suficientemente estática. E por vezes acontece. À margem do caminho lá estava
uma silhueta que tanto podia ser um calhau de costas para o sol como uma sorte
maior. Para minha alegria, os calhaus não costumam dar pequenos sacões com o
pescoço, e as galinhas, que os dão, costumam ser bem mais pequenas e estar mais
próximas das povoações.
Não era ainda uma abetarda (lá virá o dia), mas era um belo, gordo, raro
— e careca — abutre-negro. Mirámo-nos
durante um bocado na planície amarelecida e seca, como pistoleiros num duelo ao
pôr-do-sol. Ele teria aliás esse ânimo (legitimamente, depois de importunado
por um curioso de calção e boné). Eu, se ele me deixasse chegar suficientemente
perto, abraçá-lo-ia.
Mas, antes que lhe pudesse afagar a careca, o rapaz levantou voo,
pesadamente — e com ele todo um bando de calvinistas que se acoitava atrás do
morro.
* Martin Amis, Quetzal.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Diário de férias (3)
Dos meus dois velhos de Verão, é o homem quem mais resmunga e coage e
insulta, o que nas relações humanas não é propriamente uma novidade. Mas, outro
lugar-comum, creio que também é ele que mais precisa da relação. Sem a mulher, estaria
perdido, teria talvez uma não-existência decorativa em bares e tabernas. A companheira
que aparentemente o agasta é na verdade o elemento que lhe permite viver a
fantasia que vive. A sua ausência tornaria ainda mais injustificadas e ridículas
as suas fúrias e remoques, esvaziá-las-ia ainda mais de sentido e proporção. De
que outro modo poderia ele justificar para si próprio as suas tiradas
pedagógicas, a pretensa sabedoria de vida, a suposta autoridade quanto às
minudências do quotidiano? Como poderia ele indignar-se senão consigo próprio e
com a sua necessidade de afirmação? Quem mais perderia um minuto a ouvi-lo e a
ouvir as suas bravatas, a virulenta manifestação dos seus complexos
freudianos, sem virar costas girando um metafórico indicador na testa ou,
digamos, sem responder com um sopapo nos olhos?
A senhora senta as suas carnes pelo quintal olhando com majestosa
indiferença o correr dos dias e a errática azáfama do cônjuge. Ela parece
integrada na paisagem de corpo e espírito, possuída de ciência e paciência
antigas, como uma esfinge auto-justificada. Ele sai de casa tomado de irritação
e regressa com novo ânimo implicante. Pelo meio talvez tenha tratado das
ovelhas, regado alguma horta, sido útil e feliz, mas sem o saber. Ou sem o
reconhecer. Ela recebe-o como a um cachorro particularmente histérico, com as
mesmas respostas e insultos formatados aos seus latidos maçadores. Far-lhe-á o
jantar — não se deixa morrer à fome a mascote, mesmo que ela seja francamente o
oposto de um cão de companhia.
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